A rua do terror

Noite alta. Não havia viv’alma naquela rua mal iluminada, deserta. Júlio vagava, devaneava. Ao dar-se conta de onde estava, ficou apavorado. Seu coração bateu descompassado. Ouvia as palpitações, tão intensas, que ele acreditava que o coração romper-lhe-ia o tórax. Olhou em redor. Que rua era aquela, perguntou-se. Obnubilou-se-lhe a consciência. Como ele foi parar naquela rua? Lembrava-se de que caminhava, tranquilamente, por uma avenida atulhada de gente, vibrante de vida, e agora via-se naquela rua lúgubre, apavorante.

Sem se dar conta, enveredara por aquela rua, que lhe inspirou o mais terrível pavor. Uma rua que, devido ao seu aspecto sinistro, excitou-lhe os instintos que a natureza conservou ao longo de milhares de anos de evolução. Humano numa sociedade científica, conservava, latente, os instintos dos seus antepassados nômades.

Que rua era aquela? Nos postes, as lâmpadas bruxuleavam. Cones de luz fraca mal iluminavam os pés dos postes. Além dessa luz, as trevas reinavam absolutas. O silêncio, ensurdecedor. Era impossível – pensou Júlio – a existência, numa metrópole de vinte milhões de habitantes, de uma rua tão extensa e tão larga deserta àquela hora da noite. De repente, ventos frios fenderam o ar; iguais lâminas, cortaram-lhe a pele; e assobios tenebrosos chegaram-lhe aos ouvidos. Júlio pensou ouvir vozes cavernosas. Assustado, procurou pela direção da qual chegaram-lhe os ventos e os assobios. Ouviu ruídos indistintos. Aceleraram-se-lhe as palpitações do coração. Seus nervos estavam à flor da pele.

Surpreendendo-o, chegou-lhe, pelas costas, um barulho, que lhe feriu os tímpanos. Seus instintos o alertaram para o perigo que se lhe avizinhava, mas não o definiram, não lhe informaram a origem. O mistério que envolvia fenômenos tão estranhos assustou-o sobremaneira. Júlio não sabia o que pensar; não sabia como agir. Petrificou-se. Que rumo tomaria? Olhou para um lado. Não viu, no horizonte, o final da rua. Olhou para o outro lado. Qual a extensão da rua? Dois quilômetros? Dez quilômetros? Não logrou mensurar-lhe a extensão. Não viu nenhuma interseção daquela rua com outras ruas. A rua era demasiadamente extensa; não tinham fim as quadras que a circunscreviam.

Como, pensava Júlio, chegara àquela rua? De qual direção chegara? E agora, o que faria? Ficaria, lá, parado, a olhar de um lado para o outro? Ladeavam a rua extensos muros de sete metros de altura. E os prédios, e as lanchonetes, e os bares, e as agências bancárias, e as discotecas, e os teatros, e as livrarias, e as farmácias, e as bancas de jornais, e as pizzarias, e as doçarias, e as padarias, e as joalherias, e os consultórios médicos, e as lotéricas?

Transcorreram minutos. O coração de Júlio vibrava, descompassado. Júlio mal podia respirar. Suava em demasia. Sentiu esvanecer-se-lhe a mente. Esmorecia-lhe o ânimo. Imobilizado, não dava um passo. Seus pés, pareceu-lhe, enraizaram-se no asfalto.

Chegou-lhe aos ouvidos, não soube dizer de qual direção, ruído sinistro, tenebroso.

Voltou-se para a direção da qual acreditava que o ruído lhe chegara.

Arregalou os olhos. Aguçou os ouvidos. Viu trevas no horizonte e além dos muros.

Estava amedrontado, terrivelmente assustado. Suas pernas não respondiam à sua vontade. Dava-lhes ordens, em pensamento: “Mexam-se, pernas. Mexam-se, pernas”. Elas não se mexiam. O medo fê-las insubordinadas. Se o medo que afligia Júlio se exacerbasse, e Júlio se prostrasse, as pernas correriam, e abandonariam Júlio, lá, naquela rua tétrica. O tempo passava. Júlio imergia num estado letárgico, transido de medo. Seu corpo assumia a constituição de uma rocha inquebrável. Júlio a anteviu a sua morte. Veio-lhe à mente a imagem de seu coração pulsando nas mãos de uma criatura monstruosa. De sobreaviso, sentiu a aproximação de perigo. Uma ameaça rondava-o, sentia. Atormentava-o tal situação.

Olhou em redor.

As luzes bruxuleantes das lâmpadas.

Os muros.

Pareceu-lhe que a rua estreitava-se; que os muros encontravam-se no horizonte, e cercavam-no.

Silêncio. Nenhum ruído tétrico. Nenhum assobio sinistro.

Assustado, olhou em redor.

A rua, os muros, os postes cujas lâmpadas bruxuleavam.

Nenhuma alma viva. Nem a de um rato, nem a de um cachorro vadio, nem a de um mendigo esfarrapado, nem a de um bêbado maltrapilho, nem a de um transeunte desempregado.

Intrigante! Não há, nas metrópoles, uma rua deserta. Júlio não pôde dizer para si que não estava em uma rua deserta.

Que mistério era esse?

Que enigma Júlio teria de decifrar?

Júlio deu um passo, olhou em redor, coração aos pulos. Deteve-se. Estudou, os ouvidos apurados, os olhos penetrantes, o trecho da rua que seus olhos abrangiam. Ouviu apenas a sua respiração ofegante e as palpitações de seu coração.

Deu um passo. Nenhum ruído ouviu, e nenhuma voz.

Deu um passo.

O intervalo de tempo entre o terceiro e o quarto passos foi consideravelmente menor do que o intervalo entre o segundo e o terceiro e o entre o primeiro e o segundo. Esquadrinhou a rua à procura de uma criatura à espreita. Manteve-se afastado dos muros. Uma aparição sobrenatural, um fantasma, um monstro de sete cabeças, um animal feroz, uma pessoa feroz, um inumano, um homicida frio e calculista, imaginou Júlio, saltaria, não sabia de onde, sobre ele, e o mataria, faria picadinho dele, e o devoraria.

Deu passos, confiante e inseguro.

Deteve-se ao ouvir ruídos sinistros. Sussurros. Vozes humanas, pensou. De várias pessoas. O que havia lá? O que acontecia? De onde lhe chegaram os sussurros? Eram vozes humanas? Paralisado, seus olhos fixaram-se num ponto à sua frente. Viu o vazio. A tensão acelerou-lhe os batimentos cardíacos. Os sussurros chegaram-lhe aos ouvidos, não sabia de qual direção. Pareceu-lhe que se originavam de detrás do muro. De qual? Do da direita, ou do da esquerda?

Não sabia que direção tomar. E se desse um passo, e as pessoas – pessoas? – o atacassem? Para onde correria? O que havia atrás do muro à sua direita? O que havia atrás do muro à sua esquerda? O que havia nos bueiros? Os bueiros! – nesse momento Júlio atentou para os bueiros. Os bueiros! Havia um bueiro diante dele, silencioso, escuro, tétrico. Do bueiro saíam os sussurros que ouvira? Vivia gente no subterrâneo da metrópole? Humanos? Inumanos? Entes sobrenaturais? Fantasmas? Monstros? Entes malignos? Quais criaturas sondavam-no? Seguiam-lhe os passos? Preparavam-lhe um ataque? Os ruídos – sussurros, vozes humanas, acreditava Júlio – desapareceram.

Silêncio tétrico reinou.

Viu-se às portas da morte, na iminência de se deparar com o agente que lhe suprimiria a vida. Vieram-lhe reminiscências de épocas felizes. Relembrou as suas conquistas, os desafios que enfrentou, estudante, no vestibular, a sua classificação, os primeiros dias de aula na faculdade de engenharia eletrônica. Evocou a sua namorada, Beatriz, belíssima loira de um metro e sessenta. Romperam o namoro quando ela se transferiu, com o pai, a mãe e a irmã, para Belo Horizonte. Tinham dezenove anos. Foi a sua primeira experiência amorosa; a sua primeira desilusão. Pensava casar com ela, e com ela constituir uma família. Amava-a. Trocaram juras de amor eterno durante um ano, por telefone e cartas. A distância física, no entanto, afastou-os. Beatriz conheceu outro rapaz, com quem namorou. Júlio conheceu Alice, apaixonou-se por ela, e eles namoraram durante três meses – a incompatibilidade de gênios fê-los romperem o namoro. No terceiro ano na faculdade, estagiário em uma empresa de informática, Júlio conheceu Margharete. Namoraram durante dois anos. O namoro, que havia começado com juras de amor eterno, degenerou em brigas intensas, até que, enfim, decidiram seguir cada um deles o seu rumo. Evocou as desavenças com seus irmãos, seu pai e sua mãe, e os desentendimentos com alguns dos seus amigos, e os dois anos que se manteve distante de sua família, após brigar com seu pai. Evocou a sua vida vadia de três anos, perdido, nos prostíbulos, nos botecos, embriagado, caindo pelas ruas escuras da cidade, e o dia em que jovens vadios o agrediram. Assomaram-lhe à mente, numa golfada avassaladora, reminiscências do dia em que foi hospitalizado por consumo excessivo de maconha e o da sua prisão. Recapitulou o seu regresso à família, os sucessivos desentendimentos com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Irromperam-lhe à mente imagens do seu retorno aos estudos, da sua reconciliação com seus familiares e amigos, do seu novo emprego, do sucesso obtido, da fortuna amealhada, das novas amizades. Assomaram-lhe à mente a figura de Marco Antonio, filho seu e de Fátima, garoto bonito, saudável, vistoso, que, duas semanas antes, completara um ano de vida.

Olhou em torno. Fixou a sua atenção no bueiro à sua frente. Dos bueiros saíram os ruídos, os sussurros?

Deu um passo. Deu outro passo. Deteve-se. Deu um passo. Manteve-se no meio da rua. Andou três metros. No horizonte encontravam-se os dois muros. Assustou-a ilusão.

Olhou em redor.

Andou, lentamente, poucos metros. Fixou o olhar nos bueiros pelos quais passou. Deteve-se. Olhou para a frente; não viu o fim da rua, não viu o fim dos muros.

Reinava a escuridão.

Pensou em correr. Deu dois passos. Deteve-se. Olhou para a frente. A rua não tinha fim. Andou. Quantos metros? Decidiu correr. Deteve-se. Mais uma vez, tentou correr. Deu alguns passos, largos, sempre na mesma direção. Não imprimiu velocidade. Com esforço, percorreu vários metros. Aos poucos, adquiriu confiança. Não ouvia nem um som, nem um ruído, nem uma voz. Acelerou os passos. Não suava, não respirava com dificuldade, não se sentia estrangulado, nem afobado, nem sufocado. Comandava seu corpo. Andou, com passos lentos; depois, com passos acelerados.

Correu um metro… Correu dez metros… Correu vinte metros… Cem metros… Duzentos metros… Quinhentos metros… Mil metros.

Os muros não tinham fim. Não chegou ao fim da rua. Ficou tenso, apavorado. Expandiam-se os muros. Não via o fim da rua e dos muros. Seu coração pulsou mais forte. Sentiu-se estrangulado, sufocado. Afligiam-no fortes dores de cabeça. Doíam-lhe músculos. Deteve-se. Sentiu-se desfalecer. Exausto, ofegante, curvou-se, com a mão direita ao peito esquerdo. Encolheu-se. Dobrou os joelhos. Pôs a mão esquerda no asfalto. Cuspiu. Tossiu repetidas vezes. Arrastou-se. Cerrou as pálpebras. Deitou sobre o lado esquerdo do corpo. Não tinha forças para se levantar, nem para levantar a cabeça, pousada sobre o braço esquerdo. Encolheu as pernas. Anteviu a sua morte. Tremia da ponta dos dedos dos pés até o topo da cabeça. Doía-lhe o corpo.

Adormeceu.

Despertou.

Aos seus olhos revelou-se a rua sinistra. Confuso e cansado, perguntou-se o que lhe aconteceu. Permaneceu deitado. Cerrou as pálpebras. Respirou fundo. Ouviu um grito estridente de mulher terrivelmente assustada. Deu um pulo, e preparou-se para defender-se de um ataque iminente. De qual direção chegara-lhe o grito? Olhou em redor. Pensou ter visto um vulto. Do bueiro saía uma criatura rastejante, disforme. Não lhe deu uma feição. Seu coração vibrou, descompassado. Recuou, tenso, assustado. Que coisa era aquela mancha escura disforme terrivelmente assustadora que assumiu a figura de uma criatura encapuzada, arrastava as bordas das vestes no asfalto, emitia voz sinistra, e cujos pés não se viam, e ia na direção de Júlio, que, assustado, o coração a vibrar descompassado, andava para trás, olhos fixos nela? Júlio ofegava, suava em bicas, chorava; corrente de calafrio percorreu-lhe a espinha. Eriçaram-se-lhe os pêlos. Virou-se nos calcanhares. Correu, desembestado. Tropeçou nas pernas. Caiu. Escalavrou o joelho e o cotovelo esquerdos. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, e bateu com o queixo no asfalto. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, dobrou-se sobre o seu corpo, esfolou o braço direito e torceu o pulso direito. Levantou-se. Correu. Sentiu a respiração da criatura encapuzada, que ia no seu encalço. Caiu. Agarraram-no, pelos tornozelos, mãos de unhas enormes e grossas. Gritou. Sangue escorreu-lhe dos tornozelos. Afligiram-no dores pungentes. A criatura encapuzada arrastou-o para um bueiro, cuja tampa Júlio agarrou. Outra criatura encapuzada saiu de um bueiro, do outro lado da rua, foi até Júlio, e pisou-lhe nas mãos. Júlio soltou a tampa do bueiro, e caiu às profundezas.

De um bueiro, um homem foi arremessado para a rua: Júlio. Ele estava cadavérico, e mal pôde pôr-se de pé, mal pôde abrir os olhos. Ao dar-se conta de onde estava, viu-se à esquina de um cruzamento de duas avenidas iluminadas repletas de gente. Voltou-se para trás. Atrás de si, um muro de quatro metros de altura. Voltou-se para a avenida iluminada. Andou, cambaleando, em meio à multidão alvoroçada. Ombros caídos, braços pendendo pelas laterais do corpo, respirando com dificuldade, foi para a sua casa.

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Brasil, paraíso dos machistas. Um conto politicamente correto.

Dou a público, hoje, uma história horripilante, comum hoje em dia, mas oculta do povo indiferente.
Após esperar vinte minutos, durante a chuva torrencial que despencou nesta cidade a partir das 18,00 horas, no ponto de parada de ônibus, Jaqueline, vendo um ônibus aproximar-se, acenou; o ônibus parou, para que ela nele subisse. No ônibus, então lotado, ela, em pé, se espremeu entre os passageiros; não havia o ônibus percorrido quinhentos metros, abordou-a um homem esbelto, de um metro e setenta de altura, de barba rapada, calvo nas têmporas, trajando calça jeans, camisa azul e sapatos pretos. Ele, assim que se levantou do banco, ofereceu-o à Jaqueline, para que ela nele se sentasse. Ela, de imediato, rejeitou a oferta, e, diante da insistência dele, solicitou ao motorista que, ou mandasse o homem que lhe oferecera a ela Jaqueline o banco para nele ela se sentar retirar-se do ônibus, ou desviasse do trajeto original e rumasse à delegacia de polícia. O motorista recusou-se a atender-lhe às sugestões; e inúmeros passageiros esbravejaram. Diante da intransigência do motorista e da chusma dos passageiros, ela protestou, veementemente, tirou da bolsa que trazia a tiracolo um telefone celular, discou o número do telefone da delegacia de polícia, e, em altos brados, ora se queixava à telefonista que a atendera, ora tripudiava contra os passageiros e o motorista. A celeuma assumiu proporções inabarcáveis. Jaqueline ameaçou processar todos os que se encontravam no ônibus. Mulheres disparavam-lhe ofensas. Jaqueline estapeou um homem, unhou outro, desferiu duas joelhadas em um terceiro, e ameaçou arrancar os cabelos de um outro. A turbamulta ia, como um vagalhão, ameaçando derrubar o ônibus, o que obrigou o motorista a estacioná-lo, e telefonar para a delegacia de polícia. Para conservar o auto-controle, o motorista retirou-se  do ônibus; lá fora, alternava sua atenção entre sua conversa, ao telefone, com a sua interlocutora, as queixas que os passageiros lhe faziam e as reclamações de Jaqueline.
Não tardou cinco minutos, quando uma viatura policial chegou ao local, trazendo dois policiais, um homem e uma mulher, que trataram de tranquilizar todos os envolvidos no imbróglio, sucesso que só obtiveram a duras penas. De todas as personagens envolvidas, Jaqueline era a mais agitada, e justificadamente, afinal ela fora a ofendida; ela transparecia, em gestos ostensivos, em expressões fortes, as suas indignação e raiva compreensíveis; intempestiva, esbravejou, esgoelou-se, e firme, convencida da razão de seus propósitos, incansável, declarou-se, corretamente, desrespeitada e, corajosamente, disposta a ir aos tribunais denunciar todas as pessoas que a conspurcaram ao lhe arremessarem epítetos insultuosos.
“Aquele machista… – disse Jaqueline, indignada, referindo-se ao homem, que, levantando-se do banco, oferecera-lhe o lugar que deixara vago – aquele machista… Quem ele pensa que eu sou!? Quem ele pensa que ele é!? Que direito ele tem de me oferecer um lugar para eu me sentar!? Quem ele pensa que ele é!? Que desrespeito! Aquele machista… Eu não preciso que homem nenhum me ofereça um banco para eu me sentar. Só porque eu sou mulher, aquele machista me tem como um pessoa inferior, fraca, incapaz! Que absurdo! Vivemos em uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa. Os homens se acham superiores às mulheres”. Tais palavras são de uma mulher poderosa, de brios, que sabe qual é o seu lugar na sociedade. De uma mulher insubmissa, altiva.
Era visível o desarranjo emocional de Jaqueline,  compreensível e justificável diante de tal violência que lhe promoveram, produzido pela ação desrespeitosa do homem que lhe oferecera o lugar no banco. E assim que lhe amainou o espírito, Jaqueline prosseguiu: “E o motorista, outro machista, em vez de atender-me, destratou-me. Fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito, e seguiu viagem. Aquele machista! Todos os passageiros do ônibus são machistas, inclusive as mulheres, que, ao invés de irem em meu favor, ofenderam-me. Aquelas bruacas! Aquelas megeras! Todas servis à cultura patriarcal, machista”.
Neste momento, uma das passageiras interrompeu Jaqueline, e, destrambelhada, pôs-se a desancá-la com termos ofensivos e epítetos insultantes. E vários passageiros, açulados por ela, avançaram, ameaçadores, na direção de Jaqueline, que se abrigou às costas dos policiais, que, não sendo bem-sucedidos em chamar todos à razão, solicitaram reforço policial, que não tardou a chegar.
Contornada a situação, todos os envolvidos no entrevero os policiais os conduziram à delegacia de polícia, onde quase se engalfinharam Jaqueline e alguns passageiros e se deu tal distribuição de ofensas que até o Marquês de Sade, se as ouvisse, se constrangeria. Enfim, arrefecidos os ânimos, na presença de advogados e policiais, Jaqueline e os outros passageiros acordaram entregar o caso aos tribunais. Muitos dentre os envolvidos, já no exterior da delegacia, bufaram de raiva, e foram-se embora. Todos os passageiros e o motorista do ônibus, certos de que, de tão absurda a queixa de Jaqueline, ela, Jaqueline, perderia o processo. Enganaram-se. O veredicto, favorável a ela, os obrigava a cada um deles o pagamento de indenização por danos morais à vítima, Jaqueline. Eles esbravejaram. Espernearam. Recorreram da decisão. Jaqueline saiu vitoriosa de tal litígio. E a justiça foi feita. E a sociedade machista perdeu.
Não muito tempo depois, num ônibus que ia do bairro Campo Belo ao Campo Limpo, Jaqueline embarcou num ônibus lotado de passageiros, e espremeu-se como sardinha numa lata, deslocou-se alguns metros, e deteve-se ao lado de um banco, ocupado, então, por um homem cuja aparência lhe dava trinta anos e cuja indumentária lhe emprestava ar solene, venerável. No entra e sai de pessoas no ônibus, durante os quarenta minutos de duração da viagem, Jaqueline foi arremessada de um lado para o outro, só não indo, desequilibrada, ao chão porque outros passageiros serviam-lhe de escora. O desconforto, insuportável. Ao fim da viagem, na rodoviária, assim que, após descer do ônibus, encontrou-se com Marcela, sua amiga, que a aguardava, disse-lhe, queixando-se: “Os homens são muito mal-educados. Deus me livre! Num ônibus lotado, o calor de matar, obrigaram-me os machistas a permanecer em pé durante a viagem. E nenhum homem se dignou a ceder-me o banco. E o que estava na minha frente, machista dos infernos!, fez que nem me viu. Aquele machista! Se soubessem o apuro que as mulheres passamos, todos os dias, no transporte coletivo, os homens jamais iriam desejar ser mulheres. Temos as mulheres de aturar cada desaforo! Que falta de civilidade, a dos homens! Quero nascer homem na próxima encarnação. Assim, eu não sofrerei o que as mulheres sofrem”. E Marcela subscreveu-lhe as queixas.
Esta é uma, apenas uma, das incontáveis histórias que retratam a difícil vida da mulher na sociedade moderna, patriarcal e machista.

Um escritor à procura de um conto

Quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso literário. Pensei, durante horas, em com quais palavras iniciá-lo. Pus a cabeça para funcionar. Queimei as pestanas. Perdi muito tempo (ou não perdi) pensando no que eu escreveria, e amadureci (amadureci?) as idéias, para escrever com segurança e desenvoltura. Enfim, simultaneamente seguro e hesitante, dei início à redação do conto. Após escrever umas cem palavras, parei de escrever, deitei a caneta sobre a mesa, e li o texto que, tomei conhecimento, para meu desgosto, saiu-me diferente do que eu me propusera a escrever inicialmente. Ato contínuo, amassei o papel, e o joguei no lixo.

Falei para alguns amigos do meu restrito círculo de amizades que eu quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso. Eles (aos quais sou imensamente grato por me ouvirem atentamente e se me dignarem a dizer o que pensavam do meu propósito), pretensiosos (como todo bom brasileiro, entendem de todos os assuntos), aconselharam-me a não perder o meu tempo escrevendo um conto, pois, declararam, certos do que diziam, escrever é ocupação de desocupados. Diante desse paradoxo, perguntei-lhes:

– Se escrever é a ocupação dos desocupados, escrever é uma ocupação; então, o escritor, ocupado em escrever, é uma pessoa ocupada. Certo?

Eles desconversaram. Com exercício intelectual que, diziam-me, sustentavam com raciocínio inatacável, que eu, por mais que o desejasse, não compreendia, sublinhavam a opinião – à qual os brasileiros aferram-se com unhas e dentes – que nos diz que os escritores são pessoas desocupadas. Decidi, após perder um bom tempo em discussão estéril com pessoas que nada entendem de literatura, conversar apenas com quem entende do assunto: o Juscelino, o Lourenço (não sei qual é o seu primeiro nome), a Mariângela, a Cláudia, a Rosemeire e o Teodoro.

Encontrei o Juscelino sentado em um banco, lendo um livro, à sombra de uma árvore, na praça São Benedito. Interrompi-lhe a leitura. Falei-lhe do concurso literário e das minhas idéias para o conto que eu pretendia escrever. Ele me veio, com autoridade de um entendido, com essas palavras amargas:

– Balzac escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso. Conheço alguns livros do Balzac (Não ousei, até hoje, encarar a sua obra, muito volumosa. Um dos motivos, confesso, que constrangedor!: a preguiça; outro: não encontrei todos os volumes que compõem a Comédia Humana, nem na biblioteca municipal, que vive às moscas, coberta de teias de aranhas, com livros empoeirados de folhas amareladas, e cujo acervo, de pouco mais de cinco mil livros, compõe-se, quase que exclusivamente, de livros de auto-ajuda, esoterismo e outras insignificâncias, nem em nenhum outro lugar).

– Sim, escreveu – respondeu Juscelino.

– Tem certeza, Juscelino? – perguntei. Eu queria que ele me dissesse em qual livro Balzac narrou a história que concebi.

Juscelino atendeu ao meu desejo. Provou-me que Balzac escreveu uma estória idêntica à minha. “Ora – eu poderia gritar, a plenos pulmões – Maldito Balzac! Roubou-me as idéias”. Se eu tivesse nascido antes de Balzac, eu, antes dele, teria tido as idéias que ele concebeu antes de mim, escrevê-las-ia, e eu, e não Balzac, seria um gênio da literatura universal. Balzac – sorte dele! – nasceu antes de mim!

– Se eu fosse você – aconselhou-me Juscelino -, esqueceria o conto. Você nunca será original porque, seja qual for a sua idéia, algum escritor, e dos bons, que hoje são respeitados como clássicos, já a usou em algum conto, que, com certeza, é muito melhor do que o que você será capaz de escrever. Você não quer ser ridicularizado, quer? Não quer que as pessoas reconheçam você, na rua, apontem o dedo para você, e digam: “Olhem! O plagiador!”? É isso o que você deseja?

Tais palavras feriram-me profundamente. Puxa! Por essa eu não esperava. Juscelino acertou-me um golpe no queixo, nocauteando-me. Certo, nunca o considerei meu amigo, tampouco dei-lhe muita atenção, jamais respeitei-lhe as opiniões, mas, ora!, eu, desejando escrever um conto, e ele me veio com palavras tão agressivas, tão… Não sei tão o quê! Restou-me agradecer-lhe (ferido em meu ego) as opiniões e as sugestões, e afastar-me, cabisbaixo, desanimado. Depois, pensei comigo: “Juscelino é apenas um. Ele me apresentou a sua opinião. Ora, vou à procura do Lourenço. Ele, sim, há de dar-me ouvidos e elogiar-me a vontade de escrever um conto, ganhar um prêmio, e, quem sabe, ver o meu conto publicado em uma revista respeitável, ao lado de contos de outros escritores que, como eu, também buscam um lugar ao sol.

Então, ao Lourenço.

Fui à casa dele. Ele, animado, fanhoso (tenho de me esforçar para conseguir compreender o que ele fala), saudou-me, e perguntou-me a respeito de meu pai, minhas irmãs, e minha mãe – especialmente de minha irmã mais velha, a Jéssica, por quem ele, apesar de casado e pais de três filhas, sente atração, mesmo que não ma confesse. Não sou bobo, ora bolas! Percebo como os homens, atrevidos, olham para minhas irmãs, principalmente para a Jéssica, a mais bonita das duas (Que um psiquiatra, adepto da escola do Freud, ou de qualquer outra escola, pouco me importa de qual, interprete, à luz das teorias psiquiátricas, caso elas projetem alguma luz, as minhas palavras; que digam que tenho complexo disso ou complexo daquilo, que o meu id esmurrou o meu ego, e ambos, cúmplices do meu superego, subverteram a ordem, se ordem há, do meu inconsciente, e coisa e tal… e chega de lorota).

Não permiti, um pouco enciumado e incomodado, confesso, que o Lourenço se estendesse, indefinidamente, em superlativos à beleza da Jéssica. Eu o interrompi e falei-lhe das minhas idéias (não as mesmas que eu apresentara para o Juscelino, mas outras; não exatamente outras, mas as que eu apresentara para o Juscelino com significativas modificações: outros personagens, ambiente e narrador, agora em terceira pessoa). Lourenço ouviu-me atentamente; e disse-me, depois de puxar pela memória algumas lembranças das suas leituras:

– O Dostoiévski escreveu um romance com essas idéias, Carlinhos – e só agora revelo o meu nome, e ainda assim, no diminutivo, o que detesto sobremaneira. Desconfio que o Lourenço sabe que detesto ser chamado de Carlinhos, eu, com um metro e oitenta e dois de altura! Carlinhos, eu!?

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso; cabisbaixo, interessado em sua vasta erudição, o ouvi atentamente.

Lourenço falou-me de Dostoiévski (Li Os Irmãos Karamazovi. De Dostoiévski, apenas esse livro. Que vergonha! Como é constrangedor confessar a minha ignorância!). Provou-me, por A mais B, que ele escreveu um romance com as minhas idéias – as minhas idéias, sim! Dostoiévski escreveu um romance com as minhas idéias, pois não li o seu romance com idéias idênticas às minhas. Dostoiévski, afortunadamente, nasceu e morreu antes de mim e, involuntariamente – acredito que não tenha sido a intenção dele -, impediu-me de escrever uma estória original.

A conversa estendeu-se por um bom tempo. Ao contrário de Juscelino, Lourenço deu-me muitas idéias para contos – e disse-me que todas foram escritas por algum escritor. Pensei em ir-me embora, mas, com a chegada da Cássia, esposa dele, decidi permanecer na casa um pouco mais e dar sequência à conversa porque, como previ, ela me ofereceu um cafezinho saboroso – o qual degustei repleto de prazer. Além disso, eu queria admirá-la. Cássia, aos quarenta e dois anos, é um colírio para os olhos.

Eu queria prolongar a conversa com o Lourenço e a Cássia; tive, no entanto, a contragosto, de retirar-me. Despedi-me do casal, lançando um último olhar para a Cássia, e retirei-me. Como eu pretendia escrever um conto, e precisava de novas idéias – as que eu tivera abandonei-as – procurei pela Mariângela, que, leitora de romances e contos clássicos, poderia tecer comentários acurados sobre as minhas idéias. Por acidente, nos trombamos ao dobrar uma esquina. Desculpei-me. Ela se desculpou. Rimos. Cessado o riso, iniciamos uma conversa descontraída. Falei-lhe do concurso de contos para o qual eu desejava enviar um conto, e apresentei-lhe um resumo do meu conto. Ela me ouviu, atentamente; ao final do meu relato, disse-me:

– Machado de Assis escreveu um conto com essas idéias, Carlinhos.

– Escreveu? – não percebi que ela me chamou de Carlinhos, tão surpreso eu estava ao ouvi-la dizer que o bruxo do Cosme Velho, que tanto admiro, escreveu uma história com as minhas idéias.

E a Mariângela falou-me do conto do Machado de Assis. Para meu desgosto, para meu espanto, lembrei-me do dito cujo.

– Você está com a razão, Mariângela. Li o conto.

– Você tem de ser original, Carlinhos. Você não pode plagiar o Machado de Assis.

– Não desejei plagiá-lo, Mariângela. Tive algumas idéias, e decidi usá-las em um conto; e agora, e só agora, alertado por você, sei que Machado de Assis escreveu um conto com elas. Puxa! Que coincidência! Ainda bem, Mariângela, que você me avisou a tempo. Imagine a vergonha que eu passaria se escrevesse um conto com idéias usadas por Machado de Assis! Seria constrangedor. Eu nunca me perdoaria! Plagiar o bruxo do Cosme Velho! Involuntariamente eu incorreria em plágio, acredite em mim. A alma penada do Machado ou me cortaria o pescoço, ou me assombraria por toda a eternidade. Estou dizendo a mais pura verdade, Mariângela, a verdade verdadeira. Acredite em mim. Eu não mentiria pra você. O Machado escreveu… Quem diria!

Ao chegar em frente da casa da Mariângela, despedimo-nos. Segui rumo à minha casa. No caminho, ao passar pela praça São Bernardo, quem vi, lá, sentada em um banco, lendo um livro? A belíssima e vistosa Cláudia, a mulher mais bonita que conheço. Que pedaço de mal caminho! Ela nunca me deu bola. E daí? Sempre que a encontro, a admiro, embevecido, deslumbrado, de queixo caído, boquiaberto. O Gustavo, namorado dela, é quem tem de manter afastados os gaviões que voam em círculos em torno dela; ele, se não quiser ganhar um belo par de cornos, que se cuide e que cuide do que é dele. Eu, embora exista o risco de atiçar a cólera enciumada do Gustavo, não perco uma oportunidade de abordar a Cláudia, e requestá-la, com discrição e sutileza. Abordagens diretas a escandalizam. Confesso: não quero entrar em confronto com o Gustavo, que é meu amigo e mais forte do que eu. A tentação, no entanto, é incontornável…

Não pensei duas vezes. Enveredei pela praça. Como quem não quer nada, fui até a Cláudia, que trajava uma camisa branca decotada e um short amarelo bem justo. Quanta generosidade! As pernas cruzadas, desnudas! Acheguei-me a ela. Simulando surpresa, saudei-a. Ela sorriu. Que sorriso! Aqueles dentes brancos resplandecentes! Quase me perdi, naquele instante. Fiquei a ponto de desmaiar. Ela me ofereceu o rosto, para que eu o beijasse. Beijei-o, deliciado.

Perguntei-lhe que livro ela lia. Ela, pondo um marcador de página na página que lia, fechou o livro, cuja capa exibiu-me. Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Expus-lhe os meus comentários favoráveis ao livro e elogiei-lhe o bom gosto. Cláudia sorriu. Abaixou a cabeça, como que constrangida com os elogios. Perguntei-lhe se eu poderia sentar-me ao seu lado e puxar uns dedos de prosa. Ela me disse que me sentasse à direita. Sentei-me. Eu lhe disse que eu lera, dois meses antes, aquele livro, e, no ano passado, A volta do Parafuso. Conjuguei dois interesses: falar de literatura e admirar a Cláudia.

Falei-lhe do meu conto. Ela me ouviu atentamente; as suas observações, favoráveis, de estímulo; no entanto, ela me apresentou uma ressalva:

– O Boccaccio escreveu um conto com tais idéias.

Admirei-me. A Cláudia leu Boccaccio!? Não acreditei!

– Escreveu? – perguntei, boquiaberto, incrédulo.

– Escreveu, sim. Um dos contos do Decamerão.

Boquiaberto, de queixo caído, pasmo, eu não soube o que dizer. A Cláudia leu o Decamerão! Quase não me contive. Desejei perguntar-lhe qual dentre as cenas picantes ela mais apreciou. Calei-me, todavia. Eu fizera uma miscelânea das estórias que contei para o Juscelino, para o Lourenço e para a Mariângela. A Cláudia associou o meu conto aos do Boccaccio, que eu havia lido não muitos dias antes; mais uma vez, minha memória enganou-me. Eu não disse à Cláudia que li o Decamerão. Pedi-lhe mais detalhes. A bandida leu o Decamerão! Eu não quis acreditar. Ela, tão reservada, tão discreta, com fama de santinha – ler Boccaccio não faz uma mulher depravada, não é mesmo? -, surpreendeu-me com a revelação. Cláudia leu, como me provou, o Decamerão, e divertiu-se com a leitura. Falou-me da peste que assolava a Europa, na época de Boccaccio; falou-me dos contos, inclusive dos mais picantes, mas não o fez abertamente, com desembaraço.

Convencido de que criei um conto cujo tema era idêntico ao de um conto do Boccaccio, arrumei, com muito jeito, sem que a Cláudia desconfiasse das minhas verdadeiras intenções, assuntos para estender a conversa. Eu desejava admirar a Cláudia e tinha o sincero desejo de aprender um pouco mais sobre literatura. A Cláudia apresentou-me comentários a respeito de muitos livros, em sua maioria clássicos da literatura. Acompanhei-a, embevecido, em seu entusiasmo contido ao falar de Liév Tolstoi, seu escritor predileto. Eu sentia o odor perfumado que ela exalava. Inebriei-me com o seu perfume. Ébrio de desejo, enlaçava-a, em pensamento, e osculava-a, apaixonadamente. Encerramos a conversa – para meu desgosto – quando o Gustavo apareceu. Após saudar-me, ele atraiu a Cláudia para si, colou seus lábios aos dela – eu desejava beijá-los; os da Cláudia, obviamente; não os do Gustavo -; em seguida, após descolar seus lábios dos dela, voltou-se para mim, e disse-me que iriam à casa de uma amiga. Retiraram-se.

Levantei-me. Rumei à minha casa. Com quem dei de cara, na sala? Com a Rosemeire, que conversava com a Jéssica. Após passar momentos agradáveis com a Cláudia, defrontei-me com a feiúra em pessoa. Rosemeire, apesar de toda a sua feiúra repulsiva, não apagou, da minha mente, a belíssima imagem da Cláudia. Sorri. Eu rumava para o meu quarto; a um chamado da Rosemeire, detive-me. A Rosemeire me disse que participaria de um concurso de poesias, e perguntou-me se eu não desejava participar. Eu lhe disse que não gosto de poesia, mas de prosa, e tinha idéias para um conto que eu pretendia escrever e enviar para um concurso de contos. Ela me pediu que lho narrasse; eu lhe disse que eu não havia escrito nenhum conto, mas tinha algumas idéias na cabeça. Ela me perguntou quais eram. Eu lhas disse. Eram as idéias, com pequenas modificações, que eu apresentara para a Cláudia. Encerrado o relato, Rosemeire disse-me:

– A Virginia Woolf escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu?

Rosemeire resumiu o romance da Virginia Woolf. A Virginia Woolf – maldita! – escreveu a minha estória! Meu Deus! Em que mundo estamos! Um conto, que para a Cláudia continha idéias concebidas por Boccaccio, converteu-se, com pequenas modificações, em um romance da Virginia Woolf! Nenhum livro da Virginia Woolf eu li… Apalermado, ouvi as razões apresentadas pela Rosemeire, que, por sinal, foi muito gentil comigo – tanta gentileza não me agradou. O que ela desejava? Preciso responder à esta pergunta? Ah! Se fosse a Cláudia, assim, tão gentil, tão generosa, tão solícita… Mas não era a Cláudia; era a Rosemeire. As suas intenções… O seu sorriso… O sorriso cúmplice e zombeteiro da Jéssica… No desejo de não prolongar a minha permanência na sala, eu lhes disse que iria ao meu quarto escrever as idéias que me iam à cabeça, e retirei-me da sala, não sem antes olhar para a Jéssica. Malditinha! Sinto, não raras vezes, vontade de esganá-la. Rosemeire não me engana… Não tenho psicologia feminina, mas entendo as mulheres.

Convencido de que Virginia Woolf – e quem tem medo de Virginia Woolf? – roubou-me as idéias, decidi abandoná-las definitivamente. Não eram originais, e eu não me lançaria em um empreendimento literário para repetir o que outro escritor – e escritor consagrado – escreveu. Enfurnado no meu quarto, decidi mudar, e radicalmente, as minhas idéias. Nada de estória realista, nada de drama, nada de romance. Abandonei os meus projetos, e lancei-me na elaboração de uma estória fantástica. Retirei-me do quarto, duas horas depois. Ao passar pela sala, despedi-me da Jéssica e da Rosemeire, tão sorridente… O seu sorriso… Exagerado. Falso, notei. Sei o que a Rosemeire deseja de mim; não participarei de nada do que ela deseja. Ela que procure outro homem, um que se disponha a encará-la. Prefiro encarar a Medusa.

Na cozinha, enquanto eu bebia um copo de água, veio-me à lembrança a extravagante figura do Teodoro, leitor voraz de estórias de ficção científica, terror, espionagem, policial e fantasia. Rumei para a casa dele, sem pensar duas vezes.

À porta da casa do Teodoro, premi a campainha. Minutos depois, Teodoro abriu a porta. Saudamo-nos. Ele, expansivo, convidou-me para entrar. Entrei. Na sala, recebi um beijo no rosto e um forte abraço da Karen, esposa do Teodoro, tão extravagante e exótica quanto ele – eles formam o casal mais estranho da cidade. E entramos na conversa: literatura fantástica, ficção científica, terror, policial e outros gêneros que os críticos, soberbos, pedantes, insistem em classificar como sub-literatura.

No instante em que me surgiu a oportunidade, falei das minhas idéias para um conto de ficção científica. Teodoro, enquanto, atentamente, ouvia-me, cofiava o vasto bigode desgrenhado – como dizem nas redondezas: sem o bigode ele é como o Sansão sem a cabeleira.

Teodoro pensava, pensava, pensava. No que ele pensava? Não precisei esperar muito tempo para ter a resposta:

– Carlão, meu irmão, o Asimov escreveu um conto com essas idéias.

– Escreveu?

– Escreveu. Tenho certeza. Li todos os livros do Asimov. Em inglês. Entendeu? Em inglês. Carlão, as suas idéias não são originais. Você está plagiando o Asimov. Isso é heresia, você sabe. Pô, Carlão. Que decepção! Plagiar o Asimov! Ora, desista do conto. O que você pretende fazer é heresia. Lesa-pátria. Imperdoável! O que você está pretendendo fazer não merece perdão. Escreva o seu conto, que, na verdade, é do Asimov, que você vai parar na guilhotina. É o destino dos que desrespeitam o Asimov.

Foi a gota d’água! Desisti de escrever um conto. Aqui vai o meu registro, com meu sangue, meu suor e minhas lágrimas. Ninguém pode conceber o meu sofrimento! Ninguém pode conceber a minha angústia! Foi infrutífera a minha jornada à procura de uma boa idéia para um conto, que eu enviaria para um concurso…

Malditos todos os escritores que me antecederam! Malditos! Mil vezes malditos! Que a alma de todos eles queime no inferno! Malditos! Malditos! Mil vezes malditos!

Obsessão

07 de janeiro de 2…. Uma linda moça, a morena cuja formosura encantou-me. Sua pele é de um tom claro que brilha à luz do sol. Seus lábios vermelhos, realçados pelo batom, e seu nariz, seus olhos, seu queixo, suas sobrancelhas e suas maçãs do rosto compõem um conjunto perfeito. Se Fídias a admirasse, esculpiria a mais bela de todas as estátuas. Infelizmente, nem ele, nem Michelângelo, a conheceram. Vênus Calipígia! Seus cabelos pretos brilham ao sol, deslizam-lhe pelas costas, espraiam-se-lhe pelos ombros. Seu busto, esplendoroso! Suas pernas, sublimes! Seu andar, suave. Ela caminhava sobre as nuvens. Trajava um longo vestido vermelho decotado, que lhe modelava o corpo bem feito. Dela não tirei os olhos até ela entrar em um carro de vidros escuros. Fugiram-me as palavras. Encantado com tão linda moça…

08 de janeiro. Pensando na linda moça que ontem me encantou, dormi. Sonhei com ela. No sonho, ela, vergando vestes diáfanas, passeava por um jardim edênico. Seu corpo esplendoroso brilhava, cegando-me, sempre que dela eu me aproximava. Na mesma hora em que, ontem, passei pela rua *, passei hoje. O meu propósito: cruzar o caminho da linda moça de vestido vermelho. Andei vagarosamente. Olhei, atentamente, de um lado para o outro, na esperança de vislumbrar a Vênus rediviva. Não a encontrei, para meu desgosto. Mas a encontrarei, se não hoje, amanhã, ou depois. Aquela moça celestial cuja beleza esplêndida transfigurou-se, aos meus olhos, num espectro divino… Olhei de um lado para o outro. Não encontrei a linda moça. Contrariado, exausto, regressei à minha casa, três horas depois. Ao me olhar ao espelho, deparei-me com um rosto irreconhecível, disforme, repulsivo.

09 de janeiro. Não consigo tirar de minha cabeça a imagem da linda moça de vestido vermelho. Pelo meu corpo correu indescritível sensação de prazer, à noite. Raras vezes senti tão prazerosa sensação! Na cama, virei-me de um lado para o outro. Acordado, imaginei fantasias lúbricas, concebi sensacionais aventuras amorosas com a linda moça cujo nome desconheço e cuja beleza fascinou-me.

15 de janeiro. Ao acordar, hoje de manhã, banhei-me, e fui à cozinha. Na prateleira, não havia pães; na geladeira, não havia leite. Peguei da carteira, a abri, vi que nela havia dinheiro, e fui ao supermercado. Não eram dez horas quando lá cheguei. Fazia muito calor. Para a minha felicidade, não havia muitas pessoas no supermercado. Ao passar por entre as estantes do setor com produtos de limpeza, vi, de relance, para minha surpresa e alegria, a linda moça, que, com uma cestinha pendurada à junta do cotovelo, olhava para os frascos de detergente. Meu coração vibrou, acelerado. Arregalei os olhos. Mordi o lábio inferior. Lambi o lábio superior. Fitei a linda moça. Estudei-lhe o porte. Embevecido, alumbrado, admirei-a, fascinado com tão deslumbrante beleza. Andei por aquele corredor, na direção da moça que há dias eu procurava. Ela trajava uma saia azul marinho translúcida, que lhe modelava as coxas e as nádegas estonteantes, e uma camisa branca decotada. Seus olhos, azuis; suas sobrancelhas, finas, acastanhadas, arqueadas; seus cílios, compridos; seus lábios, carnudos, escarlates; seus cabelos, compridíssimos, pretíssimos, volumosos, penteados para trás, emolduravam-lhe o rosto de traços perfeitos. Detive-me três metros à sua esquerda. Puxei da prateleira uma caixa de sabão em pó, cuja data de validade fingi procurar e cujo preço fingi avaliar. Devolvi a caixa de sabão em pó ao seu lugar de origem, e dei ou dois, ou três, passos na direção da linda moça. Eu dela distava uns dois metros quando ela se curvou para a frente, de frente para mim, exibiu-me o tesouro fabuloso que entrevi no decote, e, com a sedosa mão esquerda de dedos melindrosos adornados de unhas compridas de esmalte violeta, puxou os cabelos, que lhe haviam caído ao rosto, para trás, e acocorou-se. Meu coração vibrou, acelerado. Meu corpo pulsou de desejo. A linda moça, ignorando-me, puxou da prateleira um frasco de água sanitária, devolveu-o à prateleira, pouco depois, e retirou outro frasco de água sanitária o qual restituiu ao local de origem, e pousou a cestinha no chão, e de dentro da cestinha retirou uma tiara transparente, e ajeitou-a na cabeça, com a mão direita, enquanto ajeitava, com a mão esquerda, os cabelos para trás. Ato contínuo, ajeitou a saia, passando, suavemente, as mãos por ela, olhou para a prateleira, enquanto puxava, com a mão direita para cima, a alça direita da camisa, que lhe escorrera do ombro. Ela segurou as alças da cestinha, e ergueu-se. Desviei dela o olhar. Dois homens passaram pelo corredor, conversando; ao verem a linda moça, cessaram a conversa, e fitaram-na, maravilhados; passaram por ela, e voltaram-se para trás, e fitaram-na, devorando-a com os olhos. Enciumado, pensei em esmurrá-los. Que direito têm eles de olhar para moça tão linda, tão pura? Eles a enodoavam, ao admirá-la. Rilhei os dentes. Sujeitos atrevidos! Eles se afastaram, e retiraram-se daquele corredor, para sorte deles.

A linda moça, que ignorou os dois sujeitos repulsivos, andou até os frascos de sabão líquido. Andei na sua direção. Fingi interesse por detergentes, numa prateleira de um lado do corredor; ela, no outro lado do corredor, de costas para mim, distando de mim um pouco mais de um metro, curvou-se, e eu, involuntariamente, sem pensar no que fazia, agachei-me; acocorado, tirei da prateleira um frasco – do que, não sei – enquanto eu olhava, a ponto de perder a consciência, para a linda moça, cujas coxas eram estonteantes, e pude ver-lhe a parte inferior das nádegas. Senti-me desfalecer. O tempo parou. Suspendi a respiração. Eu iria me beliscar, para me despertar daquela realidade onírica. Era como se eu participasse de um conto de fadas, e interpretasse o papel do ogro, do monstro das profundezas do oceano, dos subterrâneos das montanhas, um habitante dos reinos infernais, à espreita, para me lançar sobre as fadas, as princesas, as dríades, as hamadríades, e a linda moça interpretasse a inocente, ingênua, bela, celestial, indefesa vítima dos meus caprichos hediondos, dos meus desejos lúbricos animalescos; ela era a princesa, que, expulsa, pela madrasta sórdida, repulsiva, de um castelo suntuoso, perambulava pela lúgubre floresta habitada por criaturas demoníacas, monstros asquerosos e ciclopes antropófagos. Contive-me. Não me lancei sobre a linda moça. Minha mente, entorpecida, inebriada, eliminou de meu cérebro a faculdade de pensar. Meu corpo não atendia aos meus desejos. Meus braços e mãos, minhas pernas e pés não me obedeciam.

Embora eu tenha admirado a beleza exuberante da linda moça durante uma fração de segundo, a sua imagem perpetuar-se-á, na minha mente, no meu espírito, na minha alma, pela eternidade. Ao pôr na cestinha um frasco de sabão líquido, ela se recompôs, e, de costas para mim, andou até o final do corredor. Despertei, quando ela, ao desaparecer atrás da prateleira, retirou-se do meu campo de visão.

Restitui à prateleira o frasco; levantei-me; passos acelerados, andei até o fim do corredor, receando perder de visa a linda moça. Eu a entrevi, de cabeça abaixada, no setor de doces, bolachas, chocolates, balas e chicletes, atrás de uma gorda desgraciosa que empurrava um carrinho-de-compras cheio de frascos, caixas e pacotes dos mais variados produtos. Desacelerei os passos. A linda moça andou por quatro setores – o de bebidas, o de produtos dietéticos, o de perfumaria e o de artigos para animais. Eu a segui, dela conservando distância de cinco metros.

Enfim, ela se dirigiu ao caixa. Acelerei os passos. Fui ao refrigerador, e peguei um litro de leite. Voltei-me. Olhei para o caixa. Na fila estava a linda moça. Ato contínuo, fui ao balcão da padaria, e pedi quatro pães à moça que me atendeu. No desejo de não perder de vista a linda moça, eu olhava, a cada dois segundos, para a fila na qual ela estava. Tão logo recebi o pacote com quatro pães, virei-me, e andei, a passos acelerados, até a fila na qual estava a linda moça. Duas mulheres, mãe e filha, entraram na fila, à minha frente. Pouco depois, a filha disse à mãe que haviam se esquecido de comprar açúcar e trigo, e ambas retiraram-se da fila. E me vi atrás da linda moça, inebriado com a fragrância sedutora que ela recendia e com a exuberância do seu talhe. O pacote com os quatro pães se me escapou das mãos. Agachei-me para pegá-lo, e olhei para as pernas esplendorosas da linda moça. Um homem fitou-me, e olhou para ela. Senti meu rosto ferver.

Uma lâmpada vermelha acendeu-se próximo da moça do caixa, e ouviu-se um apito estridente. A linda moça andou até a caixa, e ficou de frente para mim. Admirei-lhe, fascinado, o busto esplêndido. Ela curvou-se para pôr a cestinha, agora vazia, no chão, próximo de mim, e ofereceu-me aos olhos seus peitos fartos. A caixa passou as mercadorias pelo leitor de código de barras. A linda moça entregou-lhe uma nota de vinte reais, recebeu da caixa o troco, e andou um pouco para a frente. Ansioso, antes de a caixa premir um botão sob a caixa registradora, para acionar o apito estridente e acender a lâmpada vermelha, andei, e entreguei-lhe o pacote com os pães, e a caixa de leite. Ela os passou pelo leitor de código de barras. Paguei-lhe os R$ 3,25 que eu já havia separado.

A linda moça pegou as duas sacolinhas de plástico com os produtos que comprara, e retirou-se. Eu, rapidamente, pus o pacote com os pães, e a caixa de leite, numa sacolinha de plástico, e a segui, a certa distância. Ela se deteve, na esquina; esperou os carros e as motos passarem. Aproximei-me. Detive-me à sua direita. Começamos a travessia da rua.

Uma das sacolas que ela carregava rasgou-se nos fundos, e dela caíram um tablete de chocolate, uma lata de doce de leite, e um pacote de bolachas de maisena. Curvei-me, e peguei o tablete de chocolate, a lata de doce de leite e o pacote de bolachas. Ao erguer-me, eu os entreguei à linda moça, que me agradeceu. E ela andou até um carro prateado; para minha surpresa, pediu-me que eu segurasse os produtos. Eu a atendi, prontamente. Ela remexeu na bolsinha que trazia na mão, e dela tirou a chave do carro. Assim que abriu a porta do carro, pediu-me os produtos. Entreguei-lhos. Sorrindo, exibindo-me seus dentes brilhantes, agradeceu-me a ajuda, e despediu-se. Embasbacado, acompanhei-a entrar no carro, pôr a chave na ignição, e dar a partida. Andei, com as pernas bambas e o coração aos pinotes. Eu mal raciocinava. Dei-me um tapa na testa. Censurei-me: “Imbecil! Idiota! Por que você não perguntou o nome àquela beldade celestial? Imbecil! Tolo!”

Eu andava, cabisbaixo, quando ouvi buzina a estrondear. Olhei para a direção da qual chegaram-me as buzinadas. Ao meu lado, um carro prateado com o vidro abaixado. A linda moça, inclinada sobre o banco do carona, chamava-me. Curvei-me para poder vê-la. Sorri. Ela sorriu. Disse-me que iria ao bairro *, onde mora, e perguntou-me para onde eu iria. Eu lhe disse que moro no mesmo bairro. Ela me disse a rua em que se localiza a sua casa. Eu lhe dei a localização da minha casa – na verdade o endereço da casa de um amigo meu -, uns duzentos metros adiante. Ela me perguntou se eu desejava uma carona. Eu, controlando a ansiedade e a excitação que me atormentavam, agradeci, e disse-lhe que aceitaria a carona, se não fosse inconveniência aceitá-la. Ela me disse para entrar no carro. Não me fiz de rogado. Entrei no carro, e sentei-me no banco, um pouco sem jeito.

Ela dirigia bem. Para ser sincero, não posso avaliar a sua destreza ao volante – não atentei para isso. Eu dela admirava a beleza. Ela disse que sentia muito calor. Eu lhe disse que hoje, durante o dia, faria mais calor do que o calor de todos os outros dias do ano, até hoje. Ela me disse que, talvez, fosse ao litoral. Imaginei-a, na praia, de biquíni fio-dental, banhando-se ao sol. Em certo momento, ela puxou, com a mão direita, a alça do sutiã e a alça da camisa para cima, pôs a mão esquerda sob o peito direito, e empurrou-o para cima. Agiu com naturalidade, como se eu não estivesse ao seu lado.

Viramos uma esquina, e outra, e outra, e seguimos por uma rua sinuosa. Ao contornarmos à direita, e, em seguida, à esquerda, e à esquerda, chegamos à rua da sua casa. Com um controle, ela acionou o portão eletrônico da casa. Eu lhe disse que iria embora, agradeci-lhe pela carona, e sai do carro, mas não fui embora. Esperei a linda moça guardar o carro na garagem. Ela saiu do carro, e acenou para mim, pedindo-me que eu a esperasse. Esperei-a. Ela carregou a sacolinha de plástico com os produtos que comprara no supermercado até uma mesinha, no jardim, e andou, suavemente, em minha direção. Eu a admirava, embevecido. Ela, próxima do portão, curvou-se para a frente, e do chão apanhou um envelope. Arregalei os olhos, diante daquela esplendorosa maravilha que o decote revelou-me. Ao erguer-se, ela avaliou o envelope, e disse-me tratar-se de uma propaganda de uma empresa que ela detesta. Ao encerrar os comentários, sorrindo, perguntou-me qual é o meu nome. Disse-lho: Roberto. E ela me disse o dela: Júlia.

Conversamos durante um bom tempo. Para encerrar a conversa, ela me disse que teria de desincumbir-se de algumas tarefas.

Despedimo-nos.

Andei mais de cinco quilômetros até a minha casa.

29 de janeiro – Passei de bicicleta em frente à casa da Júlia.

Júlia, de short branco com estampas de flores vermelhas e amarelas, e uma camisa branca sem estampas, empunhando uma mangueira de borracha, espirrava água no chão da varanda. Detive-me. Atravessei a rua. Júlia olhou para mim. Sorriu. Ela, curvada para a frente, fechou a torneira. Admirei-lhe, maravilhado, os peitos cobertos por uma película. Júlia abriu a porta. Conversamos durante alguns minutos. Enfim, eu lhe disse que iria embora, que a visitaria em momento apropriado. Ela me pediu que não me fosse. E eu lhe disse que, para não ser inconveniente, eu a ajudaria a lavar a varanda. Ela aceitou a minha oferta de ajuda, e à varanda ofereceu-me acesso.

Enquanto lavávamos a varanda, conversávamos, animadamente.

Eu não sabia o que admirar na Júlia, mulher tão pródiga de atrativos! De repente, ouvimos um barulho. Era a mãe da Júlia, Lúcia, que chegava. Ela abriu a porta, saudou a filha, e cumprimentou-me. Aí eu soube de quem Júlia herdou a estonteante beleza. Mulher de uns quarenta anos, Lúcia está muito bem conservada, e é muito atraente. Linda, como a filha. Ela entrou na casa, após pedir licença para mim e para Júlia.

Encerrada a limpeza da varanda, Júlia convidou-me para um café. Não me fiz de rogado. Eu, ela e Lúcia conversamos durante muitas horas. Retirei-me antes de o sol se pôr. À porta, eu e Júlia cruzamos o caminho de Pedro, seu pai, homem tímido e simpático, que me saudou, sorridente. Dele Júlia herdou o sorriso espontâneo e os gestos suaves. Ele nos disse que estava com pressa, pois tinha de se arrumar para comparecer à uma reunião dali uma hora. Pediu-me compreensão, lamentou não poder conversar comigo por mais alguns minutos, e disse-me que, em outra ocasião, conversaríamos e conhecer-nos-íamos melhor, e entrou na casa. Simpatizei-me com ele. Educado, polido, de poucas palavras, cativou-me. Júlia e eu nos entreolhamos. Ela me disse que seu pai era um estudioso incansável, profissional rigoroso, trabalhador infatigável. Perguntei-lhe qual a profissão dele. Arquiteto, disse-me Júlia, que me perguntou, sorrindo, como se soubesse a resposta que eu lhe daria, qual era o prédio desta cidade cujo desenho arquitetônico mais me atrai a atenção. Eu lho disse. E Júlia, sorrindo, perguntou-me: “E tu, Roberto, sabes de quem é a assinatura do desenho arquitetônico?” Sorri, fitei-a. Seus olhos irradiavam felicidade. Seu sorriso transparecia orgulho. “Eu sempre me perguntei quem desenhou aquele prédio”, eu lhe disse. “Nunca imaginei que um dia o conheceria, tampouco que um dia eu conheceria a filha dele”. Júlia não cabia em si de felicidade. Seu sorriso ia de orelha à orelha. Exibia-me duas fileiras de dentes branquíssimos. Eu lhe ia perguntar o que ela faria à noite, mas a voz não me saiu nítida. Júlia, com um gracioso movimento das sobrancelhas, indicou-me que não me ouvira. Sorri. Levei, involuntariamente, a mão direita ao pescoço, como que para desentravar as palavras. Desviei o olhar. Pouco depois, eu, certo de que recuperara o governo dos meus pensamentos e da minha voz, fitei-a, para lhe falar, mas emudeci ao deparar-me com aquele sorriso gracioso. Ela me perguntou o que eu lhe desejava falar. Eu lhe disse que me faltava voz. Ela não suprimiu do rosto o sorriso, que me enfeitiçou, e perguntou-me, zombeteiramente graciosa: “Se te falta voz, como me disseste que te falta voz?” Encabulado, num tom de voz tímido – intimidado, eu diria – perguntei-lhe se ela iria ficar na casa dela, naquela noite, ou se iria sair com seu pai e sua mãe, ou com amigos e amigas. Ela me disse que não iria a nenhum lugar, naquela noite; aliás, ela me disse que não pretendia sair da sua casa, nem com seu pai, nem com sua mãe, nem com amigos e amigas, porque não tinha para onde ir – e deu-me a entender que, se alguém a convidasse para ir ou ao cinema, ou à pizzaria, ou ao restaurante, ela aceitaria o convite. Sorri. Perguntei-lhe se ela desejava ir ao cinema. Ela me perguntou quais filmes estão em cartaz. Eu lhos disse: Um filme de ação; um de terror; uma comédia romântica; dois filmes de aventuras; e um filme brasileiro. Ela aceitou o convite. De imediato, excluiu da lista o filme brasileiro, o de terror e a comédia romântica. Indecisa, não sabia se escolheria ou o de ação, ou um dos de aventuras. Eu lhe disse que o de ação, segundo comentários de amigos e de críticos de cinema, era péssimo, e eu não perderia o meu tempo assistindo-o, e tampouco desperdiçaria o meu dinheiro, e um dos filmes de aventura, misto de ficção científica e espionagem, era ótimo, e a respeito dele nenhum comentário negativo eu ouvira, apenas ressalvas quanto aos efeitos especiais e à interpretação de dois atores, aquém do exigido para um filme com aquela produção. Do outro filme – uma aventura com toques de comédia -, eu soubera que era uma aventura hilária de uma trupe atrapalhada, repleta de cenas de ação irrealizáveis em cenários fantásticos. Júlia disse-me que Samantha e Raquel, suas amigas, haviam assistido a este filme, e o elogiaram. Então, decidimos: iríamos assisti-lo. Combinamos a hora do encontro. Eu iria à sua casa, às dezenove horas. Assistiríamos ao filme da sessão das vinte horas. E despedimo-nos.

Eram dezenove horas e dez minutos quando premi a campainha da casa da Júlia. Ninguém atendeu à porta. Premi a campainha uma vez mais. Não transcorreu um minuto, Júlia apareceu na varanda. Ela trajava saia preta comprida e camisa multicolorida com decote discreto. Estava com os cabelos soltos. Seus lábios, realçados com batom vermelho framboesa. Nas orelhas, trazia brincos dourados de motivos angelicais. Eu a elogiei. Ela, envaidecida, fez um muxoxo, disse que sou bobo, e deu-me um tapa carinhoso no ombro. Entramos no carro. Rumamos para o cinema. O filme superou as nossas expectativas. Os atores, ótimos; o figurino, impecável; os efeitos especiais, primorosos; os personagens, cativantes; o roteiro, bem escrito; o desenrolar da história, no ritmo adequado, com cenas de ação espetaculares entremeadas de cenas cômicas irresistíveis, diálogos inteligentes e engraçadíssimos. Ao encerramento do filme, na lanchonete, enquanto comíamos, Júlia, um bauru, e eu, um beirute, e bebíamos, eu, refrigerante de uva, e Júlia, refrigerante de guaraná, conversavamos a respeito do filme. Elegemos a melhor personagem, a cena mais engraçada, a mais emocionante, a mais tensa. Não chegamos a um consenso. Satisfeitos com a refeição, retiramo-nos da lanchonete, e fomos à casa da Júlia. Despedimo-nos com um beijo no rosto. Ela abriu a porta, e entrou. Trancou-a por dentro, mandou-me um beijo com a mão direita, e virou-me às costas; na varanda, voltou-se para mim, sorriu, acenou, e entrou na casa. Suspirei. Enfiei as mãos nos bolsos da calça. Permaneci, imóvel, na frente da casa da Júlia. Rememorei o passeio, até que, enfim, andei até o carro, e vim pra casa.

15 de março – Enfim, eu e Júlia nos estreitamos num abraço caloroso. Unimos os lábios. Nossas línguas dançaram, lúbricas. Senti o calor do belo e irresistível corpo de Júlia. Passeei minhas mãos pelo seu belo corpo, e as desci pelo seu traseiro. Ela as ergueu. Ao sentir minha mão direita sobre seu peito esquerdo, ela dele a removeu, afastou-me de si, e disse-me: “Acalme-se, Roberto. Vamos com calma.” Sorri. Pedi-lhe desculpas. Disse-lhe que eu não pretendia desrespeitá-la. Ela aceitou os pedidos de desculpas.

22 de abril – Diante da minha insistência irrefreável, Júlia disse-me, sem meias palavras, num tom firme, que me inibiu (enquanto ela me falava, esbocei um sorriso; e ela me fitou com olhar severo; e suprimi, de imediato, o sorriso do rosto, e pedi-lhe desculpas), que iria se resguardar para o casamento; que as minhas investidas não surtiriam os efeitos que eu desejava, e exigiu-me respeito e compreensão. Confesso: Fiquei contrariado. Respeitei-a, todavia. Não desejo ferir-lhe suscetibilidades. Desejo a Júlia, com todo o ardor de meu corpo e de meu espírito.

07 de junho – Nos casamos, eu e Júlia, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida.

09 de junho – A lua de mel, maravilhosa, apesar do início tenso. Eu e Júlia nos entendemos maravilhosamente bem. Desfrutamos de prazer inexprimível. Que corpo lindo, o da Júlia! Pródigo de encantos. Júlia, recatada, não admitiu participar das minhas fantasias lúbricas. Ficou horrorizada ao ouvir-me descrever as mais ousadas. Perguntou-me como pode haver pessoas, se há – ela duvidou do que eu lhe disse -, que fazem o que lhe propus. Repudiou as minhas propostas. Não insisti.

17 de outubro – De recatada e resguardada, que desejava conservar-se pura para o enlace matrimonial, Júlia tornou-se uma ninfomaníaca insaciável. Chego na nossa casa, e Júlia, voluptuosa, insinuante, provoca-me; com desenvoltura de uma felina, pula em cima de mim, agarra-me, desembaraça-me das roupas, e desembaraça-se das roupas (caso esteja vestida). E nos saciamos um com o corpo do outro. Deleitamo-nos até nos saciarmos, todos os dias.

22 de outubro – Minhas mãos lascivas avaliaram o corpo da Júlia, enquanto ela sonhava com os anjos.

29 de outubro – Durante o sexo, Júlia geme, sussurra palavras excitantes e obscenidades. Seu corpo é muito flexível. Ela se põe nas posições mais extravagantes, mais bizarras.

07 de novembro – Não posso acompanhar o ritmo da Júlia. Ela é insaciável. Para atenuar a tensão que a consome, e para não se privar da sua vontade, ela aplaca o desejo com brinquedinhos que comprou, sem o meu consentimento, em um sex-shop. Ela me disse, enraivecida, hoje, ao entardecer, durante uma discussão: “Tu não me satisfaz!” Berrou-me, fora de si: “Quero um homem!”. E deu-me um tapa, que suportei, resignado. Ela era tão doce! Tão meiga! O que se passa com ela? Uma metamorfose inexplicável, surpreendente! Seu corpo me atrai, agrada-me, mas a Júlia por quem me apaixonei, atraído pelo seu corpo esplêndido… O que está acontecendo com ela? Ouvi muitas ofensas. Júlia humilhou-me, nestes últimos dias.

12 de novembro – Júlia conversava, animadamente, com o Carlos, tocava-o nos braços, e gargalhava, hoje à tarde. Abordei-os. Carlos despediu-se de nós, e retirou-se. Em casa, eu e Júlia discutimos. Encerramos a discussão, de costas um para o outro.

20 de novembro – Surpreendi Júlia saciando-se com um brinquedinho fálico movido à pilha.

27 de novembro – Eu e Júlia tivemos um ótimo dia. Nos amamos três vezes. Nos reconciliamos da briga de ontem, quando dormi no sofá da sala.

04 de dezembro – Ciúme corrói-me a alma. Júlia almoçou com o Lúcio. Eu e Júlia discutimos. Brigamos. Nos reconciliamos, na cama.

14 de dezembro – Júlia, indiscreta, revelou a nossa intimidade para a Carla, sua amiga, que espalhou a notícia, dada por Júlia, de que não me encontro sempre disponível. Ouvi insinuações maldosas. Mateus, rindo, zombeteiro, perguntou-me se eu precisava de ajuda, na minha casa, e ofereceu-se para se encarregar das tarefas domésticas as quais Júlia exigia-me mas eu não as conseguia cumprir adequadamente. Se as tarefas, perguntou-me Mateus, me eram demasiadas, ele, disse-me, com sorriso escarninho estampado no rosto, encarregar-se-ia, e de muito boa-vontade, e sem remuneração, de uma parte delas, aliviando-me de tão exaustivo encargo. Esmaguei seu nariz com um soco. Se não me segurassem, não sei o que eu faria com ele. Matá-lo-ia com uma cadeira, ou com uma faca. Fatiá-lo-ia, e jogaria as fatias para os cães vadios que infestam a cidade.

02 de janeiro de 2…. – Segui a Júlia. Nada de comprometedor. Outra discussão. Ela me deu um tapa. Revidei.

07 de janeiro – Eu e Júlia nos reconciliamos, após dias durante os quais nem sequer nos olhamos um nos olhos do outro. Nos expandimos em excitantes modalidades sexuais. A imaginação, excitada pelo desejo, impeliu-nos a deixar o pudor de lado, e a extravasarmos. Uma das melhores noites que eu e Júlia passamos juntos. Realizei todas as minhas fantasias; e a Júlia, as dela. E como ela é criativa…

16 de janeiro – Ouvi comentários depreciativos sobre a reputação da Júlia. Perturbado, imaginei-a nos braços de Mateus, nos de Carlos, nos de Lúcio, nos de todos os homens.

22 de janeiro – Eu e Júlia passeamos pelo parque. Ela, com roupa provocante, atraía a atenção de todos os homens. Meu sangue ferveu ao deparar-me com um homem que, atrevido, encarava-a, lambia os beiços e babava de desejo. O seu olhar, tão lúbrico! A sua postura, tão lasciva! Pensei ter ouvido os seus pensamentos. Fui até ele, e o esmurrei. Rolamos pelo chão aos socos e pontapés. Ambos fomos conduzidos à delegacia. Na nossa casa, eu e Júlia discutimos durante duas horas. Ela me disse que não me aturaria mais, e iria embora. Retive-a. Disse-lhe que ela não podia ir-se embora, falei-lhe do meu medo de perdê-la, de ser privado da sua companhia. Eu a atraí, com voz suave, macia, arrependido. Dormimos, eu, na sala, ela, no quarto.

15 de fevereiro – Agredi a Júlia. Ela revidou. Rasguei a sua camisola. Júlia arranhou-me. Eu a quis possuir à força. Se era homem forte que Júlia desejava, ela me teria. “É um homem forte que você quer, Júlia? Eu sou o seu homem forte.” Agarrei-a pelos braços. Ela tentou se desvencilhar. Empurrei-a sobre a cama. Ela me deu pontapés, arranhou-me, deu-me tapas, em vão. Arranquei-lhe a camisola. Possuí Júlia à força. Eu a submeti à minha vontade. Ela gritou de dor. Com as mãos, abafei-lhe os berros. Ao recompor-se, ela ameaçou ir-se embora. Arrependido, pedi-lhe perdão. Ela não quis ouvir-me, e retirou-se. Cai no chão do corredor, encolhido, e chorei, sinceramente arrependido. Dormi. Despertei, hoje, na cama. Como fui até lá?

21 de fevereiro – Não posso viver sem a Júlia. Telefonei-lhe, todos os dias. Ela não retornou as ligações. Abordei-a, nas ruas, nas lojas, em todo lugar. Eu soube que o Mateus deseja namorar com ela. Pressionei-o contra a parede, e encostei-lhe o cano de um revólver na têmpora. “A Júlia é minha!”, eu lhe disse, “Atreva-se a encostar um dedo nela, que estourarei os seus miolos. Afaste-se dela! Afaste-se dela!”. Mateus obedeceu-me. Depois, ameacei o Carlos. Ele não me obedeceu.

08 de março – Matei o Carlos. Dois tiros, um entre os olhos, outro no peito esquerdo.

09 de março – Fui ao enterro do Carlos. A Júlia chorava aos cântaros. Ela me viu, e fingiu não me ver. À primeira oportunidade, aproximei-me dela. Abri os braços, para abraçá-la. Ela recuou, de frente para mim; ao afastar-se uns quatro metros, virou-se nos calcanhares, e correu.

22 de março – Encontrei-me com a Júlia. Abordei-a. Eu lhe disse que desejava me reconciliar com ela. Ela me pediu que eu me fosse embora. Não me movi. Ela me perguntou se eu sabia quem matou o Carlos. Fulminei-a com os olhos. Ela tremeu, aterrorizada. Empalideceu. Seus lábios, trêmulos. De seus olhos escorreram lágrimas em abundância.

09 de abril – Minha! A Júlia é minha. Minha! Ninguém mais a terá! Ninguém! Ela me pertence! Seu corpo me pertence! É meu! Meu! Pertence-me! Seu corpo existe para a satisfação dos meus desejos! Seu corpo é meu! Eu o terei sempre que o desejar! É meu! O corpo da Júlia é meu! Eu o adoro! Adoro a Júlia! A Júlia é a única mulher que adoro! Devoto-lhe minha vida! O corpo da Júlia é meu! Pertence-me! Só eu tenho a posse do corpo dela! Só eu! Eu! Eu!

Café não emagrece, engorda

Relato pungente de uma vítima da propaganda enganosa dos produtores de café.

– Sinto-me tolo, imbecil. Acreditei nas ladainhas que mas contaram aqueles artistas belos e formosos das propagandas. Eu sou um imbecil. Lembra-se de como eu era há um ano? Eu não era, eu sei, um galã de Hollywood, e eu também não era um homem destituído de charme. Algumas mulheres atribuíam-me beleza peculiar. Eu não era esbelto; e gordo eu também não era. Nem gordo, nem magro eu era. No entanto, eu, sempre que me olhava ao espelho, me via gordo, me achava obeso, comparava-me a um elefante, a uma baleia, e evocava aqueles homens, obesos mórbidos, que vivem confinados na cama, e eu suava frio; paralisavam-me o corpo as imagens que vi, na internet, de um homem que foi retirado da sua casa com um guindaste. Tiveram de remover do quarto em que ele vivia confinado, havia trinta anos, a laje e o teto, para que da casa o removessem. Ele pesava mais de trezentos quilos. Um monstro gelatinoso. Atormentou-me, durante vários dias, a sua figura. Pesadelos roubaram-me o sono. Passei muitas noites em claro, a atormentar-me aquela silhueta elefantina. O horror! A silhueta de um elefante obeso, de um elefante baleiônico. E eu não queria, e não quero, ficar com silhueta igual à dele. Deus me livre! Eu, sem poder mover-me, com trezentos quilos, igual massa gelatinosa… Não. Eu, então, deprimido, angustiado, a temer transformar-me em um elefante de duas pernas, fui vítima fácil das propagandas de café, que me prometiam o paraíso edênico e a beleza de um astro de filmes de ação de Hollywood. Fui vítima das artimanhas dos sórdidos capitalistas e de seu marketing persuasivo. O marketing é, no mundo capitalista, o canto das sereias. E de nada adianta tampar os ouvidos com cera. As propagandas nos seduzem, não apenas pela audição; seduzem-nos pelo olfato, pela visão, pelo tato, pelo paladar. Inebriam os nossos cinco sentidos. São ladinos, astutos, os marqueteiros. Sabem como agarrar-nos pelo pescoço, e conduzir-nos para onde desejam que temos de ir. E eu, desguarnecido, como eu já disse, e não me repito ao me repetir, e nunca é demais destacar este ponto, e eu, eu dizia, angustiado e deprimido, à promessa de que eu, que tenho propensão a engordar, poderia vir a esculpir o meu corpo a ponto de adquirir a beleza cinematográfica dos astros de Hollywood e a beleza apolínea e dionisíaca dos heróis e dos deuses e dos semideuses gregos, e evoco os gregos, não os modernos, que são estúpidos e estão a afundar a Grécia, mas os antigos, da era de ouro da civilização helênica, deixei-me, eu dizia, ludibriar pelas propagandas, em minha fraqueza, excitada a minha vaidade de homem maduro, ou aparentemente maduro, supostamente maduro, presunçosamente maduro, ávido por atrair mulheres encantadoras, esculturais, formosas, que estão de mim a um universo de distância, em uma dimensão paralela. Resumindo: Deixei-me engabelar por malditos propagandistas, e aqui estou, eu, com os meus cento e onze quilos mal distribuídos em meus um pouco mais de um metro e sessenta de altura, sendo que, há um ano eu tinha, além de uns pneuzinhos na barriga, sessenta e sete quilos. Como me arrependo por me deixar ludibriar por aquelas propagandas, as quais, hoje reconheço, seduzem os tolos, os fracos, os débeis, os frágeis, os idiotas, os imbecis, os que não têm vontade própria. Em que inferno vivo! Em um inferno dantesco, o mais infernal de todos os infernos. Mas como, você talvez esteja se perguntando, e por educação não me faz a pergunta, que, eu sei, deseja me fazer, e coça a sua língua o desejo de fazer-ma, mas, por educação e respeito e consideração não ma faz, e como, eu dizia, cheguei a acumular em meu corpanzil tanta banha? Prepare-se para de mim ouvir um relato pormenorizado, nu e cru, estarrecedor, para usar uma expressão que está na moda, do que me sucedeu de doze meses para cá, tempo suficiente, mais do que suficiente, direi, para alterar, significativamente, consideravelmente, a minha figura, a minha silhueta, que, tenho de dizer, nunca foi uma das sete maravilhas da natureza. Recordo-me, como se fosse ontem: Em um domingo, o sol a pino, sob os efeitos anestésicos e inebriantes de uma propaganda de café, retirei-me da minha casa, e rumei ao mercadinho mais próximo, o do Zé Pereira, a um pulo de distância, para comprar café. Em um piscar de olhos, fui e voltei. Não esgotei as minhas forças. Naquele domingo, não bebi café. Principiei, supondo que eu rumava para o céu, a minha jornada rumo ao inferno, na segunda-feira. Nem uma escala no purgatório eu fiz. Fui direto para o inferno, o dantesco, como eu já disse, e repito, e que você não deixe de saber disso, e aprenda com os meus erros, e não cometa erros similares aos que cometi. Na segunda-feira, então, após aquele domingo, dei início ao consumo de café, substância tipicamente brasileira, dos trópicos, que, prometiam as propagandas, presentear-me-ia com a silhueta dos deuses… Do Olimpo? Não. Aliás, Sim, mas, além da deles, a dos de Hollywood, principalmente. E foi na manhã da segunda-feira, após acordar, escovar os dentes, banhar-me, vestir-me, preparado para o trabalho, árduo como é o trabalho de todo o santo dia, preparei-me a refeição da manhã, que consistia em oito fatias de pão-de-fôrma com geléia, um pedaço de pudim de coco, sete bisnaguinhas, um pacote de bolachas waffes, e uma xícara de café. Satisfeito, feliz, a animar-me a certeza da minha transformação, dentro de poucos dias, em uma beldade hollywoodiana, rumei para o trabalho. E encerrou-se o expediente às dezoito horas. E fui para casa, após uma visita à lanchonete. Não eram onze horas da noite, dormi. Na terça-feira, despertei de um sono revigorante, e alegraram-me o sonho situações alegres; minutos depois, o desjejum, que renovou as minhas energias, e concedeu-me forças para encarar mais um dia de trabalho laborioso: metade de um pudim de laranja, duas bananas, seis das doze coxinhas que eu comprara na noite anterior, dois pastéis de carne dos quatro que eu comprara na noite anterior, uma pêra e uma xícara de café fervendo de tão preto. Após retirar-me da loja, encerrado o expediente, rumei, com amigos, à pizzaria Santo Antonio, e lá permaneci até às onze horas da noite. E na quarta-feira, na refeição da manhã, sobre a mesa, para satisfazer-me a vontade de ingerir as substâncias que me forneceriam a energia indispensável para suportar um dia de trabalho intenso, enfiei, para dentro de meu estômago, quatro pães com manteiga, dois pães francês, recheados, cada um deles, com dois ovos de galinha fritos, leite com sucrilhos, dois pedaços de pizza que sobrou da noite anterior, cada pedaço correspondendo a um quarto de uma pizza, duas maria-moles e uma xícara de café, café pretíssimo, fumegante. Encerrado o expediente daquele dia, comemorei, com o Roberto e a Márcia, na lanchonete Vamos que Vamos, o primeiro aniversário de casamento deles. E na quinta-feira dei sequência à minha dieta: Além de uma xícara de café, que não podia faltar, bebi dois copos de leite de duzentos e cinquenta mililitros cada, com achocolatado, comi metade de um pudim de morango com cobertura de caramelo, bolachas de coco, bolachas de mel, bolachas com recheio de morango, bolachas com recheio de chocolate, bolachas com recheio de limão, um pastel de carne e um pastel de queijo dos que sobraram da noite anterior. O dia, intenso; o trabalho, exaustivo. E desincumbi-me de todos os meus afazeres com desenvoltura, e o meu chefe, o Alvarez, elogiou-me, e ele só elogia um subordinado seu que faz por merecer, e eu mereci, elogios. E na pizzaria do Bértão, após o expediente, comemoramos o aniversário da Ana Carolina, aquele pedaço de mal caminho. E encerrou-se o dia. E dormi. Na sexta-feira, no café-da-manhã, além de beber café, bebi leite com sucrilhos, dois copos cheios, um copo de guaraná, comi um pudim, um rocambole mesclado, metade de uma pizza de muzzarela que sobrou da festa da noite anterior, bolachas com recheio de chocolate, bolachas com recheio de laranja, rosquinhas de coco, rosquinhas de chocolate, rosquinhas de nata e duas bananas. Satisfeito, fui trabalhar. À noite, reuni-me com amigos no carrinho-de-lanche do João Louco. Depois, fui à festa de aniversário da Larissa. No sábado, trabalhei até uma hora da tarde, como em todos os sábados; antes, porém, na refeição da manhã, comi um x-tudo dos dois que eu comprara, na noite anterior, e alguns brigadeiros que da festa de aniversário da Larissa levei para casa, duas maria-moles, uma barra de chocolate, bolachas amanteigadas, bolachas de morango com recheio de mel, e bebi leite com sucrilhos, leite com achocolatado, e café, o infalível café, preto, pretíssimo, para dar-me a energia que me seria indispensável para enfrentar metade de um dia de trabalho durante o qual nenhum segundo de descanso eu teria. E à tarde daquele sábado fui à festa de casamento da Marta e do Nelson, e à noite fui à festa de aniversário do Rubens. Comi e bebi do bom e do melhor. E acordei, no domingo, às onze horas; antes de almoçar, na casa do Camilo, que preparou um churrasco supimpa, bebi, na minha casa, uma xícara de café. Durante as semanas que se seguiram àquela, a inaugural, repeti, com pequenas alterações, as refeições da manhã, ao desjejum, certo de que, no decorrer de um ano, ou dois, eu, com o poder milagroso do café, ganharia a silhueta que eu desejava, a de um sedutor irresistível. O café, patrimônio nacional, mais valioso do que o petróleo e o fio-dental, produto genuinamente brasileiro, presentear-me-ia, eu acreditava, influenciado pelas propagandas, com a silhueta dos deuses apolíneos. Arrependo-me, amargamente, e sofro, e você não imagina o meu sofrimento, por haver me deixado ludibriar tão facilmente pelas propagandas de café. Bebi café, todas as manhãs, seguindo orientações dos atores que protagonizavam, nas propagandas, os papéis de criaturas felizes, de bem com a vida, repletas de energia, afortunadas, que adelgaçaram a silhueta consumindo café. Lograram-me, os malditos produtores de café. Engordei a olhos vistos, como você pode ver, e está vendo. Prometeram-me o céu; e desci ao inferno, o inferno dantesco, não me canso de repetir. Nunca mais me deixarei enganar pelas propagandas. Nunca mais. Olhe para mim. Qual mulher me deseja, agora? Converti-me em objeto de irrisão. Sou alvo de chacotas. Olham-me torto, a sorrir. Maldição! Você aceita um cafezinho?

Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

A casa dos horrores

Quarta-feira. Dia quente. Ariadne chegou, às onze e meia, na sua casa, saltitando de felicidade, lindo sorriso a sublimar-lhe a beleza do rosto de traços suaves. Queria ir ao banheiro tomar um banho revigorante e, depois, almoçar; antes, porém, contaria para sua mãe, Carmem, as boas novas: 10, em História; e 9, em Biologia. Percorreu toda a casa à procura dela; não a encontrou. Contrariada, foi ao quarto. Deixou os cadernos e os livros sobre a escrivaninha, sentou-se na cama, e descalçou os pés; descalça, foi até o guarda-roupa, de cuja gaveta inferior retirou uma calcinha e um short, e uma camisa da gaveta superior. Ato contínuo, foi ao banheiro. Não trancou a porta. Pôs as roupas que retirara do guarda-roupa sobre a tampa do vaso sanitário. Despiu-se. Pôs-se sob o chuveiro. Abriu-o. Atingiu-lhe o corpo, que pedia um pouco de refresco, a água fria. Arrepiaram-se-lhe os finos pêlos dos braços. Ao acostumar-se com a temperatura da água, deixou-se molhar, deliciada.

Durante o banho, passeava as macias mãos pelo corpo sedoso. Feliz, elogiava-se, em pensamento, pelo seu desempenho nas provas de História e Biologia.

Ariadne queria seguir carreira de oftalmologista. Pretendia, no final do ano, prestar exame vestibular nas mais conceituadas universidades brasileiras. Como todos os jovens, construía suntuosos castelos no ar. Via-se, vergando o uniforme branco, em um consultório em cuja porta lia-se, em uma plaqueta: ‘Doutora Ariadne Almeida Vargas. Oftalmologista’.

A água escorria voluptuosamente pelo corpo exuberante de Ariadne, que empinava o busto e jogava a cabeça para trás, jogando, para as costas, os longos cabelos bem cuidados, permitindo, assim, que a água lhe atingisse o belo rosto. Com as pálpebras cerradas, abria a boca e a enchia com um pouco de água, soltando-a logo em seguida. Imersa no prazer que o banho permitia-lhe desfrutar, permaneceria sob o chuveiro por mais um bom tempo. De repente, ao golpear-lhe indefinível sensação de desconforto, abandonou os seus devaneios. Não saberia explicar, se alguém lha indagasse, o que a alertara para a ameaça que dela se aproximava. Descerrou as pálpebras. Voltada para a parede, de costas para a porta do banheiro, olhou por sobre o ombro esquerdo, e viu, a poucos centímetros de si, o corpo volumoso, nu, repulsivo, coberto de pêlos, de Clodoaldo, seu pai, cujos olhos, que transbordavam lascívia animalesca, miravam-na, e cuja fisionomia estampava rictus doentio, insano, crudelíssimo. Ariadne sentiu intenso calafrio percorrer-lhe o corpo e gelar-lhe a espinha. Era indisfarçável o estado de embriaguez de Clodoaldo, que exibia rosto inchado, avermelhado. O odor que ele exalava feriu o nariz de Ariadne, que, assustada, petrificada, encarou-o, olhos arregalados; ao abaixar o olhar, ela se assustou com o que viu, e, automaticamente, adivinhou as intenções de seu pai.

Clodoaldo segurou o pênis ereto e exibiu-o para Ariadne, que começou a tremer, a balbuciar palavras desconexas. Dos olhos dela escorreram lágrimas. Clodoaldo deu um passo para a frente. Ariadne preparou um berro. Clodoaldo precipitou-se sobre ela, cobriu-lhe a boca com a sua enorme mão áspera, impedindo-a de gritar, e sussurrou-lhe obscenidades, numa voz cavernosa – e de sua boca escapava hálito putrefato. Apertou-se nela. Esfregou-se nela. Buscou, com os lábios, os lábios de Ariadne, que tentou, em vão, com as mãos, afastá-lo de si. Ele a premiu à parede, enfiou-lhe as mãos entre as coxas, para forçá-la a afastar as pernas uma da outra. Ariadne resistia, mas nada podia fazer em sua defesa. Clodoaldo era corpulento, pesado, forte. Ariadne, de um pouco mais de um metro e sessenta centímetros de altura e sessenta quilos, não podia lhe opor resistência. Clodoaldo mordeu-lhe o lábio superior, ao mesmo tempo que, com a mão direita, puxava-lhe os pêlos pubianos e, com a mão esquerda segurando o pênis ereto, forçava a penetração. Os seus músculos estavam contraídos; os vasos sanguíneos, intumescidos. Ariadne não conseguiu protestar, nem clamar por socorro. Deu início a um grito sufocado, que Clodoaldo abafou cobrindo-lhe a boca com a mão direita.

Ariadne chorava, convulsivamente.

Clodoaldo, frustrado com as suas infrutíferas tentativas de violar Ariadne, emitiu um abafado urro de raiva e, ao mesmo tempo, com as coxas esforçava-se, em vão, para afastar as pernas de Ariadne uma da outra. Contrariado, surpreso com a resistência de Ariadne, retirou-a, apertando-lhe o pescoço com a mão direita e o braço direito com a mão esquerda, de sob o chuveiro. Ariadne quis resistir, mas não pôde impor resistência a um homem dez vezes mais forte do que ela.

Ariadne sentiu dor insuportável.

Clodoaldo, nervoso, irritado, impaciente, encaixou um potente soco no ventre de Ariadne, roubando-lhe o ar dos pulmões. Ariadne chorava, aterrorizada. Clodoaldo puxou-a pelos cabelos, jogou-a no chão, de costas, deitou-se sobre ela; com os lábios ardendo de bestialidade, sugou-lhe os lábios, mordeu-os, ao mesmo tempo que com a mão direita segurava o pênis ereto e forçava-o para dentro de Ariadne – enquanto com a mão esquerda puxava os cabelos dela, infligindo-lhe dores indescritíveis. A dor que Ariadne sentiu, no exato momento da penetração, quase lhe roubou a consciência. Ela sentiu o ventre rasgando-se. Clodoaldo, ávido, lascivo, desferiu estocadas violentas, indiferente à pungente dor que lhe infligia e ao seu choro convulsivo. Enquanto ejaculava, a intensa sensação de prazer que o invadiu fê-lo mais agressivo, mais bestial, mais rude, mais grosseiro, e impeliu-o a mover-se com estocadas mais furiosas, ferindo Ariadne mais profundamente. Ao sentir-se satisfeito, de Ariadne retirou-se e conservou-se, as pernas abertas e os joelhos no chão, sobre ela, exibindo-se-lhe, e ameaçando-a:

– Você, boneca deliciosa, nada contará para sua mãe. Belezinha! Gostosinha! Entendeu, brotinho? Docinho! Se você der um pio, cabacinha, matarei você. Se você abrir o bico, matarei você, boquinha lindinha do papai. Está vendo, menininha gostosinha, o que tenho nas mãos? – e esfregou-lhe o pênis flácido no rosto. – Você já experimentou o papai, peitudinha. Esta foi a primeira vez, cabacinha. E não será a última. Entendeu? Se você contar alguma coisa para sua mãe, arrebentarei você. Você é minha filha, fofurinha do papai. Com você, faço o que bem entender. Entrarei em você sempre que eu desejar. Belezinha. Filhinha do papai. Com você, faço o que quiser. O que quiser, entendeu? Se você abrir o bico, matarei você. Ai de você, vadiazinha do papaizão, vagabundinha deliciosa, se você contar para sua mãe. Sabe o que farei, se você der com a língua nos dentes, cabacinha? Arrombarei você e enfiarei uma faca no seu coração, entendeu, cabacinha? Arrombarei você. Belezurinha, entrarei pela porta dos fundos e pela porta da frente. Se você contar para alguém, cabacinha, matarei você. Terei o seu sangue nas minhas mãos. Belezinha. Cabacinha. Se você contar para sua mãe, ou para qualquer pessoa, matarei você. Matarei você! Não estou brincando, vadiazinha, depravadazinha. Não estou brincando. Arrombarei você, matarei você, farei picadinho de você, e lamberei os seus ossos, e jogarei os seus pedaços para os vira-latas. Entendeu, cabacinha? Se você contar para alguém, matarei você. Matarei você, uma, duas, três vezes. Matarei você quantas vezes eu quiser.

Ariadne, sem forças para se levantar, conservou-se deitada, a chorar convulsivamente. Todo o seu corpo doía-lhe. Vibrava-o dores insuportáveis. Ela nunca havia se sentido tão indefesa, tão impotente, tão frágil, tão desamparada, tão abandonada, tão só.

– Levante-se, bonequinha. Cabacinha do papai. Vista-se, fofurinha vadia – gritou Clodoaldo, ao mesmo tempo que puxava Ariadne pelos cabelos e jogava-lhe as roupas em cima. – Não quero que sua mãe veja você assim, nuazinha em pêlo, cabacinha. Pare de chorar, belezinha do papai. Levante-se! Enxugue as lágrimas, garotinha mimada. Levante-se! Você quer brincar mais um pouquinho com o papaizinho? – deu-lhe dois pontapés, apertou-lhe os braços e a pôs sentada, no chão, encostada à parede. O rosto de Ariadne, deformado pelo medo e pela dor, estava irreconhecível. – Pare de chorar, vagabundazinha! O mundo não desabará porque entrei em você, belezurazinha do papai. Não faça docinho, lindinha do papai. Não faça biquinho, pitéuzinho. Para o chuveiro, cabacinha! Limpe-se! Cabacinha, tire todo esse sangue daqui. Que sujeira você fez! Vagabundazinha vadia do papai! Você sujou o banheiro, cabacinha. Nunca vi tanto sangue em minha vida! Nem no açougue do Baião há tanto sangue!

Ariadne pôs-se sob o chuveiro, sentada, as pernas encolhidas. Abraçou-as. Enfiou a cabeça por entre os joelhos, mantendo-a presa entre eles. Chorava convulsivamente. Clodoaldo perdeu a pouca paciência que lhe restava, desligou o chuveiro, arrastou Ariadne, pelo braço, machucando-o, até o quarto, jogou-a sobre a cama, voltou ao banheiro, pegou uma toalha, regressou ao quarto, e pôs-se a enxugar Ariadne; admirava-lhe o corpo bem feito, apertava-lhe os peitos, sugava-lhe os mamilos e ameaçava violá-la mais uma vez.

*

Ariadne testemunhava, diariamente, discussões violentas entre seu pai e sua mãe – discussões que, infalivelmente, degeneravam em violência física. No quarto, deitada em posição fetal, chorava convulsivamente. Os seus sentimentos, confusos, indefiníveis, perturbavam-na. Certo dia, Clodoaldo surrou Carmen com tanta violência que lhe pôs hematomas em todo o corpo e quebrou-lhe o nariz e o braço esquerdo. Em outra ocasião, Clodoaldo quebrou uma vassoura nas costas de Carmen, e espancou-a, dias depois, a ponto de roubar-lhe a consciência. Ariadne ficou apavorada no dia em que viu Clodoaldo estuprar Carmen, e recolheu-se ao quarto. Não dormiu à noite. Não conseguiu afugentar de si as imagens terríveis que presenciara e as lembranças do dia em que foi estuprada. Temia que Clodoaldo invadisse o quarto, a atacasse e a violentasse.

*

A casa estava imunda. Era um antro de criaturas repulsivas. Ratos, baratas e outros animais peçonhentos circulavam, livremente, de um lado para o outro, por toda a casa, que, meses antes, brilhava de tão limpa. Ariadne, antes, caprichosa, era quem conservava o brilho da casa, com faxina diária; agora não se incomodava com a imundície.

Num certo dia, a voz embargada, durante uma conversa com sua mãe, assim que ela lhe perguntou porque estava tão triste, disse-lhe:

– Mãe, o pai me estuprou.

Carmen alterou-se de imediato; furiosa, fungando, desferiu um tapa no rosto de Ariadne, que ficou apavorada com tal reação. Carmem esbofeteou-a, cuspiu-lhe ofensas. Ariadne não reagiu; sentiu a consciência dissipar-se. Não recuou, no início, tão surpresa com a reação de sua mãe, pois acreditara que dela ouviria palavras de consolo, afinal, ela, Carmen, era sua mãe, e, além disso, Clodoaldo a havia estuprado. Como os tapas, os socos e os insultos sucederam-se, avassaladoramente, protegeu-se com os braços e os antebraços, e impôs débil resistência. Carmem puxou-lhe os cabelos, forçou-a a curvar-se, e deu-lhe tapas nas costas e no rosto.

– Você, filha… Fala de seu pai… – repreendeu-a Carmen. – Não o calunie, filha ingrata. Ele trata tão bem você. Seu pai é um homem amoroso. Ele é seu pai, cadela. Cadela! Vagabunda! Por que você fala isso de seu pai? Por que você inventa essas histórias? Por que, ingrata? Vadia! Cachorra! Não admitirei que você calunie seu pai, filha ingrata. Ele sempre tratou tão bem você! Ele sempre foi amoroso com você! Cadela vagabunda! Por que você inventou essa história?

– Não inventei história… – defendeu-se Ariadne, aos prantos. – Eu disse a verdade; você sabe que eu disse a verdade. Ele… Ele… Eu, no banheiro… Ele… Ele entrou… Ele me agarrou… Ele me deu um murro… Ele… Ele… Mãe… Ele me jogou no chão… Deu-me um murro… Ele me forçou… Mãe, ele… Eu… Ele me ameaçou… Ele me disse… Se eu contasse… Ele me disse… Ele me mataria… Ele me disse…

– Mentirosa! Vagabunda! – berrou Carmen, que, furiosa, deu um tapa em Ariadne, arremessando-a sobre uma cadeira.

– É verdade, mãe – retrucou Ariadne, aos prantos, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Estou falando a verdade. Por que eu mentiria? Ele… Ele… – impediam-na de falar os soluços e o choro convulsionado. – Ele… Ele me ameaçou… Ele me estuprou… Ele…

– Cale a boca, vagabunda! – berrou-lhe Carmen, ao mesmo tempo que ameaçava dar-lhe um tapa. – Seu pai é um homem amoroso.

– Amoroso? Ele… Eu… Eu o vi batendo em você… – disse Ariadne, soluçando, gaguejando. – Ele deu murros na sua barriga, mãe… Com a vassoura… Ele quebrou seu nariz… Ele deu murros em você, mãe. Eu vi… Vi… Vi, um dia… na quarta-feira… ele… ele…  – mal podia falar; tremiam-lhe os lábios, convulsivamente. – Ele… Ele… Eu o vi… – Não pôde concluir a frase.

Carmen acertou-lhe, na cabeça, uma série de cinco socos. Ariadne, que já chorava, convulsivamente, agora, encolhida em posição fetal, no canto da cozinha, espremida entre a geladeira e a parede, a vibrar em espasmos de dor e de medo, chorava copiosamente, mal conseguindo respirar.

– Mentira! Mentira! Mentira! – esgoelava-se Carmen, enfurecida, enquanto esmurrava Ariadne. – Você nunca viu… Vagabunda! Nada aconteceu, filha ingrata! Cadela vagabunda! Seu pai nunca me bateu! Vagabunda! Suma da minha frente, filha ingrata! Seu pai é um homem amoroso! Pare de inventar essas histórias, vagabunda! Cadela! Vagabunda! Cadela! Piranha! Puta! Vagabunda! Você se ofereceu para seu pai, puta! Você o seduziu, vagabunda! Você se entregou para ele, puta! Puta! Você seduziu seu pai. Você se entregou para ele. Cadela! Vagabunda! Puta, suma da minha frente!

Ariadne mal conseguiu pôr-se de pé. Carmen, furiosa, olhos cheios de ódio, ergueu-a pelos cabelos, esbofeteou-a. Ariadne retirou-se da cozinha, cambaleando. Carmen arremessou-lhe um copo, acertando-lho nas costas. O copo estilhaçou-se. Ariadne, cambaleando, aos prantos, a chorar convulsivamente, andou pelo corredor até o seu quarto. Entrou. Fechou a porta, à chave. Deixou-se cair sobre a cama. Chorou, durante as seis horas seguintes, até adormecer. Do quarto retirou-se, com o rosto inchado, os olhos avermelhados, os cabelos despenteados, trajando camisa e calça amarfanhadas, ao amanhecer. Andou, sem rumo, pela cidade. Regressou, esfomeada, exausta, imunda, noite alta, entrou no quarto, trancou-o à chave, jogou-se na cama, e dormiu.

*

No seu quarto, sentada na cama, livro e caderno sobre as pernas cruzadas, um lápis na mão direita, Ariadne estudava para a prova de Matemática, marcada para o dia seguinte. Fazia alguns cálculos, recorria às explicações do livro, mordia a ponta do lápis, concentrada, de cenho franzido, nas questões propostas pela professora.

A porta abriu-se, de repente, com um golpe violento. Ariadne, assustada, os olhos esbugalhados, voltou-se para a porta, em cujo enquadramento viu, para o seu horror, Clodoaldo, que a fitava, bufando, ameaçador. Ondas de calafrio percorreram o corpo de Ariadne, que sentiu o sangue se lhe fugindo. Ariadne largou o lápis, encostou-se à cabeceira da cama, abraçou as pernas, enfiou a cabeça no espaço entre elas, e começou a gemer, a soluçar, a chorar, antecipando os eventos subseqüentes. Tremia, apavorada. Sabia o que lhe sucederia. Clodoaldo fechou a porta atrás de si, à chave, mirando Ariadne com olhos encolerizados, fisionomia carregada; andou até ela, e, num tom áspero, ameaçador, rilhando os dentes, disse-lhe:

– Cabacinha, você contou para sua mãe…

Ariadne tremia, balbuciava qualquer coisa, amedrontada.

– Cabacinha, você contou para sua mãe… – disse Clodoaldo, que se curvou sobre Ariadne, puxou-lhe, pelos cabelos, a cabeça. Dos olhos de Ariadne escorriam lágrimas copiosas, e seus lábios tremiam convulsivamente. – Não chore, queridinha do papai. Papai avisou você, fofinha, não avisou? Papai disse para você, vadiazinha, não contar para sua mãe, não disse? Papai está triste com a filhinha queridinha. Filhinha cabacinha é desobediente. Filhinha queridinha merece castigo. – Enquanto dizia-lhe isso, desabotoava-lhe a camisa. Ariadne estava paralisada pelo terror-pânico que a avassalava. Assim que, animada por alguma força oculta, principiou um grito, Clodoaldo, furioso, deu-lhe um soco na face esquerda, com tanta força, que Ariadne caiu, desacordada, o nariz a jorrar sangue. Clodoaldo, rilhando os dentes, resmungando maldições e obscenidades, rasgou-lhe as roupas, deitou-se sobre ela, e a estuprou. Após se satisfazer, não removeu o sangue que manchava os lençóis e o que enfeava Ariadne, abandonada, lá, como uma boneca imunda.

*

– Você… – gritou Carmen, com toda a força dos pulmões – … a Ariadne?

– Não – respondeu Clodoaldo, áspero. – Por quem você me toma? Sou um homem amoroso. Por que me pergunta se estuprei a Ariadne? Sou um homem amoroso, vadia.

Clodoaldo, fora de si, enraivecido, avançou para cima de Carmen, deu-lhe um forte tapa na face esquerda. Carmen caiu no chão. Não teve tempo nem de pensar em se levantar, pois Clodoaldo pulou sobre ela, surrou-a, rasgou-lhe as roupas, a pôs de bruços, e a sodomizou.

*

A casa estava imunda. Havia meses ninguém a varria, ninguém removia o pó que cobria os móveis e nem as teias de aranhas que se acumulavam em todo canto.

As aranhas criaram várias colônias, com dezenas de indivíduos em cada uma delas, em toda a casa. No chão, havia sujeiras de rato em todo lugar.

Insuportável o cheiro que empesteava a casa.

Eugênio, irmão de Ariadne, definhava a olhos vistos. Sofria nas mãos de sua mãe e nas de seu pai. Eles o surravam com freqüência, duas, três, quatro, cinco vezes ao dia. O seu corpo franzino não suportaria por muito tempo as surras que lhe eram aplicadas. Estava esquelético, cadavérico. O seu olhar, desprovido de vida. Vivia emudecido pelos cantos. Conversava e brincava com os ratos – os seus únicos amigos -, que lhe comiam nas mãos migalhas de pão, pequenos insetos mortos, legumes e verduras podres.

Ariadne não era mais aquela moça prendada que apreciava limpar a casa e conservá-la limpa para apresentá-la aos amigos. Vestia-se com desleixo. Não se aplicava nos estudos, como antes. Nas provas bimestrais, em Matemática, tirou 3,5; em Biologia, 2; em Língua Portuguesa, 1,5; Em História, 1; em Geografia, 1,5. A sua freqüência escolar, que era de 100% das aulas, despencou para 10%. Não se interessava, nem pelos estudos, nem pelos amigos – dos quais se afastou -, e não pensava mais na sua carreira, com a qual sonhava desde tenra infância. Perdeu a vontade de viver. Eugênio, três anos mais novo do que ela, tão estragado pelos castigos e pelos sofrimentos que seu pai e sua mãe infligiam-lhe, que aparentava oitenta anos mal vividos.

Ariadne não conversava com seu pai e nem com sua mãe – para eles nem olhava. Evitava-os. Provocava-lhe calafrios a  figura de seu pai; quando ele lhe descia o olhar, Ariadne tremia, incontrolavelmente, mesmo que não olhasse para ele. Era como se a sua pele queimasse, atingida pelas labaredas infernais que os olhos de Clodoaldo disparavam.

Indiferente ao estado deplorável da sua casa, Ariadne dela entrava e saía.

Ariadne abandonou os estudos. Não se interessava pelos livros. Desistiu dos seus sonhos. A oftalmologia era um assunto que não mais lhe despertava o interesse. Estabeleceu relações com ladrões, assassinos, traficantes de drogas. Envolveu-se com tráfico de drogas, estelionato, assaltos, seqüestros, contrabando de armas e prostituição. Vendia seu corpo para qualquer homem, para sustentar os seus vícios.

*

Eugênio vivia em meio às baratas, às lacraias, aos ratos, aos escorpiões e aos percevejos que infestavam o seu quarto, no qual ninguém, além dele e de Ariadne, entrava.

À noite de um sábado, após participar de um assalto a banco, consumir maconha, cocaína e crack, embebedar-se e protagonizar uma orgia sexual durante a qual estabeleceu o intercurso sexual com quatro homens, deles realizando todas as fantasias, Ariadne, vergando um vestido amarelo manchado de sangue, sêmen, bebidas, e salpicado de pós, entorpecida, andou, entrançando as pernas, tateando as paredes, pela casa, até o quarto de Eugênio, enquanto Eugênio dormia, abriu a porta, e entrou. Não se incomodou com as criaturas asquerosas que infestavam o quarto – já havia se familiarizado com elas. Aproximou-se da cama imunda em que Eugênio dormia profundamente, tendo ao lado duas ratazanas repulsivas e sobre o corpo aranhas grotescas e escorpiões, que se digladiavam.

– Eugênio – sussurrou Ariadne, curvada ao lado da cama, os joelhos pousados no chão.

Fitaram-na as ratazanas, as aranhas e os escorpiões.

Ariadne tocou Eugênio no ombro direito. Ele não acordou. Não se notava a sua respiração. A sua aparência, a de um cadáver. Eugênio exalava odor mefítico.

– Eugênio – disse Ariadne, ao mesmo tempo que o tocava no ombro.

Eugênio despertou, e voltou-se para Ariadne, que, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, colou seus lábios carnudos, sensuais, nos lábios dele, frios e descoloridos.

Retiraram-se da cama, escalaram a parede e acomodaram-se no teto, ao canto, as aranhas e os escorpiões.

Recolheram-se ao guarda-roupas as ratazanas.

*

– Vagabunda! Ariadne, você é uma vadia! Pervertida! – ofendeu-a Carmen, e desferiu-lhe dois tapas. Ariadne não reagiu. – Puta! Puta! Suma da minha casa, vadia. Bandida! Puta!

Duas ratazanas, exibindo dentes afiados, entraram na cozinha imunda e correram na direção de Carmen, que, ao vê-las, assustou-se, e pulou sobre uma cadeira. Ariadne exibiu, num contido sorriso de satisfação, seus lindos dentes brancos. Uma ratazana, a maior delas, deu um salto sobre a cadeira em que Carmen estava, avançou à perna de Carmen, e mordeu-a. Do ponto atingido escoou sangue em profusão. A outra ratazana, no chão, olhava, detidamente, para Carmen, sem dela tirar os olhos.

Assustada, a berrar, enlouquecida, Carmen deu um pulo, caiu sobre a cadeira, desequilibrou-se, e estatelou-se no chão. A ratazana que estava no chão pulou no rosto dela, e mordeu-o na comissura direita dos lábios. Sangue escapou do ferimento.

Ao ouvirem um agudo e quase inaudível assobio, as ratazanas afastaram-se de Carmen, e retiraram-se da cozinha. Era Eugênio, que, do seu quarto, as chamava. O olhar aterrorizado de Carmen encontrou-se com o de satisfação de Ariadne, que girou nos calcanhares, e foi para o quarto de Eugênio, no qual entrou, e trancou a porta à chave.

*

Às quatro horas da tarde de um sábado, Ariadne entrou na sua casa. Não se incomodou com a imundície. Sua mãe estava na cozinha. Entreolharam-se. Carmen leu, nos olhos de Ariadne, desprezo e superioridade. Ariadne passou por ela, e foi ao quarto de Eugênio. Entrou. Trancou a porta à chave. Retirou-se do quarto, no domingo, às nove horas da manhã, trajando um vestido que lhe realçava a formosura do corpo.

*

Enormes aranhas peludas andavam pelas paredes e pelo teto da casa. Ninguém as incomodava. Havia muito lixo acumulado no quintal onde o mato e as ervas daninhas dominavam. Havia centenas de colônias de escorpiões, ratazanas, aranhas e lacraias no quintal e dentro da casa.

Clodoaldo, embriagado, chegou em casa. A sua fisionomia, de dar arrepios. Engrolava as palavras. Resmungava, ciciando, palavras impronunciáveis, obscenidades e vitupérios. Empesteou a casa com o miasma que exalava. Na cozinha, sentou-se à mesa, e segurou a cabeça com as mãos, os cotovelos fincados na mesa. Trinta minutos depois, Ariadne chegou e deteve-se ao batente da porta que dava acesso da sala à cozinha.

Detiveram-se, e fitaram Ariadne e Clodoaldo as aranhas que passeavam pela parede.

– Cabacinha vagabunda! – berrou Clodoaldo. – Cabacinha, você não é minha filha. Vagabunda! Cabacinha, você vai se arrepender! Você não é minha filha, cabacinha! Vou fazer você engolir o seu sangue. Farei picadinho de você, vadia!

Ariadne fitou Clodoaldo com olhar de desprezo, meneou a cabeça, esboçou sorriso escarninho; com andar firme, a coluna ereta, fitando-o, imperiosa, passou por ele e entrou no quarto de Eugênio.

– Aranhas malditas! Aranhas malditas! – berrou Clodoaldo, num tom enraivecido; de sua boca escorria saliva tinta de sangue. Cuspiu sobre uma aranha, que correu, e saltou para a parede, deixando atrás de si um rastro gosmento. Uma aranha seguiu-a. E ambas desapareceram atrás da geladeira.

Clodoaldo tirou do pé direito o sapato, e jogou-o contra uma aranha, que o fitava, esmagando-a na parede. A aranha caiu no chão, em contorções espasmódicas. Clodoaldo, ao levantar-se, empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Furioso, agarrou-a por duas pernas, e quebrou-a contra a parede. Empunhando as duas pernas da cadeira, mirou uma aranha que andava na porta da geladeira. A aranha esquivou-se dos golpes. Do nariz de Clodoaldo escorria sangue apretejado da consistência de manteiga. Quatro aranhas pularam sobre Clodoaldo, e morderam-no, no rosto, no braço esquerdo, no pescoço, e na cabeça, próximo da orelha direita. Clodoaldo caiu, escabujando. Soltou sangue pela boca, pelas narinas, pelas orelhas e pelos olhos. Pousou as mãos sobre o peito esquerdo, apertando-o num esforço para manter o coração dentro do peito. Seu corpo assumiu consistência rochosa. Carmen ouviu os gritos abafados de Clodoaldo, e correu a acudi-lo; dele afastou as aranhas. Estava transtornada, estupefata. Não acreditava no que via: o seu marido a escabujar, a expelir sangue por todos os orifícios do corpo, a cuspir jorros de sangue apretejado com saliva amarelo-esverdeada, a balbuciar palavras inaudíveis. Debruçou-se sobre ele, e pousou-lhe as mãos no rosto.

– Marido amoroso – sussurrou-lhe, apavorada.

Ariadne e Eugênio, no quarto de Eugênio, fingiam que nada ouviam. Extraíam prazer um do outro. E quanto mais elevados os lamentos de Carmen, mais prazer eles desfrutavam.

Os lamentos de Carmen e os gemidos de Clodoaldo eram afrodisíacos para Ariadne e Eugênio.

*

Clodoaldo ficou dois meses internado no hospital. Extraíram-lhe o veneno que as aranhas lhe haviam inoculado.

– Não entendo – disse o médico. – Não entendo, dona Carmen. As aranhas injetaram no seu marido veneno suficiente para matar vinte homens do tamanho dele. Não entendo. É estranho. O seu marido esteve em vias de partir desta para a melhor. Mas… Não sei o que dizer para a senhora… Confesso: este caso merece mais atenção; não posso explicá-lo. Todos os médicos os quais consultei ficaram, do mesmo modo que eu, estarrecidos; alguns deles, impressionados, embora habituados com fatos inexplicáveis, incrédulos, desconfiados, perguntaram-me se eu lhes pregava uma peça. Na mente deles associaram-se, para atormentá-los, a incredulidade e o fascínio. Não sei se me expresso com as palavras apropriadas. Peço desculpas, dona Carmen, se não me explico com clareza… Bem, dona Carmen, o seu marido convalesce. A senhora poderá levá-lo para casa… A senhora acredita em milagres? Na ausência de explicações… Não entendo… Não há explicações científicas para o caso do seu marido, dona Carmen. É inexplicável. Foi um milagre, posso dizer. Foi um milagre…

Carmen ouviu-o, em silêncio, mas não prestou atenção ao que ele lhe disse, pois olhava para uma minúscula aranha, que, do teto, a fitava, atentamente.

*

Assim que regressou à sua casa imunda infestada de criaturas repulsivas, que passeavam, livremente, pelo chão, pelo teto, pelas paredes, Carmen dirigiu-se ao seu quarto, no qual, embora imundo, nenhuma criatura entrava. Ela sabia que, se não incomodasse Ariadne e Eugênio, nenhum escorpião, nenhuma aranha, nenhuma ratazana, nenhuma lacraia a atacaria. Deitou-se na cama imunda. Exausta, o sono a surpreendeu. Berros ensurdecedores despertaram-na dez minutos depois. Sobressaltada, ouviu as obscenidades cuspidas por um homem. Sonolenta, a mente entorpecida pelo sono bruscamente interrompido, apurou os ouvidos. Chegaram-lhe aos ouvidos a voz cavernosa de um homem e a voz atrevida e provocadora de uma mulher, Ariadne.

O homem, um sujeito de má catadura, facínora, que atendia pela alcunha de Tigre, cuspia obscenidades, e empunhava uma faca cuja extremidade, afiadíssima, encostava à ilharga direita de Ariadne, ferindo-a. Tigre não atentou para a imundície e as criaturas repulsivas que infestavam a casa. Lambeu a orelha direita de Ariadne. Apalpou-lhe a nádega esquerda, apertou-a e nela cravou as grossas unhas sujas. Mordeu-lhe o lóbulo da orelha direita, puxando-o, ao mesmo tempo que lhe passeou, por entre as nádegas, o índex e o médio, e enfiou-lhe, na ilharga, a faca, extraindo-lhe sangue, que lhe escorreu pelo corpo e manchou-lhe o vestido. Ameaçou violentá-la e matá-la.

No seu quarto, Carmen ouvia o que se passava entre Ariadne e Tigre. Percorreram-lhe o corpo ondas de calafrio. A porta do quarto estava entreaberta. Carmen viu Tigre desferir, com o dorso da mão esquerda, um tapa no rosto de Ariadne, e, com as duas mãos e o peso do próprio corpo, empurrá-la sobre o sofá. Apavorada, recolheu-se ao canto do quarto, e conservou-se em completo silêncio.

Tigre esmagou, involuntariamente, dois escorpiões.

Aranhas, escorpiões, lacraias, baratas, ratazanas, acompanharam, atentamente, todos os movimentos de Tigre e Ariadne. Prepararam-se para saltar sobre Tigre, que esbofeteava Ariadne, cuspia-lhe obscenidades e ameaçava matá-la, se ela resistisse. Com Ariadne de costas para si, Tigre mordeu-lhe o pescoço; com a mão esquerda, ergueu-lhe o vestido, e, com a direita, apertou-lhe o peito. Ariadne não reagiu. Havia visto as criaturas repulsivas na sala; sabia que, bastaria um sinal seu, que todas elas saltariam sobre Tigre.

Tigre desafivelou o cinto, desceu o zíper, e abaixou a calça e a cueca.

Ariadne cerrou as pálpebras.

Dez escorpiões saltaram às pernas de Tigre, que se empinou, olhou para baixo, e os viu. Antes que pudesse emitir um grito de pavor, um escorpião cravou-lhe o ferrão no pênis. Tigre afastou-se de Ariadne. Quis gritar. Não conseguiu, tão insuportável lhe era a dor. Brandiu a faca, e soltou-a no chão. Movia-se com gestos bruscos. Soltava saliva gosmenta pela boca escancarada. Urinou sangue. Defecou fezes inconsistentes, que lhe borraram as pernas peludas. Ariadne recompôs-se. Aranhas cobriram-lhe o ferimento, estancando-lhe o sangue. Ratazanas lamberam-lhe o sangue que escorria pelas pernas e o que lhe manchava o vestido. Um escorpião feriu a mão direita de Tigre. Outro saltou-lhe à perna, escalou-a, e forçou-se para dentro do ânus dele. Tigre, imóvel, a boca escancarada, circunvagou os olhos pela sala; viu centenas de escorpiões, aranhas, ratazanas, lacraias e serpentes avançando em sua direção. Ariadne, serena, impassível, deliciava-se com o cenário, lambia os beiços, a desfrutar de prazer inconcebível.

Aranhas atiraram teias sobre Tigre, que se debatia. Escorpiões o escalaram. Ratazanas, lacraias, baratas e serpentes morderam-lhe as pernas. Aranhas pularam sobre Tigre. Serpentes enrodilharam-se-lhe às pernas, e afastaram uma da outra. Tigre perdeu o equilíbrio. Ratazanas atacaram-no e morderam-lhe o rosto, os braços, as pernas, as nádegas, a barriga. Tigre caiu. As criaturas repulsivas cobriram-no e abafaram-lhe os berros. Penetraram-lhe o corpo por todos os orifícios, e começaram a devorar-lhe a língua, os lábios, os olhos, os pés e as mãos.

Ariadne, inexpressiva, assistiu ao horripilante espetáculo.

As criaturas devoraram Tigre, de quem não sobrou nem os ossos, em menos de dez minutos, e retiraram-se da sala.

Escorpiões carregaram o revólver, a faca, a fivela da cinta, os dois anéis de ouro que Tigre trazia no dedo médio da mão direita e a pulseira reluzente até Ariadne, que os pegou, e, duas horas depois, deles se desfez por um bom preço.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Tigre. As pessoas que o viram entrando na casa de Ariadne e não o viram de lá se retirar nada disseram a respeito.

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Carmen perdeu a sanidade. Errava pelas ruas. Esbravejava. Relatava histórias absurdas – muitas delas verdadeiras. Falava da sua casa, de sua filha, de seu filho, do seu marido, dos ratos, escorpiões, baratas e aranhas que infestavam a sua casa. Relatou, com pormenores, o ataque das aranhas a Clodoaldo e a morte de Tigre. As pessoas que a ouviram não lhe deram atenção. Para elas, Carmem era uma louca e tinha de ser internada num hospício. Dela zombavam, ridicularizavam-na; dela espalharam histórias estapafúrdias. Certo dia, Carmen desapareceu, e dela ninguém nunca mais ouviu uma notícia.

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Clodoaldo regressou à sua casa. Com passos pesados, cenho carregado, foi até a cozinha, onde Ariadne e Eugênio, à mesa, conversavam, animadamente, e deteve-se a dois metros de Ariadne, estupidificado com o que viu: Sobre a mesa, três ratazanas; nas paredes e no teto, escorpiões e aranhas a caminhar livremente; no chão, centenas de baratas e lacraias; ao colo de Ariadne, uma aranha peluda, e Ariadne a acariciá-la e a osculá-la carinhosamente; ratazanas grotescas nos braços e nos ombros de Eugênio e na sua cabeça cadavérica de olhos projetados para fora das órbitas.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo. Ariadne ignorou-o.

Um escorpião escalou as costas de Ariadne, e subiu-lhe à cabeça. Clodoaldo arregalou os olhos.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, enraivecido, fitando-a com olhos sinistros.

Ariadne não lhe deu atenção; ignorou-o como se não o visse, como se não o ouvisse. Gargalhava. Brincava com as aranhas, que a acariciavam.

Clodoaldo deu dois passos na direção de Ariadne. Puxou-lhe o vestido de tecido fino, que não resistiu ao puxão, e rasgou-se. A aranha que estava nas mãos de Ariadne atirou teia sobre a mão direita de Clodoaldo. As ratazanas que brincavam com Eugênio e o escorpião que se encontrava sobre a cabeça de Ariadne encararam Clodoaldo. Eugênio rilhou os dentes e, com seus olhos sinistros, fitou Clodoaldo, que não lhe deu atenção.

– Você é surda, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, aos berros, para Ariadne. – Cabacinha, perguntei onde está sua mãe – e puxou-lhe o vestido. Ariadne levantou-se, altiva. Clodoaldo puxou-lhe, novamente, o vestido, desnudando-a, e agarrou-a pelo pescoço, com a mão direita, enquanto apertava-lhe, com a mão esquerda, o peito esquerdo. – Você não quer me contar, cabacinha vadia, onde está sua mãe? Vagabunda, você não quer me contar onde está sua mãe? Então, vou arrancar as suas entranhas – e empurrou-a sobre a mesa, e debruçou-se sobre ela. De seus olhos chispavam labaredas de ódio; de sua boca escapavam perdigotos, que queimavam o corpo de Ariadne, ao atingi-lo. Clodoaldo assemelhava-se a mitológicos monstros flamívomos que aterrorizavam os povos antigos.

Milhares de escorpiões, aranhas, baratas, lacraias e ratazanas pularam sobre Clodoaldo, o cobriram, e, antes de ele esboçar um protesto, o devoraram.

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Ariadne e Eugênio viviam com os escorpiões, as aranhas, as lacraias, as ratazanas e as baratas.

Na casa imperava a imundície.

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No teto do quarto de Ariadne, ao canto, uma imensa bola de teia de aranha. No chão da cozinha, um enorme ninho de rato.

Numa noite de frio rigoroso, Ariadne rompeu o envoltório de teia e, nua, desceu do teto para o chão.

Na cozinha, Eugênio despertou e, nu, saiu, guinchando, do ninho.

Ariadne foi até Eugênio, envolveu-o com uma bola de teia e, com voracidade, o devorou.

De Eugênio não sobrou nem uma gota de sangue.