O golpe

Teodoro, empresário bem-sucedido, proprietário da TSS Empreendimentos, granjeou, em mais de trinta anos de estudos e trabalhos exaustivos, reputação de homem honesto, dedicado à família e ao trabalho, e fortuna invejável. Respeitado e admirado, adquiriu ascendência moral sobre muitos profissionais. Dotado de raro espírito empreendedor e de determinação incomum, superou as dificuldades intrínsecas à sua origem social. Ignorou a descrença das pessoas que lhe diziam que ele, pobre, tinha de contentar-se com a pobreza porque ‘quem nasceu para tostão não chegará a vintém’. Determinado a enriquecer-se e oferecer conforto para seu pai e sua mãe, estudou e trabalhou, com seriedade ímpar, e progrediu, numa vida repleta de altos e baixos, de fracassos fragorosos e de sucessos retumbantes, sem jamais desanimar, sem jamais pensar em desistir dos seus sonhos – e sempre com os pés no chão -, até erigir um conglomerado empresarial multimilionário.

Seu pai sonhava com uma viagem aos Estados Unidos, para conhecer o Grand Canyon que via nos filmes de faroeste que tanto admirava. Sua mãe sonhava com a Itália; desejava conhecer Nápoles e Florença. Ambos, admiradores de Beethoven, desejavam conhecer a Áustria. Teodoro prometeu, para si mesmo, entregar, um dia, para seu pai e sua mãe, passagens de avião, em primeira classe, para as cidades que eles desejavam conhecer, e pagar-lhes hospedagem nos melhores hotéis. Cumpriu a promessa antes de assoprar as velas do seu trigésimo aniversário, quando já havia amealhado fortuna calculada em cinco milhões de reais.

Nunca envergonhou-se, nem no auge da sua riqueza, aos cinquenta anos de idade, da sua origem simples, desprovida de conforto material. Nunca alimentou sentimento de desprezo pelo seu pai e pela sua mãe. Amava-os. Aquele casal de pessoas analfabetas o educou, com amor e carinho, o apoiou quando ele se lançou em empreendimentos arriscados, o aconselhou a agir com prudência e sabedoria.

De seu pai e de sua mãe Teodoro nunca ouviu censuras injustificadas, reclamações e conselhos acovardados. Deles sempre ouviu palavras firmes, lições edificantes que o encorajavam, que o animavam a nunca desistir dos seus sonhos.

Teodoro narra, para quem o deseja ouvir, episódios encantadores da sua infância e juventude livres, e, com pormenores chocantes, os capítulos horríveis das privações pelas quais passou – mas não o faz em tom de lamúria, e tampouco a destilar ódio à sociedade. Narra-os para engrandecer as suas conquistas, para enobrecer o nome de seu pai e o de sua mãe, para ilustrar aos seus interlocutores a difícil vida de uma parcela da população brasileira. Muitos dos seus interlocutores, no início, enquanto o ouvem, incrédulos, certos de que ele exagera no tom, com o propósito de comovê-los, rejeitam o que ouvem, mas, tão vívida a memória de Teodoro, persuadem-se de que ouvem relatos que traduzem, com exatidão, a infância e a juventude dele e as das outras pessoas com quem ele convivia. Teodoro alegra-se ao ver que a sua história e a história de sua família e a de amigos inspiram outras pessoas a estenderem as mãos aos desamparados.

Teodoro é um idealista. Para formular os seus ideais, ele, em nenhuma doutrina religiosa se inspirou, nem em um sistema filosófico, tampouco em uma teoria econômica e em uma teoria política. Os seus ideais, fruto da educação que recebeu de seu pai e de sua mãe, nasceram de uma crença sincera no valor humano e no direito de os humanos viverem plenamente a vida e usufruírem de todos os prazeres que ela oferece. Ao contrário dos idealistas aferrados aos sistemas de pensamentos e às teorias políticas, Teodoro jamais impôs os seus ideais às outras pessoas, principalmente àquelas às quais ele estendeu as mãos para ajudar. Dotado de espírito democrático, e utopista, não inseriu, na sua concepção de utopia, os infalíveis elementos das utopias concebidas por intelectuais: governos autoritários que subjugam os indivíduos, que não passam ou de escravos ou de autômatos acéfalos. Na utopia de Teodoro não há espaço para um governo central opressor, nem doutrinas de qualquer tipo; nela, os indivíduos são plenamente livres. Poder-se-ia dizer que Teodoro era uma pessoa que vive com a cabeça nas nuvens. Tal apreciação não corresponderia à realidade, pois ele, dotado de inteligência prática invejável, tem a cabeça nas nuvens, sim, mas anda com os pés no chão.

*

Apresentado Teodoro, relato um capítulo da sua vida.

Há dez anos, Teodoro deu início a uma sequência de equívocos que o fez cometer injustiça contra um dos seus funcionários, ao julgá-lo e condená-lo sem dar-lhe direito à defesa.

Teodoro envergonha-se, sinceramente arrependido, da injustiça que cometeu. Nunca escondeu de seus familiares e amigos os seus erros. Jamais se negou, quando indagado, a narrar, com pormenores ilustrativos, o episódio. Ao narrá-lo, nunca distorceu o papel que protagonizou. O episódio, do qual se envergonha, sinceramente arrependido, ele, ao narrá-lo, o apresenta como um exemplo de injustiça, que qualquer pessoa, baseando-se em suspeitas infundadas, é suscetível de cometer, ao julgar o caráter de outra pessoa. Com sinceridade constrangedora, fala dos seus erros para todas as pessoas que se dispõe a ouvi-lo. Nota-se, no seu tom de voz, forte, e na pronúncia das palavras, correta, sinceridade e constrangimento, e, no olhar, vergonha, arrependimento e coragem de expor-se. Nunca disse que agiu por instinto, e, portanto, não teve consciência dos seus atos, ou que, ao perder, momentaneamente, a razão, cometeu a injustiça. Narra, para seus filhos, para os quais nunca se apresentou como pai perfeito, que eles têm de, obrigatoriamente, reverenciar, o episódio com as mesmas tintas que o narra para todas as outras pessoas. Com invejável sentimento de justiça, apresenta o espírito de cada um dos três protagonistas – Teodoro, Ulisses e Raul – com correção.

Para a reconstituição dos eventos que compõem tal episódio, no desejo de apresentar um relato imparcial, ponderei, e considerei os testemunhos de Teodoro, Ulisses, Raul e os de alguns outros personagens envolvidos.

Não considerei os relatos de pessoas que não participaram diretamente dos eventos aqui narrados.

Nenhum vínculo possuo com os três protagonistas, e eu os desconhecia até o momento que com eles entrei em contato para reunir informações para este relato. Suprimi as informações desencontradas. Busquei, na medida do possível, dar coerência e consistência ao relato. Os três principais envolvidos na história poderão apresentar as suas observações, e contestarem-me se assim o desejarem, e se entenderem que a maneira como eu os retratei não corresponde à realidade e os prejudica. Saibam, aqueles que se pronunciarem contrários ao meu relato, que todas as contestações serão analisadas, e não serão levadas em consideração se não houver provas que as sustentem.

A TSS Empreendimentos, em franco progresso, ao dar início às suas atividades internacionais, com uma filial nos Estados Unidos e uma na Índia, passou por um processo de reformulação do organograma. Teodoro e os integrantes da diretoria da TSS Empreendimentos assimilaram novos e modernos conceitos empresariais, certos de que, atuando, com desenvoltura, em um mercado de dimensões consideravelmente maiores do que o com o qual se depararam até então, poderiam alcançar o sucesso almejado. A concorrência, mais agressiva, voraz e desafiadora do que a nacional, impor-lhes-ia novas exigências, e a TSS Empreendimentos, para não sucumbir aos concorrentes, teve de ser reformulada para a adoção de modernas técnicas de produção. Todos os trabalhadores foram treinados nas novas técnicas, e profissionais gabaritados, formados nas melhores universidades do mundo, com experiência internacional, foram contratados a peso de ouro.

Teodoro conheceu vários profissionais extraordinários. Selecionou os melhores dentre eles. Dentre os selecionados, dois destacaram-se: Ulisses e Raul. Teodoro lhes fez propostas irrecusáveis. Ulisses e Raul, profissionais experientes e astutos, iriam, antevia Teodoro e os diretores da TSS Empreendimentos, gerar grande lucro para a empresa. Ambos, de inteligência prática comprovada, dotados de raro vigor intelectual, ganharam, em pouco tempo, o respeito de Teodoro e dos diretores da TSS Empreendimentos. Ambos, ambiciosos, almejavam a presidência da empresa. Não ocultaram, nem de Teodoro, o que pensavam, o que almejavam; e Teodoro não os censurava; e a rivalidade entre eles não passou despercebida de Teodoro, que não os reprovava, e também não os incentivava a lutarem entre si pela presidência da empresa, pois, sabia, se os incentivasse a lutarem entre si, exacerbaria sentimentos que os conduziriam à destruição, cada qual, da sua carreira, além de prejudicar, com conflitos abertos – ou silenciosos, como numa Guerra Fria -, a empresa, pois estimularia desavenças entre os funcionários, que se reuniriam em dois grupos hostis. Não desejava converter a TSS Empreendimentos em uma terra sem lei, nem rei. Teodoro não inibiu Ulisses e Raul. Não os impediu de desafiarem-se um ao outro, de se provocarem, com alfinetadas polidas. A rivalidade entre eles, sabia Teodoro, se corretamente estimulada e administrada, redundaria em ganhos consideráveis para a TSS Empreendimentos. De nenhum dos dois Teodoro admitiria golpes desleais e artifícios desonestos. Estudou o comportamento deles, e os manipulou, em benefício da TSS Empreendimentos. Qualquer passo em falso, sabia Teodoro, faria com que eles reagissem de modo a prejudicar a empresa.

Certo dia, chegou aos ouvidos de Teodoro uma notícia perturbadora: ou Ulisses, ou Raul, um deles, ou os dois, planejava removê-lo, com um golpe traiçoeiro, da presidência da TSS Empreendimentos. Tal objetivo seria concretizado com o apoio de acionistas. Teodoro, num primeiro momento, incrédulo, rejeitou a notícia. Entretanto, o seu senso de realidade, a sua capacidade de ignorar os seus sentimentos e os seus desejos fê-lo pedir mais detalhes sobre a postura de Ulisses e de Raul à pessoa que lhe levara a perturbadora notícia. E o que ouviu estarreceu-o. Nesse dia ele reconheceu, para seu infortúnio, que possuía víboras peçonhentas bem próximas de si e que havia sido ele, Teodoro, que havia aberto a porta da TSS Empreendimentos para elas. Convenceu-se que a sua imprevidência custar-lhe-ia caro. Mas quem seria o traidor? Ulisses? Raul? Ou os dois? Pensava: “Quem quer me remover da presidência da minha empresa? Quem me prepara um golpe traiçoeiro? Ulisses? Raul? Ulisses e Raul? Quem prepara o terreno para eles? Tenho de desconfiar de qual deles? Posso confiar em um deles? Não me agrada a minha situação. Tenho de suspeitar de duas pessoas que admiro e respeito. Ulisses e Raul são inteligentes, espertos, astutos. Não os subestimo. Guardarei comigo as minhas suspeitas. Irei investigá-los. Se eu der um passo em falso, eles perceberão que os observo, e, ou mudarão de estratégia, ou adiarão os próximos atos, até encontrarem o momento propício para me encaixarem um golpe certeiro, e me derrubarem. Eles não me concederão nenhuma chance ou para eu me defender, ou para eu me antecipar ao golpe que me preparam. O que farei? Mantê-los-ei próximos de mim? Não modificarei as minhas atitudes. Agirei como sempre agi. Se Ulisses e Raul estão unidos contra eu, enfraquecerei a união deles, ou, o que me será melhor, destruí-la-ei. Se Raul é o meu adversário, usarei Ulisses contra ele; se Ulisses é o vilão desta história, jogarei Raul contra ele. Mas… Ronda-me uma ameaça… Poderei, certo de que faço em meu favor, jogar Raul contra Ulisses, e Raul, mais tarde, revelar-se tão perigoso quanto Ulisses, ou até mais perigoso do que ele. E se eu jogar Ulisses contra Raul? Ou devo lançar Ulisses contra Raul e Raul contra Ulisses… Jogarei um contra o outro… Que os dois engalfinhem-se, destruam-se. Terei a paciência de Jó, a sabedoria de Salomão e a astúcia de Odisseu. Serei pragmático, realista, frio, calculista. Estou entre inimigos, em uma guerra pelo domínio da minha empresa. Tenho experiência e inteligência suficientes para saber que estou pisando em terreno minado. Não me distrairei, nem por um milionésimo de um milionésimo de um milionésimo de um segundo.”

Teodoro estabeleceu, com pessoas da sua confiança, meios de detectar as artimanhas de Ulisses e Raul, na hipótese de que ambos, unidos, jogavam, com deslealdade, contra ele, Teodoro, que a nenhum dos seus subordinados desejava entregar a presidência da TSS Empreendimentos – estava estabelecido que ele conservaria consigo a presidência da empresa até a sua aposentadoria compulsória, aos setenta anos, e assumiria a presidência do conselho consultivo.

Transcorreram-se os dias. Teodoro assistiu à deterioração do relacionamento de Ulisses e Raul – que nunca havia sido amigável; eles nunca se entenderam; as provocações recíprocas eram, conquanto ferinas, polidas. O respeito que dedicavam um ao outro decorria de cálculo frio, não de um sentimento sincero de respeito e consideração. À medida que transcorriam-se os dias, Ulisses e Raul, percebia Teófilo, trocavam farpas agudas e comentários maldosos, em alguns casos com o dedo em riste na cara de um e de outro. Tais demonstrações de desprezo recíproco sucediam-se, com o passar dos dias, a intervalos mais curtos. Ofendiam-se Ulisses e Raul, sem meias-palavras. Eram diretos e ríspidos. Disparavam suspeitas sobre a honestidade, o talento profissional e a sexualidade, e sobre a fidelidade das esposas, e sobre a honestidade, a sexualidade e o caráter dos filhos. Teodoro surpreendeu-os, em mais de uma ocasião, imersos em discussões acaloradas. Perguntava-se se Ulisses e Raul eram, efetivamente, rivais viscerais, inimigos umbilicais, ou se desejavam confundi-lo, induzindo-o a aliar-se a um deles, contra o outro – e Teodoro aliar-se-ia a um seu inimigo contra outro inimigo, enfraquecendo-se; se Teodoro revelasse os seus pensamentos, ou para Ulisses, ou para Raul, crente que ele era seu aliado, poderia vir a ser por ele surpreendido, e seria arrasado. Desconfiado, Teodoro não buscou aliança nem com Ulisses, nem com Raul.

Meses depois, Teodoro convenceu-se que Raul e Ulisses eram hostis um ao outro. Teodoro sabia que eles eram ambiciosos e almejavam a presidência da TSS Empreendimentos. Mas qual deles era profissional leal e qual era traiçoeiro e desleal? Teodoro empenhou-se em descobrir quem lhe era leal, ou, se não lhe era leal, agia, como profissional, respeitando as normas da TSS Empreendimentos, preparando-se para, um dia, assumir dela a presidência, e quem lhe era desleal e planejava arruiná-lo. Compreendia os seus subordinados. Sabia que ambos eram ambiciosos. E os admirava. Teodoro também era ambicioso. E não se censurava. Para ele, a ambição, ao contrário do que dizem muitos moralistas, é uma virtude, e não um vício. Não tinha ele porque se reprovar, e porque reprovar Ulisses e Raul. Admirava-os. Respeitava-os. Tinha ciência de que a TSS Empreendimentos progrediu porque pessoas ambiciosas – Teodoro, Ulisses, Raul e centenas de outros profissionais – trabalharam para ela. Desejava Ulisses e Raul na folha de pagamentos da TSS Empreendimentos por muitos anos. Mas, se eles agiam com deslealdade, com desonestidade, puni-los-ia com rigor.

Certo de que Ulisses e Raul não eram aliados, Teodoro esforçou-se por descobrir qual deles preparava-lhe o golpe traiçoeiro. Ulisses? Raul? Se descobrisse que Raul era o seu inimigo, Teodoro poderia confiar em Ulisses e aliar-se a ele? Se descobrisse que Ulisses era o seu inimigo, Teodoro poderia confiar em Raul e aliar-se a ele?

Teodoro não dava a entender que desconfiava de Ulisses e de Raul, e reunia informações a respeito deles. Não deixava escapar de si nenhuma evidência que pudesse levá-lo à resposta para a pergunta: Quem é o meu inimigo: Ulisses ou Raul?

Teodoro não descobriu quem era o seu inimigo; no entanto, acreditou, dissuadiu-o do golpe, e ao não identificar o seu inimigo, sabia, a ameaça continuaria a pairar sobre a sua cabeça. E previu que ou Ulisses, ou Raul, arquitetaria outro golpe, e preparou-se para recebê-lo, e revidá-lo, se fosse o caso, ou antecipar-se ao seu inimigo, e destroçá-lo; se a ele não se antecipasse, desgastar-se-ia, debilitar-se-ia, e ficaria vulnerável ao ataque de um rival de pouca expressão, pois, sabia, fragilizado, atiçaria a ambição de muitas pessoas que aguardavam, pacientemente, por um momento propício para pôr as garras de fora.

Sempre que conversava com Ulisses e Raul, punha-se de sobreaviso, calculava as palavras que dizia, atentava para as palavras que lhe diziam, e procurava identificar os interesses subjacentes a elas. Não podia dar um passo em falso. Até quando manteria a mente fria, os pensamentos ordenados, concentrado no seu trabalho e, ao mesmo tempo, agiria, sem cometer um deslize que alertasse ou Ulisses ou Raul? Não sabia até quando suportaria a pressão. Previu que, logo, alguém cederia, ou ele, Teodoro, ou Ulisses, ou Raul.

Teodoro reuniu novas evidências. Estudou-as. Convenceu-se de que Ulisses era o seu inimigo. Ele, áspero no trato, com atitudes esquivas, agressivas, evasivas, hostilizava-o. Teodoro concluiu que ele notara que o investigavam e sabia que ele, Teodoro, criava-lhe obstáculos para impedi-lo de ascender à presidência da TSS Empreendimentos. Ulisses desrespeitava Teodoro, abertamente. Desprezava-o. Desdenhava-o. Intransigente, procurava impor as suas idéias. Exibia os seus pendores inquisitoriais. Raul, por sua vez, era afável com Teodoro. Com ele se reunia, com freqüência, para tratar de assuntos do interesse da empresa. Assumiu incumbências que eram de Teodoro, livrando-o de compromissos indesejáveis. Era claro, direto, eloquente, espirituoso, prestativo. Tinha a amizade e o respeito e a consideração dos funcionários. Era diplomático. Nas reuniões, pronunciava-se, sempre, com tranquilidade, ponderação e elegância. Transparecia lealdade e franqueza.

Considerando-se unicamente as descrições de Ulisses e de Raul apresentadas no parágrafo anterior, concluir-se-ia que Teodoro, sem hesitar, decidiria: Demitiria Ulisses e aliar-se-ia a Raul. As descrições, em retrospectiva, dão a impressão de que todas as respostas estavam ao alcance das mãos de Teodoro. Teodoro, assim que se convenceu de que Ulisses era o seu inimigo, não se aliou a Raul, pois, suspeitava, ele lhe escondia os seus verdadeiros propósitos; além disso, a mudança do comportamento de Ulisses talvez fosse causada por problemas pessoais que Teodoro ignorava.

Raul acumulava, a cada dia, mais poder na TSS Empreendimentos. No trato com Teodoro era mais livre, mais aberto; e dele tornou-se confidente.

Ulisses, intransigente e intragável, com Teodoro era ríspido e grosseiro. Teodoro, por sua vez, com ele não tratava de assuntos importantes. Hostilizava-o. Sonegava-lhe informações imprescindíveis ao correto exercício do trabalho dele, prejudicando-lhe a reputação. Resultado: Ulisses enfraqueceu-se. Em contrapartida, Raul fortalecia-se, e concentrou muito poder em suas mãos; um dia, o seu poder rivalizou-se com o de Teodoro, e, na cabeça de Teodoro, disparou alarme estridente. Teodoro se viu indagando que loucura cometia ao oferecer tanto poder a Raul, e, apreensivo, reconheceu que se enfraquecia ao enfraquecer Ulisses e fortalecer Raul, que, paciente e sorrateiramente, solapava o chão sobre o qual ele, Teodoro, pisava.

Um relatório de um escritório de consultoria empresarial e um de um escritório de auditoria convenceram Teodoro de que Raul manipulava dados em seu próprio benefício.

Teodoro não entendeu como pôde ser tão ingênuo a ponto de não perceber o que ocorria ao seu redor. Convocou uma reunião, e expôs para a diretoria o conteúdo dos relatórios. Enquanto exibia os gráficos, as tabelas, os organogramas, os documentos, as assinaturas, todos voltaram-se, estupefatos, para Raul, que, lívido, os olhos esbugalhados, suando nas têmporas, o rosto suplicante, dava a entender que não compreendia o que ouvia.

Encerrada a exposição dos relatórios, Teodoro fitou Raul, que, intimidado, disse:

– É ultrajante. Nos relatórios, inverdades. Nunca assinei tais documentos. Nunca autorizei tais transferências de dinheiro. Nunca negociei com Hugo Ugo, que, sei, é uma empresa de fachada. Nunca…

– Cale-se! – interrompeu-o Teodoro, com um grito seco. – Nada do que exibi é verdade? Dois escritórios conceituados estudaram a empresa e ambos revelaram que você, além de desviar uma boa soma de dinheiro da empresa para a sua conta no exterior, pretendia induzir-me a cometer erros que me removeriam da presidência da minha empresa. Você se atreve a dizer, com toda a desfaçatez do mundo, que os relatórios não revelam as suas falcatruas, as suas maquinações? De quem são estas assinaturas? Além de você, quem tem acesso às informações privilegiadas do seu departamento? Quem tem as senhas das contas, Raul? Apenas você as tem. Cometi um erro, um erro grosseiro, um erro imperdoável: confiei em você. Não persistirei no erro. Você há de me pagar caro pela traição. Você não fez jus à confiança que em você depositei. Você há de me pagar caro. Você se apresentou como profissional nobre, leal, respeitável, honesto, irrepreensível. Enganei-me… Você me enredou nas suas artimanhas. Você me golpearia pelas costas, e me derrubaria, e me destruiria… Não se faça de inocente, Raul. Não se atreva a ofender a minha inteligência. Você pagará caro. Eu a me enredar nas suas artimanhas… Forneci para você a munição que você pretendia usar para me atacar e me destruir! Confiei em você… Você me afagou o ego. Bajulou-me… Fez-se de amigo! Fez-se de leal! Fez-se de profissional acima de qualquer suspeita! E eu a engolir… Um afago no ego… Envaidecido, deixei-me embrulhar. Dê adeus à sua carreira, Raul. Você pagará caro! É constrangedor! Confiei em você, e você a me preparar um golpe traiçoeiro. Você e a sua corja! Você não tem palavras para usar em sua defesa, Raul. Não ouse abrir a boca para falar, seja o que for, em sua defesa… Você é desprezível… Você… Você é desprezível… Desprezível! Você está demitido, Raul. Demitido! Demitido! Você há de pagar caro! Já falei com o diretor do departamento jurídico. Ele falou com os advogados, e tomará as providências cabíveis ao caso. Você pagará caro! Retire-se da minha sala. Retire-se da minha empresa.

Raul, cabisbaixo, ombros curvados, passos vagarosos, arrastando os pés, caminhou até à porta, e deteve-se. Ergueu a cabeça. Encheu os pulmões de ar, e esvaziou-os de uma só vez. Segurou a maçaneta, e girou-a, e abriu a porta. Com passos firmes, retirou-se da sala, e fechou a porta atrás de si.

*

– Papai, há um homem lá fora – disse Vladimir para Raul. – Ele disse que quer conversar com você.

Raul, que podava a roseira, abandonou a tesoura, e foi à varanda. À porta, Teodoro aguardava-o.

– Há quanto tempo, Raul? – perguntou Teodoro, fitando Raul nos olhos. – Podemos conversar?

– Depois de tantos anos…

– Por favor… Peço a você, Raul, encarecidamente, que me ouça…

Raul abriu a porta, e pediu a Teodoro que entrasse. Caminharam até à sala de visitas. Raul indicou um sofá a Teodoro, que se sentou, e sentou-se em outro.

Teodoro rompeu o silêncio:

– Há quanto tempo… Não me lembro quando foi que estive aqui pela última vez… Está tão diferente… Ali havia um quadro… Com uma paisagem… Um rio… Montanhas… Lembro-me… Pássaros… Águias… A mesinha de centro… Retangular… A parede, amarela… Amarelo-alaranjada… A lâmpada… Eu… Sabe, Raul… Eu… Como dizer… Quais palavras… Depois de tantos anos… Quantos anos? Quatro? Cinco anos… Raul… Você não imagina como esses cinco anos foram terríveis pra mim. E pra você… Pior… Certamente, pior… Um pedido de desculpas… Você está bem? Sei que você está desempregado… Aquele menininho é seu caçula? Eu não o conhecia… Vladimir… Ele me disse… Espertinho… E onde está a Susana? E a Zuleika? E o Irineu? Eu o vi, no sábado. Está grande, o garoto. Garoto? Ele está homem feito… Disseram-me que ele vai pra faculdade. Engenharia? São Paulo… Osasco… O Irineu… Eu… Eu não o via há muito tempo… E… Sabe, Raul… Os filhos sempre nos dão preocupações. Sabe… Raul, eu… Vim pedir desculpas. Raul… Você merece ouvi-las. Você não imagina… Fiquei arrasado ao saber da verdade. Eu… Se eu pudesse… Se existisse máquina do tempo, eu compraria uma passagem pro passado… Antes de demitir você… Eu iria pra… Pensei em vir… Você imagina, Raul… Difícil tomar a decisão de vir… De vir pedir desculpas pra você… Há quatro anos… Quatro, ou cinco… Não importa… Demiti você… Meu Deus! Raul, você… Sinto-me culpado… Peço, Raul, que me desculpe… Eu não podia imaginar, Raul… Eu… Com raiva… Lembro-me como se tivesse ocorrido ontem. Assim que eu soube da verdade, Raul, o mundo desabou sobre a minha cabeça. Os relatórios… As tabelas… Os gráficos… Os organogramas… Os documentos… As suas assinaturas… Não eram suas… As fotos… Raul… As assinaturas eram suas… Pensei que fossem… E as tabelas… Os documentos incriminavam você… As assinaturas… Os documentos… Em seu favor, a sua palavra… Como eu ia saber, Raul? Errei… Sei que errei… Não posso voltar no tempo e corrigir o erro… Raul… Sei que errei. Sei que não posso… Não tenho direito de pedir pra você esquecer o que aconteceu… Não tenho esse direito… Sei que… O que aconteceu, aconteceu… Errei, sei. Fui injusto… Prejudiquei você… Prejudiquei sua família… A Susana… A Zuleika… O Irineu… O Vladimir… Vocês… Eles… Você… Perdoe-me, Raul… Entenda-me… Não… Não me entenda… Sei quem… Raul, eu… Você foi o mais leal dos meus funcionários… Hoje eu sei disso… Não faz diferença… Sei a verdade… Falar… Não irá apagar o que aconteceu… Você merece ouvir, Raul: Você é um homem trabalhador, honesto, inteligente… Você não mereceu o tratamento que recebeu… A sua assinatura, falsificada… Os relatórios, falsos… As assinaturas não eram suas… Falsificações… Perfeitas… Os dados, manipulados para prejudicar você… Sei, há… Falsificações… Assinaturas falsas… Documentos falsos… O Ulisses… Raul, o Ulisses quis me derrubar… Raul, ele… Ele, Raul, ele, e não você… O Ulisses… Raul, o Ulisses… Quase perdi a TSS… A TSS não escapou de minhas mãos… Ainda conto com amigos leais e profissionais honestos. De boa índole… Defenderam-me… Ajudaram-me… Sou grato a todos eles… Por um triz… Um triz… Quase, Raul… Quase perdi a TSS… Foi… O horror que vivi nestes cinco anos… Por um triz… Se eu perdesse… Eu viveria na miséria… Minha esposa viveria na miséria… Meus filhos, na miséria… Meu pai… Minha mãe… Raul, só de pensar… Pensar em meu pai e em minha mãe… Meu coração… Um peso no coração… Um aperto… Perdoe-me… Raul, quase perdi a TSS, a casa… Não sei se eu suportaria tal golpe. Eu me reergueria… Me desencaminharia… Fiquei com medo de perder… Se eu perdesse… O que seria de minha mãe? O que seria de meu pai? E de Samantha? E de Beatriz? E de Paola? E de Gustavo? E de Leandro? Raul… O que seria de minha família? Raul… Entendo… Não… Não entendo… O Ulisses… Ele me jogou contra você… Pensei que você me bajulava… Ele, com rispidez… Pensei que… Ele, Raul, contratou um estelionatário… Uma organização criminosa… Raul, o Ulisses contratou estelionatários para falsificarem a sua assinatura. Em nenhum momento, Raul, passou-me pela cabeça… Não desconfiei das maquinações dele… Não desconfiei… O Ulisses, Raul, subornou… Manipularam os dados… Você, Raul, parecia… Você… Você, o suspeito… O suspeito de tramar contra mim… E é inocente… Inocente… Raul, as duas consultorias, conceituadas, insuspeitas… Não imaginei, Raul… O Ulisses enganou-me… Cometi uma injustiça… O Ulisses… Por favor, Raul… Raul, por favor, desculpe-me pelo que fiz a você… Por favor… Entenderei, se você não quiser me desculpar… Prejudiquei você… Prejudiquei sua família… Entenderei, se… Por favor, Raul, desculpe-me, Raul… Perdoe-me… Perdoe-me…

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Atração irresistível

Era o doutor Castelo Branco aquele homem altivo de andar firme e com ar de aristocrata de tempos não muito distantes. Parecia um contemporâneo de Joaquim Nabuco que entrou em uma máquina do tempo, e transportou-se para a primeira década do século 21. Reputado juiz de direito, é respeitado e admirado por todos os munícipes. Seu pai e seu avô foram personalidades históricas. Seu avô, por antonomásia o Velho, tinha o porte de um imperador; no município, dizem ainda hoje, ele mandava mais do que o prefeito. Se é lenda ou não, ficou na mente do vulgo que ele era o cacique e o pajé deste município, outrora uma vila de ruas de terra pelas quais circulavam carroças.

O doutor Castelo Branco conservava, em todas as ocasiões, a dignidade que o cargo lhe exigia e o título lhe impunha. Jamais perdia a compostura e nem negligenciava a correção da pronúncia; não descia ao vulgo; o seu vocabulário, requintado. Um Rui Barbosa redivivo. Ele não considerava de bom-tom, para sustentar a sua digníssima autoridade, assumir atitudes indignas de um homem de sua posição privilegiada.

– Doutor Castelo Branco – abordou-o um transeunte, homem rústico de vestes vulgares, cabelos ensebados, falhas nos dentes, pele curtida de sol, mãos calosas.

– Bom dia, senhor – saudou-o, altivo, o doutor Castelo Branco, oferecendo-lhe a mão direita.

– Ótimo trabalho, doutor. Ontem, vossa senhoria mandou aqueles cafajestes filhos-da-mãe para o xilindró. Que Deus Nosso Senhor os envie para o inferno! Somos gratos, doutor. Deus vos guarde, vos ilumine. Que Deus vos dê saúde, muitos anos de vida, sabedoria e coragem para arrostar os filhos-da-égua que infestam esta cidade.

– A justiça é o norte dos filhos de Deus Nosso Senhor – sentenciou o doutor Castelo Branco. – Exige de nós homens de direito respeito às leis e dedicação aos estudos, numa faina diária, em prol do bem-estar das pessoas de bem. Ser-me-ia impossível exercer o nobre labor de homem da lei, se não me animasse o amor aos humanos. Orienta-me, em meu diligente trabalho, os ditames das leis divinas e os das leis dos homens. A justiça não é uma quimera. Aprendi, como sabeis, com meu saudoso avô, a jamais descurar de minhas incumbências, a jamais me acovardar diante do escárnio que me cospem as pessoas de má-fé, a jamais transigir diante das ameaças à minha integridade. Envidei todos os esforços no combate do bom combate. Não me aviltei. Não permito que os crápulas me empanem a visão com argumentos enviesados, oratória florida e salamaleques. Os que se confrontaram comigo, partiram do pressuposto de que todos os representantes da lei são corruptíveis. Enganaram-se. O povo desta cidade clamava por justiça. Como representante da justiça, impelido por nobres sentimentos, em mim inculcados por meus ascendentes, respeitáveis, vós sabeis, respeitando a justiça dos homens, inspirado pela justiça de Deus, para restabelecer a ordem nesta cidade, cujos moradores, decentes filhos de Deus, indignados com a selvageria animalesca de arautos de Satã, estavam na iminência de sucumbirem ao ódio, que corrói a alma, e violarem as leis de Deus, puni, com justiça, como representante da lei, os bandidos execráveis que ousaram seviciar e assassinar uma angelical menina, amada e adorada por todos nós. Não pleiteio galardões, senhor. Vossas palavras me são valiosas. Recuso os encômios. Deus concedeu-me força, coragem e sabedoria. A justiça está feita.

O transeunte renovou seus elogios ao doutor Castelo Branco, apertou-lhe a mão, e tocou-lhe, de leve, no ombro, receando enodoar o terno, que reverberava à luz do sol.

Ao despedir-se do transeunte, o doutor Castelo Branco prosseguiu, com passos cronometrados, a postura ereta, o queixo erguido, altivo, a sua caminhada até o Fórum Municipal.

– Aquele homem encarna a justiça – comentou o transeunte que cumprimentara o doutor Castelo Branco.

– Quem é ele, Raimundo? – perguntou-lhe um gordo atarracado com camisa e calça rasgadas.

– O doutor Castelo Branco.

– Foi ele que meteu no xadrez aqueles filhos-de-uma-égua que estupraram e mataram a filha do José da Granja e da dona Amélia?

– Foi ele, e não poderia ter sido nenhum outro. Ele, e apenas ele, tem coragem para mostrar aos facínoras quem é que dá as cartas aqui e pôr ordem na casa. O que pensavam eles? Eles pensaram que iriam embora, sem pagar pelos pecados?

– O doutor é um homem elegante, distinto. Nem um vinco no terno… De porte de rei.

– De majestade! De excelência!

– De reverência!

– De excrescência.

– Excrescência!? Não. Excrescência é palavrão, Raimundo. O doutor que mandou os estupradores e assassinos para o xilindró, e que eles apodreçam lá!, não é um palavrão. Raimundo, você está fazendo confusão. Excrescência é pústula, é verruga no nariz, é casca de ferida, é dente encavalado, é olho torto, é lábio de coelho, é chifre em cabeça de cavalo, é pêlo em casca de ovo, é pé virado do Curupira, é o nariz do Tião da Farmácia.

O doutor Castelo Branco caminhou pelas tranqüilas ruas da cidade. Os munícipes cumprimentavam-no, uns, com respeitoso aperto de mãos; a maioria dele conservou respeitosa distância, saudou-o com um gesto de mão, com um respeitoso “Oi”, ou um “Bom dia, doutor”.

O doutor Castelo Branco não transparecia a vaidade que lhe inflava o ego. Sustentava a elegância e a nobreza do porte e a fisionomia serena, impassível.

– Que homem! – suspiravam as mulheres solteiras, as casadas, as viúvas, as desquitadas, as jovens, as adultas e as velhas. – Doutor Castelo Branco! Não conheço homem tão elegante, tão charmoso. Que voz! Culto. Inteligente. Ele é o homem dos meus sonhos.

No verão de calor infernal, o doutor Castelo Branco saudava os transeuntes, sereno, impassível. Os seus passos, firmes. Atraía a atenção de todas as pessoas, que dele admiravam a postura, a elegância, os gestos suaves. Transpirava nobreza e autoridade. Destoava da multidão. “O doutor Castelo Branco. O doutor Castelo Branco”, sussurravam os munícipes que o apontavam, admirados com a elegante e majestosa figura do filho ilustre da cidade.

O doutor Castelo Branco passou pelo jardim da Igreja Matriz – acompanharam-no três dúzias de pares de olhos. Fez o sinal-da-cruz, voltado para a magnífica igreja edificada no século XVIII, e extraiu exclamações de louvor de todos os que testemunharam tão simples gesto. De repente, surpreendendo a todos, ele olhou para o céu, arregalou os olhos, que brilhavam de satisfação, escancarou a boca, e gritou:

– Içá! Içá!

Pondo a todos boquiabertos, correu como um medalhista olímpico nos cem metros rasos, passou pela frente de um carro, cujo motorista afundou o pé no pedal de freio e evitou a colisão, atravessou a rua, saltou, superou a altura alcançada pelo recordista mundial em salto em altura, e apanhou, a três metros de altura, a desacautelada formiga.

Circuíto fechado

– Marcão! Marcão! – gritou Roberto, que corria na direção de Marcos, que andava a passos largos.

Ao ouvir seu nome, Marcos voltou-se para trás, e viu Roberto, esbaforido.

Assim que se aproximou de Marcos, Roberto disse-lhe:

– Você anda rápido demais. Com essas pernas, você bate o recorde mundial dos cem metros rasos.

– Você precisa abandonar a sua vida sedentária, Betão – censurou-o Marcos. – Você bebe refrigerante e come hambúrguer no café-da-manhã, no almoço, no café-da-tarde, na janta, de segunda a segunda. Por isso você está assim, que mal se agüenta. Assim você se arrebentará, Betão. Qualquer dia desses…

– Pôxa! – exclamou Roberto, com um pouco de dificuldade, enquanto esforçava-se para se recompor. – Amigão, você, hein, Marcão! Amigão! Vim dar uma notícia, que é do seu interesse… Deixe-me recuperar o fôlego… Você anda muito rápido… As minhas banhas impedem-me de acelerar os passos. De certo ponto de vista, você tem razão. Estou fora de forma. Mas não precisa ficar me dizendo isso, não, tá?, e nem fique me esculhambando toda vez que nos encontramos… Agora, do ponto de vista de um barril, estou em ótima forma. Forma de um barril, obviamente. Para uma barrilzinha fofinha e gostosinha, sou um galã.

– Você leva tudo na brincadeira.

– E você é sério demais. Cara, você precisa abrir um sorriso de vez em quando nessa cara feia e abandonar a sua ridícula pose de gostosão. Você tem o rei na barriga.

– E o que você tem na sua barriga?

– Eu… O boi, os leitões, os frangos e os peixes que comi no café-da-manhã. Marcão, hoje enchi a pança.

– Todo dia você a enche.

– Hoje exagerei.

– Qual notícia você veio me trazer?

– Ah! Sim. A notícia… A Carolina convidou você para a festa de aniversário dela?

– Convidou.

– Você sabe quem me disse que vai lá?

– Não. Quem?

– A Janaína.

– A Janaína?

– Não. A Berenice. Você é surdo? Eu disse Janaína, então é Janaína. Se eu tivesse dito Fabiana, seria Fabiana. Se eu tivesse dito Ângela, seria Ângela. Se eu tivesse dito Catarina, seria…

– Está bem. Já entendi.

– Você sempre fica perdido, com cara de bobo, de idiota, sempre que alguém fala da Janaína. Você está gamado nela, hein, garanhão.

– Estou.

– Também pudera, a Janaína é uma gostosura.

– Não falte com o respeito.

– Ih! O homem virou fera. “Não falte com o respeito.” “Não falte com o respeito.”

– Detesto que me arremedem.

– “Detesto que me arremedem.” “Detesto que me arremedem.” “Não falte com o respeito.”

– Você perdeu a noção do perigo, Betão?

– “Você perdeu a noção do perigo, Betão?” “Você perdeu a noção do perigo, Betão?”

– Vem aqui, besta. Você não me escapa, maldito bolofofo. Rolha-de-poço! – e Marcos passou seu braço por trás do pescoço de Roberto, e apertou-lhe as bochechas ao mesmo tempo que o atraía para si e Roberto esmurrava-lhe, com socos inofensivos, a barriga.

Roberto e Marcos são amigos há mais de dez anos. Inseparáveis. Confidentes um do outro. O contraste, que não pode ser ignorado, de porte e de temperamento, deixa todas as pessoas admiradas. Marcos é alto, atlético, ríspido, desprovido de senso de humor, vaidoso e indiferente ao exercício intelectual. Joga vôlei. Encanta as mulheres. Roberto é gordo, tem um metro e setenta de altura e cento e sete quilos. Bonachão, zombeteiro, está sempre de bem com a vida, dono de inesgotável repertório de anedotas e frases de efeito. Estudioso, pretende seguir carreira literária. Participou de mais de cem concursos literários. Ficou em primeiro lugar em quatro concursos, recebeu sete menções honrosas, três menções especiais e cinqüenta e quatro prêmios de edição. Escreveu um romance e o enviou para nove editoras. Todas o rejeitaram.

Andavam pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Dirigiam-se à escola. Os dois, ambos com dezessete anos de idade, fazem planos para a carreira que cada um sonha seguir. Marcos está determinado a chegar à seleção brasileira de vôlei; Roberto almeja o Nobel de literatura. Ambos estão dispostos a sacrificar outros prazeres da vida para atingir, cada um deles, o objetivo que cada um tem em mira. Essa precoce consciência da realidade e a força de vontade, mais do que tudo, os unem.

Marcos disse para Roberto que não pretendia ir à festa de aniversário da Carolina, mas como Janaína iria, ele, Marcos, também iria. Roberto perguntou-lhe porque ele não se simpatiza com Carolina; Marcos disse que ela é interesseira e duas-caras. Roberto discordou, disse que ela é adorável, e aprecia admirá-la nas aulas de educação física, nas academias de ginástica e nos clubes, à piscina. Falaram de Carolina durante uns dez minutos. Diante da livraria, despediram-se. Roberto entrou na livraria e Marcos rumou ao ginásio.

No final de semana, Marcos e Roberto foram à casa da Carolina. Divertiram-se muito. Separaram-se no momento em que Marcos abordou Janaína.

Na segunda-feira, Roberto, debruçado sobre o seu caderno de literatura, o cérebro entupido de idéias, pôs-se a escrever. Queria dar vazão à sua imaginação prodigiosa, expor os seus pensamentos, desenvolver as tramas concebidas. As personagens desfilavam, animadas, vivas, na sua mente. Roberto conversou com elas, pediu-lhes esclarecimentos sobre pontos obscuros da vida delas, detalhes de eventos por elas protagonizados e revelações sobre os pensamentos que lhes animavam a mente. Para Roberto, as suas personagens são vivas, reais. De todas as personagens que concebeu, Yvone é a mais instigante, a mais interessante, a de temperamento mais complexo e admirável. (Roberto adora conceber personagens femininas, que, para ele, são mais interessantes do que as masculinas). Yvone é uma jovem de dezoito anos (inspirada em uma jovem chamada Giovana, por quem Roberto suspira e alimenta um amor secreto – ele sabe que Giovana jamais olhará, com admiração e paixão, para ele, pois o rival dele, Ricardo, é um tipo muito mais interessante do que ele aos olhos dela).

No conto Divina, Roberto narra a história de Yvone:

Não há mulheres perfeitas. Há mulheres que se aproximam da perfeição. Mulheres honestas, belas, inteligentes, simpáticas. Elas são raras, dizem muitos homens. Não é a minha opinião. Há muitas mulheres extraordinárias. Os defeitos pequenos eu os relevo. Não desejo uma criatura celestial que desceu dos céus à Terra, perfeita, uma deusa – os deuses também são dotados de defeitos e de vícios tipicamente humanos, que são incalculáveis: gula, fúria, luxúria, incúria, etc. E os deuses têm serviçais e escravos para executar-lhes as tarefas mais comezinhas. E são ingratos e rancorosos.

Na condição humana, na absoluta ausência de pretensões a transcendê-la, Yvone é divina. Dela jamais ouvi propósitos transcendentais e objetivos inalcançáveis para os humanos. Ela não alimenta ideologias irracionais e não sonha com utopias que jamais serão concretizadas porque não levam em consideração a condição humana, utopias que, em resumo, são apenas conceitos de mundo ideal concebidos por pessoas desajustadas, pessoas que alimentam o desejo de erigir um mundo onde elas são reverenciadas. Yvone trata de coisas reais, palpáveis, mensuráveis. Admiráveis a sua determinação, a sua beleza, a sua simpatia e a sua inteligência. Tem dezoito anos – restam-lhe cinco meses para o décimo nono aniversário. Nas suas palavras há mais inteligência do que nas proferidas por muitos homens e mulheres de cabelos brancos. Tem idéias interessantes. Jamais apresenta lições supostamente edificantes. O belo corpo bem torneado ela o mantêm com alimentação balanceada, dieta saudável, sem os excessos das dietas dos vaidosos que, submissos – patéticos! – aos modelos disseminados pelos programas de televisão, pelas novelas, pelas passarelas de desfiles de modas e pelo cinema, emagrecem e convertem-se, como efeito colateral (ou não?), em esqueletos cadavéricos, lívidos, despidos de beleza natural. As falsas promessas das empresas de cosméticos, das revistas femininas e da cultura da anorexia bulímica jamais seduziram Yvone. Ela sempre resguardou a sua autenticidade, de temperamento, de personalidade, de idéias. Jamais se arrastou ao abismo para o qual muitas mulheres (e homens também) se arrastam. Conserva-se Yvone. Bela, linda. Divina. É aplicada nos estudos. É leitora voraz de romances clássicos e de livros de filósofos consagrados – mas mantêm independência de pensamento em relação a todos eles; jamais submeteu-se a uma doutrina e jamais sucumbiu à autoridade de um gênio reverenciado pela humanidade estéril (mais justa apreciação da humanidade: uma parcela é estéril; para sorte dos humanos, todas as épocas tiveram os seus espíritos independentes e libertários). É leitora apaixonada de Montaigne, Leibnitz, Hume, Ortega y Gasset, Gilberto Freyre, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Joaquim Nabuco, Tocqueville, Ludwig von Mises, Locke, Mário Ferreira dos Santos, Proust, Tolstoi, Machado de Assis, Balzac, Dostoiévski, Swift, Cervantes, Melville, Stendhal, Shakespeare, Whitman, Pessoa, Thomas Mann. Essa lista representa a qualidade da leitura de Yvone. A lista completa, se inserida aqui, ocuparia uma resma de papel de sulfite. Nutrida pela leitura da obra de tão extraordinários romancistas, poetas e filósofos, Yvone adquiriu erudição de causar inveja aos eruditos. Na sua pouca idade, não tem rivais.

Dedica-se aos exercícios intelectuais – e não descuida dos exercícios físicos.

Todos os dias, ao acordar, Yvone, antes de o sol nascer, vai à piscina e nada durante trinta minutos. Após retirar-se da piscina, faz a refeição da manhã, rica em carboidratos, vitaminas, fibras e proteínas. Vai ao trabalho, de segunda a sábado, de bicicleta. O trajeto, da sua casa à loja na qual trabalha, corresponde a dois quilômetros. Ao fim do expediente, às seis horas da tarde, ela transita por um percurso de três a quatro quilômetros. Ao chegar à sua casa, troca de roupas e faz caminhada de três quilômetros e, depois, nada, na piscina do clube, por meia hora. À noite – não todos os dias – reúne-se, no clube, com as amigas e os amigos. Joga, em um dia, vôlei, no outro, basquete, em outro, futebol, em outro, handebol. Duas vezes por semana, na terça-feira e na quinta-feira, tem uma aula de uma hora, em cada dia, de karatê; na sexta-feira e no sábado, uma hora, cada dia, de capoeira. Muitas pessoas perguntam-lhe como ela consegue conciliar trabalho, namoro, estudo, esportes e diversão. Ela responde, lacônica:

– Defino as minhas prioridades, e me concentro nelas.

Essa frase, para muitas pessoas um enigma indecifrável, reserva mistérios insondáveis.

Yvone escreve romances, poesias, contos, novelas, ensaios filosóficos, reflexões sobre a vida e o universo e faz pesquisas, na internet, sobre inúmeras ciências. Participa de concursos e saraus literários e filosóficos e de congressos científicos. Integra duas academias. Ostenta, com orgulho, o seu título de acadêmica.

O namorado de Yvone, Marcelo, é um sujeito da estirpe e do temperamento de Yvone. Dizem que os contrários se atraem. Marcelo e Yvone não são contrários, não são, um, o pólo positivo, e o outro, o negativo. Os dois conservam, cada um dentro de si, os dois pólos.

Nos dois finais de semana anteriores, Yvone escreveu trechos de uma novela e de um roteiro de filme ao qual ela vinha dedicando-se havia seis meses. No capítulo quatro da novela, narrou a seguinte cena:

Capítulo 4 – Um diálogo descontraído.

Na casa de Larissa, reuniram-se Marco Antonio, Pedro Paulo, Larissa, Cláudia e Madalena. Pedro Paulo foi o que menos se pronunciou. Ouviu mais do que falou. É submisso ao seu temperamento: retraído. Manifestava-se apenas quando algum dos seus interlocutores pedia-lhe a opinião. Marco Antonio, bonacheirão, falou sem parar e não compreendeu as insinuações maliciosas de Madalena, mulher de espírito livre e temperamento agressivo. Cláudia, estudiosa e tímida, de espírito crítico, comentou todos os assuntos de perspectivas inusitadas. Larissa, tagarela, fofoqueira, não deixou de falar tudo o que sabia a respeito da vida alheia.

– Vocês não sabem da novidade – disse Larissa, com ar de suspense, atraindo a atenção de Marco Antonio, Pedro Paulo, Cláudia e Madalena. Todos, certos de que ela lhes daria revelações surpreendentes sobre a vida de alguém, ouviram-na, atentamente. – Vocês não imaginam o que eu soube, hoje cedo. Não imaginam…

– Conte logo, Larissa – reclamou Madalena. – Deixe de suspense, e conte logo, mulher.

– A Carla contou-me que o Túlio pegou, no flagra, a Marcela e o Lauro, na cama, na casa dela.

– E o que o Túlio fez? – perguntou Madalena, excitada pela notícia.

– O Túlio pulou sobre o Lauro, e esmurrou-o até ele dizer chega! A Marcela tentou separá-los. Não conseguiu. O Túlio quase fez picadinho do Lauro, que, sortudo, safou-se de ir parar num caixão, mas está numa enrascada na qual eu não desejaria me ver. O Túlio prometeu enviá-lo para o inferno. E ele é capaz disso. Se o Lauro dele não tivesse se livrado, agora estaria sete palmos abaixo da terra, conversando com os vermes.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Cláudia, na sua casa, escreveu o último capítulo de um conto no qual trabalhava havia uma semana. É o que segue:

Quatro dias após a festa de aniversário de Carolina, Marcos e Roberto encontraram-se na Praça Emílio Ribas.

– E aí, Marcão – disse Roberto, expansivo, ao saudar Marcos, ao mesmo tempo que lhe estendeu a mão direita para cumprimentá-lo.

– Aí, Beto – disse Marcos, cabisbaixo, voz sumida, cujo rosto transparecia o sofrimento que lhe avassalava o espírito. Roberto abaixou, automaticamente, o braço direito, enfiou a mão no bolso da calça, sentou-se ao lado de Marcos, tocou-o no ombro, e perguntou-lhe:

– Que bicho mordeu você, brother? Diz respeito a Janaína, não é?

– É. É a Janaína – respondeu Marcos, sussurrando. Pela primeira vez em sua vida, Roberto viu-o chorar. O silêncio, opressivo, constrangedor, estendeu-se por uns dez minutos, até Marcos, recomposto, enquanto enxugava as lágrimas, pôr-se a falar: – Você não imagina o que aconteceu, Betão. Você não imagina… Na casa da Carolina… Conversei com a Janaína. Nos entendemos… Eu e ela conversamos. Ela se mostrou bem receptiva, bem disposta… Ficamos na casa da Carolina até… Não sei até que horas. Saímos de lá, acho, depois da meia-noite. Você havia ido embora. Sei que você havia ido embora porque a Ingrid me contou. Eu lhe perguntara se ela havia visto você, e ela me disse que você havia ido para Taubaté, meia-hora antes, mais ou menos, com a Beatriz, a Samantha e o Vanderlei. Sei disso… A Ingrid… Ela me contou. E eu e a Janaína nos despedimos da Carolina, do pai e da mãe dela, da Ingrid, da Renata, do Paulo, e de mais alguns conhecidos, e fomos à discoteca. Perguntei à Janaína se ela queria namorar comigo. Ela sorriu. Não precisou me dizer o que ela desejava. Beijei-a. Nossa! Beto. Fazia décadas que eu desejava beijá-la. Beijo daqueles, sabe, Beto? Inesquecível… Coisa de louco. Ia tudo muito bem… Ia… A Janaína… Eu, cheio de mim, todo prosa, a considerava minha. Mas… Diabos! As coisas nunca acontecem como desejo. Inferno! Vou contar para você o que aconteceu. Você vai entender… Diabos! Puxa, Beto… Sou um filho-da-polícia! Mereço um tiro na cabeça! Que alguém me estoure os miolos, para eu deixar de ser besta! Na discoteca, depois… Estávamos na discoteca. Conversávamos. Dançávamos. Eu olhava para a Janaína… Eu pensava… Nossa! Seria a melhor noite da minha vida… Como eu disse, seria… Mas não foi. Por quê? Porque o papai aqui é um idiota, um imbecil, um retardado, uma besta quadrada. Burro! Asno! Imbecil! Por que… Eu e a Janaína nos entendíamos muito bem… Aí, a Janaína pediu-me licença para ir ao banheiro. E fiquei, lá, na pista de dança. E eu ia me chegando ao balcão… Sabe quem cortou o meu caminho? Sabe quem me apareceu? A Ludmila. Lembra-se dela? A minha ex. Ludmila! Por que ela foi aparecer lá? Vestida com aquele decote, com aquela mini-saia… Meu Deus! Beto, que desgraça! Duas gatas… Eu, interessado na Janaína, e a Ludmila aparece para me atormentar… Por que a Ludmila foi àquela discoteca? Se eu soubesse que ela iria lá, eu levaria a Janaína para outra discoteca, ou… Pois é, meu velho… Beto… Fiquei perdido. A Ludmila estava linda. Tentação. Gata. Deusa. Olhei, com cara de bobo, para ela. De um bobo bem bobo, um bobo idiota, um bobo imbecil. E ela veio… Deu-me um beijo no rosto. “Oi.”, disse-me ela, com aquela voz doce… Sorria… Olhei para ela, com cara de idiota. “Tudo bem, Marcos?”, perguntou-me ela. “Não nos vemos há um bom tempo. Que bom encontrar você aqui. Passei na sua casa. Seu pai disse-me que você havia ido à festa de aniversário da Carolina. Fui à casa da Carolina. A Carolina disse-me que eu encontraria você aqui. E aqui estou, Marcos, para você, todinha para você.” E ela, Beto, passou-me os braços pelo pescoço e espremeu-se em mim. E beijou-me. Não resisti. Estreitei-a nos braços. Beto… Eu e a Ludmila nos beijamos.

– E a Janaína?

– A Janaína? Eu e a Ludmila nos beijávamos… Eu havia me esquecido da Janaína. Tão absorto… A Ludmila, com aquele decote, aquela mini-saia, aquele perfume, aquele batom… Irresistível. Irresistível. E a Janaína… Eu havia me esquecido dela. Maldita Ludmila! A Janaína foi ao banheiro, voltou, e o que ela viu? Eu e a Ludmila aos braços um do outro. Aos beijos… Aos amassos… Ah! Beto. Melhor não contar… A Janaína soltou um berro que podia ser ouvido em Tóquio. Em Kuala Lumpur… Não sei onde fica Kuala Lumpur; sei que fica bem longe, e de lá seria possível ouvir o berro da Janaína. Eu não sabia o que pensar… O beijo, tão gostoso… Afastei-me da Ludmila. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Você não imagina, Beto, o que aconteceu. Você não é capaz de imaginar. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Ah! Inferno! Que escândalo! Escândalo para figurar na primeira página de um tablóide britânico. De um tablóide britânico! Britânico! A Janaína… Os olhos dela… Os olhos dela… Atingiram-me em cheio… Dos olhos dela, lágrimas… Os lábios, trêmulos… Mas… Ela, com raiva… Muita raiva… Furiosa… Ela queria me devorar. Queria me mandar desta para a melhor. Beto, a Janaína deu-me um tapa na cara. Virou-me para o avesso. Depois, a Ludmila, os olhos arregalados, mãos na cintura, fez um “Oh! Não acredito.”, e acertou-me um tapa na cara, que me virou para o avesso do avesso; em seguida, virou-me às costas, e, furiosa, andando entre a multidão de curiosos, foi-se, batendo os pés. Foi constrangedor. E a Janaína, Beto, a Janaína… Ah! A Janaína, Beto, disse-me que não deseja mais me ver, nem morto. Nunca mais. Virou-me às costas. E foi-se. Belo conquistador eu sou… Perdi, em uma noite, a Janaína e a Ludmila. A Ludmila, bem, eu não a namorava… Mas a Janaína… Perdi a Janaína… Beto, perdi a Janaína…

– Não fique cabisbaixo, Marcão. Pense: Você ficou no avesso? Não. A Janaína virou você para o avesso. Por sorte, a Ludmila desvirou você. E isso não é bom?

– Não estou para brincadeiras, Beto…

– Você é sortudo, Marcão – comentou Roberto.

– Sortudo!? Sortudo!? Beto, você ficou louco? O que você bebeu? Tequila? Vodka? Whisky? O que você cheirou? A Janaína e a Ludmila, Beto, as duas… Nenhuma delas quer me ver mais, nem pintado. Nem morto. Perdi a Janaína… E você diz que sou sortudo!? Você perdeu um parafuso? Perdeu dois parafusos? Você encheu a sua cabeça com titica de galinha?

– Você é um homem de sorte, Marcão. Você tem as duas mulheres mais bonitas da cidade nas palmas das suas mãos.

– Beto, não estou para brincadeiras.

– Você está com a faca e o queijo nas mãos. É só estalar os dedos, que as mulheres correm até você… Que homem sortudo.

– Beto, não continue com essa piada…

– Marcão, as duas mulheres mais bonitas da cidade estão loucas por você. As duas, enciumadas, e por você. Você é um Casanova. Você é um dom Juan. Garanhão. Gostosão. Você é o cara, Marcão. A Janaína e a Ludmila… Garanhão – e deu-lhe um tapa no ombro. Marcos fitou-o, embasbacado. Não queria acreditar no que ouvia. Ou Roberto havia enlouquecido ou apreciava um tipo de humor que ele, Marcos, não compreendia e não desejava compreender.

À noite, Roberto debruçou-se sobre a escrivaninha, e escreveu o encerramento da história de Yvone:

Yvone e Marcelo, nas férias de Yvone, foram ao cinema, ao teatro, a festivais de música, a saraus literários e filosóficos, a congressos de tecnologia e científicos. Foram dias produtivos, férteis de idéias e extraordinariamente proveitosos. As conversas com amigos, atores, escritores, músicos, filósofos, webdesigners, internautas, blogueiros e cientistas enriqueceram-lhes a rica erudição. Os livros, os filmes, as revistas em quadrinhos e os games inspiraram-lhes inúmeras idéias que eles remoeram e as traduziram para uma linguagem singular, distinta, que deles refletia o temperamento e as afinidades literárias.

Dois dias antes do fim das férias, Marcelo e Yvone, de regresso de Ubatuba, onde passaram três dias banhando-se ao sol, tomando banhos de mar, passeando pela orla marítima, degustando deliciosos frutos do mar, entraram em Taubaté. Um caminhão desgovernado colidiu com o carro no qual iam Marcelo e Yvone, e o arrastou por mais de cinquenta metros, e capotou, vindo a colidir com um ônibus desocupado, e um muro, derrubando-o. A colisão, tão violenta, reduziu o carro à sucata. Marcelo morreu instantaneamente. Seu cérebro foi esmigalhado, os pulmões e o coração, perfurados, as pernas e os braços, quebrados. Yvone, com traumatismo craniano, as pernas quebradas, um braço quebrado, morreu, na ambulância, a caminho do hospital. O motorista do caminhão morreu esmagado entre as ferragens.

Três dias antes, Yvone concluíra a história de Cláudia, Larissa, Marco Antonio, Pedro Paulo e Madalena, história cujo último parágrafo é o que segue:

Pedro Paulo, numa inconsequente aventura amorosa com uma prostituta, contraiu o vírus HIV. Seu pai e sua mãe o expulsaram de casa. Uma semana depois, desesperado, pulou de sobre um viaduto, na linha férrea, à frente de um trem. Seu corpo foi mutilado. Um artigo a respeito do suicídio estampou a primeira página dos principais jornais da cidade. Marco Antonio casou-se duas vezes. Sua primeira esposa, Cátia, autoritária e histérica, sugava-lhe o pouco dinheiro que ele recebia todo início de mês. Marco Antonio surpreendeu-a, na cama, aos beijos e abraços, com dois homens. Sua segunda esposa, Solange, sofreu de depressão pós-parto, matou o filho recém-nascido, afogando-o na banheira, e enlouqueceu; Marco Antonio internou-a em um manicômio. Larissa foi expulsa da família por seu pai e sua mãe, que souberam que ela era lésbica e mantinha um relacionamento, desde os dezoito anos, com Marta, a sua chefe, com quem foi morar em Belo Horizonte. Madalena, aos quarenta anos, ingressou em um convento. Cláudia, escritora promissora, com dezenas de prêmios literários, amputou as duas pernas após um acidente automobilístico. Abandonada pelo primeiro marido, que a trocou por uma jovem beldade de dezoito anos, ficou deprimida. Seu segundo marido usou-a como um imã para atrair outras mulheres e dissipou-lhe a fortuna que ela arduamente amealhou com os seus romances, contos, novelas, roteiros de filmes, de revistas em quadrinhos, e traduções. Seu filho, Cauã, que se envolveu com tráfico de drogas, morreu com um projétil alojado no coração, ventrículo direito, e um no cérebro, hemisfério esquerdo, lobo temporal. Sua filha, Marli, vinte e um anos, casada com Saulo, empresário bem-sucedido, deu-lhe uma netinha, Virgínia, corada e saudável. Cláudia a adora.

Conhece o Euclides?

De Euclides nada direi. Corrijo-me: Nada direi a respeito da personalidade de Euclides. Eu me acreditava conhecedor da sua personalidade, do seu caráter, dos seus pendores intelectuais; uma sucessão de eventos, no entanto, nos últimos dias, convenceu-me de que dele nada sei, a ponto de chegar a pensar que não o conheço. Ciente da minha ignorância, decidi, ao me pôr a escrever sobre Euclides, amigo de longa data, sonegar aos meus queridos leitores os meus pensamentos a seu respeito, quais sentimentos por ele eu alimento, e qual é o meu apreço por ele, apreço nutrido, há duas décadas, pelo nosso vínculo fraternal. Alguns leitores, e eles não seriam raros – principalmente os que dizem conhecer Euclides -, contestar-me-iam se eu apresentasse o Euclides como eu o vejo, e casquinariam, reprovar-me-iam, dir-me-iam que apresento traços injustificadamente favoráveis ao meu amigo Euclides, e, contrapondo-se-me, apresentariam as suas avaliações, fiéis, diriam, enfáticos, à pessoa do Euclides. Declinarei, portanto, da obrigação, que muitos leitores atribuem aos escritores, de fornecer uma descrição minuciosa da personagem, no que se refere ao seu caráter, e me concentrarei na descrição do seu aspecto físico, que não alimentará controvérsias infindáveis, e a nenhum dos meus desafetos e desafetos de Euclides propiciará oportunidades de me cuspir objurgatórias.

Não transcorreram vinte minutos da última conversa minha com o Euclides, cuja imagem está nítida em minha memória. Posso evocá-la. Talvez eu me detenha num aspecto em detrimento de outro, que necessitaria, ou de correção, ou de realce; talvez eu negligencie aspectos aos quais não farei menção, e algum leitor atento, que conhece o Euclides, chame-me a atenção para isso; e eu, escritor ciente das minhas responsabilidades, adicionarei o que falta, e retratarei a personagem – o protagonista só dará o ar da sua graça nas derradeiras linhas deste relato, mas a sua pessoa perpassa-o desde o título até a palavra de encerramento -, se não com fidelidade, o mais fiel que me for possível.

Euclides não é alto, nem baixo. Tem um metro e setenta. De estatura mediana, portanto – é poucos centímetros mais alto do que eu. Para um homem de um metro e setenta centímetros de altura, Euclides é razoavelmente pesado. Pesa noventa e oito quilos. Não digo que ele é gordo. Ele tem braços grossos, ombros largos, tórax amplo e uma barriga que começa a se pronunciar. Aos quarenta e seis anos é um homem bem conservado.

Traz no rosto espessos barba e bigode. Ostenta cabeleira que, de tão vasta, parece juba de leão. Metade das suas falripas são brancas, tanto as dos cabelos, quanto as da barba. Seus lábios, descorados, quase invisíveis em meio a tanta barba, podem ser divisados por observadores atentos. Seus olhos guardam pouca expressão. São feios, como é feia a sua figura. A Carmen, sua esposa, não partilharia do meu parecer se eu lho expusesse. As pernas dele são finas. Os pés, desproporcionalmente enormes. Tais aspectos físicos atraem a atenção de muita gente, principalmente a dos caçoadores e a dos seus desafetos.

Euclides é casado com Carmen, que nasceu dois anos antes dele, há vinte e dois anos. Suas filhas chamam-se Camila, Mariana e Heloísa; e seu filho, Ulisses. Todos solteiros. Nada mais direi a respeito deles. Este conto não os tem como personagens. Falarei de Euclides. Melhor: por intermédio de outras personagens, o apresentarei aos leitores.

Há quinze dias, cruzei, no mercado público, entre as barracas dos feirantes, com Hugo, meu amigo desde a juventude. Saudamo-nos. O Hugo enveredou por um tema que não me agrada: a vida alheia. Esse é o seu vício e, infelizmente, consta-se, o de nove em cada dez pessoas (ou o de noventa e nove em cada cem – talvez o de novecentas e noventa e nove em cada mil).

– Tu conheces o Euclides? – perguntou-me Hugo, em certo momento da conversa.

– Euclides? – perguntei. – Qual deles? Conheço quatro Euclides.

– O marido da Carmen – e deu-me descrição minuciosa do Euclides (a descrição aproximava-se da que forneci linhas acima).

– Sim. Conheço-o – respondi.

– Confessar-te-ei: Detesto-o. Sempre que me encontro com ele, dele procuro afastar-me, ou sinto ganas de enforcá-lo. Ele é chato. Intragável. Tem o rei na barriga. Pensa que é o dono do mundo. Acredita que é o maioral porque é empresário, tem quatro carros na garagem, filho estudando na melhor faculdade do Brasil, e filhas que falam inglês e espanhol. Ele me contou que ele, a Carmen, o filho e as filhas viajaram, no ano passado, aos Estados Unidos. Visitaram Miami, Flórida, Disneylândia, Texas, Los Angeles, Califórnia, Grande Canyon, Estátua da Liberdade e o monte não sei qual. O monte no qual há estátuas do Franklin, do Lincoln… Aquele monte que aparece nos filmes americanos. O daquelas quatro cabeças gigantes. Estados Unidos! Uma pessoa que vai aos Estados Unidos é superior às pessoas que nunca foram aos Estados Unidos? Soberbo, o Euclides. Ele adora contar vantagens. “Fui aos Estados Unidos com a minha família”, ele encheu a boca para me dizer. “Fomos à Califórnia”; “Conheci Washington”. Ele conheceu o Washington. Também o conheço. O Washington trabalha comigo. Estou morto de inveja! Pensei em perguntar para o Euclides se ele evoluiu depois de conhecer os gringos. Ele é um colonizado de mente tosca. Sei que muita gente gosta dele. Bajuladora, essa gente desocupada. O Euclides é rico. Rodeiam-no, os abutres. Tu o conheces. Talvez ele tenha te falado da viagem aos Estados Unidos, e também das viagens à Europa, à Noruega e ao Japão. Noruega! Em qual planeta se situa este país? Marte? Júpiter? E o Euclides mostrou-me as fotografias, provas das suas viagens ao exterior. E ele viu a Estátua da Liberdade. Que lindo! Ele, a Carmen, o filho e as filhas viram uma estátua enraizada numa ilha minúscula, localizada no meio de um rio desconhecido, próxima de uma outra ilha, que era uma prisão. Guantánamo, ou coisa que o valha. Prisão desativada. Aparece nos filmes americanos. Guantánamo… Ou Albatroz, não me recordo. O Euclides torrou uma nota preta para ver uma estátua enorme de grande. Que tolice! E na Europa, ele, a Carmen, as três filhas e o filhote foram à Torre Eiffel, visitaram castelos medievais, túmulos de escritores famosos, e pontes, e estátuas, e pinturas. E Paris. Conheceram Paris. Paris! E foram ao Palácio do Kremlin. Em que país encontra-se tal palácio? É um palácio tão famoso que ninguém sabe me dar a sua localização. E eles visitaram Londres, Lisboa, Barcelona, Atenas, Tóquio, Melbourne, Berlim. Conheceram mesquitas, palácios, pontes, igrejas, castelos, e pontes, e castelos, e mais pontes, e mais castelos, e mais castelos. E ruínas. Ruínas de igrejas, ruínas de pontes, ruínas de castelos. E mais ruínas de castelos. O Euclides é um sujeito intragável. Um exibicionista. Arrogante. Vive em um mundo à parte. No seu mundo, ele reina, e todos satisfazem os seus caprichos. Ele se considera o centro do mundo. Ninguém é mais importante do que ele, ele pensa. Com toda a sinceridade: ele é o homem mais arrogante, orgulhoso, prepotente e asqueroso que conheço. Sujeito repulsivo.

Abordou-me Pedro, um amigo, encerrando os vitupérios proferidos por Hugo. Eu vaticinava um dia tedioso, pois Hugo, enquanto não destilasse todo o seu veneno, não daria por encerrados os seus comentários depreciativos à pessoa do Euclides, amigo meu de duas décadas, constrangendo-me. Não aprecio críticas, ao meu ver infundadas e injustas, a ninguém, muito menos a um amigo meu cuja amizade me é valiosa. Para a minha sorte, Pedro, com a sua extroversão inusitada, e a sua filhinha loquaz, Camila, que, com sua voz sedosa, suas tranças, as suas meias compridas, que me fazem evocar Pippilota, filha de Efraim Meialonga, impediram que Hugo tecesse mais alguns comentários à pessoa do Euclides. Contrariado, após alguns minutos, ele de nós se despediu, e foi-se embora.

Três dias depois, na empresa, durante uma conversa descontraída, no refeitório, com dois amigos, Cléber e Gabriel, e uma amiga, Alaíde, deles ouvi comentários a respeito de Euclides.

Gabriel disse:

– Conheceis o Euclides? O empresário, marido da Carmen? Encontrei-me com ele dias destes, não faz uma semana, perto da minha casa. Ele gosta de se exibir. A elegância personificada. Esmera-se na aparência, o distinto doutor. Empedernido. Esnobe. Terno impecável. Gravata. Nariz empinado. Vaidoso. Prepotente. Exibiu-me o carro de luxo importado. Da Alemanha, dos Estados Unidos, não me recordo. Encheu a boca para me falar da aquisição de uma loja. Qual loja? Não me recordo. Sujeito insuportável. Soberbo. Ele pensa que é melhor do que todo mundo, e a esposa dele, a melhor esposa do mundo, e o filho dele, o melhor filho do mundo, e as filhas dele, as melhores filhas do mundo. O Euclides é intratável, arrogante, soberbo.

– Tu detestas o Euclides, estou vendo – comentou Alaíde. – O Euclides não é como tu o pintas. Conheço-o há seis, sete anos. Conheço a Carmen, o Ulisses, a Camila, a Heloísa e a Mariana. São educadíssimos. Eu os conheci na festa de casamento da Lúcia, minha prima, que há três anos se divorciou do Marcelo, e, no ano passado, se casou com o Adriano, dele se divorciando no mês passado. O Ulisses era um menino quando o conheci. Uma gracinha de menino. Agora, ele é um homem inteligente, bonito, alto e forte. Eu e o Renato nos encontramos com ele e com a namorada dele na casa da Márcia, há duas semanas. Educadíssimo, o Ulisses. A Mariana, a Camila e a Heloísa são moças educadíssimas. Das três a que melhor eu conheço é a Camila, que é moça simples, herdeira dos pendores do Euclides. Todos dizemos que são o nariz de um e o focinho do outro. A Camila puxou pelo Euclides. Das três moças, é a que herdou do pai o talento para os negócios. Incríveis, as semelhanças de temperamento e pendores intelectuais. O mesmo senso prático, o mesmo espírito empreendedor, a mesma confiança no valor do estudo e trabalho árduos. Certa vez, ela me disse que administrará as empresas do pai. Euclides é um felizardo. Raros empresários têm filhos com talento para os negócios. E ele tem uma filha, a Camila. O Euclides tem orgulho das próprias conquistas, do próprio sucesso. Ora, eu, embora não tenha alcançado sucesso equivalente ao dele, sou uma pessoa bem sucedida, e me orgulho das minhas conquistas. E sou ambiciosa. O Euclides é um homem ambicioso, seguro de si. Tem os seus defeitos, é óbvio. Ora, quem não os têm!? Ele distingue o certo do errado; o permitido do proibido. Ele, católico, defende aqueles valores antigos, e não se curva è pedagogia moderna, e tampouco ao discurso falacioso de intelectuais vigaristas, sórdidos inimigos da humanidade. Uma leitura de artigos publicados em sites e blogs de pensadores cuja integridade moral é inatacável nos dá um panorama da situação política atual, que nos põem abismados. E podemos descer às minúcias de cada pormenor que constitui tal situação. Euclides resiste ao avanço das hordas de seguidores de humanistas liberticidas. Ele é um homem de têmpera de aço, de pulso firme, na família e na empresa. Tatcher e Reagan são os seus ídolos. Ele educa as filhas e o filho, impondo-se como pai, uma autoridade moral. Agindo assim, ao contrário do que declaram os moderninhos, deles têm amor. Ele corrige os filhos quando estes cometem uma falta. Pune-os. E orienta-os, para eles evitarem dissabores. Catilinárias intelectualóides não o persuadem a mudar de atitude. Ele é um homem de fibra. Conheço-o e conheço a família dele. Ele é um homem trabalhador, honesto, confiável, um exemplo de homem para os homens.

– Que notável peça de oratória! – comentou, zombeteiro, Gabriel. – Um rosário de louvores. Escrevas uma hagiografia.

– A minha formação intelectual, fruto de leituras de livros clássicos, permite-me expressar-me com elegância, até mesmo sobre temas triviais – retrucou Alaíde, veemente. – Não escreverei uma hagiografia do Euclides. Eu nunca disse que ele é um santo.

– Vocês conhecem o Euclides – interveio Cléber, que, ao observar a fisionomia de Gabriel e a de Alaíde, e a troca de olhares entre eles, perspicaz, anteviu a irrupção de uma discussão interminável, certo de que, dentre os dois, Gabriel seria o que mais se exaltaria, e prorromperia em exclamações furibundas, e insultaria Alaíde, que defenderia Euclides e atiraria farpas ferinas contra Gabriel, como era do seu estilo. – Não o conheço. Conheço pessoas que o conhecem. Conheço vocês, que o conhecem. E conheço pessoas que conhecem pessoas que o conhecem – levou à boca um punhado de arroz. – Vejo-o, aqui e ali, a pé, acompanhado de uma mulher, a esposa dele, presumo. Morena clara de cabelos compridos ondulados, sempre bem vestida, elegante, com uma bolsa a tiracolo.

– É a Carmen, esposa dele – disse Alaíde.

– Falei de bolsa – comentou Cléber -, e a Alaíde identificou a dona da bolsa. Mulheres! Não resistem a bolsas e chocolates. Há homens que dizem ter dificuldades para seduzir as mulheres. Ofereça-lhes bolsas e chocolates. E anéis de brilhantes. Não podemos nos esquecer dos anéis de brilhantes. Comentários machistas. Alaíde, mantenha-se distante de mim, no mínimo, trinta metros – levou o copo com refrigerante à boca; sorveu do refrigerante, e, antes de pôr o copo sobre a mesa, disse: – Um brinde – e prosseguiu: – Sempre vejo o Euclides de terno, gravata e sapatos brilhantes de tão polidos. A postura dele, ao andar, correta. Nunca o vi curvado, como se carregasse um fardo às costas. Elegante, o Euclides é. Charmoso, também ele é. Bem vestido, sempre. Tem porte de aristocrata; não dos de Bruzundanga. A elegância, o charme e o gosto requintado não fazem ninguém arrogante. Sei que muitas pessoas não se simpatizam com ele. Por quê? Não me perguntem. Não o conheço. Vocês o conhecem.

– O Euclides é arrogante – disse Gabriel. – É um muquirana. Se vós pensais que o tio Patinhas é o maior mão-de-vaca que existe, enganardes redondamente. Euclides é o mão-de-vaca típico. Era pobre. Enricou. E pensa que é o dono do mundo. Ele não tem uma caixa forte, mas tem coração de pedra e despreza os pobres. Todo pobre, ao se enriquecer, envergonha-se da sua vida de misérias, e refocila-se no luxo, para ocultar a sua história, para esconder de si mesmo o seu passado. O Euclides envergonha-se, do mesmo modo que todos os pobres que se enricaram, do passado, que o persegue pela vida afora; daí, escreveria um romancista, as fumaças de aristocracia. Ostenta erudição que não tem, fortuna nababesca, títulos a mancheias, carros do ano, símbolos de status alcançado, não com trabalho árduo, estudo e mérito, mas devido ao seu vínculo com políticos influentes. Com os joelhos flexionados, o reverenciam, servis. Beijam-lhe os pés. A recompensa, sabemos, é farta. O Euclides vive em uma redoma. Mora num condomínio. O filho e as filhas estudam em escolas particulares. Por que eles não estudam em escola pública? O Euclides não quer que eles se misturem à gentalha. Dona Florinda que o diga. A família dele tem plano de saúde particular. Por que eles não vão a hospitais públicos? Não querem se misturar à gentalha. Na garagem, tem três carros, ou quatro. Não importa. Ele é um riquinho. O filho dele, um mauricinho; as filhas, patricinhas. Soberbos e arrogantes, todos eles.

– Não sei o que o Euclides possa ter-te feito para tu destilar tanto veneno – comentou Alaíde. – O Euclides é rico? É. A riqueza faz dele um homem arrogante e soberbo? Não. Ele é orgulhoso? É óbvio que ele se orgulha das conquistas dele, do mesmo modo que me orgulho das minhas. Nesta vida atribulada, e a do Euclides foi atribulada, repleta de percalços, almejar o sucesso com o suor do próprio rosto, e obtê-lo, não é tarefa para os fracos. É tarefa para os fortes. Há ricos arrogantes, prepotentes e soberbos. Há ricos humildes, simpáticos. Não generalize, Gabriel. E não use estereótipos. De estereótipos o inferno está cheio. E eu também. Conheço pobres que são arrogantes, prepotentes, soberbos, gananciosos, mesquinhos e invejosos. Conheço pobres que são humildes, dotados de nobres sentimentos. Não me venha com a história, preconceituosa, discriminatória, de que todo rico é mau-caráter, personificação do mal, e todo pobre, bom, inerentemente bom. O Euclides é um homem bom. Ele é vaidoso? É. Quem não é? Ele é ambicioso? É. Quem não é? Ele é orgulhoso? É. Quem não é? Ganancioso ele não é, e nem arrogante, e nem prepotente. Ele é um homem seguro de si, confiante. Muita gente confunde firmeza de propósitos com ganância, e a mediocridade, a incúria, o desleixo e a pobreza com humildade.

– Filósofa – casquinou Gabriel.

– Não queiras desmerecer a minha opinião, espezinhando-me – retrucou Alaíde. – Se queres, alfinete-me. Exorto-te a não perderes o teu tempo. Sei que muitas pessoas invejam o Euclides, pessoas que ambicionam o que ele possui: Nome respeitável, riqueza, família feliz, coragem para defender os seus princípios, que o norteiam; princípios que, posso declarar, convicta de que tenho razão no que digo, oferecem-lhe a força necessária para se dedicar ao estudo, ao trabalho, e a coragem para propugnar os seus propósitos. Conheço muitas pessoas que, ao se depararem com o primeiro obstáculo, detêm-se, petrificados, e, ao não conseguirem transpô-lo, sucumbem, prostrados no chão, e desistem dos seus sonhos, se sonham, efetivamente; depois, ao transcurso dos anos, ao se recordarem do insucesso, ou desconversam, ou o justificam, atribuindo o fracasso à ausência de apoio, à hostilidade de um rival desleal, e nunca confessam a falta de vontade, de fibra. Eu poderia citar muitas pessoas fracassadas que agem assim. Por decência, não o farei. Meu respeito por elas não mo permite.

A conversa estendeu-se por meia hora. Gabriel, Alaíde, Cléber e eu divergimos em muitos pontos. A polarização entre Alaíde e Gabriel destacou-se e predominou na conversa. Os meus apartes e os do Cléber, adicionamo-los, tímidos, para não ferir suscetibilidades dos dois contendores, que abandonaram a razão, e agiram impelidos pelos sentimentos feridos. Não sei o que pôs fim à conversa. Passamos para outro assunto ao modo de ‘mudando de pato pra ganso’.

Reproduzi um trecho da conversa, do que me lembro. Não pretendi evocá-la com exatidão – estou impossibilitado de fazê-lo. Conservei, no entanto, o essencial; como pude, reproduzi o vernáculo de cada um deles, e, inclusive – esforço ingente; frutífero, acredito – o tom de voz deles e os sentimentos que lhes inspiraram as palavras que cada um deles proferiu. É infundada a minha certeza nesta crença no meu sucesso? Terei de confrontar o meu testemunho com o do Cléber, o do Gabriel e o da Alaíde. Após isso, não saberei, estou certo, se o relato concebido a partir dos testemunhos deles será fiel ao teor da conversa.

Como se vê, no trecho no qual relato tal conversa, não apresentei os meus comentários a respeito do Euclides. Eu os escrevi, mas, certo de que a apresentação dos meus comentários conduziriam os leitores à uma direção que lhes daria uma idéia equivocada de quem é Euclides, os suprimi, pois não se adequam ao propósito que tenho em mente.

Encerrada esta digressão, prossigo:

Ouvi, nos dias seguintes, outras pessoas a comentarem sobre Euclides. Constatei que a maioria delas não se simpatizam com ele.

Durval, na mercearia perto de casa, disse-me, hoje de manhã:

– Conheces o Euclides? Sujeito intragável. Cruzei com ele na loja Pés Macios. Que sujeito chato! A chatice em pessoa. Ele perguntava ao vendedor o preço dos sapatos, anotava-os em um caderninho, pedia desconto de quinze por cento no pagamento à vista, e ditava o preço do mesmo modelo de sapatos em outra loja. Queria o desconto. E insistia em obtê-lo. Sujeito miserável. É podre de rico, e vive a barganhar em todas as lojas em que entra. Ele não abre a mão nem para dar tchau. De que lhe vale tal apego à riqueza? Morto, ele não a levará ao túmulo.

À tarde Jaqueline, minha amiga desde a juventude, casada, mãe de Poliana e Rebeca, disse-me:

– Conheces o Euclides? Que homem simpático! Conheci-o, ontem. Ele e a esposa, Carmen. Homem elegante, charmoso. Bonito. Não conte isso para o Tiago. Ele morrerá de ciúmes – sorriu. – O Euclides não é extrovertido; mas o sorriso dele é lindo. Apreciei a conversa que mantive com ele e a Carmen. Pessoas ricas e simples. Eu os imaginava diferentes. Disseram-me que ele é arrogante, prepotente. Ele é simpático! Um homem de opiniões próprias. A dicção dele, perfeita. Ele é elegante, confiante, inteligente. Admiro as pessoas inteligentes, confiantes, dotadas de espírito de iniciativa e que zelam pela liberdade, a própria e a dos outros. E ele é humilde, embora podre de rico. Ontem, ele trajava terno, gravata e calça social. Ao fitá-lo, pensei com os meus botões: “Xi! Terei, agora, de aturar este esnobe com o rei na barriga” quando o Tiago mo apresentou. Diante de mim, o rei da cocada preta. E quem conheci? O Euclides surpreendeu-me. O Euclides que conheci não foi o Euclides de quem me falaram. O Euclides é invejado por aqueles que o admiram e admirado por aqueles que o invejam. Enfim, o meu lar, doce lar. Minhas filhas aguardam-me. Iremos ao oftalmologista. Temos, ainda, tempo para uma xícara de café. Aceitas?

Recusei o convite. Disse-lhe que, em outra ocasião, aceitarei dela convite para um café. Despedimo-nos.

Minutos depois, sentado num banco da praça Rui Barbosa, eu descansava à sombra de uma árvore quando ouvi uma voz chamando-me pelo nome. Voltei-me. Era o Euclides de quem todos me perguntavam “Conheces o Euclides?”

– Boa tarde – saudou-me.

– Boa tarde, Euclides. Passeando, para espairecer?

– Para refrescar a cabeça – respondeu-me. – Para deixar os pensamentos livres, soltos. Para renovar as energias. O trabalho enobrece, até certo ponto – e sorriu. – Se me sobrecarregar, entrarei em curto-circuito.

Sentou-se à minha direita, ajeitou-se ao encosto do banco, e cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda.

– Que calor! – exclamou, mais para si do que para mim; curvou a cabeça para trás, e olhou para o céu. – O céu, limpo. Hoje não choverá. A Carmen está gripada. A Heloísa ficou uma semana acamada. Trinta e nove graus de febre. O tempo quente e seco maltrata as pessoas. As crianças e os velhos são os que mais sofrem. Com eles, os cuidados têm de ser redobrados. O Gustavo, menino de dois anos, filho do Henrique, o meu vizinho da direita, foi encaminhado ao hospital. Desidratação. Diarréia. Meu pai, minha mãe e meu sogro, até agora, não sucumbiram à gripe…

Intrigou-me o comportamento do Euclides. Ele, lacônico, jamais se permite a expansividade. Falou-me do clima, de seu pai, de sua mãe, de seu sogro, da Carmen, da Heloísa, do filho do vizinho. Intrigou-me o seu comportamento. Conversamos, sossegados, à sombra da árvore. Falamos da minha família, da família dele, de futebol, carnaval, conflitos entre árabes e israelenses, atritos diplomáticos envolvendo o governo dos Estados Unidos e o da China. Euclides, bem informado, para enriquecer os seus argumentos, parafraseou filósofos, sociólogos e citou políticos de inúmeros países e vertentes ideológicas. Prolongamos a conversa por duas horas. Levantei-me. Preparei-me para me despedir. O Euclides reteve-me, e perguntou-me:

– Conheces o Euclides?

Intrigado, sentei-me. Fitei-o. Ele abriu um sorriso acanhado, e disse-me:

– Conheces o Euclides? Tu te perguntas porque te faço esta pergunta. Para te dizer a verdade, não sei porque a faço a ti. Desgosta-me muitas coisas que ouço… Conheces o Euclides? É a pergunta que mais se ouve por aí. Já te fizeram tal pergunta, não? Conheces o Euclides? Parece o título de uma peça teatral cômica, não te parece? Conheces o Euclides? O que te falam do Euclides? O Euclides é arrogante, prepotente, ganancioso. É simpático, trabalhador, humilde. Conheces o Euclides? Eu sou o Euclides. Não sou, nem o arrogante e prepotente, nem o simples e humilde. Digo-te uma coisa: Não sei quem é o Euclides. Não conheço o Euclides de quem tanto falam e que tão bem conhecem. Sou o Euclides. Quem sou? Já me fiz esta pergunta milhares de vezes. Há momentos em que me considero um homem trabalhador, correto e ambicioso. Noutros, atribuo-me pendores que não me agradam. Sou quem penso que sou; sou quem as pessoas pensam que sou; sou quem sou. Quem sou? Eu, que sou quem penso que sou, não me porque -me, e de rico. assim,rabalha comigo. timentos por ele eu alimento, qual conheço como sou; as outras pessoas não podem me conhecer, pois elas conhecem quem acham que sou, não quem sou. Muitas pessoas me elogiam, e um número muito maior de pessoas criticam-me. Não sou quem elas dizem que sou; e elas não podem me conhecer melhor do que eu me conheço, e mal me conheço à idade de quarenta e seis anos. Para encerrar: Conheces o Euclides?

Buraco de minhoca

Do Diário de Daniel.

Texto extraído das páginas 1.212 até 1.234. Datado de 17 de abril de 2007, terça-feira. Início: 8:15. Fim: 9:55.

Estranha a aventura que vivi há dez anos. Não a contei para ninguém. Hoje, decidi registrá-la. O que me sucedeu, naquele dia, passados, já, dez anos, não me sai da cabeça. Foram em vão todos os meus esforços para esquecer aquele dia. Desejo, em vão, apagá-lo da memória. Decidi, incapaz de esquecê-lo, registrá-lo. Relutei em escrever o que me sucedeu. Não sei definir o que se passou comigo. Perguntei-me, não raras vezes, porque eu escreveria o que me aconteceu, naquele dia, se para ninguém eu mostraria o texto. Dir-me-iam louco, eu estava, e estou, certo, todos os que tomassem conhecimento deste texto. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meu irmão, todos eles, fitar-me-iam com o canto dos olhos, se tivessem acesso a este relato, e lamentariam a minha insanidade mental. Meu irmão, Aquiles, dotado de imaginação extraordinária – mas as coisas fantásticas, no entendimento dele, restringem-se ao mundo irreal da imaginação, e nenhum contato têm com a realidade que conhecemos – também não me acreditaria. Nenhum deles, repito, tratar-me-ia como um homem de posse das suas faculdades mentais. A minha timidez, que sempre me impediu de dizer tudo o que penso e de narrar as minhas aventuras, não me permitiu atrever-me a contar o que vivi há dez anos. Neste diário encontram-se os meus pensamentos e o relato da minha vida. E conservo-os comigo, e apenas comigo.

O principio da aventura, inusitada, similar ao início de contos fantásticos; no entanto, ao contrário dos contos, cujos enredos brotam do cérebro de pessoas criativas, a minha aventura foi real. Conservo comigo as lembranças do que me sucedeu e trago uma estranha marca, a qual de todos oculto, em meu joelho direito.

Não me recordo do dia da semana em que o evento se deu – sei que ocorreu há dez anos, um dia após eu comemorar o meu vigésimo aniversário, na minha casa, com meus familiares e amigos -, nem quanto tempo durou.

Foi de manhã. Lembro-me que, na noite anterior, exausto, eu me deitara antes das dez horas da noite. Eu trajava apenas um short. Cobria-me um lençol fino, que me protegia dos mosquitos e dos pernilongos que infestavam o quarto. Era uma terça-feira? Ou uma quarta-feira? Ou um domingo? Não sei. Não sei em que dia, naquele ano, caiu o meu aniversário. Este detalhe é irrelevante. Se foi em uma quinta-feira, se em um sábado, se em uma segunda-feira o teor da aventura que vivi será o mesmo. Foi em Junho, estou certo, pois nasci no dia quinze de Junho.

Eu dormia, profundamente, quando, na escuridão do quarto, luz incomodou-me os olhos. Não despertei, de imediato. Recordo-me de, ainda a dormir, sentir luz intensa atingir-me os olhos e calor atingir-me o corpo. Não despertei, estou certo. Não muito tempo depois, outro clarão iluminou o quarto, e eu, semidesperto, entrecerrei as pálpebras, e vi – a minha visão embaciada – diante de mim uma coisa a flutuar sobre a minha cama, próxima de meus pés. A coisa parecia gelatina de morango. Não dei-lhe atenção. Era como se eu ainda dormisse, e aquela gelatina flutuante fosse uma personagem do meu sonho. Com o lençol cobri-me a cabeça. E dormi. Não sei quanto tempo depois, senti algo a puxar-me o lençol; aliás, senti o lençol a deslizar-me por sobre o corpo. Descoberto, nem adormecido, nem acordado, resmunguei, remexi-me na cama, tateei o colchão à procura do lençol, e não o encontrei.

Senti uma corrente de ar frio invadindo o quarto. Tremi de frio. Procurei pelo lençol. Não o encontrando, descerrei as pálpebras, estiquei-me, e apertei o interruptor. Atingiu-me os olhos a luz, obrigando-me a cobri-los com os antebraços. Habituado à luz, descerrei as pálpebras. E qual foi a minha surpresa ao ver, diante de meus olhos, uma coisa esquisita a flutuar, uma massa gelatinosa, brilhante, avermelhada, que irradiava brilho bruxuleante!

– O quê!? – berrei, assustado, arregalados os olhos, escancarada a boca, acelerado o coração, trêmulo o esqueleto, a fitar aquela coisa gelatinosa.

Berrei uma interjeição de espanto, mas não me ouvi. O medo talvez tenha me assustado tanto que por algum motivo não consegui ouvir o meu berro. Em meu inconsciente, ouvi as palavras que berrei; meus ouvidos, todavia, não as ouviram. Articulei as palavras, mas não as proferi. Eu as ouvi, mas não com meus ouvidos; eu as ouvi com meu inconsciente. Minha voz sumira inexplicavelmente. Assustado, pulei da cama, pronto para, em disparada, se necessário, sair, correndo, do meu quarto. Eu não entendia o que me ocorria. De repente, perdi os movimentos de meu corpo. Eu não o sentia. Meu corpo, imobilizado, ficou, contra a minha vontade, de frente para aquela coisa gelatinosa vermelha e brilhante. E comecei a flutuar. Eu não sentia meu corpo. Era como se eu o houvesse perdido. Ouvi uma voz feminina, suave, dentro de minha cabeça. Eu estava nervoso; meu coração batia acelerado.

– Daniel – dizia-me a voz -, não tenhas medo de mim. Não te prejudicarei.

Eu olhava, ainda assustado, mas não tanto quanto quando eu me deparara, pela primeira vez, com aquela coisa gelatinosa vermelha a flutuar diante de mim.

– Daniel – disse-me a gelatina flutuante (criatura desprovida de boca, nariz, de todos os órgãos que compõem um corpo) dentro de meu cérebro -, eu vim de um planeta distante, localizado em um sistema estelar longínquo – prosseguiu, após uma curta pausa -, situado em uma galáxia que os humanos desconhecem, e na qual há seres inteligentes mais evoluídos do que os humanos. Tal galáxia dista dois bilhões de anos-luz da Via-Láctea. Os humanos só a visitarão daqui doze mil e duzentos anos, quando desenvolverão tecnologia que lhes permitirá viajar através do tempo e teletransportarem-se através do espaço. Sei o que digo, pois viajo através do tempo por meio de um fenômeno que os humanos denominam Buraco de Minhoca, o mais comum meio de transporte empregado pela minha espécie. Empregamo-lo há muito tempo, no passado e no futuro. Descobri-mo-lo como controlá-lo, em um tempo que ainda não chegou para os humanos, e nunca chegará, um tempo que não está no futuro, nem no passado, nem no presente. Está em um instante; instante que não se localiza no passado, nem no presente, tampouco no futuro. Vim de uma galáxia na qual são inaplicáveis todas as leis da física que os humanos conceberam. Encarregaram-me os governantes do meu planeta de contatar um humano e para ele mostrar o que podemos fazer, e provar-lhe, de modo incontestável, que os humanos não são os únicos seres inteligentes no universo, muito menos os mais inteligentes. Os humanos desconhecem bilhões de universos, que compõem aglomerações de universos, que compreendem megauniversos, cuja concepção os seres dotados de inteligência inferior não podem compreender. Escolhi-te para transmitir-te o conhecimento do meu povo. Nenhum motivo especial eu tive para escolher-te. Detive-me no teu quarto, te vi a dormir, e decidi apresentar-te o meu mundo, os outros planetas do sistema estelar ao qual meu mundo pertence, e outras galáxias. O meu objetivo: mostrar-te que os humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, e nem os mais inteligentes. Depois, tu difundirás, na Terra, para todos os humanos, os conhecimentos que te transmitirei, e todos os humanos conhecerão o que há no universo, e tomarão conhecimento da nossa existência e da existência de muitas outras espécies de seres inteligentes que vivem em outros planetas, em outras galáxias, em outros universos.

A criatura gelatinosa tentava traduzir para a linguagem humana as idéias que desejava me transmitir. As palavras dela não são as que escrevi; o teor do que ela me disse, no entanto, é, acho, o que registrei. Sou o mais fiel possível ao conteúdo do que ela me disse. Dez anos separam-me daquele dia; não posso me recordar de todas as palavras que a criatura gelatinosa disse-me.

Não sei como definir aquela criatura, a não ser chamando-a de criatura. Uma criatura estranha, uma criatura esquisita. Não sei a qual espécie ela pertence, e em qual galáxia situa-se o planeta no qual ela vive. Tais informações ela não mas passou; se mas passou, delas não me recordo. Talvez ela tenha me dito de qual galáxia ela é originária, mas eu, dominado pelo medo, mal lhe ouvi o relato da viagem que ela empreendera até à Terra dentro de um túnel espaço-tempo e sob influência de outros fenômenos que apenas Einstein, John Wheeler, Chandrasekhar, Roger Penrose, Alexander Starobinsky, Friedmann, Niels Bohr, e outros cientistas da mesma estirpe seriam capazes de entender.

Pouco pude entender do que a criatura disse-me. Aquela criatura estranha, a criatura mais estranha que já vi, mais estranha do que ornitorrinco, do que equidna e do que os animais que habitam os abismos dos oceanos, disse-me que não estava no tempo que eu percebia, ou algo assim; que não estava, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. Ela simplesmente estava. Foi isso o que entendi do que ela me disse. Ela também me disse que o universo não foi criado, porque sempre esteve. Não disse que sempre existiu; disse-me que o universo sempre esteve. Não entendi o que ela quis me dizer, e não quero saber o que ela quis dizer-me, e não pensarei mais nisso. Não queimarei meus neurônios. Restam-me poucos, depois de tantos anos a queimá-los em trabalhos árduos e infrutíferos, e não quero desperdiçá-los com mistérios que não posso desvendar.

Encerro a minha tentativa de relatar o que a criatura disse-me, não sei em quanto tempo, pois de tudo o que ela me disse de quase nada me recordo – e nada compreendi do que ela me relatou durante horas (Horas? Posso mensurar, em horas, o tempo quando o tempo sofria não sei quais efeitos com a presença da criatura?).

Não me esforçarei para recapitular o que se passou, no meu quarto, e tampouco pretenderei – pois sei que é-me impossível – reconstituir o discurso da criatura. Não entendi patavinas do que ela me disse; se a minha memória não me engana, ela demorou para perceber que eu não a entendia; para infelicidade dela, ela não entabulou conversa com um indivíduo humano mais inteligente do que eu e com conhecimento em cosmologia; com a sua inteligência inigualável, ela não teve paciência para examinar os humanos e selecionar um que fosse dotado de intelecto vigoroso, e, ousado, não temesse inteirar o mundo de sua história. Se tivesse paciência – o tempo inexiste para ela, segundo entendi -, ela selecionaria um indivíduo humano intelectualmente bem dotado e para ele transmitiria as suas idéias – suspeito que tal humano, tanto quanto eu, intimidar-se-ia com toda a história, recusar-se-ia a contar para outras pessoas o que lhe ocorreu, e conservaria consigo a história, como eu o fiz.

Ao notar que eu não a compreendia, ela disse-me dentro da minha mente:

– Tu, com a tua inteligência inferior – o seu tom de voz, arrogante -, não entendes o que te digo. Creio que nenhum individuo humano é capaz de entender-me – inspirou-me a mente a vontade de encaixar-lhe um soco no nariz. Ela leu-me a mente. – Não te desesperes. Não te enerves. Não dominarei os humanos. Se a minha espécie desejasse dominar-lhe, vós não poderias impor-nos resistência. Não vos dominarei. Estou, neste planeta, para apresentar para um individuo humano os conhecimentos e a tecnologia da minha espécie e o universo. Prepara-te para a viagem.

– Viagem? – perguntei, sem articular a palavra.

– Sim – respondeu-me a criatura. – Viajaremos através de um Buraco de Minhoca.

Expressei confusão de pensamentos. A criatura replicou. Encetamos discussão, eu, nervoso e enfezado, ela, calma e serena. Enfim, ela fez sair de dentro de seu corpo um aparelho menor do que meu polegar, e disse-me que era o controlador do Buraco de Minhoca. O aparelho emitiu um brilho alaranjado, e diante de mim apareceu um círculo. Olhei para o seu interior, que não tinha dimensões, e arregalei meus olhos, assustado.

– O que é isso? – perguntei, tolamente.

– O Buraco de Minhoca.

– Aonde tu me levarás?

– Tu verás – respondeu-me a gelatina flutuante. Tive a impressão de haver visto sorriso escarninho em seu rosto (a criatura é desprovida de rosto).

Em pé, flutuei até o Buraco de Minhoca, que se alargou para que eu nele entrasse, e a criatura posicionou-se à minha direita.

Não sei descrever o que senti quando meu corpo foi puxado para dentro do túnel sem fim. Eu, parecia-me, não me mexia. Mas eu me mexia. Não muito tempo depois (é incômodo falar em tempo, neste caso), me vi diante de uma esfera chamejante. A criatura disse-me tratar-se da Terra em formação. Um espetáculo fabuloso. Vi a Terra a formar-se em ritmo acelerado. Vi dinossauros a caminharem pelos continentes. Vi asteróides atingirem a Terra. E os dinossauros foram dizimados. Diante de meus olhos sucederam-se, num ritmo alucinante, as eras glaciais, erupções vulcânicas, o surgimento da civilização, a construção de grandes cidades. Reconheci os jardins suspensos da Babilônia, as pirâmides do Egito, Macchu Picchu, o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, a Grande Muralha, o Taj Mahal, o templo de Angkor Vat, e muitas outras maravilhas que os humanos construímos. A história humana desenrolou-se diante de meus olhos. Vi as ruínas de todas as grandes construções. Vi os humanos a esfacelarem-se em guerras sangrentas. Chegamos ao tempo presente: o ano de mil, novecentos e noventa e sete. Não se encerrou a viagem através do tempo. Vi o futuro dos humanos. As viagens espaciais. A construção de colônias humanas na Lua, em Marte, em Titã. As viagens interestelares. A espécie humana a modificar-se diante de meus olhos. Transcorreram-se séculos, milênios, dezenas de milênios. E a espécie humana a transformar-se. Os humanos converteram-se em seres irreconhecíveis. Vi, fascinado, a espécie humana a transformar-se. Se a criatura não me dissesse que aquelas criaturas que eu tinha diante de meus olhos eram humanas, melhor, seres que evoluíram do homo sapiens, eu não saberia que se tratavam de seres nos quais nossos descendentes se transformariam, num futuro distante; para a criatura, disse-me ela, tudo aquilo já havia acontecido. E vi Sol a expandir-se, e a engolir Mercúrio, Vênus e a Terra. E o Sol explodiu. E fez-se as trevas.

Após a viagem através do tempo, na Terra, a acompanhar o progresso da civilização até o seu desaparecimento, que se deu com a transformação da espécie humana em outra espécie, que vivia, além da Terra, em outros planetas acolhedores de outros sistemas estelares, a criatura disse-me que iríamos para a galáxia em que se situa o planeta em que ela vive.

Eu era incapaz de compreender tudo o que vi. A criatura e eu rumamos para planetas nos quais viviam criaturas estranhíssimas, que fundaram civilizações detentoras de tecnologia inigualável.

Detivemo-nos em um planeta em que os indivíduos, como a criatura, comunicavam-se por intermédio da mente, ou de um órgão similar. Eram criaturas de mais de cinco metros de altura, dotadas de três pernas, seis braços, cinco olhos, e desprovidas de boca e de ouvidos. Procriavam-se com o pensamento. Quando uma criatura desejava conceber um descendente, pensava na concepção, e o descendente brotava de um de seus pés e, pouco tempo depois, caminhava, e atingia o tamanho de um indivíduo adulto da sua espécie sem que tivesse ingerido alimento. Possuíam extraordinário vigor intelectual. O planeta que habitavam, mil vezes maior do que a Terra, estava coberto de cidades grandiosas. Quase nada entendi do que eles faziam; os seus gestos e a sua tecnologia estavam longe da minha compreensão.

Daquele planeta rumamos para outro planeta, habitado por estranhas criaturas inteligentes de cultura avançadíssima (não sei se o que vi se passou no tempo presente, isto é, no ano terrestre de mil, novecentos e noventa e sete, ou se a dezenas de milhões de anos no futuro, ou no passado).

Criaturas estranhas e inconcebíveis pela imaginação humana, dotadas de alto grau de conhecimento tecnológico, dominavam alguns fenômenos universais e tinham amplo conhecimento das forças que atuam no universo; construíam naves espaciais que viajavam através do tempo e através do espaço.

A criatura falava-me do que me mostrava, dos planetas, das espécies de criaturas que viviam em cada um deles, das maravilhas que me apresentava – e quase nada me lembro do que ela me disse -, e quase nada entendi, pois, na linguagem humana não há vocábulos para defini-las.

Visitei o planeta da criatura gelatinosa. Era o planeta maior do que a Terra. Presumo, é-me impossível afirmar, que é do tamanho de Júpiter. Centenas de bilhões de criaturas gelatinosas avermelhadas flutuavam no céu do planeta. Entramos em uma construção, na qual havia, instalada, uma máquina de seiscentos metros de altura e que se estendia até o infinito. A criatura disse-me que era uma máquina que criaria um Buraco de Minhoca gigantesco, pelo qual o planeta viajaria através do espaço e através do tempo. Em vão, tentei conceber o que ela me disse.

Durante a viagem, cai, e resvalei meu joelho direito em uma substância segregada por uma criatura. Em meu joelho direito ferido apareceu uma estranha marca, e trago-a comigo, marca que ora emite brilho avermelhado, ora brilho multicolorido, ora abre-se, e em seu interior vejo as galáxias, como se me descortinassem os portões do universo – talvez a existência da marca em meu joelho direito explique porque pude esconder, a partir daquele momento, da criatura gelatinosa os meus pensamentos.

A criatura guiou-me pelo seu planeta, e apresentou-me todos os seus aspectos. Depois de eu haver ganhado, se posso assim dizer, a marca em meu joelho direito, passei, não a entender o que a criatura explicava-me, mas a ver tudo sem a confusão inicial. Se meu consciente não entendia todos os fenômenos dos quais a criatura dava-me explicações minuciosas, meu inconsciente apreendia-os; todavia, não posso explicá-los com a linguagem humana; consigo entendê-los apenas com a linguagem da espécie da criatura gelatinosa flutuante.

As aventuras posteriores foram interessantes, mais interessantes, até, do que as primeiras, pois eu pude, como eu já disse, apreender os fenômenos à medida que eu me familiarizava com a linguagem da criatura gelatinosa. Pude, até, entender o diálogo dela com outros indivíduos da sua espécie. Os humanos do meu tempo estão muito distantes, no que diz respeito à inteligência, daquelas estranhas criaturas; e apenas daqui dezenas de milhares de anos a elas se igualarão, e poderão compreender os mais fantásticos fenômenos do universo.

A criatura não sabia que eu podia entendê-la, e tampouco sabia que eu podia compreender os fenômenos universais que ela e os da sua espécie compreendiam e controlavam. As criaturas gelatinosas falavam de todas as suas tecnologias, fabulosas tecnologias. Controlam forças muito mais poderosas do que as que os humanos controlamos. Forças inconcebíveis para a nossa minúscula capacidade cerebral.

Mal controlo o que escrevo. Descarrego, na minha agenda, todas as palavras que me vem à mente. Mesmo que eu tenha adquirido uma parcela da inteligência das criaturas, eu ainda penso, na Terra, como humano.

Enfim, sem aviso, a criatura gelatinosa encerrou a jornada através do tempo e através do espaço, e devolveu-me à Terra, em uma manhã, ao meu quarto, cuja janela estava fechada, e pelas suas frestas réstias de luz o invadiam, e despediu-se de mim com palavras amigáveis, nas quais não li nem vaidade, nem desejos similares aos dos humanos. Retirei-me do quarto. Em casa, todos dormiam. Não me dei ao trabalho de olhar para um relógio, e verificar as horas. Também não olhei para o calendário na porta do meu guarda-roupa.

Fim do texto extraído do Diário de Daniel

*

Chamo-me Aquiles. Sou irmão do Daniel. O texto acima foi publicado, originalmente, pela Editora E***r** B*a***i. Hoje é o dia 21 de dezembro de 2028, quinta-feira, dez anos após a morte de meu irmão. Este conto fantástico eu o encontrei em meio a vários rascunhos de aventuras fantásticas que meu irmão adorava escrever. Publicado o conto há seis anos, meu irmão recebeu, postumamente, mais de vinte prêmios literários. Vertido para o cinema, o filme conquistou grande público em vários países. Lendo-se o texto tem-se a impressão de que Daniel viveu a aventura narrada no conto, mas ela é, unicamente, fruto da sua poderosa imaginação. Meu irmão fascina-me. Não consigo entendê-lo. Como ele podia tomar como verdadeiras as estórias que brotavam da sua criatividade prodigiosa?

*

Ano: 2097. 03 de março. Domingo. 5:15 da manhã. Meu irmão morreu há trinta e quatro anos, sete meses e oito dias. Infelizmente, a sua incredulidade impediu-o de tomar como verdadeira a história, que ele toma como estória, que extraiu do meu diário. Leu-a – e a todas as outras – apenas como uma aventura fantástica criada pela minha imaginação.

A criatura, se regressasse à Terra para conhecer o que fiz, isto é, o que não fiz, porque para ninguém contei a minha experiência, saberia que os humanos nada sabem da sua passagem pela Terra, e frustrar-se-ia, porque, primeiro, guardei comigo a história da minha aventura durante dez anos, até registrá-la no meu diário; depois, ao vir ao conhecimento do público, por intermédio de meu irmão, transformou-se a história em um sucesso literário, depois cinematográfico – e não é nada mais do que uma aventura de ficção científica como milhões de outras; e atualmente dela ninguém mais se lembra.

O maior prêmio que recebi, que não dividi com ninguém, foi o aparelho que me permite viajar através do tempo e através do espaço, e que controla o fenômeno universal chamado Buraco de Minhoca. Estou fazendo bom uso dele. Furtei-o, sorrateiro, do interior de um aparelho, quando as criaturas gelatinosas, desatentas, conversavam. As criaturas, desprovidas de mãos, não conhecem o talento humano para a prática do furto. Para a minha felicidade, pude ocultar os meus pensamentos da criatura gelatinosa que me guiava através do tempo e através do espaço, talento que desenvolvi durante a viagem, e que decorria da marca que trago comigo em meu joelho direito. De todos a ocultei. Ela me permitiu – depois do meu regresso à Terra – realizar aventuras inimagináveis pelos confins do universo e de outros universos e dialogar com outras criaturas inteligentes, muitas delas mais inteligentes do que os seres humanos. Ela faz parte de meu corpo, como o fazem minha cabeça, meus braços, minhas pernas, e todas as minhas outras partes.

Chineladas

Encerrado o expediente, o pai, logo que entrou na sua casa, deu duas chineladas em seu filho, que, surpreso, exclamou, indagando-o:
– Pai, por que você me deu chineladas!? O que eu fiz de errado!?
E o pai respondeu-lhe:
– O que você fez de errado, não sei. Mas que você fez alguma coisa de errado, fez, pois eu dei duas chineladas em você.

Pensamento positivo

– Querer é poder – disse Marco Aurélio para Robson, então desanimado antes do início da conversa; agora, ouvidas as palavras animadoras de Marco Aurélio, e a sentença estimulante, motivadora, animou-se Robson, que prometeu para si mesmo que seria bem-sucedido em seu empreendimento.

Robson queria ser arquiteto. Não se classificara, no ano anterior, no vestibular. E neste ano prestaria exame vestibular.

– Chute para escanteio a tristeza, Robson – aconselhou-o Marco Aurélio. – Pense positivo. Pense positivo, sempre. Diga para você mesmo: “Eu conseguirei. Serei um arquiteto. Estudarei em uma faculdade de arquitetura. Serei um arquiteto.” Esteja certo, Robson. Você será um arquiteto. Pense positivo. Pense positivo, sempre.

Robson não foi o único candidato à vaga à uma cadeira na faculdade de arquitetura que pensou positivo. Outros seis mil jovens prestaram vestibular para ingressarem na faculdade de arquitetura, e todos eles tiveram a mesma idéia: Pensar positivo. Eram cinquenta as vagas à disposição dos candidatos. Façamos às contas. Seis mil candidatos para cinquenta vagas. Para cada vaga, cento e vinte candidatos.

Evoco, de memória, uma história que ouvi, certa vez, de meu avô. Ele me disse que, certa ocasião, não me recordo se na copa de 58, se na de 62, se em outro campeonato de futebol, Garrincha perguntou, com a sua sutileza de passarinho (em uma época em que ele estava no auge) à pessoa que disse que o Brasil tinha de ganhar o jogo:

– Já combinou com os suecos?

A história foi mais ou menos essa a que meu avô contou-me. Talvez eu a tenha alterado, mas ela me serve para ilustrar o que se sucedeu com Robson.

Os seis mil candidatos às cinquenta vagas do corpo discente da faculdade de arquitetura não sabiam que Robson pensava positivo e Robson não sabia que eles pensavam positivo. Os pensamentos positivos dos seis mil candidatos colidiram-se uns contra os outros no dia da prova. E Robson soube, poucas horas depois de encerrado o tempo à disposição para os candidatos responderem às cem questões, o gabarito às mãos, comparando as respostas corretas com as que registrara, para seu desgosto, que acertara menos de cinquenta por cento das questões, e não se classificaria, não lhe restavam dúvidas, entre os cinquenta melhores candidatos. Daria adeus, persuadiu-se, ao seu sonho de cursar a faculdade de arquitetura.

No dia seguinte, Robson encontrou-se com Marco Aurélio, e falou-lhe do vestibular:

– Acalme-se, Robson – aconselhou-o Marco Aurélio. – Você conferiu o gabarito, mas ainda não foi publicada a lista dos candidatos classificados. Das cem questões, você acertou quarenta e oito, o que corresponde a quarenta e oito por cento das questões. É uma porcentagem baixa de acertos, o que não dá a você razões para se preocupar. E digo isso porque li, anteontem, uma reportagem, publicada na revista **, na edição da semana passada, apresentando os resultados de uma pesquisa. Pasme-se, Robson. Ouça-me, atentamente, e alegre-se. Um pouco mais de cinquenta por cento dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Pense positivo. Pense positivo, sempre. Muitos candidatos, é certo, foram, no vestibular, piores do que você. Pense positivo. Pense positivo, sempre.

– E se o resultado da pesquisa estiver errado? – perguntou Robson.

– Provavelmente está – sentenciou Marco Aurélio, sorrindo. – Corrijo-me: Está errado, certamente. Lendo a pesquisa financiada por um órgão público, ou por um órgão particular financiado com dinheiro público, e indicando problemas que não se pode varrer para baixo do tapete, então, digo, sem o receio de errar, adulteraram-se os resultados, reduzindo-se os seus pontos negativos. Pense: Se os resultados indicam que cinquenta por cento dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais, então… Pense, Robson. E pense positivo. Pense positivo, sempre. E conclua o meu argumento. Complete o meu raciocínio. Então, adulterado o resultado, foi reduzida a porcentagem de alunos analfabetos funcionais do total do corpo estudantil brasileiro. E os analfabetos funcionais correspondem a sessenta por cento, ou a oitenta por cento, ou a cem por cento dos universitários, e não aos um pouco mais de cinquenta por cento indicado pela pesquisa; então, é a conclusão óbvia, ou sessenta por cento, ou oitenta por cento, ou cem por cento dos candidatos à faculdade são analfabetos funcionais.

– Se cem por cento – comentou Robson – são analfabetos funcionais, então eu também o sou, e não sabia; então… qual é a minha chance…

– Pense positivo, Robson. Pense positivo, sempre. Consulte a lista dos nomes classificados, e… Pense positivo. Pense positivo, sempre.

Duas horas depois, Robson consultou a lista com os seis mil nomes de candidatos. O seu nome ocupava a 2394ª posição. Cabisbaixo, Robson rumou para a sua casa, à porta da qual encontrou Marco Aurélio; voz tatibitate, fisionomia murcha, suspirando a curtos intervalos, falou-lhe da sua desclassificação.

– O que se pode dizer, Robson? – perguntou Marco Aurélio. – Todos os outros candidatos pensaram positivo. Alguém tinha de ser desclassificado, não é? Se eu fosse você, pensaria positivo, pensaria positivo, sempre, e tentaria o vestibular novamente; poderemos corrigir os nossos erros, aliás, você poderá corrigir os seus erros, afinal, contou-me você, você não estudou para o vestibular…

– Você me disse que bastava eu pensar positivo, que as coisas aconteceriam por si.

– Robson, pense positivo, mais uma vez, e estude, que você se classificará no vestibular, e se inscreverá na faculdade de arquitetura, com certeza.

– Você acredita? Marco Aurélio, pense positivo, pense positivo, sempre. A minha vontade é a de acertar um soco na sua cara e quebrar seu nariz. Pense positivo, Marco Aurélio. Pense positivo, sempre. Pense que você poderá esquivar-se da bordoada. Pense que eu escorregarei, e você fugirá de mim. Pense que cairá um raio em minha cabeça. Pense positivo, Marco Aurélio. Pense positivo, sempre. E saiba que eu, pensando positivo, pensando positivo, sempre, acertarei, positivamente, um soco nas suas fuças…