Dois tiros

Quarta-feira. Temperatura amena.

Celso, imerso em seus pensamentos, andava, tranquilamente, pela avenida Dom Pedro II.

– Entregue-me a carteira – ameaçou-o um jovem alto, espadaúdo, moreno, de cabelos desgrenhados, que lhe encostou a ponta de uma faca na ilharga direita.

Celso sentiu a ponta afiada da faca, e, automaticamente – com movimentos robóticos, dir-se-ia -, retirou a carteira do bolso posterior direito da calça, e entregou-a ao jovem, que arrancou-lha da mão, com violência, e correu, e o seu comparsa, jovem magro, loiro, branco, de um metro e setenta de altura, o acompanhou. Desapareceram no meio da multidão. Celso levou a mão direita ao peito, e sentiu o coração bater descompassado. Aos poucos, recuperou o controle de si. Demorou para entender o que ocorrera; e suspirou, aliviado. Uma mulher, que testemunhou o assalto, de Celso aproximou-se, e aconselhou-o a ir à delegacia de polícia.

Na delegacia, vinte minutos depois, Celso descreveu aos policiais os dois assaltantes.

Transcorreram-se os dias. Em frente à loja Novidades, Celso e um seu amigo, Edson, conversavam quando aquele entreviu, indo em direção a eles, os dois jovens que lhe roubaram a carteira, e empalideceu, e aceleraram-se-lhe os batimentos cardíacos. Os dois jovens seguravam, cada um, uma corrente pela alça; um dos jovens trazia consigo um rottweiller; o outro, um pitt-bull.

– O que houve? – perguntou Edson a Celso, ao surpreender-lhe a brusca mudança de voz e a palidez repentina.

Um dos jovens, o loiro, gritou o nome de Edson. Edson voltou-se, saudou-o. Os dois jovens aproximaram-se. Reconheceram Celso. Sorriram. Saudaram, com apertos de mãos, Edson, e Celso, que, pálido, trêmulo, saudou-os, constrangido, intimidado. Conversaram com Edson, durante cinco minutos, a respeito dos cachorros que levavam com eles. Despediram-se. Fitaram Celso, sorridentes, desejaram-lhe felicidades, e afastaram-se.

– Eles me assaltaram, na semana passada – disse Celso, assim que os dois jovens distavam cinquenta metros.

– O Osvaldo e o Ricardo? – perguntou Edson, surpreso.

– Sim – respondeu Celso. – Eles roubaram a minha carteira. Você sabe onde eles moram?

Edson forneceu-lhe o endereço de Osvaldo.

No dia seguinte, Celso pegou o revólver de seu pai.

– Aqueles vagabundos me pagarão caro – rosnou Celso. – Vou enviá-los para o inferno – e rumou para a casa de Osvaldo.

Quinze minutos depois, chegou ao seu destino. Premiu a campainha. Ouviu os latidos dos cachorros. Ricardo atendeu à porta, reconheceu Celso, encarou-o, e sibilou:

– O que você quer, idiota?

Celso franziu o cenho.

Os cachorros intensificaram os latidos.

Celso apontou o revólver para a cabeça de Ricardo, que, de imediato, emudecido, surpreso, arregalou os olhos, e recuou dois passos.

Celso, com voz cavernosa, ameaçadora, deu-lhe a ordem:

– Entre!

Ricardo obedeceu-o, prontamente, mesmerizado pelo revólver apontado à sua cabeça.

Recrudesceram os latidos do rottweiller e do pitt-bull.

No interior da casa estava Osvaldo, que, ao ver Ricardo e Celso, não esboçou nenhum gesto. Fitou-os, em silêncio.

Celso pôs os dois à mira do revólver.

– Vim buscar a minha carteira – sentenciou Celso.

O rottweiller e o pitt-bull latiam, infatigáveis.

Osvaldo entregou a carteira para Celso, que, com brusquidão, retirou-lha da mão, e perguntou-lhe, ríspido:

– E o dinheiro?

– Gastamos… – respondeu, voz trêmula, Osvaldo.

– Malditos cães! – esgoelou-se Celso, que apertou o gatilho duas vezes. Com o primeiro tiro, matou o rottweiller; com o segundo, o pitt-bull.

E correu, célere.

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O conto e o prefácio

Pedi, há um mês, para um amigo meu um prefácio para um conto que escrevi. Antes não lhe tivesse pedido. Ele dissecou o conto, cortou-o em fatias, e o resumiu. Antes de publicar o conto, detive-me, e perguntei-me porque eu o publicaria, se o prefácio apresenta, em síntese, toda a sua trama. Eu repetiria, com a publicação do conto, o que está no prefácio, e o leitor ao lê-los esbravejaria: “Maldito sejas, Sergio! Li duas vezes a mesma história. Tu me fizeste perder o meu tempo. Vá para o inferno. Tenho mais o que fazer, imbecil!”. E eu teria de dar-lhe razão, e calar-me, e reconhecer a minha insensatez. E eu me perguntei uma vez mais porque eu publicaria o conto, se o conto conta o que o prefácio já contou. E decidi publicar apenas o prefácio que para o meu conto o meu amigo escreveu. Decidido, então, a publicar apenas o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, perguntei-me se o conto poderia, um dia, se encontrado por alguém, vir a ser publicado; e decidi, sem pensar duas vezes, queimá-lo, e queimei-o. Queimado o meu conto, nenhum risco existe de ele vir a ser publicado. E perguntei-me, não muito tempo depois, se eu publicaria o prefácio que para o meu conto, que eu queimara, meu amigo escreveu. Sim, eu o publicaria. E para mim justifiquei a minha decisão, que para o leitor é, presumo, uma insensatez: Prometi ao meu amigo – o autor do prefácio – que eu publicaria o prefácio que lhe pedi para o meu conto. Ele o escreveu. E eu, para não faltar com a promessa que lhe fiz e não perder o amigo, o publicaria. E prometi-me nunca mais pedir para um amigo meu, ou para qualquer outra pessoa, um prefácio para um conto meu. Eu escreverei um prefácio para os meus contos. Aliás, um prefácio para qualquer conto meu eu jamais escreverei. E se eu, no prefácio, incorrer em atitude similar à do meu amigo que escreveu para um conto meu um prefácio, e tiver de, repetindo no prefácio a trama do conto, abandonar o conto? Prefiro não arriscar. E o meu amigo, o prefaciador, perguntou-me, há uma hora, do meu conto, e eu lhe disse que eu o queimara, e ele, horrorizado ao ouvir-me, exigiu-me explicações. Dei-lhas; e ele disse que, como o meu conto não seria publicado, ele não permitiria que eu publicasse o prefácio que ele escreveu para o meu conto. E discutimos. E assim que se acalmou, meu amigo pediu-me o prefácio que me havia escrito, para relê-lo. Dei-lho. E ele, para a minha surpresa, correu, e tirou do bolso da camisa uma caixa de fósforos, e ateou fogo às folhas com o prefácio. Assim que me dei conta do que se passava, as chamas já haviam consumido todas as folhas. E queimados o meu conto e o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, a humanidade – triste humanidade! – jamais terá o prazer de ler o meu conto e o prefácio que para ele escreveu o meu amigo.

O dia mais triste

Na altura dos seus setenta anos era meu avô um homem de físico vigoroso e porte altivo. Calvo nas têmporas, rareavam-lhe as cãs no topo da cabeça – fios esparsos e curtos mal cobriam as manchas vermelho-amarronzadas que lha salpicavam. Dizia-nos ele, para mim e para seus outros netos, que tais manchas eram sujeirinhas que os anjinhos, peraltas e traquinas, arremessavam, do céu, para a Terra, para irritar os velhinhos.

Tinha um hábito meu avô: Sempre que íamos passear, antes de se retirar da sua casa, enchia ele o bolso esquerdo da camisa com balas, para distribuí-las para as crianças.

Certo dia, perguntei-lhe:

– Vovô, por que o senhor põe as balas no bolso esquerdo, e não no bolso direito?

E respondeu-me ele com a serenidade costumeira:

– Para as balas ficarem mais perto do coração.

Satisfiz-me com a resposta, que me agradou, animou-me, e sorri.

Embora mal chegado aos seis anos, tinha eu sensibilidade para captar os sentimentos que as palavras de meu avô traduziam.

Um dia, entristeceu-se meu avô. Que dia? Não me recordo. A minha memória não me permite evocar, com exatidão, o dia, a hora, o local em que se deu o evento que entristeceu meu avô. E tais detalhes são irrelevantes. Relevante foi o que se sucedeu, naquele dia, idos, já, trinta anos. Gravei, no recanto mais fundo da minha alma, os detalhes essenciais.

Estava meu avô, como lhe era hábito, vestido de calça social preta, sapatos pretos e camisa branca de dois bolsos, o bolso esquerdo estufado de balas, e meu avô esvaziava-o aos poucos, tirando uma bala, para dá-la a uma criança, e outra bala, para dá-la à outra criança… E repetia meu avô o ritual: Saudava a criança, perguntava-lhe o nome, perguntava-lhe se era ela obediente, passeava-lhe a mão direita pela cabeça, ajeitava-lhe os cabelos, fazia-lhe graça no queixo, e presenteava-a com uma bala, e brilhavam os olhos da criança e os de meu avô, que irradiava felicidade, como se admirasse um anjo.

Estava, já, quase vazio o bolso esquerdo da camisa de meu avô, quando, após atravessarmos a rua, aproximou-se meu avô de um menino de três, talvez quatro, anos, e uma mulher, sua mãe, e meu avô, ao mesmo tempo em que enfiava a mão esquerda no bolso esquerdo da camisa para dele tirar uma bala, e estendia a mão direita na direção da cabeça do menino, e abria a boca para perguntar ao menino o nome, o menino, cenho franzido, olhar maldoso, fitou meu avô, e disparou, ríspido, destilando ódio:

Fidaputa!

Uma flecha envenenada alvejou, no coração, meu avô, que se petrificou e empalideceu, estupidificado. Não conseguiu meu avô recompor-se; conservou-se ele inclinado para a frente, a mão esquerda dentro do bolso esquerdo da camisa, o braço direito estendido na direção do menino, os dedos quase lhe tocando a cabeça, e, na boca entreaberta, presas, as palavras.

Fidaputa! – repetiu, olhos fixo em meu avô, o menino, num tom mais elevado, e firme, e cortante.

E a mãe do menino, curvando-se, aproximou sua cabeça da dele, e pousou-lhe, nas costas, intimidada, e cautelosamente, a mão esquerda, e disse-lhe, constrangida, voz débil, como a suplicar-lhe:

– Querido, não fale assim com o vovozinho. Você é um menino bonzinho.

Enquanto assim dirigia-se a mulher ao seu filho, meu avô recompôs-se, de dentro do bolso esquerdo da camisa tirou a mão esquerda vazia, e recolheu o braço direito, sem desviar o olhar; olhava, entristecido, rosto lívido, sentindo profunda dor no peito, para o menino.

Senti cessar o coração de meu avô.

– Querido, diga bom-dia para o vovozinho – suplicou a mãe ao menino.

Fidaputa! – proferiu o menino, firme, a acutilar meu avô com aquele olhar diabólico, que gelou-me a espinha.

– Não diga isso, querido – suplicou-lhe a mãe, em tom débil, servil. – Seja bonzinho.

– Não! – respondeu-lhe o menino, ao mesmo tempo em que desferiu-lhe um tapa no rosto.

E a mãe massageou o rosto, fitando, com olhar servil, amedrontado, seu filho; curvada, pegou-lhe as mãos, e disse-lhe, em tom débil, a suplicar-lhe que andasse.

O menino, ao dar os primeiros passos, sobrancelhas dobradas sobre os olhos, então no fundo de crateras abismais, que lhe emprestavam ao rosto o semblante de um demônio, fitou meu avô, e rosnou, cavernoso:

Fidaputa!

E afastaram-se de meu avô e de mim a mãe e seu filho.

Encheram-se de lágrimas os olhos de meu avô, e um fio de lágrimas, que reluziu à luz do Sol, escorreu-lhe do olho esquerdo, e caiu-lhe dentro do bolso esquerdo da camisa.

Segurei a mão de meu avô, e apertei-lha, firmemente, para ampará-lo.

E rumamos para casa, a passos lentos, meu avô cabisbaixo, e eu a fitá-lo a curtos intervalos, e ler-lhe no semblante dor profunda.

Passados, já, trinta anos, falecido meu avô a dezesseis, sempre que deste episódio me recordo, pergunto-me: Quem merecia ouvir censuras, o menino, ou sua mãe?

Língua Portuguesa e Matemática: Essenciais.

… e o governo Temer apresentou uma reforma na Educação. Mais uma das muitas que o Brasil já viu. Desta vez, a reforma irá melhorar a educação brasileira? Não conheço os detalhes da proposta do governo; não entrarei, portanto, no mérito da questão. Limito-me a dizer que são essenciais a Língua Portuguesa e a Matemática. Se não se aprende, e bem, estas duas disciplinas, não se aprende, e bem, nenhuma outra. E das duas, a principal é a Língua Portuguesa. Não se conhecendo o Idioma Pátrio (infelizmente negligenciado nas escolas), não se pode ler, e tampouco compreender o que se lê. É impossível entender um enunciado de um problema de Matemática se se desconhece a Língua Portuguesa. Não se pode entender um texto de História, Geografia, Sociologia, Filosofia, enfim, de qualquer disciplina, se se desconhece a Língua Portuguesa. E as ciências exatas (Física, Engenharia, e outras) dependem da Matemática. E quantos professores, e bem preparados, de Língua Portuguesa e de Matemática tem o Brasil? Sabendo-se que há duas gerações a Educação brasileira desceu abaixo da linha da mediocridade, pode-se concluir que o Brasil, para reconstruí-la (diga-se a verdade, a Educação brasileira nunca foi uma das sete maravilhas do mundo), terá um trabalho hercúleo pela frente, trabalho que se estenderá pelas próximas três décadas, no mínimo, afinal, não se reergue, em pouco tempo, a Educação de um país devastado pela imoralidade, pela desfaçatez, de indolência moral, e pela idiotização e imbecilização produzidas pela instituição que deveria educar: a Escola.

Más notícias… Quem aguenta?

Ligo o telejornal (de qualquer emissora) e lá vem um tsunami de más notícias, todas desimportantes: bandido assaltou uma lojinha lá onde Judas perdeu as botas, e matou uma pessoa; um desbarrancamento, na cidade Tal, perto da cidade onde Judas perdeu as botas, matou uma pessoa; na cidade que fica perto do inferno um homem flagrou sua esposa com o Ricardão, aos beijos e amassos, mais amassos do que beijos, matou os dois, e matou-se em seguida com um tiro na testa; na cidade Qual, que fica nas proximidades de um lugar que não está no mapa, mulher matou, com três facadas, a amante do marido; e na cidade Talqual um homem, pra lá de Bagdá, matou, à pedradas, um cachorro vira-lata, que lhe tirou das mãos, com uma dentada, o pedaço de pão… E dá-lhe pormenores!!! Quem vive bem injetando, direto na veia, quero dizer, no cérebro, uma dose diária de más notícias?

Facilidades à venda

Todo vendedor de facilidades é charlatão.

Muitos candidatos a escritor querem a fórmula – que, pensam eles, é mágica – da arte literária. Em sua maioria são jovens em seus primeiros passos na arte literária, na caminhada rumo ao estrelato. Querem brilhar. Mal sabem que, para brilharem, têm de possuir luz própria, e não refratar a luz alheia, e para produzir luz, têm de entrar em combustão, e para entrar em combustão, têm de possuir elementos para queimar. E quais elementos têm para queimar?

Alguns novatos, nos seus primeiros passos na arte literária, estão imbuídos de uma consciência realista, madura, das coisas do mundo, como se delas possuíssem um conhecimento prévio, cientes de que, sem esforço, sem disciplina, sem dedicação, não irão até o objetivo almejado. Sabem que o trajeto é extenso, acidentado, e que terão de escalar montanhas alcantiladas, transpor precipícios, singrar mares procelosos, enfrentar feras reais e imaginárias, e cairão, e terão de se reerguerem, e para se reerguerem uma força intrínseca é imprescindível. São raras as pessoas com tal consciência das coisas do mundo. Poder-se-ia dizer que elas são predestinadas – se entrar por esta vereda, poderão replicar com argumentos em favor do livre-arbítrio, e a discussão estender-se-á indefinidamente.

Há pessoas que, parece, são dotadas de sabedoria, que lhes é inata. São raras tais pessoas. E elas contestam a sua época, e se impõem, e erguem-se muito acima da cultura dos seus contemporâneos, que não os compreendem, e os ignoram, e os desprezam, e os desdenham. Aristóteles não foi um representante da inteligência dos gregos de sua época; eles não o compreenderam, e de muitos dos escritos dele não tomaram conhecimento. Aristóteles foi superior à sua época. Representou a inteligência de Aristóteles, e não a dos povos helênicos. Não foi um homem do seu tempo; estava muito além dele, e só foi lido, estudado e compreendido mais de mil anos depois, e até hoje ele é objeto de estudos, de debates, e ainda não foi superado, prova da perenidade dos seus pensamentos.

São raros os gênios na filosofia, na matemática, na política, na literatura, nas ciências. E eles influenciam, profundamente, a face da cultura de um povo, e, até, da civilização, tão poderosa é a inteligência deles, e as dimensões das suas obras são inabarcáveis.

Como as pessoas que desejam ser escritores agem? Quais pensamentos as movem? Qual é o caldo cultural do qual se alimentam? A cultura da sociedade em que vivem as favorece, nos estudos, as orienta, ou as desfavorece, as desorienta, as desencaminha? Se a influência do ambiente cultural lhes é prejudicial, o que se pode fazer para reduzi-la, não sendo possível anulá-la? É possível anular as influências nocivas que prejudicam as pessoas que não têm maturidade, para que elas atuem com a conduta apropriada? Se o ambiente cultural despreza o estudo árduo, deplora a disciplina, hostiliza a inteligência, tem horror ao conhecimento, todas as pessoas que dela se alimentam definham e não aprimoram os seus talentos. E em tal ambiente cultural proliferam-se os vendedores de facilidades, charlatães todos eles; eles vendem fórmulas mágicas, que mágicas não são; ao comerciarem-las auferem fama e credibilidade, e empobrecem aqueles que as compram, e o empobrecimento não é apenas financeiro, é intelectual, cultural, artístico. Os candidatos a escritor, ao comprarem as fórmulas mágicas dos vendedores de facilidades, não aprenderão as lições que lhes permitiriam edificar uma obra literária digna de atenção.

Os gênios são raros, as suas obras perpetuam-se por toda a eternidade. Muitos escritores desprovidos de gênio literário escreveram obras significativas, de alcance elevado, que mereceram respeito, reconhecimento. Tiveram o seu mérito, que a posteridade reconheceu.

A maioria dos livros escritos há vinte e cinco séculos, há dez séculos, há cinco séculos, há dois séculos, não foram escritas por gênios da literatura. Os gênios são raros. A Grécia teve Sófocles e Ésquilo. A Itália, Dante e Boccaccio. A Espanha, Cervantes e Lope da Vega. A Inglaterra, Shakespeare e Charles Dickens. A Alemanha, Goethe e Schiller. Portugal, Camões e Fernando Pessoa. A França, Stendhal e Proust. A Rússia, Tolstói e Dostoiévski. Menciono apenas alguns homens geniais, que representam o panteão. E quantos escritores de mérito os países mencionados possuem? Centenas. E as suas obras, excelentes, engrandecem a civilização. E muitos escritores, cujas obras são objetos de leitura apaixonada ainda hoje, além de talento literário, bem instruídos tinham consciência de qual teria de ser a sua postura para que presenteassem o mundo com obras relevantes, e nem as obras dos gênios conseguiram eclipsá-las. São escritores bem reputados e respeitados, e se lhes reconhecem o mérito. Têm eles brilho próprio. O que eles fizeram para que as suas obras tivessem brilho próprio? Estudaram muito, leram muito, e bons livros – os clássicos, sempre os clássicos -, e dedicaram-se à escrita; não se deixaram ludibriar por vendedores de facilidades. Estudaram o idioma que usaram, e os clássicos, e não se prenderam à literatura de ficção; leram obras religiosas, filosóficas e científicas.

Miguel de Cervantes Saavedra, um gênio da Literatura, além dos livros de cavalaria andante, conhecia a Bíblia, a obra de Platão e a de Aristóteles. Sem o conhecimento da Bíblia e da filosofia grega, ele jamais escreveria Dom Quixote de La Mancha, pois não obteria os ingredientes que lhe permitiram conceber as suas personagens literárias, e dar-lhes consistência, e emprestar-lhes condição humana, e fazer, delas, personagens vivas, de carne e osso, de sangue e alma, que vivem entre nós, que resumem em si a condição humana, seus paradoxos, sua substância. E Cervantes escreveu a sua obra-prima, em uma cela de uma prisão, em condições precárias. Concebamos a força de vontade de Miguel de Cervantes Saavedra! Ele é um exemplo, e não é o único, de que, além de gênio, são indispensáveis aos escritores dedicação, perseverança e disciplina para se escrever obras valiosas.

E os vendedores de facilidades – charlatães todos eles – com as suas fórmulas mágicas, para atender aos anseios dos que desejam ser escritores, mas, inseguros, não sabem que passos darem e em qual direção seguir, os desencaminham, os estragam.

Em um país como o Brasil, cuja cultura não enaltece a disciplina, o estudo, o conhecimento, e sem forças para a enfrentarem, e para a abandonarem, muitas pessoas curvam-se, emasculados, perante quem lhes promete o paraíso, e engolem toda e qualquer fórmula que vem ao encontro dos seus anseios, em atendimento à sua debilidade moral e intelectual, debilidade esta, em muitos casos, decorrente do meio cultural em que vivem, e não intrínseca à elas.

Os vendedores de facilidades, à espreita, avançam, sempre, em prejuízo dos que lhes compram os conselhos.

Sem a consciência de que não havendo perseverança não há obra digna de mérito nada de valor se constrói.

As pessoas que se atêem às lições dos vendedores de facilidades já estão com a alma corroída, e a corroeu a cultura, que lhes injetou valores que lhe são prejudiciais, e que lhes nega o que elas possuem de mais valioso. Não adquirem as forças intelectual e moral essenciais para se baterem contra todas as que as prejudicam, pois já estão habituadas às comodidades, e não desejam se desgastarem com trabalho árduo. Curvam-se, desprovidas de vontade própria, diante de vendedores de facilidades – são presas fáceis deles. Os vendedores de facilidades nada lhes têm a oferecer além de maléficas fórmulas mágicas.

Testemunha ocular

Um homem testemunha um acidente de carro, e os dois motoristas discutem. A testemunha, a única, decidiu não se apresentar para dar fim à discussão. Qual foi a sua razão em agir assim?

Presenciei, não faz muito tempo, um acidente de trânsito.

Parado, no cruzamento das ruas João XXIII e Duque de Caxias, atento aos veículos, eu me preparava para atravessar a rua João XXIII. E diante de meus olhos sucedeu um acidente envolvendo dois carros, um, vermelho, tendo, ao volante, um homem barbudo, que desrespeitou o vermelho do semáforo, e um carro preto, cujo motorista, atento ao semáforo, verde para ele, atravessava o cruzamento, quando se deu a colisão, após a freada e os pneus dos dois carros cantarem no asfalto. Ensina-nos a lei da física: Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. À colisão, que não causou grandes estragos nos carros, seguiu-se forte estrondo. Além de mim, quem mais – desconsiderando o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho – testemunhou o acidente? Eu fui a sua única testemunha ocular. Olhei de um lado para o outro, à procura de outra pessoa que o testemunhara. Não havia, lá, além de mim, do motorista do carro vermelho e do motorista do carro preto, nenhuma outra alma viva, nenhum outro filho de Deus, nenhum outro descendente de Adão e Eva, que testemunhara a colisão entre os dois carros. Eu não era a única pessoa presente nas proximidades do cruzamento da João XXIII com a Duque de Caxias; era eu, no entanto, a única pessoa que estava de frente para os dois carros envolvidos no acidente no instante em que o acidente se deu. E eu lamentei tal privilégio. A exclusividade testemunhal não me agradava.

Várias pessoas, atraídas pelo barulho da colisão, voltaram-se para o entroncamento da João XXIII com a Duque de Caxias, e, açulados pela curiosidade, pousaram os olhares no homem barbudo que estava no carro vermelho e no motorista do carro preto. Todas aquelas pessoas, excitadas pela curiosidade agora, estavam, no instante da colisão dos dois carros (saliento este ponto, certo do que escrevo – e a atitude delas corroboram o que escrevo), de costas para a intersecção da João XXIII com a Duque de Caxias, e ninguém, estou ciente disso, encontrava-se em uma posição tão privilegiada quanto à minha, e ninguém, ninguém, repito uma vez mais, além de mim, poderia apresentar um depoimento fiel ao desenrolar dos eventos. Eu, e apenas eu, assisti à colisão, e com meus olhos, olhos que os vermes hão de comer após eu bater as botas, abotoar o paletó, deitar de pés juntos sete palmos abaixo da Terra. Aproximaram-se dezenas de pessoas, curiosas todas elas, dos dois carros parados no meio da rua. Eu, não. Conservei-me imóvel. Vi que o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho não se feriram no acidente. Não me preocupei com eles; aliás, com eles preocupei-me, mas não pelas razões comuns em casos tais; eu não queria que eles me vissem; eu queria invisibilizar-me – e assim que policiais chegassem ao local, que ninguém se lembrasse de mim, apontasse-me, e declarasse que vi o que ocorreu, e os policiais, então, me dirigissem a palavra, e pedissem o meu depoimento. Eu queria evitar-me transtornos.

O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho apearam dos carros, então rodeados de multidão de curiosos. Ouvi as vozes dos motoristas, que praguejavam. Culpavam-se um ao outro pelo acidente. Se ninguém interviesse, eles se engalfinhariam, e proporcionariam um espetáculo inesquecível, comum entre pessoas civilizadas, aos curiosos. O motorista do carro preto levaria a pior. O motorista do carro vermelho, forte, começou a impor-se ao motorista do carro preto, que, por sua vez, não abaixou a crista – afinal, ele não desejava amargar prejuízo; além do mais, com ele estava a razão. O que mais me chamou a atenção não foi a conduta dos dois motoristas, que era compreensível; foi o testemunho dos supostos espectadores do acidente. Havia um flagrante contraste ente a realidade e a ficção apresentada pelos que diziam que testemunharam o acidente, e apenas eu o notava; afinal, fui a única testemunha ocular do acidente. A imprudência do homem barbudo culminou com a colisão, que não acabou em tragédia porque o motorista do carro preto ia em baixa velocidade. Algumas pessoas que rodearam os carros, os motoristas envolvidos no acidente e os dois policiais que compareceram ao local defenderam o motorista do carro vermelho, e outras defenderam o motorista do carro preto. Eu, que era a única testemunha ocular do acidente, e poderia oferecer um relato imparcial e objetivo do que ocorreu, calei-me, dei dois passos para trás, e permaneci, calado, braços para trás, dedos cruzados, a acompanhar, atento, as controvérsias. Eu já disse, e repito, mais uma vez, e não me cansarei de repetir quantas vezes forem necessárias: Fui a única testemunha ocular do acidente. Os dois policiais colheram testemunhos desencontrados. O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho trocaram desaforos. A multidão aguçou a audição. Pressentiu que, à troca de ofensas verbais seguir-se-ia socos e pontapés, e a excitou a perspectiva de assistir à uma luta livre. O círculo fechou-se em redor dos motoristas. Os policiais intervieram, e amansaram o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho, desagradando ao público sedento de sangue.

Repito uma vez mais. Fui a única pessoa que testemunhou o acidente. E eu era, repito, a única pessoa que poderia prestar um depoimento detalhado, fiel aos eventos, e encerrar a confusão que os depoimentos daquelas pessoas que não testemunharam o acidente e o do motorista do carro preto e o do motorista do carro vermelho criaram, mas não atuei para encerrá-la. Tratei, antes que eu me revelasse aos motoristas envolvidos no acidente, de me retirar de lá, e de fininho. Eu não queria para mim dores de cabeça. E para evitá-las, fui-me embora, antes que Anselmo, o motorista do carro vermelho, e Dâmocles, o motorista do carro preto, ambos meus amigos, me vissem.