As senhas

Os segredos mais bem guardados do universo.

Ricardo, aos vinte e seis anos, era um homem de um metro e oitenta, magro, de ombros largos. Era casado com Suzanne e tinha duas filhas, Márcia e Adriana. Eu o conheci na festa de aniversário de um amigo comum, Marco Antonio. Ricardo era um ótimo contador de histórias e humorista irrivalizado. As pessoas, na festa, acercavam-se dele para dele ouvirem as histórias mais hilárias das quais se têm notícia, algumas picarescas, outras bocaccianas (narradas com sutileza e requinte, para não ferir suscetibilidades, nem constranger alguém), algumas de puro nonsense, outras quixotescas. Hilárias, todas elas. Era impressionante. E ele não se limitava a narrar as suas histórias; ele as animava com gestos – era ele um mímico versátil –, que vinham com tantos pormenores, que me fazem evocar os personagens de Charles Dickens. Direi – e sou ousado ao dizer – que ele era o Charles Dickens redivivo, o avatar do melhor escritor da era vitoriana. Tinha o talento literário do autor de David Copperfield e Oliver Twist, não na escrita, mas na narrativa oral. Cativante, animado, entreteve o aniversariante e todos os seus convidados durante quatro horas daquele sábado de verão. Assim que ele anunciou que teria de ir-se, pedimos-lhe que ficasse um pouco mais, insistimos, mas ele tinha de ir à casa de seu pai, então acamado, em auxílio à sua mãe, que lhe dedicava cuidados.

Dias depois, encontrei-me com Ricardo, em uma fila de banco. Ele contou tantas histórias engraçadas, que não percebemos que havíamos nos conservado quarenta minutos na fila (desejo que nenhum banqueiro leia este relato, que pode vir a inspirar-lhe a contratação de contadores de histórias para entreter as pessoas que, durante horas, permanecem, nas filhas das agências bancárias, à espera de atendimento). Depois daquele dia, encontramo-nos eu e Ricardo, em cinco ocasiões, num prazo de um ano. Encontramo-nos, na casa de Marco Antonio, há dois anos, no casamento de Marco Antonio e Neide, a sua segunda esposa (a primeira esposa dele, Tereza, falecera dois anos antes, em um acidente de moto). E Ricardo falou-nos da sua viagem aos Estados Unidos, à Inglaterra, do seu trabalho em uma empresa de engenharia eletrônica, e de outros capítulos de sua vida atribulada. Já conhecíamos todas as histórias que ele contou-nos antes de ele no-las contar, naquele dia; delas ele havia publicado, no Facebook, fotos e vídeos, mas ouvi-lo narrá-las era muito melhor. Acercamo-nos dele, para ouvi-lo. E ele entremeava o relato com comentários jocosos, alguns sarcásticos, e descrevia-nos personagens com os quais conviveu, alguns grotescos, aparentados com o Quasímodo, outros, hilários, saídos dos filmes de Harold Lloyd e Buster Keaton. Rimos gostosamente. Gargalhamos. Choramos de tanto rir. Em um certo momento da conversa, assediaram Ricardo duas crianças, Marcelo e Eliane, ele, de sete anos, ela de seis, ele, filho de Vinicius, primo de Marco Antonio, e Fabíola, ela, filha de Tadeu e Larissa, vizinhos de Marco Antonio, que lhe perguntaram qual era a senha da conta do Facebook e a do e-mail dele. E Ricardo disse-lhes:

– Sei guardar segredos. Sou o guardador dos segredos mais bem guardados do universo. Não os revelo para ninguém. A minha senha do Facebook e a minha senha do e-mail são segredos secretos. Eu nunca, nunca, nunca, e nunca, contarei para vocês quais são as minhas senhas. Vocês nunca saberão que ornitorrinco é a senha da minha conta do Facebook. Vocês nunca saberão.

E todos rimos.

E Marcelo gargalhou. E cessada a gargalhada, dirigindo-se a Ricardo, disse-lhe:

– Você disse.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo, simulando não haver compreendido a declaração de Marcelo.

– Você disse a sua senha do Facebook – respondeu Marcelo, mal conseguindo proferir as palavras.

– Eu? – indagou Ricardo, simulando surpresa. – Eu disse a minha senha do Facebook!? Não disse, não. Eu, a dizer a minha senha!? Nunca. Jamais. Ninguém sabe qual é a minha senha do Facebook, e ninguém jamais saberá. Jamais!

– Eu sei qual é a sua senha do Facebook – declarou Eliane. – Você disse a senha.

– Você sabe qual é a minha senha? – perguntou Ricardo, “incrédulo”. – Não sabe, não. Eu não disse qual é.

– Disse, sim – afirmou Eliane.

– Eu não disse, não – retrucou Ricardo.

– Disse – afirmou Marcelo. – E eu também sei qual é a sua senha do Facebook.

– Vocês não sabem qual é a minha senha do Facebook – disse Ricardo, que prosseguiu, desafiador: – Se sabem, então digam qual é.

E Marcelo e Eliane disseram, ao mesmo tempo:

– Ornitorrinco.

E Ricardo, simulando espanto, disse, olhos arregalados:

– O quê!? Como vocês descobriram qual é a minha senha do Facebook?

– Você a disse – declararam, sorrindo, Marcelo e Eliane.

– Eu? – perguntou Ricardo, interpretando o seu papel. – Eu? Eu nunca disse para ninguém que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. Nunca.

– Você disse de novo – exclamaram Marcelo e Eliane, e gargalharam.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo.

– A senha: ornitorrinco – disseram Marcelo e Eliane, e choraram de tanto rir da fisionomia, surpresa e assustadiça, de Ricardo, e da confusão dele.

– A senha? Eu disse a senha? – exclamou Ricardo, a simular espanto e incredulidade, arregalados os olhos, a passear as mãos pelo rosto, a fisionomia a exibir o horror que a revelação inspirara-lhe. – Vocês sabem a minha senha – e roeu as unhas. – Como vocês descobriram a minha senha? Vocês são espiões.

– Não somos espiões, não – defendeu-se Marcelo a si e a Eliane. Eliane não se agüentava de tanto rir, não conseguia falar, mal conseguia respirar; temiam que ela engasgasse com o pedaço de bolo que levara à boca.

– São espiões, sim – declarou Ricardo, alterando as suas expressões, fingindo olhá-los a Marcelo e a Eliane como a olhar para pessoas suspeitas, ar carrancudo, ferocidade estampada no olhar, sobrancelhas franzidas. – Vocês dois são espiões – e alterou o timbre da voz, fazendo-o áspero, cortante. – Espiões. Vocês são espiões. Vocês trabalham para o James Bond. Eu nunca disse que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. E eu nunca direi que orangotango é a minha senha do e-mail. Vocês dois nunca saberão qual é a minha senha do e-mail. Nunca! Nunca!

– Orangotango! – gritaram, simultaneamente, Marcelo e Eliane, a gargalharem; e todos gargalhamos.

– O quê!? – gritou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Quem contou para vocês que orangotango é a minha senha do e-mail? Quem?

– Você – disseram, a chorarem de tanto rir, Marcelo e Eliane.

– Eu!? – exclamou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Eu!? Eu!? Vocês – e apontou para Marcelo e Eliane – são espiões. Vou telefonar para a polícia – e tirou do bolso posterior direito da calça o telefone celular, e “discou” para a delegacia de polícia, e encetou conversa com o delegado.

A brincadeira estendeu-se por trinta minutos. As gargalhadas, tão intensas, que abalaram a estrutura das casas do quarteirão.

Decorridas duas semanas, encontramo-nos eu e Ricardo, na festa de aniversário de Mariângela, nossa amiga em comum, e lá, na casa dela, Ricardo disse, durante animada conversa com Marcos e Rúbia, filhos de Mariângela e Gustavo, com Geraldo, filho de Carlos Roberto e Madalena, e com Cauã, filho de Isaías e Isis:

– Sou um homem esperto, atilado, mais esperto do que o mais esperto de todos os homens que já pisaram na face da Terra. Eu nunca direi para ninguém que orangotango é a minha senha do e-mail e ornitorrinco é a minha senha da conta do Facebook. Ninguém nunca saberá quais são as minhas senhas! Nunca!

E Rúbia, antecipando-se a Marcos, Geraldo e Cauã, disse, rindo:

– As senhas são orangotango e ornitorrinco.

– O quê!? – exclamou Ricardo, simulando espanto, surpresa, admiração. – Como você descobriu quais são as minhas senhas? Quem as disse para você? Vocês são espiões? Vocês são espiões. Vocês descobriram as minhas senhas. Vou telefonar para a polícia, e vou falar para o delegado prender vocês – e pegou o celular, e “telefonou” para a polícia, e seguiu-se a brincadeira.

As crianças não se agüentavam de tanto rir. E os adultos, sob influência das gargalhadas das crianças e da mímica histriônica de Ricardo, riam de orelha a orelha.

Um mês não havia transcorrido, encontramo-nos Ricardo e eu, no clube de campo ***, onde, na presença de crianças, Ricardo repetiu a Brincadeira das Senhas, como codnominaram a brincadeira, que, infalivelmente, Ricardo promovia sempre que encontrava-se com crianças. Não haviam decorrido dez dias, Ricardo veio a falecer, pouco depois de um assalto. O assassino disparou contra ele, a queima-roupa, três vezes. Morreu Ricardo, na ambulância, a caminho do hospital. Compareci ao sepultamento. Reinava a tristeza. Apresentei condolências à mãe e ao pai do Ricardo, à Suzanne, e às órfãs, Márcia e Adriana. Lágrimas escorreram-me dos olhos, em uma golfada. Não as removi. Das minhas lágrimas não me envergonho.

Nos dias seguintes, freqüentei a casa de Suzanne, e ajudei-a a ajeitar algumas coisas que Ricardo deixara para trás. Um dia, na casa dela, estávamos Suzanne, Márcia, Adriana, o pai de Suzanne, Cristóvão, a mãe dela, Maria da Conceição, e o tio dela, Rubens, e outros familiares e amigos da família, quando alguém – não me recordo quem -, lembrou-se de acessar o computador, à procura de documentos, projetos e relatórios de Ricardo. Suzanne, no escritório de Ricardo, ligou o notebook, e clicou no ícone do e-mail, e, na sequência, no do Facebook. Para acessar as duas contas digitou, no campo reservado às senhas, na conta do e-mail e na do Facebook, a data de nascimento de Ricardo. Acesso negado. E digitou a data de nascimento de Ricardo com os números alterados, primeiro o ano, depois o mês, e o dia. Acesso negado. Digitou a sua data de nascimento. Acesso negado. Digitou o seu nome. Acesso negado. Digitou o nome de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome das filhas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento delas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Teófilo, pai de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dele. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Maria Amélia, mãe de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dela. Acesso negado. Digitou o nome de Albert Einstein, o cientista que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou o nome de Fibbonacci. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Fibbonacci, o matemático que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Fibbonacci. Acesso negado. Após o Facebook e o e-mail negarem-lhe o acesso trinta e quatro vezes, Suzanne desligou o notebook e, acompanhada de todos nós, retirou-se do escritório de Ricardo, e rumou, irritada, a ponto de debulhar-se em lágrimas, que, parecia, subiam-lhe para os olhos, em torrente, e em uma enxurrada se lhe despencariam dos olhos, para a sala-de-visitas, onde nos reunimos, e Cristóvão e Maria da Conceição pediram-lhe paciência, que, depois, descobririam a senha da conta do e-mail e a da conta do Facebook de Ricardo. Ele, era certo, as havia anotado em algum papel. Em qual? E onde o deixou? Ou, sugeriu Cristóvão, em algum arquivo, no computador, ou, sugeri, para descontrairmos um pouco, em algum arquivo particular no Facebook, ou em um rascunho no e-mail.

Na sala-de-estar, a conversar permanecemos, em tom baixo, respeitoso, durante um bom tempo. Maria da Conceição, preocupada com a saúde de sua filha, à ela dedicou toda a sua atenção até o instante em que Cristóvão soltou uma gargalhada, tão repentinamente, que assustou-nos a todos nós – e a ele também, presumo -, e bateu as mãos, na cabeça, uma, duas, três vezes, como que a se punir por algum pecado. Suspendemos a respiração, de imediato, a fitarmo-lo, abismados. Enlouquecera o velho? Um parafuso desconectara-se-lhe da massa cinzenta? Desmiolhara-se-lhe a cabeça? Liquefizera-se-lhe o cérebro? Coitado do ancião! O que lhe sucedia? Doeu-lhe o ventre de tanto gargalhar. Esparramou-se no sofá, o matusalém. Enfim, ele cessou as gargalhadas, e removeu, com um lenço que tirara do bolso traseiro da calça, as lágrimas dos olhos, e acenou para nós, pedindo-nos que o acompanhássemos. Não lhe exigimos explicações. Entreolhamo-nos, e levantamo-nos, curiosos, do sofá, e seguimo-lo. E ele entrou no escritório que havia sido do seu falecido genro. E ligou o notebook. E digitou a senha da conta do Facebook do Ricardo e a da conta do e-mail dele: ornitorrinco e orangotango.

Relatos de um correspondente de guerra

– Chamai-me Emanuel. Na semana passada, Rodolfo, o meu empregador, solicitou à Kátia, a sua secretária, que me transmitisse uma mensagem sua: um convite para um almoço. Enquanto ouvia a Kátia da mensagem inteirar-me, estudei-lhe, com uma pulga atrás da orelha, a fisionomia. Esbocei um interrogatório, que encerrei ao dela ouvir a resposta para a primeira pergunta que lhe fiz. E ela perguntou-me se eu aceitaria o convite. E eu o recusaria? Rodolfo me pediria uma tarefa, que eu não me disporia a empreender – e, eu estava certo, ele tinha argumentos para convencer-me a empreendê-la. Ele não me inflaria o ego, pois sabe que sou infenso aos elogios e às bajulações. E não me ofereceria dinheiro. E também não me ofereceria privilégios. Pensativo, perguntei-me, durante aquele dia e à noite, na cama, antes de conciliar o sono, quais surpresas ele me preparara. Fui ao escritório dele, no dia seguinte, na hora aprazada. A Kátia acompanhou-me até dois metros da mesa. Rodolfo, que falava ao telefone, despediu-se do seu interlocutor, desligou o telefone, saudou-me com a reserva que lhe é comum, pediu-me que eu puxasse a cadeira, e apontou-ma, e me sentasse. Descontraído, falou-me da empresa. Enquanto o ouvia, eu seguia-lhe os pensamentos. Desconfiei de qual era a proposta que ele me faria assim que ele fez referências aos recentes conflitos bélicos que estouraram em alguns países. Com o preâmbulo, deu-me a entender que desejava que um jornalista fosse para um campo de batalha para registrá-la. Mas para qual campo de batalha? Rodolfo estudava as minhas reações. Eu lhe estudava as palavras, no desejo de antecipar-me ao que ele me diria, para que ele não me surpreendesse. Falei-lhe, em duas ocasiões, do que eu pensava dos conflitos os quais ele comentava, mas não lhe perguntei se ele desejava enviar-me para um dos países conflagrados, e tampouco ofereci-lhe os meus serviços. Dele eu queria ouvir as propostas. Enfim, ele se deteve no cruento conflito entre os A… e os B…, que, há dois meses, assola C…. Eu sabia que nenhum jornalista, eu inclusive, se ofereceria para documentar tão cruento conflito. Como, então, Rodolfo me convenceria a empreender trabalho tão arriscado? Esperei, e não por muito tempo, que ele me falasse das suas intenções. Ele me disse que obtinha informações diárias sobre o estado de coisas em C…, e temia o recrudescimento da conflagração, que poderia vir a ultrapassar as fronteiras do país, e, ao avançar aos países limítrofes, assumir proporções imprevisíveis. Acirrava-se a guerra. Vacilavam as potências mundiais. Os líderes das organizações internacionais, sempre que se pronunciavam a respeito da conflagração, acirravam os ânimos dos beligerantes, e o conflito recrudescia. Rodolfo estendeu-se ao tratar das notícias da antevéspera e da véspera. E eu o ouvi, certo de que ele me queria em C…. Falou-me dos riscos inerentes à tarefa de registro dos combates e da realidade do campo de batalha. E eu, enquanto o ouvia, perguntava-me se eu era provido de coragem para encarar tal desafio, inédito para mim. Malgrado o meu desejo de não me envolver neste crudelíssimo episódio da história humana e preservar minha vida, o desejo de empreender tão árdua tarefa enviou-me para cá, para registrar eventos que me propiciarão emoções inéditas. Não me ofereci para a tarefa. Rodolfo, todavia, munido de um arsenal de argumentos, persuadiu-me a vir para C…, de onde apresento este relato, registrar, arriscando minha vida, os embates entre os A… e os B…, e mostrar para o mundo a realidade deste país, a existência de milhares de humanos vitimados pela crueldade de governantes ignominiosos. Estou numa das poucas áreas que bombardeios não devastaram. Metros à minha frente, ruas rubras de sangue. Os beligerantes abandonaram um rastro de destruição e miséria, desesperança e ódio. Aqui não há, além de mim, jornalistas. A imprensa mundial não os envia para cá. E os jornalistas independentes que arrumaram as malas para vir para esta área conflagrada, as desfizeram ao receberem a notícia da morte de vinte e dois jornalistas nos seis primeiros dias de conflitos. Muitos dentre eles foram alvejados pelos beligerantes, que tinham o propósito de dissuadirem outros jornalistas de vir para este país devastado. Muitas pessoas não desejam que os eventos que se sucedem aqui sejam do conhecimento do mundo. Há muitos interesses envolvidos, muitos deles inconfessados. Os donos da guerra não desejam que as suas identidades sejam reveladas. Logram os seus intentos, os malditos carniceiros! Os medrosos e covardes ocidentais (como dizem os combatentes e os que os instigam aos combates) carecem de coragem guerreira, e temem a morte, e malgrado os esforços para evitá-la, um dia defrontar-se-ão com ela num campo de batalha. E aqui estou, nas proximidades de um campo de batalha da mais feroz guerra moderna. Hordas de guerreiros sanguinários, personagens de lendas clássicas, oriundos de plagas desconhecidas, situadas em regiões inacessíveis, distantes da civilização, devastaram os impérios da antiguidade; os asselvajados combatentes, rudes, ignorantes, amantes da guerra, bebedores de sangue, grotescos, incivis, bárbaros, promovem este conflito, para repetir, hoje, as ações de seus ancestrais bárbaros. Seres saídos das trevas, agourentos, vaticinam a aniquilação da civilização. Das trevas para a luz, não para usufruir dos prazeres que a luz nos oferece, mas para eliminar o que à luz dá origem. Os selvagens bárbaros modernos têm à disposição armamentos que seus antepassados jamais imaginaram. Com a fusão inconcebível da arte bélica antiga e dos artefatos bélicos modernos engendram carnificina sem precedentes… Abandono a digressão, e inicio o relato do que ocorre ao meu redor. Dou os primeiros passos, firmes. Ouço estrondos. Nuvens escuras no horizonte. Chegam-me aos ouvidos berros indistintos. Detenho-me. Atrai-me a atenção um ponto no céu, não sei a quantos quilômetros de distância, ao noroeste. Um avião rasga o horizonte, executa uma curva para o sudoeste, e desaparece atrás de uma nuvem. Chega-me aos olhos uma nuvem preto-acinzentada, que eleva-se e encorpa-se, de detrás de uma colina, há uns dez quilômetros de distância. Aos ouvidos chega-me o estrondo de uma detonação. Da minha esquerda, vejo uma nuvem de fumaça, a uns cinco quilômetros de distância. Chega-me, aos ouvidos, não sei de qual direção, outro estrondo. Olho de um lado para o outro. Mísseis atingem áreas urbanas, vejo com o binóculo. Sobressaem-se, por sobre as colinas, os prédios mais altos. Não posso ver as dimensões da devastação. Rumo, sem vacilar, em direção à explosão à minha esquerda, a uns cinco quilômetros de mim. Desloco-me mais de cem metros. Os sinais da devastação: carros de cabeça para baixo, queimados, casas destruídas, paredes de prédios esburacadas, ruínas em toda a extensão da rua, árvores carbonizadas. Dois cachorros famélicos, ossudos, de olhos esgazeados, correm, e detêm-se, e fuçam qualquer coisa atrás de pilhas de tijolos, e, ganindo, correm, e o que vai na frente dá um ganido mais elevado do que o que emitia até então, e pula, e cai, e desaparece do meu campo de visão, atrás de um tronco de árvore carbonizado. O outro cachorro, assustado, de pelagem preta, com inúmeras falhas, a orelha machucada, a pele do flanco direito exposta, acelera a corrida, e muda a direção que segue. Cauteloso, ando, com passos firmes, na direção do cachorro que pulou e caiu. Não atino com a razão que o levou a pular e cair e o outro a disparar, assustado. A minha curiosidade, excitada, e o meu desejo de conhecer a resposta para o evento impelem-me até o cachorro que pulou e caiu. Não negligencio cuidados. Agi com imprudência, reconheço, agora, ao me deparar com o cadáver ensangüentado do cachorro escanifrado, um esqueleto banhado em sangue. Examino-o à procura da causa da sua morte. Com uma pedra cilíndrica coberta de saliências e cavidades, mexo-lhe a cabeça. Seus olhos, esgazeados; sua boca, entreaberta; sua língua, para fora. Mexo-lhe mais um pouco. Viro-lhe a barriga para cima; suas vísceras se lhe escorrem, numa poça de sangue, e esparramam-se. O animal, grotesco. Uma quimera; não um cachorro. Falta-lhe uma perna. O que lha arrancou? As vísceras escorrem do corpo sem vida. A causa da morte do cachorro está próxima do cadáver: Um projétil, alojado numa pedra. Dou-me conta de que me expus, inadvertidamente, à morte. Fui imprudente. Não sei se o cachorro ficara sob a mira de um revólver, ou se o projétil, por obra do acaso, o alvejara. Olho em torno de mim. A disposição da pedra e a do cachorro não me orientam. O cachorro, atingido, dera um salto de um metro de altura, e a pedra, é certo, antes de o projétil atingi-la, não estava onde a encontrei. Fico com as minhas interrogações. Estou certo de que não me precavi como deveria ter feito. Expus-me ao perigo. Sei dos riscos que corro aqui. Eu deveria me precaver, e não me lançar, em busca da glória, com tal ímpeto inconsequente. Serei mais cauteloso. Não quero abreviar minha vida. Não quero que me abreviem a vida. Sou jovem, conquanto os esparsos cabelos grisalhos e as rugas exibam a figura de um homem de seus quarenta anos. Não quero ir para o inferno. Os seres das profundezas rejubilar-se-iam com a minha majestosa presença. Pretendo viver mais alguns anos neste inferno. Aqui, diante de mim, o cadáver de um cachorro. Abandono-o, em respeito à sua alma. Curvado, ando, com passos firmes, até uma pilha de pedras, que, acredito, me servirá de escudo. Onde estou com a cabeça? Atrás desta pilha de pedras. Minha cabeça ainda está sobre meu pescoço. Um míssil ou uma rajada de metralhadora pode pulverizar estas pedras e minha cabeça. Não tenho opções. Retiro-me de detrás desta pilha de pedras. Ouço um barulho. Detenho-me, curvado, com as pontas dos dedos da mão direita pousadas no chão. Vejo um avião, a mais de mil quilômetros por hora, sobrevoando o céu a uns duzentos metros à minha frente, a cem metros de altura, da minha direita para a minha esquerda. Os ruídos dos motores ofendem-me os ouvidos, que eu cubro com as mãos. O avião aos meus olhos reduz-se às dimensões de um ponto preto insignificante, a não sei quantos metros de distância e a quantos metros de altura. Uma explosão. Bombas atingiram um prédio a duzentos metros à minha direita. Duas pessoas saltaram do prédio, ou do prédio foram arremessadas, de uma altura de vinte metros. Seguem-se quatro explosões. Não vi de que direção partiram os disparos, e se de aviões, se de tanques de guerra, se de carros de combate. Agora, o silêncio é ensurdecedor. Ao longe, na mesma linha de visão, uma explosão de um avião, a não sei quantos metros de altura e a quantos metros de distância, e o rastro de fogo e fumaça que o avião abandona, na curva descencional rumo ao solo. O estrondo da explosão não me chega aos ouvidos. Eleva-se no céu a nuvem de fogo e fumaça. Nas proximidades do ponto em que o avião caiu, rasgam o céu dois aviões, vindos não sei de onde, e rumam em minha direção. As suas dimensões ampliam-se aos meus olhos enquanto de mim se aproximam. Deito-me. Dos aviões não desvio meu olhar. Os aviões executam uma curva; passam, a uns quinhentos metros de altura, a mais de mil metros de distância; deslocam-se a mais de mil quilômetros por hora. Ouço o rugido dos seus motores. Segue-se a calmaria. Acocorado, desloco-me, desajeitadamente, uns vinte metros. Precipita-se o crepúsculo. Anuncia-se a noite. Parece-me que o tempo se acelerou, como se um mecanismo planetário movesse os ponteiros de um relógio cósmico com força suficiente para movê-los com velocidade superior à normal. Não consulto o relógio porque algo me chama a atenção: sapatos, atrás de um carro. Considerando a disposição dos sapatos, há pés dentro deles. Olho ao redor. Nenhum avião. Perscruto os arredores à procura de combatentes. Não os vejo. Vou, corpo arqueado, passos acelerados, até o par de sapatos. Como presumi, há pés dentro deles. Vejo os calcanhares, os tornozelos, as pernas, os joelhos, as coxas, e um corpo de homem. Foi-lhe rasgado o ventre e retalhado o rosto. Examino-o. Do corpo desviscerado foi extraído o coração. Os homicidas, crudelíssimos, tiveram o desplante de, com as vísceras, escreverem uma palavra à direita do corpo. Que desumanidade! Quem perpetrou tão horrendo crime? Tento desenhar, na minha mente, a figura original do rosto deste cadáver desfigurado. O sangue que corre pelas veias e artérias do perpetrador de tal crime é da constituição do gelo glacial, e seu rosto, da de um sujeito animalesco de expressão malévola. O homem, aqui, a desfazer-se em sangue. Vermes deslocam-se em meio às suas vísceras. Este homem não foi alvejado por projéteis; mataram-no mãos humanas, que o agarraram, cortaram-lhe o pescoço e o braço direito, e o desvisceraram, e extraíram-lhe o coração. É o corpo de um homem robusto de um metro e oitenta de altura e oitenta quilos. Era ele um dos combatentes? Ou ele era um civil, que entrou, inadvertidamente, no caminho dos combatentes das hordas inimigas? Nada, nele, indica tratar-se de um combatente. Ele não verga uniforme, e tampouco ostenta insígnias militares. Não concluo, no entanto, tratar-se ele de um civil. Os combatentes, muitos deles mercenários financiados por estados patrocinadores de organizações terroristas, não vergam uniformes militares. Sucedem-se explosões, não muito distantes de mim. Olho em torno. Devastação. Não há viv’alma no campo que meus olhos alcançam. Cães correm, ao longe, aos bandos. São oito, ou dez, todos doentios. Desaparecem dentro de uma casa em ruínas. Observo, pela última vez, o cadáver à minha frente. Curvado, afasto-me; cauteloso, desloco-me, contornando escombros e carros carbonizados. O cenário devastado parece um mural de um pintor moderno. Contorno uma casa em ruínas da qual restam pedaços das paredes. Vejo, a poucos passos de mim, um túmulo coletivo a céu aberto. Aproximo-me. Olho ao redor. Dois aviões passam ao longe. Uma explosão à minha direita, a mais de um quilômetro de distância. À minha frente, à esquerda, veículos deslocam-se, a mais de quinhentos metros, num ponto mais elevado do que o no qual me encontro, e afastam-se, rapidamente. Aproximo-me dos cadáveres. A disposição dos corpos indica que foram fuzilados à queima-roupa. São doze cadáveres, todos nus. Cinco homens. Quatro mulheres. Três crianças. Todos com olhar terrivelmente aterrorizado. Uma das mulheres, além do tiro na cabeça, foi alvejada no ventre. Piso num mar de sangue e massa encefálica. Aproximo-me dos cadáveres. Examino-os, detidamente. Não são de combatentes; são de civis. Combatentes os capturaram, e os espancaram. As mulheres e as crianças eles as estupraram. Os homens eles os espancaram até esmigalharem-lhes os ossos das mãos. Hematomas cobrem-lhes o corpo de ébano. Gritos atraem-me a atenção. Olho para a direção da qual chegaram-me aos ouvidos. Quatro homens correm; todos eles empunham rifles. São homens enormes. Correm para a mesma direção. Aproximam-se de mim. Deito-me na sujeira, no sangue, nas vísceras, na massa encefálica. Elevam-se os gritos. Aproximam-se de mim os quatro homens. Empunho a pistola que trago a tiracolo. Não sei se as aulas de tiro me serão de alguma utilidade. Uma série de detonações provoca a reação imediata dos quatro homens, que se abrigam atrás de escombros e, com saraivada de tiros, revidam ao ataque. Prendo a respiração. Não quero atrair-lhes a atenção. Aceleram-se os meus batimentos cardíacos. As explosões os abafam. Cessam os tiros. Apuro os ouvidos. Não mexo nem um dedo, nem as pálpebras. Predomina o silêncio. De repente, gritos e tiros. Enfim, cessam os gritos e os tiros. Predomina o silêncio sufocante, opressivo. Nenhum ruído chega-me aos ouvidos. Olho para a minha direita. Olho para a minha esquerda. Cauteloso, levanto-me, lentamente, Não quero que um projétil atinja-me a cabeça. Afasto-me, curvado, ziguezagueando por entre pilhas de escombros, dos doze cadáveres. Desloco-me, por entre os escombros, por uns cem metros. Recuo dois passos ao divisar uma cabeça movendo-se lentamente, e ponho-me, acocorado, atrás de um carro carbonizado. Ouço sussurros, resmungos, gemidos de dor. Olho para o homem que, à minha frente, chapinha numa poça de água estagnada numa cratera escavada, por uma bomba, presumo, no asfalto de uma ampla avenida. O homem retira-se da cavidade, e arrasta-se, fazendo das mãos pés, pois seus pés estão imobilizados e deles escorre sangue em profusão. Ele se detêm. Seu olho direito está rubro de sangue; acredito que não há olho na sua cavidade ocular esquerda, mas pasta de sangue, sujeira, pele e ossos. Ao dar um passo, emito, ao pisar num objeto de metal, ruídos, que atraem a atenção do homem que se arrasta. Ele me encara. Encaro-o. Sua figura, repulsiva, a de uma alimária, não conserva semelhanças com a figura humana. Ele se desloca, arrastando-se, como os répteis. Seu rosto, o de um ciclope desprovido de simetria. Uma figura destituída de peculiaridades humanas. Kafkiana. A guerra extraiu-lhe todas as características humanas. É um animal rastejante. Não desceu à condição de inseto, mas à de um réptil. Seu olhar, petrificante, vazio de vida, de humanidade. O que ele pensa, se pensa? Ele conserva a capacidade de pensar, ou a perdeu? Fita-me, como se olhasse para uma criatura fantasmagórica que se corporificou diante de seus olhos. A minha presença extraiu-lhe o que lhe restava de sopro divino. A face dele adquiriu consistência pétrea; ele perdeu os traços de ser vivo (não direi os de um humano), que ainda conservava, e cedeu ao peso de sua cabeça. Deteve em mim seu olho bom. Esvaiu-se o sangue daquele corpo sem vida. Andei até ele. Este cadáver não pertencia a um homem, pertencia a um macho de uma outra espécie de vida, de vida rastejante, primitiva. Diante de mais este espetáculo de horror, pergunto o que esta guerra reserva-me. Dou-me conta, agora, da noite, que se precipita. Entretido com os eventos até aqui relatados, não notei que o tempo seguiu, sem cessar, a sua jornada. Sei que, chegada a noite, os conflitos recrudescerão. Os combatentes intensificarão os bombardeios. Estou muito exposto, aqui. Tenho de encontrar um abrigo. À minha volta, ninguém. No céu, nenhum avião. Chegam-me aos ouvidos cantos de pássaros, que se destacam, e destoam do ambiente. Inusitados. Incomuns. Singulares. Surrealistas. Os pássaros são as excrescências deste cenário de horror. São as pústulas deste corpo perfeitamente tétrico. Procuro por um abrigo. Olho de um lado para outro. Diviso escombros. Ao longe, espocam luzes, de explosões, no céu e na terra. Riscos luminosos rasgam o céu. São de disparos, não sei de quais armamentos. Sucedem-se as explosões. Arrasto-me, com o coração aos pulos, bombeando, com vigor, o sangue, a ponto de estourar-me a caixa torácica. Envolve-me a escuridão; tão de repente, que me surpreende. Detenho-me. Olho em redor. Nada vejo. Não vislumbro nem meus pés, nem minhas mãos. Tateando os escombros, acocorado, desloco-me não sei para onde. A insegurança me consome. Sinto que não posso permanecer aqui. Retiro do bolso a lanterna. Ouço vozes, que me chegam da minha direita. Agacho-me. Com a lanterna na mão, detenho-me, ouvidos atentos e olhos apurados; nada vejo, entretanto. Não vejo nem a ponta de meu nariz. As vozes que me chegam aos ouvidos pertencem a três homens, que falam um idioma que desconheço. São vozes graves, cavernosas. Sussurro, agora. Os três homens aproximam-se de mim. Calo-me… Os três homens distanciam-se… Não me viram, para a minha felicidade. Afastam-se. Cauteloso, desloco-me, tateando os escombros. Não quero provocar ruídos. Duas detonações, não muito longe de mim. Ouço berros ensurdecedores. Vejo cilindros de luz cem metros à minha frente. Ouço detonações, uma, duas, três, quatro… Uma rajada de detonações, de duas ou mais armas. Sucessivas e simultâneas. De armas de modelos diferentes. Deito-me, de barriga para baixo, e pouso as mãos sobre a nuca, para me proteger. Não sei de que direção são dados os tiros. Os disparos não me são dirigidos. Não sou o alvo dos atiradores. Nenhum projétil assobia aos meus ouvidos, nem atinge os escombros próximos de mim. Nada vejo. Escuto detonações, que se sucedem de diversas direções. Sinto-me exausto, debilitado. Procuro controlar meus batimentos cardíacos. Sucedem-se explosões ensurdecedoras. Não são de disparos de revólveres, pistolas, rifles, metralhadoras. São disparos de mísseis. A terra treme sob meu corpo. Pedras atingem-me os braços, as costas, as pernas. Cerro as pálpebras. Mordo os lábios. Entrelaço os dedos das mãos e os comprimo uns contra os outros e contra a cabeça. Retesados, todos meus músculos. Segue-se silêncio lúgubre, que ruídos de motores de veículos interrompem. Afrouxo os dedos das mãos. Nenhum ruído. Nenhuma voz. Aviões sobrevoam a região não sei há quantos metros de altura. Desentrelaço os dedos das mãos. Passo as mãos, da nuca para o queixo. Deito sobre as mãos a cabeça. Ouço vozes de homens, de mulheres e de crianças. Homens, mulheres e crianças conversam, sussurrando, num idioma que desconheço; e afastam-se de mim. Não me movo. Penso em me levantar, em acionar a luz da lanterna. Empunho a lanterna. Não sei se a aciono. E se combatentes virem a luz da lanterna? As pessoas que estão próximas de mim estão armadas? Elas me ajudarão? Ou me matarão? Elas são combatentes? Dirão aos combatentes, ou aos A…, ou aos B…, de mim? Prefiro conservar-me, aqui, deitado, e, sussurrando, registrar este relato… Despertam-me detonações. Dormi não sei durante quantas horas. O céu, claro. A luz do sol atinge-me da cintura para baixo. Sucedem-se explosões. Um avião passa ao longe, a dois quilômetros de distância e oitocentos metros de altura. Alvejam-no projéteis. O avião explode. Com a consciência um tanto lenta, debilitada, afetada pelo resquício do sono que me dominou, e conservou-me no seu domínio não sei durante quanto tempo, ergo-me, e ponho-me sobre os joelhos. Olho ao redor. Diviso escombros, e escombros, e prédios fumegantes, e veículos dos quais escapam línguas de fogo. O que se sucedeu à noite? Consulto o relógio. Dormi durante mais de dez horas. À minha esquerda, cadáveres. Não estavam lá, ontem, antes de eu pregar as pálpebras. São quatro cadáveres, três, de homens, um, de mulher. Os quatro vergam trajes civis dos A…. A mulher, de cabelos compridos, jaz estirada numa poça de sangue, sob um homem deitado de bruços, de través, com um rombo no crânio, e de cuja testa escorre massa encefálica. Os outros dois cadáveres são, um, de um homem na idade de aproximadamente trinta anos, e o outro, de um homem de uns quarenta anos de idade de barbas e bigodes espessos. Os quatro foram alvejados, cada um deles, por dois ou mais tiros. Não vejo cápsulas próximas deles. Concluo que os tiros partiram de longe. Chegam-me vozes aos ouvidos. Agacho-me. Vozes aproximam-se de mim. Os homens que as pronunciam não elevam o tom de voz. Aproximam-se de mim, lentamente. Acocorado, afasto-me dos cadáveres. À minha frente, um carro. Contorno-o. Ouço vozes de regozijo. Olho através do vidro do carro. São três homens. Não. Quatro. Cinco. Entrevejo armas. Rifles. Um homem carrega, a tiracolo, uma pistola. São seis homens. Dois deles, magros. Um, alto e musculoso, de voz roufenha, aparência tourina e músculos bem definidos. Seu tom de voz, de comando; os outros parlamentam com ele. Com um binóculo, ele esquadrinha o horizonte, e diz qualquer coisa. Um deles, magro, sobe em escombros e, com as mãos em pala, vasculha o horizonte. Dois homens andam na minha direção. Agacho-me. Arrasto-me para trás de escombros. Enfio-me por entre tijolos e vigas de ferro. Réstia de luz penetra nesta caverna, e revela-me o cadáver de uma criança decapitada, cujos olhos fitam-me, como se me repreendessem e suplicassem-me uma explicação ao que se sucede em C… Vejo, por uma frincha, o carro, e dois homens, que se detêm e remexem no carro. Aproxima-se deles um homem barbudo, que lhes exibe, ostentando-os com orgulho, os despojos que suprimiu, presumo, dos quatro cadáveres: dois relógios, um cinto, pulseiras e outros objetos. Aproximam-se do carro outros três homens. Riem. Gargalham. O grandalhão verga uma jaqueta preta, a qual retirou de um dos cadáveres, e exibe dois pares de sapatos e óculos de lentes pretas, e sorri, exibindo-se aos outros homens, que gargalham. A detonação de um projétil. Um dos homens que se acercaram do carro cai, alvejado por um projétil, presumo. Os outros homens põem-se de sobreaviso. Dois deles correm em minha direção, e abrigam-se nos escombros sob os quais estou. Seguem-se estrondos. Ouço gritos. Seguem-se estrondos. Sucedem-se gritos mistos de medo, raiva e dor. Explosões. Saraivadas de tiros. Aviões sobrevoam a região. Disparos. Gritos. Explosões. Estrondos. Passos acelerados. Várias pessoas correm, aos berros, próximas de mim. Vejo pés descalços ensangüentados passando por mim, rapidamente. Gritos. Choros. Gritos de desespero. Gritos de raiva. Gritos ameaçadores. Gritos de súplica. Entrevejo um homem carregando ao colo uma criança ensangüentada. Uma mulher ampara uma velha. Uma explosão. Nuvem de fumaça ganha o céu. Detritos invadem esta caverna. Cerro as pálpebras. Cubro o nariz, comprimindo as abas, para não aspirar detritos… Assentaram-se os detritos. Recupero a respiração. Descerro as pálpebras. Dissipou-se a nuvem. Não sei quanto tempo permaneci de pálpebras cerradas. Não ouço vozes. Não ouço ruídos. Nenhum som me chega aos ouvidos. Hesito. Quero retirar-me de sob estes escombros, que me protegeram, mas é uma armadilha. Por sorte, não ruíram, e não me soterraram. Apuro os ouvidos. Nenhuma voz, nenhum ruído, chega-me aos ouvidos. Lentamente, cauteloso, arrasto-me, evitando gestos bruscos, os ouvidos apurados para captar todo e qualquer ruído que me indique a presença de pessoas nas proximidades. Nada ouço. Movo-me, lentamente. Detenho-me. Ouvi ruídos de pedras caindo de grande altura. Segue-se o silêncio. Movo-me, lentamente, para me retirar deste abrigo, que poderá vir a se converter numa guilhotina e ceifar-me a vida. Censuram-me os olhos da criança decapitada. Fito-a pela última vez, e retiro-me de sob estes escombros. Olho em torno de mim. A paisagem foi enormemente modificada. O carro foi reduzido a ferro retorcido; mal há vestígios da sua forma original. Cadáveres juncam o chão a dez metros de mim. Há partes de corpos espalhados nos arredores. Braços. Pernas. Cabeças. Uma cabeça de mulher numa cavidade cheia de sangue. Ossos. Um mar de sangue. Quantos cadáveres há num raio de cinquenta metros que meu olhar alcança? Não sei para onde andar. Para onde me viro, vejo destruição e cadáveres. Sigo em direção às colinas, mais para o coração de C…, de onde chegam-me línguas de fogo e torres de fumaça, que se vergam ao sabor dos ventos, de mais de duzentos metros de altura. A batalha, lá, é mais intensa, encarniçada, do que aqui. Desloquei-me mais de vinte metros. Passei por cadáveres e escombros. Sigo em frente. Um veículo atrás de mim. Agacho-me. O veículo passa ao largo. Ergo-me. Neste terreno acidentado, repleto de obstáculos, corro, contornando-os, até um prédio em ruínas. Enveredo-me pelos seus domínios. Atravesso-o. Deparo-me com um cenário mais devastado do que o com o qual deparei-me antes de entrar neste prédio, que deixo para trás. Que… O que… O que é isto… O que é isto no meu braço direito? Um pernilongo. Criaturazinha maldita! Suga-me o sangue, a maldita! Sua barriga, repleta de sangue. Sangue! Sangue! Meu sangue! Criatura maldita! Enerva-me. Não me sugarás o sangue, maldita! Dou-te um tapa! Esmaguei-te, criatura maldita! Oh! Meu sangue! Mancha-me o braço meu sangue. Meu sangue! Oh! Meu sangue! Meu…

Emanuel desmaia. Aqui encerra-se o relato do correspondente de guerra.

Ivã, o Terrível

Ele era um homem incomum, rebelde, encrenqueiro e desajustado. Viveu vinte e dois anos. Nasceu no dia 17 de novembro de 1993, e morreu no último dia vinte e dois. Uma perda lamentável. No velório, choraram sua mãe, seu pai, seu irmão – o gênio, o cérebro, futuro Einstein brasileiro, quiçá o novo Einstein planetário -, sua irmã – a primogênita, a Gustave Rodin, a Michelângelo, a Leonardo da Vinci da família, quiçá do Brasil -, familiares e amigos. Os familiares receberam as condolências, algumas sinceras; a maioria polida, por respeito e consideração à família; e algumas fingidas; e houve quem, insensível, não dissimulou a sua indiferença, insensibilidade e inimizade com o falecido.

– Ele teve o que mereceu – comentou um homem, que aparentava quarenta anos, às pessoas ao seu redor. – Ele sempre se arriscou em aventuras amalucadas. Ele não nasceu para viver muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, era previsível, ele morreria em uma das suas aventuras arriscadas. – Depois, ofereceu as suas condolências aos familiares do falecido, beijou o rosto da mãe dele, e abraçou-a. Este homem ignorava a causa da morte do homem de quem falava com tanta insensibilidade.

De quem estou a tratar, afinal? À minha mão uma edição do jornal de anteontem, que traz o obituário do homem que tão imprevistamente morreu; sua morte, uma fatalidade. Quem imaginaria que ele teria tal morte!? Os leitores do jornal sabem de quem trato aqui. De um amigo. O início da nossa amizade deu-se no jardim de infância. Tempos bons aqueles. Nostálgico, rememoro aquela época. E suspiro de saudades. Nossos atos, para nós, eram destituídos de conseqüências, eram brincadeiras inofensivas. Quem diz que o meu querido amigo, falecido no dia 22 último, e eu não tínhamos consciência dos nossos atos não tem consciência do que diz. As crianças não têm consciência dos seus atos, dizem. Se tal afirmação procedesse, todas as crianças escalariam os muros das suas casas, e se lançariam, e de cabeça, no chão, e as que vivem em um apartamento do quinto andar saltariam para a calçada, vinte metros abaixo; se as crianças fossem desprovidas da consciência de seus atos, jamais recusariam sugestões e conselhos de adultos inconseqüentes, que as estimulam a arriscarem-se em atividades perigosas; em muitos casos, as crianças se machucariam seriamente se acolhessem as “sensatas” sugestões de “experientes e prudentes” adultos; mas elas, sábias, as rejeitam, terminantemente.

Agora, evocando aquela época, a da minha infância, que não se perdeu nos escaninhos da minha memória, mas esvai-se-me, lentamente, com a passagem do tempo, o faço, nostálgico, sorriso a estampar-me, não o rosto, mas o espírito, que se diverte, contente de saudades.

Minha vida é atribulada. Tenho de encará-la. Intimida-me as minhas lembranças. Não quero falar de mim. Não foi para falar de mim que principiei os registros destas memórias, que se me esvaem; foi para falar do amigo que perdi que debrucei-me sobre a folha de papel em branco à minha frente, a poucos centímetros de meus olhos, e ao alcance de minhas mãos. Caneta em punho, registro fragmentos de episódios da vida do meu amigo falecido.

Principio a redação da biografia de uma pessoa que viveu intensamente a vida. Ele atendia pelo nome de Ivã, e pelo codinome O Terrível. Seu patronímico; seu apelido. Ivã, o Terrível. Sim, ele era terrível. Ele era o Ivã. Ele era o Terrível. A sua reputação fazia jus ao seu nome. Ivã, o Terrível. Se os pais dele soubessem que tal nome daria ao primogênito deles um temperamento tão, como diz a mãe dele, esquentado, com tal nome jamais o batizariam. Estou a pensar bobagens. Ivã é um nome, apenas um nome. Dona Elizabete! Seu Roberto! Eu gostaria de poder abraçá-los, oferecer-lhes as minhas condolências, e também aos queridos Eduardo, Dudu, o Einstein, e Beatriz, Bia, a Leonardo da Vinci. Hoje tive a notícia do falecimento e do enterro de Ivã, meu amigo.

No jardim de infância principiamos Ivã e eu uma amizade, que perdurou até a morte dele, embora não nos tenhamos visto nos dezoito meses que a antecederam. Falávamo-nos, no entanto, via telefone e via internet. Podíamos nos ouvir, nos ver – o meu monitor não é dos melhores, e eu não tinha imagem nítida do Ivã.

Recordo-me do dia em que Ivã e eu nos conhecemos. O princípio da nossa história não foi alvissareiro. Como o episódio foi-me de grande impacto, recordo-me dele com clareza. Penetrou-me, profundamente, no cérebro. Há psicológicos que, porque leram apostilas, na faculdade, e repetem as patacoadas que leram, e as que ouviram, nas salas de aula, dos professores, autoridades demiúrgicas, declaram que as pessoas, involuntariamente, ocultam de si mesmas os episódios tristes, ou impactantes, que lhes amedrontaram, no fundo da mente (eles nunca se referem à alma, ou ao espírito; falam de ego, id, superego, e outros vocábulos que inventam para uso deles, atribuindo-se, ao usá-los, inteligência sapiencial), e de lá não os retiram, mas tais episódios as influenciam por toda a vida, e unicamente sessões de hipnotismo e outros rituais inusitados podem fazê-los emergir, e se revelarem, para que os psicólogos, e não as pessoas que a ales recorrem, possam compreender o comportamento delas. Considerando os capítulos da minha vida, esta tese não procede, pois lembro-me dos eventos que me fizeram sofrer, e não me recordo dos dias rotineiros que vivi, durante os quais não houve um evento incomum, impactante. Para encerrar esta curta digressão, declaro que o preâmbulo da amizade minha e do Ivã não me causou sofrimento, mas foi-me de grande impacto, e quando eu e Ivã evocávamos a nossa infância, e eu relatava aquele dia em que nos conhecemos, ele dizia que não se lembrava, confirmando a minha tese: a de que eventos de grande impacto, na vida de uma pessoa, gravam-se na mente dela, e não ficam ocultas no seu subconsciente. E por que, então, alguém me perguntaria, tal episódio Ivã não o recordava? A resposta encontra-se nas linhas seguintes, mas antecipo-me, e dou-lha: O episódio não provocou grande impacto em Ivã; provocou-o em mim; daí eu lembrar-me dele, e o Ivã, não.

Foi no jardim-de-infância, à tarde. Na Escola de Educação Infantil Reino das Águas Claras. Tímido, sai do carro, e detive-me diante da escola. Petrifiquei-me. Olhei, de um lado para o outro, observando as crianças e os adultos que as acompanhavam. As crianças, todas elas, com o uniforme da escola, que trazia, na camisa, a estampa de peixinhos, da Emília e do Visconde de Sabugosa e, na calça, a da Dona Benta. Ouvi choros, recordo-me. Uma menina, morena, de cabelos ondulados, agarrava-se às pernas de sua mãe, e chorava aos cântaros. Recordo-me de seu olhar suplicante, de seu rosto contraído, de seus lábios trêmulos. Minha mãe, enfim, segurou-me a mão esquerda, e encaminhamo-nos à escola. Passei pelo enquadramento da porta, e, ao mesmo tempo fascinado, deslumbrado e assustado, olhos arregalados, segurando a mão de minha mãe, detive-me, e, os olhos a circunvagarem pelo pátio, vi um parque de diversões repleto de crianças, que promoviam balbúrdia infernal.

Andamos minha mãe e eu. Em um certo momento, ela soltou-me a mão, para cumprimentar uma sua amiga, e eu dei dois, ou três, passos para a frente, e tropecei, e cai sobre um menino franzino, que, curvado, à minha frente, amarrava o cadarço do tênis. Levantei-me, assustado, e fite-o. Ele levantou-se, rapidamente, e voltou-se para mim, furioso, o braço erguido, o punho cerrado, pronto para desferir-me um soco. Tremi, olhos fixos nele. Eu era mais alto do que ele, mais encorpado, todavia, causou-me profunda impressão o olhar dele, ameaçador, e o seu cenho carregado, e a agressividade que se lhe transparecia no rosto.

– Ivã, não bata no menino. Tadinho dele – (Tadinho de mim? Eu era maior que o terrível, endiabrado Ivã. Quem o censurou foi a mãe dele, mulher alta, magra, de cabelos curtos). – Não faça mal para o menino. Deixe-o em paz.

– Ele bateu em mim – esbravejou Ivã, a devorar-me com um olhar que intimidou-me.

– Foi sem querer – disse-lhe a mãe.

– Não foi, não – resmungou Ivã, a rosnar.

– Ele tropeçou, Ivã. Foi sem querer… Não foi de propósito – persistiu dona Elizabete.

– Foi, sim – replicou Ivã, a dardejar-me olhar de fúria. – Vou dar um murro nele. Na cara. Vou quebrar o nariz dele. E vou dar um chute nele.

– Não faça isso, Ivã – censurou-o dona Elizabete, o tom de voz elevado, emprestando-lhe autoridade. – Não seja malvado. Você é um menino bonzinho.

– Não sou, não. Sou mal. Sou Lex Luthor.

Hoje, ao evocar esta cena, divirto-me. Quando Ivã disse que ele era o Lex Luthor, assustei-me. Ora, como queriam que eu me comportasse? Eu sabia, aos meus seis anos, quem era Lex Luthor. Até o Super-Homem tinha medo dele (Se Ivã tivesse dito que era ou o Coringa, ou o Duende Verde, eu não sentiria tanto medo).

Dona Elizabete repreendeu-o. Ivã fitou-me, emburrado, como a querer moer-me de pancadas. Não sei se ele avançaria contra eu, e, se nos engalfinhássemos, eu o sobrepujaria. Eu era maior do que ele, e mais forte, mas ele era mais agressivo do que eu, e estava muito irritado, e era dotado de temperamento briguento, que anularia, era certo, a vantagem que ma concederia o porte meu superior ao dele. Fica no campo das especulações. Não brigamos, naquele dia. Não me recordo se, durante aquele dia, estranhamo-nos, no jardim-de-infância, um jardim com os seus ogros, monstros, ciclopes, bruxos, quimeras e alimárias, e princesas e rainhas, e príncipes e reis, e heróis e guerreiros. O mundo infantil é encantador, e assustador também.

Quem poderia prever que com tais preliminares, seríamos amigos eu e Ivã? E quem adivinharia que a nossa amizade seria duradoura? Se dona Elizabete não contivesse o Ivã, eu e ele nos engalfinharíamos, naquele mesmo dia, e a nossa inimizade seria eterna. Talvez…

Transcorreram-se os dias.

Não sei identificar quais fenômenos naturais e sobrenaturais aproximaram-me de Ivã, e ele de mim. Éramos de temperamentos tão distintos! Não éramos unha e carne. Éramos água e óleo; eu, a água; ele, o óleo. E nos entendemos. Há coisas que só a filosofia explica, ou Freud explica, ou Shakespeare explica, ou Cervantes, ou Conan Doyle, ou Daniel Defoe. Como entenderam-se Dom Quixote e Sancho Pança? Como entenderam-se Sherlock Holmes e Watson? Como entenderam-se Robinson Crusoé e Sexta-feira? Há mais entre o céu e a terra… Clichê.

Brincávamos, no jardim-de-infância, todos os dias, Ivã e eu. E Paulo e Denise, meu pai e minha mãe, e Roberto e Elizabete, pai e mãe de Ivã, notaram a amizade. E eles principiaram amizades, que se perpetuam.

Eu frequentava a casa de Ivã; e ele a minha.

E assim, com alguns desentendimentos, com brigas corpo-a-corpo, alimentamos Ivã e eu a nossa amizade.

Ele era muito briguento, mas franzino; às vezes, apanhava algumas surras, e, depois, urdia, em conluio, ou comigo, ou com outros meninos, a vingança. Eu nunca fugia da briga. Ora, Ivã era meu amigo. Para que existem os amigos!? Para se apoiarem nas horas difíceis. E por quantas horas difíceis Ivã passou!

Estudamos o primário na escola Mário Bulcão Giudice. A professora de matemática, Bianca, vesga, era o nosso alvo de chacotas. Meu Deus! Ivã não lhe dava sossego. Bianca, o Monstro Vesgo, chamava-a Ivã. O defeito ocular foi a maldição dela. Que Deus a guarde. Ela morreu, no ano passado, em junho, de ataque cardíaco fulminante. Devo, para ser fiel aos acontecimentos, dizer que todos os professores eram alvos da maldade de Ivã. Ele não os perdoava. Para ele, os professores o impediam de andar de skate, de bicicleta, jogar vôlei, e brigar com outros meninos, e, também, com algumas meninas, tão briguentas quanto ele. E Júlia, com quem ele discutia, na sala-de-aula, todos os dias, e puxava-lhe os cabelos, e ela o unhava, e durante o recreio engalfinhavam-se não raras vezes, e provocavam-se, e corriam um em perseguição ao outro quase que todos os dias, era a sua amiga inseparável. Gostavam-se um do outro, e muito, e discutiam e brigavam na maior parte do tempo, e quando um deles não ia à escola, o outro sentia-lhe a falta. Há mais entre o céu… Sem clichês, por favor.

Rememoro inúmeros episódios sucedidos no capítulo jardim-de-infância. Se eu os relatasse com os pormenores dos quais me recordo, debruçar-me-ia sobre o papel, dez lápis sobre a mesa, uma pilha de folhas de sulfite ao lado, e escreveria, durante dez horas por dia, pelos próximos dois anos, um romance que superaria em extensão a obra-prima de Marcel Proust. Como me concederam apenas algumas linhas, terei de me concentrar naqueles episódios da vida de Ivã, os quais, segundo eu, são os mais significativos. Escrevi que eu teria de ser sucinto; risquei este trecho do meu testemunho, pois sucinto não serei; e tampouco serei prolixo. A leitura deste texto não exigirá muito tempo do leitor, e tampouco o enfadará. Desejo, com palavras precisas, relatar apenas os eventos memoráveis, que são muitos; não poderei, entretanto, tratar de todos eles. Tenho de selecionar dentre todos os episódios os mais significativos. É um trabalho exaustivo, penoso, o de resumir a vida de personagem de biografia tão rica.

Com um salto no tempo, escrevo: Aos onze anos, Ivã transferiu-se, com a sua família, para o bairro Campo Alegre, e seus pais matricularam-no na escola João Pedro Cardoso. Conservamos a amizade Ivã e eu. Não morávamos no mesmo bairro, e não estudávamos na mesma escola, mas conversávamos quase que todos os dias – quando eu não ia à casa dele, ele ia à minha casa.

Na idade de doze anos, Ivã pediu Valquíria em namoro, e disse-me, o namorador precoce, certo dia, quando me inteirou do seu namoro com ela, constrangendo-me:

– Arrume uma namorada para você. Por que você ficou vermelho, idiota? Bestão – e deu-me um tapa na testa. Era esse o seu jeito de ser amigável. Eu não me incomodava com as suas atitudes bruscas, os seus rompantes de bravura.

Foi naquele dia que ele me confidenciou os seus desejos íntimos. Falou-me, lascivo e brincalhão, de Valquíria, e do beijo que lhe dera. E na boca! E de mais de cinco minutos! Acreditei na história. Era bravata de Ivã, eu soube, dias depois, contou-me a Valquíria. Foi apenas um selinho. Desejei perguntar para a Valquíria o que ela sentira; ela, que gosta de falar, disse-me, antecipando-se-me, que o beijo tinha sido esquisito, sem graça.

Valquíria e Ivã namoraram durante seis meses. Ele rompeu o namoro com ela, e principiou namoro com Verônica. Foi um rompimento unilateral, brusco e seco, vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos. Eis as palavras de Ivã:

– Val, nosso namoro acabou. Não quero namorar com você. Tchau. Vou para a casa da Verônica – virou-lhe as costas, e dela afastou-se, e rumou à casa da Verônica.

Valquíria ouviu-o, boquiaberta. Fiquei constrangido. Vi os olhos dela a encherem-se de lágrimas. Não suportei olhá-la… Virei-me, e dela afastei-me, entristecido.

Dois meses depois, Ivã rompeu, via telefone, o namoro com Verônica. Eu não estava presente quando Ivã teve o atrevimento de romper o namoro com ela do modo que o fez. Ouvi comentários. Disseram-me que Ivã foi terrível, cruel. E por que ele rompeu o seu namoro com a Verônica?

– A Verônica é muito chata – disse-me Ivã. – É quadrada.

– Ela é bonita – comentei, constrangido. – É inteligente. De boa família…

– E daí? – interrompeu-me Ivã, bruscamente. – Qual homem deseja mulher bonita, inteligente e de boa família? A Verônica é uma santa! – disse, sarcástico. – Verônica, a santa… Que chatice… – ele não falou dos seus pensamentos, dos seus sentimentos. Eu o conhecia, e bem. Verônica não lhe cedera aos impulsos.

Um mês depois, Ivã principiou namoro com Veruska.

– Você só namora garotas com nomes que começam com “v”- dizia Beatriz, irmã do Ivã. – Você é viciado na letra “v”. Quais garotas você namorará, após dar fim ao namoro com a Veruska, daqui uma semana, ou daqui um mês? A Vitória, a Vanessa, a Vera, a Valeska, a Valéria, a Vilma, a Valentina, a Vicentina, a Veridiana e a Virgínia?

Enveredávamos pela puberdade, e pela juventude. Sensações novas, garotas, hormônios…

Para Ivã, a juventude foi-lhe difícil. O seu temperamento ardoroso, agitado, impaciente e contestador não raras vezes sem razão fê-lo desentender-se com pessoas que lhe queriam bem, e trouxe-lhe inúmeros contratempos e dissabores, os quais evitaria se não fosse, como dizia seu pai, tão cabeça dura. Além disso, arriscava-se em aventuras perigosas e esportes radicais.

– Quero sentir a adrenalina entupindo-me a cabeça – sentenciava Ivã, ao dar início à uma aventura, que nem sempre encerrava-se bem.

Se Ivã vivesse, na Grécia, mil anos antes de Cristo, ou em era anterior, seria ele um êmulo de Perseu, Teseu, Hércules, Odisseu e Aquiles. Conquanto não fosse nem um semi-deus, nem um herói, arrostaria vagalhões, mares revoltos, tempestades diluvianas; e apresentar-se-ia para a guerra contra os troianos, ou se alistaria no exército troiano, e lutaria contra os gregos; e iria ao Peloponeso, às Termópilas, à Maratona; e arrostaria o Ciclope e o Minotauro; e singraria os mares a bordo do Argos; e iria em busca do Velocino de Ouro. Se Ivã vivesse na era mongol, ele combateria Genghis Khan, ou, o que seria mais provável, aliado dos mongóis, ajudaria Genghis Khan a devastar a Europa. Se Ivã vivesse na era heróica da Grã-Bretanha, seria ele um dos cavaleiros da Távola Redonda. Se Ivã vivesse, na Espanha, no início do século XVII, acompanharia Dom Quixote em suas perambulações disparatadas. Se Ivã vivesse, no século XIX, nos Estados Unidos, iria à caça de Moby Dick. Ivã, em qualquer outra época, lançar-se-ia em aventuras inusitadas, almejando a realização de façanhas extraordinárias e proezas épicas. Uma coisa era certa: ele jamais se enfurnaria em uma biblioteca.

Ivã falava muitas gírias e muitos palavrões. Enraivecido, irritado, ele chutava o balde, distribuía socos, pontapés e obscenidades para todas as pessoas que se encontravam ao alcance de suas mãos e de seus pés, e de seu campo visual. Ao tecer comentários sobre qualquer assunto, disparava exclamações explosivas entremeadas de palavrões. E dá-lhe palavrões! Palavrões eram-lhe como o sangue que lhe corria nas veias.

E o tempo passou.

Os esportes prediletos de Ivã: skate, canoagem, montanhismo, balonismo, paraquedismo e surf. Esportes autênticos, dizia Ivã, que também dedicava-se às suas paixões esportivas clandestinas: rachas com carros e motos, na via expressa. Antes de ele se dedicar aos rachas, nos finais-de-semana, à noite, ele teve de aprender a dirigir, e aprendeu, com seu primo, Rogério, filho de sua tia materna, Maria Vitória. Ambos, no carro do pai de Rogério, Vinicius – uma nota: O pai e a mãe de Rogério são divorciados -, circulavam, pelas ruas dos bairros periféricos, para fugir dos meganhas, diziam eles, desdenhosos e debochados, ao referirem-se aos policiais, ecoando vozes soturnas, cínicas, de intelectuais anarquistas e de transgressores.

Deu-se em um sábado um episódio, que não posso sonegar ao mundo, e que narrarei nas linhas que se seguem à esta. Não me estenderei e não serei superficial. Deter-me-ei em tal episódio, e dedicar-me-ei à narração durante algumas linhas.

Em um sábado, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, Ivã e Rogério, na ausência dos pais de Ivã, decidiram dar um rolê, não no carro do pai de Rogério, Vinicius, mas no jeep de seu Roberto, sem o consentimento dele, seu Roberto, que seria inteirado de que seu filho e seu sobrinho fizeram não muitas horas depois do início da aventura deles.

Ivã e Rogério foram à garagem, viram o jeep, e aflorou-lhes à mente uma idéia brilhante: dirigir o jeep. Onde estava a chave? Ivã sabia onde seu pai a guardava: Na primeira gaveta do criado-mudo. Ivã não hesitou. Foi ao quarto de seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo, pegou a chave do jeep, regressou à varanda, e entregou à chave a Rogério. Minutos depois, estavam, na rua, Rogério ao volante do jeep, e Ivã, agitado e impaciente, querendo dirigir o jeep, mas, contrariado, teve de esperar Rogério ceder-lhe a direção. E Rogério, tão animado, tão entusiasmado, não lha cedia. Havia muito tempo ele sonhava em dirigir o jeep do seu tio; agora que o conseguiu, não o entregaria para ninguém. Ivã, no entanto, persistente, contrariado, reclamou, e Rogério irritou-se, e prometeu ceder-lhe o volante, não nas ruas do centro da cidade, mas no bairro do Campo Feliz. E Ivã cobrou-lhe a promessa, irritantemente, exasperando Rogério, que, enraivecido, ceder-lhe-ia o volante, mas o faria ao modo dele, Rogério, com a concordância de Ivã, que o achou excitantemente perigoso.

Rogério, então, ao volante do jeep, rumou ao bairro Campo Feliz, e à ladeira Getúlio Vargas.

– Ivã, prepare-se – disse Rogério, assim que avistou o princípio da ladeira, e adiante deles o vazio. – Estamos quase lá. Vou pular para o banco de trás, e você tomará o volante. Prepare-se – Ivã não teve tempo de preparar-se. Rogério, ao encerrar a frase, saltou para o banco de trás, e Ivã, açodado e desajeitado, sentou-se, no banco do motorista, praguejando, olhos arregalados, proferindo palavrões como uma metralhadora, o jeep a descer a ladeira, descontrolado, e Rogério a gargalhar, divertindo-se com o medo estampado no rosto de seu primo, e a gritar: – Segure o volante, idiota! Segure o volante, imbecil! Segure o volante, besta! – e Ivã a muito custo segurou o volante, que parecia dotado de vontade própria e esquivava-se-lhe das mãos, e Rogério a gritar: – Segure o volante! Pise no freio! Pise no freio! Olhe o poste! Olhe o poste! – e o jeep a ziguezaguear de um lado para o outro, e a descer a ladeira.

Confundiam-se os gritos de Rogério e os de Ivã.

Controlado o jeep, Ivã freou, e, esbravejando, disparou uma saraivada de palavrões contra Rogério – que gargalhava – e, punhos cerrados, ameaçou socá-lo até reduzi-lo a pó, e subiu, incontinenti, no banco traseiro, e lançou-se contra Rogério, que, a gargalhar, desceu do jeep, e Ivã foi-lhe no encalço ladeira acima. A perseguição estendeu-se, pela rua transversal, por duzentos metros. Ao desistir da perseguição, Ivã iniciou os passos de regresso ao jeep. Ao chegar à esquina, deteve-se, e gritou:

– Rogério, o jeep sumiu!

Rogério não acreditou no que lhe disse Ivã, pois suspeitava que ele queria engabelá-lo para dele aproximar-se.

– Idiota, você acha que irei engolir a mentira? – perguntou-lhe Rogério, a rir.

– Não é mentira, não, Rogério – disse Ivã, voltando-se para Rogério, distante dele uns cinco metros. – O jeep sumiu.

Rogério sabia que Ivã, péssimo ator, dizia-lhe a verdade, e acelerou os passos; chegando-se a Ivã, olhou para a ladeira. O jeep não estava onde Ivã o deixara. E agora, o que fariam? Foram até onde o jeep havia sido deixado, à procura de um sinal que lhes indicasse aonde o jeep teria ido.

– O jeep foi abduzido por alienígenas – comentou Rogério. Censurou-o Ivã.

– Roubaram o jeep – sentenciou Ivã. – Agora, sim, estamos ferrados.

– Assinamos a nossa sentença de morte – sentenciou Rogério.

– O que faremos?

– Iremos à delegacia.

E rumaram à delegacia.

Quarenta minutos depois, principiaram o depoimento, alterando os papéis que protagonizaram. Rogério disse, e Ivã o secundou, que ele, Rogério, dirigia o jeep, e Ivã provocava-o, dizia-lhe palavrões, ofendia-o porque ele, Rogério, não lhe cedia o volante. E Rogério, em um certo momento, nervoso, freou o jeep, e ameaçou dar em Ivã uma surra, e do jeep Ivã desceu. E Rogério perseguiu-o, e ao regressar à ladeira lá o jeep não estava. O policial que colhia o depoimento ficou com uma pulga atrás da orelha: suspeitava que Rogério e Ivã haviam vendido o jeep, e inventaram aquela história sem pé nem cabeça. O interrogatório de Ivã e Rogério não havia se encerrado quando na delegacia entraram seu Roberto, pai de Ivã, e Marcos, irmão de seu Roberto, e com eles um homem algemado ladeado por dois policiais. Seu Roberto, ao ver Ivã e Rogério, surpreendeu-se, e foi até eles. E nos trinta minutos seguintes foi inteirado de como se deu o roubo do jeep pelo ladrão.

– E eu – disse seu Roberto, na delegacia, na frente de Ivã, Rogério, Marcos e do policial que colhera os depoimentos de Ivã e Rogério – chamei o ladrão de mentiroso quando ele me disse que encontrou o jeep abandonado na ladeira Getúlio Vargas! O ladrão é ladrão, mas é honesto. Falou-me a verdade, o maldito! Merece ouvir de mim um pedido de desculpas. E o meu filho e o meu sobrinho… Ah! Dois vagabundos… Pegaram-me o jeep… Que foi de meu pai… A única herança que ele me deixou… E estes dois pestes…

O policial pediu-lhe moderação nas palavras, e seu Roberto, que rilhava os dentes de fúria, mordeu a língua. E Ivã e Rogério dobraram-se, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, às censuras de seu Roberto, dona Elizabete, dona Maria Vitória e seu Vinicius.

Mas como seu Roberto soube do roubo do jeep? É preciso retroceder alguns minutos para se conhecer este capítulo simultâneo à ida de Rogério e Ivã à delegacia e ao depoimento deles ao policial.

No bairro XV de Novembro, Marcos, marceneiro, em visita a um cliente, para quem levaria quatro cadeiras, ao deter-se, no semáforo, no cruzamento das ruas Gonçalves Dias e Guimarães Rosa, avistou, na rua perpendicular, parado, atrás de um carro prateado, esperando o sinal abrir, o jeep de seu Roberto, e, ao volante, um homem que ele jamais vira; ensimesmado, certo de que seu Roberto não permitiria que nenhuma outra pessoa dirigisse o jeep, tirou do bolso da calça o telefone celular, e discou para ele. Enquanto o esperava atender a ligação, seguiu o jeep. Ligação atendida, Marcos inteirou seu irmão do que vira. Contataram a polícia, e Marcos seguiu o jeep, até o motorista com ele entrar em uma casa, e à casa dois policiais chegaram minutos depois, e não muito tempo depois chegou seu Roberto. E os quatro homens ouviram do ladrão a história, e nele ninguém acreditou.

Encerrado o caso, Marcos retomou o seu trabalho. O ladrão foi preso, e Ivã e Rogério, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, ouviram o sermão…

E aqui encerra-se este episódio.

Não havia se passado três meses do episódio relatado linhas acima, Ivã empreendeu outra aventura memorável.

Certa noite, ele apossou-se da chave do carro de seu pai, e foi, com os amigos, para um racha. Com os amigos! Quero esconder a verdade? Tenho de contar a verdade: Participei desta aventura. Sou fiel aos fatos: Fui cúmplice do Ivã. Eu, ele, outros dois amigos nossos, Fernando e Cauã, participamos da sandice. Fomos irresponsáveis, inconseqüentes, estúpidos.

Dói-me o peito ao recordar aquele dia… Ivã, ao volante do carro, aos 16 anos… Onde eu estava com a cabeça quando concordei com aquela idéia estúpida? Ivã, que mal sabia dirigir, ao volante de um carro, num racha, à noite. Ele dirigiu o carro da casa de seus pais até a Via Expressa, uma rua extensa, de quase um quilômetro de extensão. Na Via Expressa, reunidos com outros amigos e pessoas as quais nunca havíamos visto mais gordas, os “pilotos” chegaram a um acordo quanto às regras das corridas. Seriam quatro desafios, dizíamos. Ivã participaria do terceiro. Ele assistiu aos dois primeiros desafios, impaciente, inquieto, e, antes de lhe anunciarem a participação dele no terceiro, ele já havia entrado no carro. Eu, Cauã, Fernando, e outras pessoas, antecipamo-nos aos dois participantes do desafio, e rumamos para o final da Via Expressa, onde eles teriam de executar manobras, em grande estilo, para agradar ao público, e iniciar o percurso de regresso ao ponto de partida. Não precisamos esperar muito tempo para conhecermos o encerramento do episódio, que aterrorizou-nos. Em pé sobre um carro, vi os dois carros aproximando-se, o carro preto e, metros atrás, o carro de Ivã. O carro preto deu um cavalo-de-pau, e principiou a jornada de regresso ao ponto de partida. E Ivã… Meu Deus! Ao executar o cavalo-de-pau, Ivã perdeu o controle do carro. Meu coração ficou a ponto de explodir. Vi o cadáver de Ivã, quando o carro deu cambalhotas. O tempo parou. Suspendi a respiração. Corremos para acudir Ivã, que perdera os sentidos. Em que enrascada nos metemos! Ivã despertou, e gritou de dor. Estávamos encrencados. De Ivã estavam quebradas as pernas, um braço, três costelas, o nariz e vários dedos, e na sua testa havia um corte. Pode-se conceber o que ocorreu nas horas seguintes, no hospital, na casa de seu Roberto e dona Elizabete. Meu pai e minha mãe, ao mesmo tempo decepcionados, irritados, preocupados, repreenderam-me, e condoeram-se de mim… Nos dias seguintes, Ivã viveu confinado à cama e à cadeira de rodas. Enfim, meses depois, recomposto, ele retomou a sua vida. Aliás, não é correto dizer que ele “retomou a sua vida”. Ele viveu um capítulo da vida dele naqueles meses de confinamento, capítulos que o desagradaram, mas teve ele de resignar-se. Recomposto, sim, ele viveu a vida dele, conforme o seu temperamento, a vida que desejava para si, uma vida de prazeres e dores. E ele não se acertou, como muitos previram, contrariando o desejo de sua mãe. Ivã era o Ivã, o Terrível. E jamais deixaria de sê-lo. Jamais.

Ivã, diziam dele, “não tomou jeito”, “não ganhou juízo”. A experiência desagradável fê-lo mais inconsequente, mais irresponsável, conquanto mais amadurecido e cauteloso. Quê!? Se aprendêssemos com a nossa própria experiência, seríamos sábios, impecáveis, infalíveis, antes dos quarenta anos de idade.

Recuperado, o que fez Ivã? Encerrado o seu namoro com Veruska, namorou Vanessa e Vera. Um ano depois do acidente de carro que quase o matou, ele foi para Minas Gerais. Ao pular de pára-quedas, caiu de mal jeito, e quebrou as pernas. E em quantas brigas envolveu-se Ivã? E em quantas brigas ele me envolveu? Ele se desentendeu com seu pai e sua mãe, e foi, e, em duas ocasiões, morar na casa de seus avós paternos. Da escola ele foi expulso duas vezes. Feriu-se, várias vezes, ao executar manobras de skate. Fraturou ossos das pernas e dos braços, três vezes, recordo-me, uma vez, na pista de skate da cidade; outra, na rua, ao manobrar para executar uma curva; e a outra, na praça Carlos Chagas.

– Ivã, não brinque com o skate – exortavam-no sua mãe, seu pai, seus avós, seus tios. Da família, apenas os primos de temperamento similar ao dele o apoiavam.

– Sou dono do meu nariz – replicava-lhes Ivã. – Não tenho de ouvir baboseiras. – E quase morreu afogado, em Ubatuba, na Praia Grande; e em outra ocasião, bêbado, ao volante de um carro que um amigo emprestara-lhe, colidiu contra um poste, e quebrou o nariz.

Paralelamente aos namoros sérios, oficiais, Ivã aventurava-se com mulheres com iniciais em A, B, C, D e todas as outras letras do abecedário.

Um dia, chegou aos ouvidos de dona Elizabete notícias das aventuras de Ivã com mulheres ditas fáceis. A conduta dele ia contra todos os princípios dela. E dona Elizabete falou a respeito com Ivã, que lhe disse que não se preocupasse: ele sabia cuidar de si mesmo. Sabia… Naquele mesmo dia, dois policiais, à uma hora da madrugada, premiram a campainha da casa de seu Roberto e dona Elizabete. Seu Roberto atendeu à porta. Os policiais pediram-lhe que os acompanhasse até à delegacia. Ivã envolvera-se em uma briga. Trazia, em estado deplorável, o nariz quebrado, e o olho esquerdo roxo, e vários hematomas no corpo. Eu tentara apartar os briguentos. Conto a história pela metade. Tenho que retroceder algumas horas. Desde a manhã daquele dia, Ivã dizia que iria cobrir o Murilo de socos e pontapés, e quebrar-lhe-ia o nariz, os braços, as pernas, e furar-lhe-ia os olhos, e rachar-lhe-ia a cabeça, no meio, com uma barra de ferro, e abrir-lhe-ia o crânio, e arrancar-lhe-ia o cérebro, e jogá-lo de alimento para o Mancada, um vira-latas medroso, lerdo e desengonçado de uma orelha quebrada que costumava andar com apenas três pés no chão, conservando uma perna erguida.

– Dizem que cérebro tem bastante mocotó – dizia Ivã, naquele dia -, que é bom pra saúde. Tem proteínas, vitaminas, fibras e carboidratos. O cérebro do Murilo, se não estiver estragado, fará bem para o Mancada.

À noite, nos bares, bebeu Ivã cerveja, caipirinha, wisky e cachaça. E no bar do João Portugal, ele viu, ao passar pelo enquadramento da porta, Murilo e dois amigos dele, e não hesitou: foi até ele, a rosnar, empurrou-o, e encaixou-lhe um soco no nariz.

E atracaram-se Ivã e Murilo.

Durante o dia fiz de tudo, e mais um pouco, para impedir que Ivã encontrasse Murilo, para evitar a briga, e desdobrei-me para acalmá-lo e para fazê-lo esquecer Murilo – não me lembro o que Murilo lhe fizera que o irritara tanto.

Enquanto Ivã desancava Murilo, não intervi na briga; mas Ivã estava embriagado, e Murilo sobrepujou-o, após conseguir recompor-se da surpresa do ataque que Ivã lhe desferira, e então decidi, para meu prejuízo, intervir, e apartar os briguentos. A minha interferência, desastrada e desastrosa. O Ivã acertou-me um soco no nariz. Ouvi gargalhadas. Vi Ivã, encostado à parede, e Murilo a esmurrá-lo. Levantei-me. Fui até eles, e agarrei Murilo, e afastei-o de Ivã. Alguém empurrou-me, e deu-me um pontapé. A partir daí, o caos.

Quatro policiais chegaram ao bar do João Portugal não sei quantos minutos depois, e encaminharam-nos, eu, Ivã, Murilo, e mais uns três ou quatro homens, não me recordo, à delegacia. A sequência deste episódio eu a registrei linhas acima. Dona Elizabete, seu Roberto, meu pai e minha mãe repreenderam-nos durante horas. Foi uma lição inesquecível. E o que Ivã aprendeu com ela? Nada. A lição entrou-lhe por uma orelha, e saiu-lhe pela outra. No dia seguinte, domingo, ele gargalhava ao contar-nos o episódio.

Contra todas as expectativas, Ivã, concluído o colegial, decidiu cursar advocacia. Alegou querer melhorar o Brasil, defender a Justiça.

– Tenho de me arrumar na vida – disse, certo dia, durante o almoço. – Tenho dezoito anos. A Bia, a Leonarda da Vinci, está com o futuro feito; o Dudu, o crânio da família, é o Einstein redivivo. E eu? O que fiz da minha vida? Arruaças, brigas, transgressões, mentiras, traições. Viverei a mentir e a brigar durante quanto tempo mais? Além deste maluco – e deu-me um tapa na nuca -, quem mais me atura? Tenho de me arrumar na vida.

Para surpresa de todos, Ivã aplicou-se nos estudos, namorou Valeska, arrumou emprego de vendedor para custear os estudos, e prestou o vestibular. Classificou-se entre os melhores. No ano seguinte, ele e Valeska rumaram para São Paulo, e lá instalar-se-iam em um apartamento, que compraram com o dinheiro obtido do trabalho dela e dele. Sagaz, versátil, inteligente, de raciocínio rápido, muito acima da média, Ivã foi bem-sucedido. A sua ascensão, meteórica. Admiravam-no, e respeitavam-no. Nas férias, ia às aventuras: Montanhismo, paraquedismo, balonismo, esquiagem. Viajou para Pernambuco, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, África, Estados Unidos, Europa. Escalou os Alpes, o Himalaia, os Andes.

– Ivã, você se arrisca demais. – comentou sua mãe, em diversas ocasiões. Ivã tranqüilizava-a com palavras carinhosas, inteirando-a dos cuidados que tomava, sob orientações de instrutores, na véspera e durante as aventuras, arriscadas, ele sabia, e emocionantes.

Há quatro dias, Ivã veio em visita à sua família e aos seus amigos. Há três dias, eu, meu pai e minha mãe, meu irmão, minhas irmãs, a minha cunhada, meu cunhado, meu sobrinho, Ivã, Valeska, seu Roberto, dona Elizabete, Eduardo, Beatriz, almoçamos, na minha casa. Conversamos. Brincamos das dez horas às vinte horas.

Anteontem, pela manhã, Ivã, descontraído, retirou-se, de bicicleta, da casa de seus pais. Ao chegar à esquina, duas crianças, a brincar de pega-pega, atravessaram, correndo, a rua, à frente de Ivã, que freou, perdeu o equilíbrio, e caiu, e bateu com a cabeça num paralelepípedo. E morreu.

Que a alma de Ivã descanse em paz.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, loira, pele branca, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana, que, aos quarenta e seis anos de idade, conservava, a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia, desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizavá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, e desejavam conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era melhor do que a de todas as outras instituições científicas. Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram todas as experiências dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nas instituições acadêmicas e científicas. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal –, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia sob o peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos, e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu, nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água, mas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo, que se mexia sob o solo aquoso. Algo reluzente, parecia uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. Tratava-se, deduziu Natacha, de uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como?, perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Presumiram, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda, e para si mesma, que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, a imaginar que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se, e perguntavam uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física e as da biologia foram reconsideradas à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois, programado o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, não o encontraram. Ou o planeta havia desaparecido, ou havia deixado de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, havia se deslocado para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.

O escritor que era original

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos buscou a originalidade durante quase toda a sua vida, que se estendeu por setenta e dois anos. Certo dia, reconheceu, após muitas horas de reflexão, que todas as narrativas que havia escrito os gregos, os romanos, os espanhóis, os italianos, os franceses, os russos, etc., etc., já as haviam contado séculos antes, e, então, certo de que se consumiu em trabalho infrutífero, reconheceu que havia desperdiçado, inutilmente, décadas da sua vida, mas estava feliz, pois entendia, agora, qual era a atitude apropriada para o labor literário, iluminado pela sabedoria universal. Decidiu queimar todos os seus textos. Arremessou resmas e resmas de papel à fogueira, e sentiu-se livre da opressão de todos os sentimentos angustiantes que o sufocaram durante as décadas que antecederam o seu ato de alforria, ciente de que conhecia, agora, a fórmula da excelência literária. A fogueira ardeu durante quatro horas. E a partir desse dia, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não leu sequer um livro, pois não queria que o influenciassem em sua obra que estava por escrever Homero, Boccaccio, Cervantes, Victor Hugo, Machado de Assis, Proust, Dostoiévski, Tolstoi, Turgueniev, e outros escritores influentes. Que eles influenciassem outros escritores; ele, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, não. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos sabia, agora, inspirado pela sabedoria universal, que a excelência literária encontra-se na simplicidade das coisas do mundo, e, atendendo aos seus anseios, sublimados pelas forças inspiradoras do universo – que estão além do alcance da mente debilitada das pessoas contaminadas pela civilização tecnológica na qual estão imersas -, poderia haurir da sabedoria da natureza, pois estava preparado para, sem açodamento, fruir do aroma natural das coisas do mundo, e escrever a sua obra perene. Não mais leu livros dos grandes mestres da literatura. Eles não eram imprescindíveis, como declaram inúmeros estudiosos, todos eles presunçosos, pernósticos, soberbos eruditos encastelados em torres de marfim. Desfez-se Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos dos seus livros. Não os cedeu para bibliotecas públicas, e nem para as universitárias; não os vendeu para livreiros, nem para bibliófilos, tampouco os doou para alguma instituição. Queimou-os. Sim. Queimou-os. Eram todos os livros, e os clássicos dentre todos, perniciosos para a inteligência humana, acreditava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. Debilitavam-na os livros. Impediam o florescimento da sabedoria, da criatividade, da originalidade, que, para ele era, até então, inalcançável. As suas reflexões conduziram-lo para a elevação da sua mente sob a inspiração benéfica da sabedoria universal, e soube, então, o que tinha de fazer, e o que tinha de fazer era inadiável. Já havia desperdiçado muitos anos da sua vida com leituras, que o oprimiram, o impediram de pensar, de criar, de conceber tramas e personagens originais. Os escritores e os estudiosos aos quais atribuem sabedoria e genialidade sufocam os espíritos dos homens, são nocivos ao desenvolvimento da originalidade, estava convencido Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. E não os condenam à fogueira. Enaltecem-los. Entoam loas para eles. Até hoje, Júlio César é difamado por ter ateado fogo à Biblioteca de Alexandria. Júlio César, segundo Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, merecia o reconhecimento da humanidade por haver tê-la livrado de obras que lhe roubariam a liberdade de espírito, que lhe propiciaria a originalidade de pensamento e de criação literária, científica, filosófica e política.

Recluso, em busca da originalidade, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos evitava contato com as pessoas, principalmente com os escritores. Viveu em busca da originalidade perdida, da originalidade que a humanidade perdeu, esta humanidade industrial, tecnológica, que se nega ao direito inalienável de usar de todo o seu poder mental, ao desconectar-se da natureza e de sua simplicidade inerente.

E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos reconheceu que todo o legado cultural da civilização é desprezível e emasculador.

Nas raras vezes que abandonava a sua reclusão, e dignava-se a olhar para um indivíduo da sua espécie, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos falava, e falava apenas o que considerava dever falar, não se interessando se os seus interlocutores, melhor, os seus ouvintes, estavam interessados no que ele lhes dizia; e os comensais, no almoço, no jantar, eram obrigados a ouvi-lo, em silêncio. E quando um deles esboçava um movimento a indicar-lhe o desejo de falar, ele o silenciava com um gesto, o cenho franzido, o olhar fixo, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, o que lhe emprestava um aspecto inquisitorial. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não se dispunha a ouvir o que as pessoas desejavam lhe dizer, as histórias que elas desejavam-lhe relatar, os casos que elas desejavam-lhe narrar, as idéias a respeito dos mais diversos assuntos dos quais elas desejam-lhe inteirar e com ele debater; pois, acreditava, o espírito iluminado pela sabedoria universal e pela simplicidade da natureza, que lhe inspiravam pensamentos profundos e iluminadores, que as idéias que lhe queriam apresentar impedi-lo-iam de alcançar a tão almejada originalidade, e, alcançando-a, escrever a sua obra-prima, a sua obra suprema, celestial, porque sorvia da simplicidade da natureza, ainda não corroída pela civilização tecnológica, decantada esta em prosa e verso pelos industriais, pelos capitalistas ocidentais, pelos materialistas insensíveis. E a originalidade ele a alcançaria se não tivesse contato com idéias estranhas ao seu espírito, à sua alma, à sua condição primeva em contato com a natureza, condição que herdara dos seus mais antigos ancestrais, que jornadeavam pela Terra antes do advento da civilização, que desumanizou os humanos, deles eliminando o vínculo com a natureza. As pessoas que o ouviam, ouviam-no atentamente, fascinadas, embevecidas com tão excelsa sabedoria, com palavras de tão ardente vigor sapiencial, pronunciadas com a veemência encantadora de um venerável profeta antediluviano, e curvavam-se, reverentes, diante de tão extraordinária exibição de inteligência superior. Não o contestavam. Silenciavam-se. E admiravam-lo, alumbrados. Raros os que o criticaram. E estes os admiradores de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos repudiaram, e cortaram com eles as relações; excluíram-los do círculo de amizade e camaradagem. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era um gênio da literatura moderna, diziam dele os seus admiradores. As idéias dele iam de boca em boca; disseminavam-las, e rapidamente, nos círculos intelectuais, universitários, literários, em todos os quadrantes do Brasil. As suas palestras, sempre repletas de ouvintes embevecidos. Nas universidades, ouviam-lo, maravilhados. Nas academias, reverenciavam-lo, curvados, joelhos no chão, a cabeça sobre o peito. Consagraram-lo o maior gênio das letras nacionais. E não atentaram para um detalhe: De Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não havia nem um livro publicado, e ninguém jamais leu um texto de sua autoria. E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, após haver lançado ao fogo todos os seus textos, os quais escreveu, segundo ele, durante as décadas em que se desencaminhou, influenciado por idéias equivocadas, que o angustiavam, e ele vivia, macambúzio, nos recantos sombrios da sua biblioteca e do seu espírito, em busca da arte literária que os livros não poderiam lhe ensinar, nenhum outro texto escreveu. Pensava as suas idéias, com esforço intelectual incomum, rara na história da espécie humana, e mentalmente as reelaborava, diuturnamente, exaustivamente, e incansavelmente, e as escreveria quando, e se, atingisse o ápice da expressão literária, perfeita, irretocável. Os seus admiradores desejavam que tal dia não tardasse a chegar. Laurearam as academias Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos com títulos de prestigio. Durante as palestras, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era infatigável – aludia à sua obra-prima, que daria à luz assim que atingisse a perfeição, fruto da originalidade almejada, dizia, e traria luz à medíocre literatura brasileira moderna, e, também, à literatura mundial, conquanto acreditasse que ela, principalmente a européia e a norte-americana, fosse infensa à simplicidade, à originalidade, corroída que estavam por técnicas narrativas modernas, dessensibilizadoras, hostis à verdadeira arte literária, que nasce da natureza humana em comunhão com a natureza, num vínculo imarcescível, diferindo, portanto, da literatura brasileira, da literatura latino-americana, da literatura africana, da literatura árabe e da literatura do sul da Ásia, as quais, embora tenham absorvido alguns vícios da literatura moderna, conservam, latentes, a beleza intrínseca do seu contato com a natureza. E arrancava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos ovações grandiloquentes e aplausos ensurdecedores do público, que, em estado letárgico, ouvia-o, mesmerizado.

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos granjeou reputação de beletrista provido de intelecto prodigioso.

Em vida, nada publicou. Morto, os admiradores da sua obra inexistente difundiram o seu nome, envolvendo-o com a aura de gênio original, universal.

Homenagearam-lo as academias.

No túmulo de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, o epitáfio: “Aqui jaz o autêntico gênio da literatura brasileira, ignorado pelo público iletrado, admirado por homens superiores que souberam reconhecer-lhe a excelência literária e apreciar-lhe a obra, que, de tão original, ele nunca a escreveu, e ninguém a conheceu”.

Monólogo de um doido varrido

Debilitou-me uma doença psicológica bacteriana de origem vegetal pelos psicólogos denominada patologia, isto é – traduzindo para a linguagem de gente que pensa com o próprio cérebro, manuseia os objetos com as mãos, corre com os pés, olha com os olhos, ou com um olho só, caso se trate de um ciclope, e ao se ajoelhar dobra os joelhos -, patologia, dizia eu, doença da qual estou acometido, é a doença das pessoas obcecadas em estudar patos e congêneres. Congêneres, explico, para as pessoas que não sabem o que tal palavra significa, e também para as pessoas que desconhecem dela o significado, é o plural de congênere. Dadas estas explicações, esclarecedoras, que eliminam toda e qualquer dúvida quanto à acepção da palavra da qual estou a tratar, e, ao tratar dela, trato dela, não com a negligência que muitas pessoas das palavras tratam, seja a da qual tratei, seja de qualquer outra palavra, mas com a seriedade que compete aos gênios nos quais a vida infligiu dores provenientes da patologia, em decorrência da ingestão de penas, bicos, cascas de ovos, pés de patos, e, também, de marrecos, gansos, paturis, donaldes, patinhas e gastões, espécies, estas, de bípedes dotados de indumentária que, embora apropriada, é inapropriada para os indivíduos de sua espécie, mesmo que pertençam à espécie alheia, prossigo: A patologia, dizia eu, doença psicológica bacteriana de origem vegetal, derivada das poções mágicas da Maga Patológica, que, com o auxílio da Madame Mim, concebeu receitas compostas dos mais inusitados ingredientes, pertence à família das doenças da classe das categorias aparentadas com a síndrome de Estocolmo – detectada, pela primeira vez, em Helsinque, num laboratório situado em Berlim e localizado em Tóquio –  e com os processos jurídicos do corredor polonês. E quem é o corredor polonês? Desconheço-lhe o nome. Sei, no entanto, e todavia, que é ele natural da Polônia, embora tenha nascido na Hungria, numa noite de lua cheia no Japão; e assistiu ao seu nascimento um homem, o parteiro, grego da ilha de Creta, que lutou, na companhia de Aquiles e Odisseu, na guerra de Tróia, e foi um dos construtores do cavalo de madeira, o famosíssimo Cavalo de Tróia, que era, na verdade, um burro de eucalipto sintético; além disso, ele concebeu um sistema filosófico racionalista, teleológico, mecanicista, heliocêntrico, holístico, que seu aprendiz, o Eleutério, que não é um elemento da tabela periódica, disseminou em todo o mundo, reservando-o para si, sem que o tenha transmitido para outra pessoa qualquer. Mas a sua filosofia, é certo, e quanto a isso não restam dúvidas, foi disseminada em todo o mundo, pois, afinal, ele, isto é, o Eleutério, a aventou aos furacões, ciclones, tufões, que de tempos em tempos varrem a costa leste do litoral e o litoral da costa leste do continente americano banhado pelo Oceano Atlântico, cujas águas são salgadas, e nelas vivem baleias; e Eleutério não limitou-se a apenas, e tampouco unicamente, aventá-la aos furacões, tufões, ciclones; ele também a externou para as águas dos oceanos, que a espalharam por todo o planeta. E quem é o Eleutério? Não sei. Eu nunca o vi mais gordo, e nem mais magro, e nem mais alto, e nem mais baixo. E eu nunca ouvi falar dele, e acerca dele nenhuma palavra eu li. Mas o Eleutério não é importante; importante é a distância entre a Terra e a Lua. A Lua, explico, para eu mesmo, para que eu possa entender a minha idéia que me apresento, quando se aproxima da Terra dela fica mais próxima, e quando dela distancia-se dela fica mais distante, e a Terra, ao distanciar-se da Lua quando a Lua dela distancia-se, dela afasta-se, e quando dela aproxima-se ao mesmo tempo em que ela de si aproxima-se encurta-se a distância que há entre elas. Tal fenômeno ainda não foi inteiramente, e tampouco parcialmente, compreendido pelos seres humanos que o estudaram, e muito menos pelos seres desumanos que nunca se dedicaram ao seu estudo. É inexplicável, e inexplicável será até o dia em que alguém o compreenda, e, compreendendo-o, o entenda, e, entendendo-o, formule as explicações que o explique, e explique, também, a relação de causa e efeito entre a extinção dos tiranossauros rex e o milésimo gol do Pelé. Por que o seu milésimo gol Pelé o marcou numa cobrança de pênalti, e não numa cobrança de escanteio? Há uma relação de causa e efeito, e de princípio, meio e fim, entre os dois eventos, afinal, pois, os tiranossauros rex tinham dentes, e o Pelé tem dentes também; e a existência de dentes na boca do Pelé e nas bocas dos tiranossauros rex indica similaridades fenomenológicas existencialistas entre o ludopédio, isto é, o futebol, ou soccer, como dizem os norte-americanos, e os filmes de Steven Spielberg. Além disso, um tiranossauro rex, dias atrás, invadiu-me a televisão, e surrupiou-me das mãos o controle remoto, e, antecipando-se a mim, premiu do controle remoto um botão, e teletransportou-se para outra galáxia, onde encontrou, num planeta piramidal, no sopé de uma montanha, um ovo cósmico, que explodiu no mesmo instante em que Moisés rachou-o com um machado, matando o tiranossauro rex, mas não se matando no processo, pois, afinal, ele, o Moisés, em decorrência do deslocamento de ar da explosão explosiva, foi arremessado à Terra, e caiu, no topo do cume da ponta do Everest onde encontrou o Homem das Neves Abomináveis e o Abominável Homem das Neves a confabularem acerca da relatividade do tempo absoluto, a tempo de ouvir o Homem das Neves Abomináveis comentar, dando por encerrada a sua entrevista com o Abominável Homem das Neves: “O tempo, sendo relativo, não pode ser compreendido como tempo relativo, afinal, pois, sendo relativo, o tempo é, portanto, absoluto, pois, afinal, a sua condição temporal não é atemporal, afinal, pois, ele existe como fenômeno cósmico, portanto, real, dotado de propriedades absolutas, conquanto elas não eliminem as suas propriedades relativas, afinal, pois, a relatividade do tempo, ao mesmo tempo que define o tempo da relatividade, perpetua a noção absoluta do tempo relativo conjugada à noção relativa do tempo absoluto conquanto a sincronia dos eventos simultâneos coordenados pelas cordas que compõem a infinitude do tecido cósmico do universo observado de dentro de um prisma desmaterialize as partículas de nêutrons, que estão a singrar o oceano sideral há bilhões de anos e cujo destino é desconhecido de todos. Sabe-se, apenas, até o presente momento, que, em decorrência da eclosão do Big Bang, os italianos inventaram o spaghetti, os franceses a guilhotina, os alemães o salsichão, os gaúchos o churrasco, e o Bethoveen a surdez”. E aqui, uma avalanche arrastou Moisés até uma aldeia ameríndia txucarramãe onde um índio tupinambá indagou-lhe: “A Capitu capitulou?”, e de Moisés não obtendo resposta, o índio tupinambá entregou-lhe duas placas rochosas com inscrições que Moisés não soube decifrar, e cujo significado o silvícola desconhecia, e o silvícola exortou Moisés a ir até o Egito procurar por Champollion, que poderia lhe prestar consultoria, e ajudá-lo a traduzir as inscrições. Moisés entendeu que o destino o chamava a empreender uma tarefa que ele, e apenas ele, e ninguém mais, poderia empreender, e principiou a jornada; no entanto, todavia, porém, devido a sérios problemas no intestino, teve ele de adiá-la. Não sei se ele foi, ou não, bem sucedido em sua empreitada; só sei que eu, exausto de tanto pensar, tenho, e já, de encerrar as minhas reflexões para eu não vir a enlouquecer, pois, afinal, eu enlouquecerei caso eu não cesse, e já, de pensar, para não vir a carecer de forças que conservem a minha sanidade mental. E agora vou dormir, para poder acordar amanhã cedo, preservadas todas as minhas faculdades mentais, e dar seqüência aos meus pensamentos. Desejo-me bons sonhos. E boa noite.