Demônios

Abel premiu o gatilho do revólver. O projétil riscou o ar e alvejou um demônio enorme, alojando-se-lhe entre os dois olhos, um pouco acima do focinho. O demônio, cujas cerdas grossas cobriam-lhe o corpo volumoso, nenhum gemido emitiu. Tiro certeiro. Morte instantânea. Do buraco aberto pelo projétil escorreu sangue em profusão. O corpo sem vida tombou no piso do corredor do oitavo andar do prédio no qual Abel morava com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos, Cláudio e Gustavo.
– Enfim, morto – balbuciou Abel, respirando com dificuldade, acocorado ao lado do corpo gigantesco. – Você nunca mais me assustará, demônio dos infernos – e bateu-lhe, na cabeça, o revólver; embora recomposto, seu peito ardia, febricitado, e seu cérebro fervilhava, num turbilhão indomável de pensamentos e sentimentos.
Recuperou o governo de si, levantou-se, e olhou ao redor. Pisou, involuntariamente, na poça de sangue. Onde estavam os outros três demônios? Nenhum ruído chegou-lhe aos ouvidos. Os demônios, ou se invisibilizaram, ou ocultaram-se nas sombras. Com o revólver em punho, Abel arrastou-se à parede salpicada de sangue, andou pelo corredor, braço esquerdo retesado, o dedo indicador no gatilho, revólver apontado para a frente, olhos arregalados, braços firmes, à procura dos outros demônios.
– Não me escaparão – disse para si, encorajando-se.
Chegou ao fim do corredor. Ouviu ruídos atrás de si. Voltou-se, rapidamente. Divisou a silhueta indistinta de um demônio acocorado ao lado do cadáver do que matara.
– Pare! – gritou Abel, assustado, com o revólver apontado para o demônio, que, ao voltar-se para ele, emitiu um grunhido cavernoso, mais de tristeza que de fúria, misto de sofrimento e ira.
O demônio pôs-se de pé, e arreganhou a bocarra. Exibiu dentes afiadíssimos, e urrou, ameaçador, os olhos abrasados de cólera.
Arrepiaram-se os cabelos de Abel. Crisparam-se-lhe os pêlos.
Abel, petrificado, apontava, com as mãos trêmulas, o revólver para o demônio, que correu em sua direção, urrando de fúria.
Abel premiu o gatilho.
Reboou o disparo. O projétil alvejou o demônio no peito esquerdo, na altura do coração. O demônio tombou, arrastou-se, sob convulsões espasmódicas. Guinchava, estridente, frenético. Sangue ensopou-lhe a pelagem. Cessaram as convulsões. Abel conservou-se, o revólver apontado para o demônio, onde estava. Ao averiguar que os movimentos do demônio cessaram – ele estava morto, persuadiu-se Abel -, andou, cauteloso, até ele, os ouvidos e os olhos apurados, pronto para reagir a ataque de outro demônio. Curvou-se diante do corpo inerte. Para averiguar se ele estava morto, encostou-lhe no peito o cano do revólver. O demônio descerrou as pálpebras. Abel prorrompeu em maldições. Ergueu-se. Encarou o demônio. Apontou-lhe o revólver à cabeça.
Encontraram-se os olhos do demônio e os de Abel. O demônio cuspia sangue e berrava de dor. Os olhos de Abel irradiavam ódio.
Com a arma apontada para a cabeça do demônio e a fisionomia deformada pelo ódio que lhe corroia o espírito, Abel esbravejou:
– Demônio dos infernos! Volte para o inferno, demônio maldito!
O demônio esboçou um gesto, entreabriu os lábios, estendeu o braço e a mão direitas, emitiu um grunhido inaudível. Abel premiu o gatilho. Um projétil cravou-se na testa do demônio, que morreu, instantaneamente.
No mesmo instante, Abel divisou um demônio, que corria em sua direção, apontou-lhe o revólver para o peito esquerdo, e premiu o gatilho. O demônio esquivou-se, com agilidade insuspeita, do projétil, que se lhe resvalou o ombro esquerdo. Levou a mão direita ao ferimento, e deteve-se; e voltou a palma da mão para si, e viu-a manchada de sangue. Olhou para Abel, que lhe apontava o revólver; antes que ele premisse, mais uma vez, o gatilho, correu em disparada. Abel pulou por sobre os cadáveres dos demônios que jaziam na poça de sangue, e correu atrás dele. Seguiu o rastro de sangue, até a segunda porta à direita de cujo enquadramento deteve-se um pouco antes. Cauteloso, encostado à parede, olhou para a sala, para os móveis. Passou, cauteloso, pelo enquadramento da porta. Ouviu barulho atrás de si, vindo do corredor. Voltou-se, e deparou-se com um demônio. Arregalou os olhos, rilhou os dentes. O demônio, antecipando-se-lhe, vibrou o braço esquerdo, e desferiu-lhe um soco, na cabeça, arremessando-o para trás. Abel caiu, o nariz a sangrar. Apossou-se-lhe do espírito terror-pânico. Sentiu a consciência a se lhe desvanecer. Levou a mão esquerda ao nariz, e cobriu-o. Gemia de dor. Cuspiu sangue. O demônio aproximou-se de Abel, deu-lhe um pontapé na ilharga, pulou sobre ele, e fincou-lhe, no pescoço, as garras afiadas. Esvanecia-se a consciência de Abel. Com a visão embaciada, Abel viu diante de si um vulto indistinto. A sua audição falhava. Captava sons, distorcia-os, fundia-os, contraía-os, dilatava-os. Contraiu-se-lhe de dor o rosto. O demônio abriu a bocarra; exibiu seus dentes enormes, afiados. Exalava hálito nauseante. Seus olhos, injetados de cólera, penetraram a alma de Abel, sugando-lhe as escassas energias que lhe restavam. Abel, num esforço hercúleo, encostou, na têmpora esquerda do demônio, o cano do revólver, no mesmo instante em que ele lhe acertou, na face, um potente soco, roubando-lhe a consciência, e premiu o gatilho. O projétil atravessou a cabeça do demônio, e foi alojar-se na parede. O demônio tombou para a direita, morto.
Com as mãos no pescoço, tossindo, convulsivamente, Abel recuperava as cores naturais do rosto deformado por dores aflitivas. Restava, agora, um demônio. Quatro demônios haviam se instalado no oitavo andar. Abel despachou três deles para as entranhas do inferno. O remanescente, ferido, não lhe imporia dificuldades, previa. Não se desacautelou, todavia. Sabia que enfrentava uma criatura demoníaca, que poderia matá-lo com seu hálito venenoso e suas unhas e dentes afiados.
Descerrou as pálpebras. Olhou para o demônio caído ao lado. Ondas de calafrio percorreu-lhe a espinha.
Levantou-se com dificuldade visível. Massageou a ilharga. Removeu, com as costas das mãos, o sangue do nariz. Mordeu o lábio inferior, para conter os gemidos decorrentes da dor que o afligia. Sentia dores na perna esquerda. Amparou-se na parede. Tateando-a, foi na direção para a qual o demônio correra, ferido. Seguiu o rastro de sangue, pela sala, entre os móveis, até uma porta cujos maçaneta e batente estavam manchados de sangue. Cauteloso, apurou os ouvidos. Moveu, lentamente, a maçaneta. Abriu a porta, cuidadosamente. Na mão direita, o indispensável revólver, que, em menos de cinco minutos, aniquilou três demônios. Naquele compartimento reinava a escuridão. Abel mal podia ver o que havia diante de si. Via os objetos que estavam até a dois metros à sua frente; além disso, distinguia os contornos de alguns móveis; os outros estavam ocultos sob espessa penumbra e as trevas predominantes. Ao enquadramento da porta, preparado para atacar, ou para revidar a um ataque, premiu o interruptor. Acenderam-se as duas lâmpadas fluorescentes.
O tapete estava salpicado de sangue.
Abel abriu um sorriso tímido e contido.
Empunhava o revólver com mãos firmes e músculos retesados. Apurou os ouvidos. Enveredou pela sala, pé ante pé, seguindo o rastro de sangue no tapete.
Ouviu ruídos inaudíveis, de passos, indo, até ele, do compartimento contíguo, para o qual o rastro de sangue o conduzia. Cuidadoso, passos medidos, curtos, chegou ao enquadramento da porta, e relanceou os olhos pela sala. Nada viu. Ouviu ruídos. Recuou. Assim que cessaram os ruídos, olhou para a sala. Divisou, levantando-se, três metros à sua frente, de costas para si, o demônio, que se virou ao pressentir Abel, que premiu o gatilho quatro vezes. Um projétil alvejou o demônio, no peito esquerdo; um cravou-se-lhe na testa; um, no pescoço, e um no nariz. O demônio tombou pesadamente, morto.
Encostado à parede, ofegando, com o coração descompassado, os olhos esbugalhados, os braços estendidos, as mãos com os dedos retesados segurando o revólver fumegante, Abel fitava o cadáver repulsivo.
– Vá para os infernos, demônio – bradou, triunfante.
Abel abaixou a cabeça, e encostou o queixo no peito. Cerrou as pálpebras, largou os braços; segurava o revólver com a mão esquerda. Levou a mão direita aos olhos, e massageou-os com o polegar e o índice. Encheu os pulmões de ar, e esvaziou-os. Descerrou as pálpebras, fitou o cadáver do demônio. Regozijou-se. Triunfou. Matou quatro demônios. Era um vitorioso.
Enfim, após verificar que o demônio estava morto, retirou-se do apartamento. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com demônios que, à espreita, no enquadramento da porta de outros apartamentos, berravam, ameaçadores. Abel regressou ao apartamento. Ouviu passos, que lhe chegaram do compartimento no qual matou o último dos quatro demônios. O demônio ressuscitara? Os quatro demônios haviam ressuscitado? Um demônio apareceu ao enquadramento da porta. Abel premiu o gatilho. O projétil alojou-se na parede, atrás do demônio, que, com um salto, foi para trás de um sofá. Abel premiu o gatilho três vezes. Na terceira vez, ouviu um estalo. Acabaram-se os projéteis. Agora teria Abel de enfrentar os demônios em lutas corpo-a-corpo. O demônio que pulara para trás do sofá levantou-se e avançou contra Abel, que, petrificado, viu-o indo em sua direção. Outros quatro demônios entraram pela porta que dava ao corredor, e correram na direção de Abel. Eram altos, fortes, maiores do que os quatro que Abel matara. Eles o agarraram, imobilizaram-no, arremessaram-no ao chão, puseram-no deitado de barriga para baixo, e torceram-lhe os braços às costas.
Um demônio, com o joelho esquerdo prensando Abel no chão, rosnava e rilhava os dentes. Outro, apertava-lhe, com um pé, o pescoço. E um demônio sentenciou:
– Abel, você está preso pelos assassinatos de seu pai, sua mãe e seus irmãos.

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