A mulher que não fofocava

Gustavo acordou, naquele domingo de verão, às seis horas da manhã, fios de luz do sol a invadir o quarto, pelos interstícios das tábuas da janela deteriorada, durante trinta anos, sob golpes de ventos, que a atingiram com violência em não raras ocasiões, vibrando-lhe toda a estrutura e lançando-a contra a parede, e sob chuvas torrenciais, que atingem a região em dias quentes de verão, e, em raras ocasiões, sob granizos, que a afetaram consideravelmente. Jamais se dispôs a reparar a janela, ou a substituí-la por uma janela nova. Limitou-se, apesar de todos os rogos de Ludmila, sua esposa, a pregar tábuas às tábuas originais que a constituíam quando ele a comprou e a instalou em sua casa. Fosse de tábuas de madeira não tão resistentes, a janela já havia se desmantelado por completo muitos anos antes.

Ao lado de Gustavo, dormia Ludmila a sono solto. Na ponta dos pés, cuidando para não fazer ruídos que pudessem vir a despertá-la, foi Gustavo até a porta, abriu-a lenta e cuidadosamente, e assim que passou pelo enquadramento, fechou-a com o mesmo cuidado e lentidão, e andou, com passos firmes, até o banheiro. Não haviam se passado trinta minutos, vestido, rumou à cozinha, onde preparou o seu café-da-manhã, que consistia em um copo de café com leite, uma xícara de café, um pão francês com queijo-prato derretido, um pão italiano, metade de um abacate, um caqui e pedaços de mamão. Encerrada a refeição, lavou a louça, regressou ao quarto, do criado-mudo pegou a carteira, deu, na testa de Ludmila, um suave beijo, carinhoso, retirou-se do quarto, todo o tempo tomando cuidado para não emitir ruído que pudesse vir a despertar a sua esposa, foi ao banheiro escovar os dentes, e não muito tempo depois, se muito cinco minutos, retirando-se de sua casa, fechou atrás de si a porta, e rumou para o ponto-de-ônibus, onde havia, sentada no banco, uma mulher gorda, tendendo para o obeso, a fisionomia de mau-humor despertando em Gustavo um comentário silencioso: a mulher chupara um limão azedo, o que explicava, dela, cara de poucos amigos. Saudou-a com um gesto e um bom-dia, e dela recebeu silêncio constrangedor e um olhar de Medusa, que o converteria em uma estátua de pedra se ele não tomasse a providência de desviar o olhar, o que fez, de imediato, incapaz de sustentá-lo. Nenhuma criatura mitológica provocaria em Gustavo a corrente de calafrio que lhe vibrou todo o corpo, e o espírito também, assim que ele fitou aquela mulher. E esperaram o ônibus Gustavo e a mulher durante um bom tempo. E antes de o ônibus chegar àquele ponto-de-ônibus, uma outra mulher chegou e saudou a mulher sentada no banco, tratando-a pelo nome, Maria Teresa. Já se conheciam as duas mulheres, e tinham elas no trato familiaridade, como indicava a liberdade com que a mulher dirigiu a palavra à Maria Teresa. Após saudar Maria Teresa e dela receber uma saudação contida e um bom-dia dito numa voz cavernosa, se lhe sentou a mulher ao lado, e com ela encetou conversa, a qual Gustavo ouviu, contrariado, suplicando a Deus o envio imediato de um ônibus para aquele ponto de parada de ônibus. Maria Teresa era lacônica; as suas intervenções no seu colóquio com a sua interlocutora, cujo nome era Camila, resumiam-se a frases curtas de no máximo dez palavras; na maior parte do tempo a sua participação limitava-se a um assentimento com um mover da cabeça, lento. Gustavo perguntou-se que virtude possuía Camila que a permitia conversar com, e olhar para, Maria Teresa, mulher cuja fisionomia transparecia um aspecto, o qual ele não sabia definir, que lhe despertava, nele, Gustavo, o desejo de matar-se.

Contrastavam o temperamento de Camila e o de Maria Teresa; aquela era loquaz, expansiva, extrovertida; esta, lacônica, contida em si, introvertida. De um modo inexplicável, entendiam-se. E Gustavo, mesmo não o desejando, ouviu a conversa que elas mantiveram, conversa que Camila principiou e da qual Gustavo, após regressar à sua casa, para o almoço, fez referência à Ludmila, sem entrar nos detalhes, os quais ele jamais saberia reconstituir, de tão numerosos.

Entrando num comentário a respeito do longo tempo em que não se viam Camila e Maria Teresa, e declarando que elas tinham de pôr as novidades em dia, Camila, sem dar à sua interlocutora oportunidade de respirar, inteirou-a de alguns eventos que ela, Maria Teresa, presumia Camila, ignorava:

– Encontrei-me, Maria Teresa, com a Roberta, a esposa do Vinicius. Ela me falou da vida de todos os vizinhos dela. Que mania ela tem! Fala, a mexeriqueira, gozando do prazer de dar todos os detalhes da vida de todos. Que coisa! Eu não gosto de fuxicar a vida alheia. A Roberta, fofoqueira incorrigível, não perde nem uma oportunidade sequer de falar da vida alheia, e tampouco de colher informações da vida de todos, para, depois, espalhá-las aos quatro cantos do universo. Infelizmente, há muita gente que, do mesmo modo que ela, vive de fofocas. São pragas tais pessoas. Ela fala da vida alheia, mas não fala da própria vida. Não é engraçado!? O que ela diz de si mesma? Nada. Ela esconde de todos coisas da própria vida, mas as pessoas sabem o que se passa com ela, pois as paredes têm ouvidos, e os passarinhos também. E alguns passarinhos têm nomes, e um desses passarinhos, cujo nome é Marcela, contou-me, há quatro meses, que a Roberta e o Vinicius discutiram a ponto de ela dar-lhe um tapa na cara e ofendê-lo nos termos com os quais uma esposa jamais trata o próprio marido. E como é escandalosa, a Roberta ergue o tom de voz sem se preocupar se os vizinhos a ouvem. E eles a ouvem, afinal a voz da Roberta atravessa as paredes. E o que a Roberta fala da discussão dela com o Vinicius? Nada. Ela, fofoqueira sem igual no mundo, fala da vida de todos; da vida dela, não. E a Marcela, numa outra vez, há um mês, disse-me que ouviu uma discussão entre a Roberta, o Vinicius, e a Paula, a filha deles, mocinha de uns dezenove anos, leviana, que namora um tal de Anderson, que, dizem todos os da vizinhança, não é flor que se cheire. Mexeriqueira de marca maior, que vive de fuxicar a vida alheia, não perdendo a oportunidade de praticar o seu esporte predileto, a fofoca, disse-me: “Ouvi, e com os meus ouvidos que Deus me deu pra mim, Camila, a discussão, que se deu, na casa da Roberta, entre ela, Roberta, e o Vinicius, aquele banana, e a Paula, aquela mocinha, que, bonita por fora e feia por dentro, é um demônio em forma de mulher, e só se envolve com gente imprestável, como o tal de Anderson, que ela namora, homem que, dizem as más línguas, que não me parecem más, já engravidou uma bobinha, que mora no bairro do Crispim e cujos pais são ignorantes incorrigíveis, e já se envolveu, ou está envolvido, com tráfico de drogas, e até com assassinato, dizem. A Márcia disse-me, ontem, no consultório do doutor Marcos, o dentista, não o otorrino: ‘Marcela, a Paula, filha da Roberta e do Vinicius, engravidou do Anderson, aquele vagabundo.’, e perguntei-lhe: ‘Aquele moço do qual o Márcio disse horrores, aquele moço que trafica drogas e que engravidou aquela mocinha lá do Crispim?’. ‘Ele mesmo.’, respondeu-me a Márcia, ‘Um rapaz magro, com um piercing no nariz e um na sobrancelha, não me lembro se na direita, se na esquerda’. ‘Na direita’, respondi-lhe. ‘Ele é horrivelmente feio. Parece um bicho. É um animal estranho, bizarro. Não é humano ele, é? Ele é um bicho do mato. E é dele que a Paula espera um filho’. ‘Mas é verdade, Márcia, ou é só diz-que-diz?’, perguntei, porque eu não gosto de espalhar boatos. Se a história não é verdadeira, se é só uma invencionice de desafetos da Paula, e eu a conto para alguém, acabo, sem o desejar, por prejudicá-la; então, não querendo passar para nenhuma outra pessoa uma história que não é verdadeira, insisti na pergunta, e a Márcia confirmou a história, e prosseguiu: ‘Imagine, Marcela, os apuros em que estão o Vinicius, e a Roberta, que sempre foi desleixada, mãe ausente, esposa negligente, e que, disseram-me o Márcio, a Cláudia e a Renata, traiu o Vinicius, aquele bestalhão, mais de uma dezenas de vezes! Imagine em que palpos de aranha eles estão!’ E conversamos, durante um bom tempo, a Márcia e eu, e ela me inteirou de muitas histórias do arco-da-velha, das quais você nem imagina, Camila”. E a Marcela contou-me, Maria Teresa, todos os pormenores da história, uma história horripilante, da qual a Marcela revelou-me detalhes de pôr a todos com o queixo caído. A Marcela adora tratar da vida alheia. É, penso, pior do que a Roberta, uma fofoqueira de mão cheia. Fornece informações da vida de todos, e os vizinhos dela são os alvos prediletos dos mexericos, os quais ela conta com uma boa dose de acidez, de amargor, de, digo, maldade, com o desejo de pintar a todos com as cores mais repulsivas, de tão maledicente ela é.

Neste momento, para agrado de Gustavo, já exausto de ouvir a narração de Camila e esforçando-se para se concentrar, em vão, num pensamento qualquer, chegou o ônibus que o conduziria a ele e Camila e Maria Teresa a Taubaté. E os três entraram no ônibus, em cujo interior já havia outros nove passageiros, três deles com ar sonolento e transparecendo cansaço, um cochilando, dois, ambos jovens, de aproximadamente quatorze anos um deles e de dezessete anos o outro, semelhantes no físico e na fisionomia, conversando, animados, dois homens e uma mulher desacompanhados, ocupando bancos distantes um do outro.

Gustavo sentou-se num dos bancos do fundo do ônibus, certo de que estaria, durante a viagem, que demoraria em torno de trinta minutos, livre de ouvir as histórias narradas, para Maria Teresa, por Camila.

Camila e Maria Teresa pagaram ao cobrador pela passagem, e sentaram-se uma ao lado da outra, Maria Teresa à janela, Camila à sua esquerda, logo atrás do banco em que estava, sentado, o cobrador.

E mal havia se sentado, Camila pôs-se a falar ao mesmo tempo em que o ônibus retomava viagem, e para se fazer ouvir por Maria Teresa, ergueu o tom de voz, para que os ruídos emitidos pelo ônibus não lha abafassem, e fez-se ouvir, também, pelo cobrador, pelo motorista, pelos outros dez passageiros, dentre estes Gustavo.

– Espanta-me, Maria Teresa, o prazer que a Marcela, a Roberta e a Márcia têm de mexericar a vida de todos. Que vício, o delas! Se elas fossem as únicas pessoas que adoram fofocas, o mundo não seria tão ruim, tão cheio de desentendimentos; infelizmente, elas não são as únicas. Uma outra pessoa, fofoqueira das mais desembaraçadas, é a minha vizinha, a Carla, que, Deus me perdoe, é um tipo intragável; fala, a maldita, de tudo e de todos, mas das maluquices dela ela nada diz; cala-se a respeito como se fosse a mais sensata e decente das mulheres. Se não a conhecesse, eu acreditaria que a vida que ela leva é um mar de rosas; mas é, sei, um mar de espinhos. Ora, já sabemos, eu e os da nossa vizinhança, que ela, num caso extraconjugal, engravidou, e abortou, há cinco meses, o filho que trazia dentro de si, disse-me a Margarete, outra fofoqueira, que nunca perde a ocasião de cuidar de mexericos e que jamais fala das brigas dela com o Bernardo, o marido dela, e com os filhos, Roberto e Gilson, dois garotos vadios. O Bernardo, não posso deixar de dizer, e o digo sem o desejo de espalhar mentiras, pois o que sei dele contou-me a Clarice, a ex-esposa do Denílson, mulher que, embora mexeriqueira, não é de inventar histórias, e o Bernardo, eu dizia, manteve um caso extraconjugal com uma mocinha, a Zuleica, que trabalha na padaria do Paulo, lá do bairro. E a Carla, dias atrás, há ou cinco, ou seis dias, não me lembro, disse-me a Vicentina, na casa do amante, foi surrada pela esposa dele, uma tal de Vanessa. As notícias, desencontradas, correram mundo. A Vicentina e a Edna disseram-me que o amante dela é o Tadeu, marido da Fabiana. O Tadeu é o gerente do banco *; a Fabiana, do banco **. A Marcela, a Márcia e o Cristóvão disseram-me que o amante da Carla é o Ricardo, dono da revendedora de automóveis Furacão Speed; a Alice e a Samanta disseram-me que é o amante da Carla o José António, frentista do posto de gasolina Encha o Tanque. Não sei quem é o amante da Carla; sei que ela tem um amante e que a esposa dele deu-lhe, nela, na Carla, uma surra, daí os hematomas nos olhos e nos braços dela. Disseram-me a Claudete, a Juliana, o Robson e a Kátia que os hematomas que se vêem no corpo já acabado da Carla quem os fez foi o Lauro, marido dela, ao saber do caso dela com não souberam me dizer quem. A história é obscura. A Carla se acredita, aos quarenta anos, um avião. Vaidosa, ela, a mocréia, ainda não entendeu que não é mais aquela bonitona que, há mais de vinte anos, punha todos os homens de queixo caído, embasbacados, de língua para fora da boca, mas apenas uma baranga despeitada, despelancada e coberta de pés-de-galinha, estrias e celulite.

E Camila, neste momento, o ônibus parado num ponto-de-ônibus, para receber outros passageiros, quatro, de uma família, o pai, a mãe, e duas filhas, ambas jovens, uma aparentando quatorze anos, a outra, dezessete, interrompeu o seu relato, observou aqueles que entravam no ônibus, e assim que se certificou que nenhum deles era um conhecido seu, reencetou a narração:

– E conto outra história para você, Maria Teresa; uma história que ma contou a Rúbia, a minha irmã, também ela uma fofoqueira. Na minha família também há uma fofoqueira, e é a fofoqueira da família a minha irmã caçula, a xodó do papai e da mamãe. Ela sempre foi mimada. Meu pai sempre a tratou como a uma rainha e de ninguém nunca escondeu a sua preferência por sua filhinha querida, filhinha que ele reverencia. E minha mãe sempre deu a ela tudo o que ela quis, e estende-lhe o tapete vermelho, sempre. Dela eu já falei para você, Maria Teresa. Ela mora em Belo Horizonte, com o marido, Osvaldo, e a filha, a Silvana, menina de nove anos, uma gracinha, minha afilhada, que em nada puxou pela mãe. É a Silvana, como a madrinha, discreta e recatada. E é personagem da história que ma contou a Rúbia a Lidiane, filha da Cleusa, minha amiga, com quem estudei no colegial. A Lidiane, já nos seus dezoito anos, é uma daquelas mulheres fáceis, que sem nenhuma vergonha, sem nenhum receio, se entregam para todos os homens. No bairro ela tem a fama que nenhuma mulher gostaria de carregar consigo. Também pudera! Ter a mãe que tem, ela não poderia sair uma santa. A Cleusa, eu sei, e ela própria contou-me, era instável, e trocava de namorado com a mesma facilidade e freqüência com que se troca de roupas. Da Lidiane ouvi histórias de enrubescer o mais desavergonhado dos homens. Disse-me a Rúbia, “Camila, dias atrás, no sábado, à noite, na discoteca, a Lidiane, contou-me a Laura, irmã dela, e a Érika, uma amiga minha e da Laura, esfregou-se, desavergonhada, em homens, e não poucos, que, libidinosos, acoxaram-na, apalparam-na, livremente, os faunos, deliciando-se, gozando do prazer que a Lidiane, libertina, prodigalizava-lhes. Imagine, Camila, o que se deu depois que ela se retirou, já ligeiramente embriagada, na companhia sabe-se lá de quantos homens, da discoteca, às três horas da madrugada! Use da imaginação.” E com essas palavras, e um sorriso malicioso, quase obsceno, estampado no rosto, a minha irmãzinha, de quem eu poderia contar, para você, algumas histórias do arco-da-velha, principiou o seu relato recheado de sem-vergonhices.

O ônibus desacelerou-se, e parou num ponto-de-ônibus. E no ônibus entraram umas dez pessoas, dentre elas homens e mulheres, velhos, adultos, jovens e crianças; elas ajeitaram-se nos bancos, umas após passarem pela roleta à frente do cobrador; outras não. Gustavo percebeu que Camila havia se silenciado e que Maria Teresa falava-lhe qualquer coisa, num tom baixo, pausado, silabando as palavras, não permitindo a ele, Gustavo, ouvi-la, e nem a Camila, concluiu ele, ao avaliar-lhe a postura, então inclinada para Maria Teresa, que não estendeu mais do que dois minutos o seu relato, e assim que ela o encerrou, Camila pôs-se a falar, no seu tom peculiar, alto, e sua voz, que se confundia com as dos outros passageiros, mal chegou aos ouvidos de Gustavo. Do que Camila dizia para Maria Teresa, poucas palavras, a curtos intervalos, atingiam os tímpanos de Gustavo, vibrando-os, não o permitindo conceber qual história ela narrava; fosse qual fosse, era uma cujo teor pedia o bom tom que não se contasse, em público, ao alcance de ouvidos de outras pessoas, concluiu Gustavo assim que se cruzaram o seu olhar e o do cobrador, este a revelar àquele o indisfarçável incômodo que o relato de Camila lhe provocava. Transparecia no rosto do cobrador inconfundível desejo de safar-se daquela situação; estava obrigado, todavia, a ouvir histórias que não desejava jamais ouvir, mas, por dever de ofício, tendo de permanecer sentado no banco que lhe estava reservado, ouviu-as. E sorriram Gustavo e o cobrador. E eles entreolharam-se não muito tempo depois, e sorriram, compreendendo um o pensamento do outro. E o ônibus parou, em um ponto-de-ônibus, e do ônibus desceu Maria Teresa. E Gustavo, enfim, pôde sentir-se livre da presença daquela mulher, que lhe provocava um sentimento de repulsa, que o perturbava, e também se livraria, definitivamente, da tagarelice de Camila, que, não havendo agora quem pudesse ouvi-la, manter-se-ia em silêncio o restante da viagem, poupando, de suas narrativas, Gustavo, o cobrador e os outros passageiros. Contrariando, no entanto, o desejo de Gustavo, sucedeu algo que não lhe havia passado pela cabeça: Naquele ponto-de-ônibus, além de Maria Teresa, desceu do ônibus um homem, e no ônibus subiram umas vinte pessoas, que foram ocupando os bancos vagos, e uma mulher octogenária sentou-se ao lado de Camila, que se deslocara para o banco à direita, permanecendo-se à janela, e uma outra mulher, também octogenária, ou nonagenária, deteve-se, em pé, ao lado da que se sentara ao lado de Camila, que, vendo-a, levantou-se do banco, auxiliou-a a sentar-se no banco que desocupara, e assim que a anciã nele acomodou-se, andou, um pouco desajeitadamente, até o banco à direita de Gustavo, então desocupado, e nele sentou-se. Gustavo rogou aos céus que impedisse que Camila com ele puxasse conversa. Os céus não lhe atenderam aos rogos. Tão logo sentou-se, Camila, comichão a coçar-lhe a língua, dirigiu-lhe a palavra, perguntou-lhe se não era ele o homem que aguardava o ônibus no mesmo ponto-de-ônibus em que ela e Maria Teresa o aguardavam, e assim que dele ouviu a confirmação, disse-lhe, sem papas na língua:

– Há mais de seis meses, ou um ano, não estou certa, que eu e a Maria Teresa não nos víamos, e não nos dávamos um dedo de prosa. Hoje, por acaso, nos encontramos, e pudemos pôr algumas novidades em dia. Ela me falou de um sobrinho dela, um dos vários sobrinhos que ela tem, o Fábio, e, com a sem-cerimônia de uma mexeriqueira, disse-me que ele brigou com os pais dele; o pai dele, Osvaldo, é trabalhador, mas pai ausente e marido ausente; e a mãe dele, Maria Joana, desequilibrada, esposa histérica, relapsa. E Fábio arrumou as trouxas, e foi morar com os avós paternos dele, um casal de velhinhos já um pouco gagás, mas ainda sensatos. E qual foi a razão da briga de Fábio com os pais dele? Viciado em maconha, ele lhes pediu dinheiro, para comprar roupas, disse-lhes, uma calça e duas camisas, e um par de sapatos, de que ele muito precisava. Osvaldo e Maria Joana cobraram-lhe explicações acerca das roupas dele, as quais não se viam nem no guarda-roupas, nem em nenhum outro lugar da casa. Fábio desconversou, e deu-se início à discussão. E foi-se Fábio para a casa dos avós. Só não me estendo a contar para você a história que a Maria Teresa contou-me há alguns minutos, antes de ela despedir-se de mim e retirar-se do ônibus, porque não vivo de tratar de coisas que não me dizem respeito, e nada quero saber, e tampouco dizer, acerca da vida de familiares, parentes e amigos. Guia-me a discrição, e discrição é o que peço àqueles que me procuram para falar da vida alheia. Que mania desagradável têm as pessoas de cuidarem do que não lhes dizem respeito. Não sabem que muita desafeição nasce de tal vício? Se soubessem, o evitariam. Se Deus iluminasse a todos, ninguém vivia de mexericar a vida alheia.

Gustavo limitou-se a assentir. Assim que a porta do ônibus abriu-se, o ônibus parado na rodoviária, dele retirou-se, rapidamente, e, a passos acelerados, afastou-se de Camila antes que ela tivesse a idéia de principiar a narrativa de qualquer história, ou, simplesmente, perguntar-lhe aonde ele iria. E se ele lhe dissesse aonde iria, e ela dissesse que iria para o mesmo lugar? Tão logo tal pensamento resvalara-lhe a cabeça, tratara Gustavo de afugentá-lo de si, e agira de modo que ele não se concretizasse.

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