Atenção: superfície quente.

Uma história do Joãozinho.

Estavam, na casa de Joãozinho, naquele sábado, às dez horas da manhã, Joãozinho e o pai do Joãozinho, lavando a varanda. Joãozinho, vassoura à mão, varria as folhas que os ventos – que assopraram durante a tempestade, que, à noite, despencou, na cidade, inundando alguns bairros – arrancaram das árvores do jardim, enquanto o pai do Joãozinho conectava a mangueira à torneira, quando abriu-se o portão da casa. Era a mãe do Joãozinho que regressava da feira, do supermercado e da loja. O pai do Joãozinho tratou, logo, de ir até a sua esposa, e pedir-lhe que ela não entrasse, na varanda, com o carro, pois ele, pai do Joãozinho, e Joãozinho, iriam lavá-la. A mãe do Joãozinho disse que iria estacionar o carro em frente à casa, e pediu ao seu marido que retirasse do carro as sacolas e as caixas com as frutas, os legumes, as verduras, e os produtos que comprara, no supermercado, e a caixa com o forno elétrico. O pai do Joãozinho foi até o carro; e Joãozinho largou, prontamente, a vassoura, e correu até sua mãe, saudou-a com um beijo no rosto, e foi até o carro, e seu pai entregou-lhe algumas sacolas com verduras e legumes, e ele, célere, animado, carregou-as até a cozinha, e, na velocidade da luz, regressou ao carro, para pegar, das mãos de sua mãe, outras sacolas, enquanto seu pai rumava, carregando caixas pesadas, do carro à cozinha. Em cinco viagens de ida e volta do carro à cozinha, Joãozinho, seu pai e sua mãe à cozinha carregaram tudo o que havia para ser carregado. Em seguida, a mãe do Joãozinho entregou para o pai do Joãozinho a chave e o alarme do carro, e anunciou a sua ida ao quarto, para trocar de roupas e, depois, à cozinha, para preparar o almoço, e Joãozinho e seu pai retomaram à limpeza da varanda. E Joãozinho e seu pai varreram a varanda, jogaram sabão em pó no chão, molharam o chão esguichando água com a mangueira, o ensaboaram, e o esfregaram com a vassoura. Joãozinho “nadou”, “surfou” “navegou” enquanto ajudava, ou atrapalhava? seu pai a limpar a varanda. Da cozinha, a mãe do Joãozinho ouvia as gargalhadas cativantes de Joãozinho e as suas exclamações eufóricas e heróicas de conquistador dos sete mares, como ele se anunciava, que lutava contra os monstros do Oceano Tenebroso, e as broncas que o pai dele lhe dava, e sorria, divertida – às vezes, ela ia até o enquadramento da porta que da sala-de-visitas dava acesso à varanda para espiar seu filho e seu marido.

Não eram doze horas quando Joãozinho e seu pai encerraram o trabalho de limpar a varanda. E Joãozinho rumou ao banheiro, para banhar-se, pois sujara-se enquanto conquistava os sete mares, surfava e nadava nas águas revoltas do Oceano Tenebroso.

Meia hora depois, Joãozinho, seu pai e sua mãe, minutos antes de sentarem-se à mesa, na sala-de-jantar, conversavam, na cozinha; a mãe do Joãozinho apontou para uma caixa, a do forno elétrico, e pediu ao seu marido que a abrisse, e dela retirasse o forno. Iriam usá-lo para preparar a lasanha. E Joãozinho, curiosidade excitada, fitava, com olhos arregalados, a caixa. E assim que da caixa o pai do Joãozinho retirou o forno e o pôs sobre a mesa, Joãozinho do forno aproximou-se, e, enquanto seu pai arrumava o isopor dentro da caixa e procurava pelo manual de instruções (o pai do Joãozinho chamava o manual de senhor Manuel, o instrutor indecifrável), estudou o forno, atentamente, em cuja parte superior deteve-se, em um selo, leu o que nele estava escrito, pôs a mão direita sobre o forno, e disse:

– Mamãe, a senhora tem de ir à loja fazer uma reclamação para o homem que vendeu este forno para a senhora.

A atenção da mãe do Joãozinho e a do pai do Joãozinho convergiram para Joãozinho, e o pai do Joãozinho, antecipando-se à mãe do Joãozinho, perguntou para Joãozinho:

– Sua mãe tem de ir à loja, filho? Reclamar do quê?

– O forno está com defeito – respondeu Joãozinho.

– Com defeito? – perguntou-lhe sua mãe, intrigada. – Como você sabe que o forno está com defeito, filho? Seu pai ainda não o ligou. Seu pai ainda está pedindo instruções para o senhor Manuel.

– Venham aqui – chamou Joãozinho seu pai e sua mãe; ambos aproximaram-se de Joãozinho e do forno. – Leiam o que está escrito, aqui, neste plástico – e apontou para o selo na parte superior do forno elétrico. – Aqui está escrito: “Atenção: Superfície quente”. Olhem… – e Joãozinho pôs a mão direita sobre o forno. – Viram, se estivesse quente, eu queimaria a minha mão – e exibiu a mão direita para seu pai e sua mãe. – Aqui não está quente; está frio. O forno está com defeito, mamãe. A senhora tem de ir à loja trocar este forno, que está com defeito, por um forno que não esteja com defeito.

Entreolharam-se o pai do Joãozinho e a mãe do Joãozinho. E sorriram.

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