Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 1 de 8

Capítulo 1

E surge Massa Bruta

Naquela quarta-feira ensolarada, às sete horas da manhã, fez-se ouvir um estrondo, no centro da cidade de São Paulo, no cruzamento das avenidas X* e A*. E a terra tremeu. As pessoas, num raio de cinquenta metros, sentiram os tremores, mas não atinaram com a sua causa, e entreolharam-se, intrigadas e curiosas, perguntando-se cada uma delas para si e umas para as outras qual era a origem do estrondo e dos tremores que ao estrondo se seguiram. Não ocorrendo nenhum outro tremor que se sobressaísse ao azáfama reinante àquela hora do dia, as pessoas que tiveram a atenção desviada para o estrondo seguido de tremores, tornaram a dedicá-la ao que as ocupavam antes do estrondo e dos tremores que se lhe sucederam, e seguiram cada uma o seu rumo. Era como se a metrópole paulistana, a maior metrópole do hemisfério sul, nada houvesse sentido. No seu ritmo normal seguia a cidade de São Paulo, e as pessoas ocupavam-se com as suas incumbências. O trânsito ia em ritmo acelerado. Carros, caminhões, ônibus, motocicletas trafegavam, incessantes, ocupando todos os espaços das avenidas X* e A*. Motocicletas passavam por entre carros, caminhões e ônibus, os motoqueiros a arriscarem-se. A prudência não era uma virtude que eles alimentavam. A cidade de São Paulo, metrópole cosmopolita, de todas as culturas, de todas as etnias, de todas as crenças, de todas as cores, animada e barulhenta, atrai, de todos os quadrantes do Brasil e de todos os rincões do universo, pessoas dos mais diversos credos, dos mais distintos idiomas.

Não haviam decorridos dois minutos do estrondo e dos tremores de terra, outro estrondo se fez ouvir, e se lhe seguiram tremores, mais intensos do que os anteriores, e os sentiram as pessoas que se encontravam, tendo o centro no cruzamento e nas proximidades das avenidas X* e A*, num raio de cem metros. Os carros que passavam pelo entroncamento das avenidas X* e A* deram um ligeiro solavanco, e surpreenderam-se os seus ocupantes; e desequilibraram-se alguns ciclistas que passavam a menos de vinte metros do epicentro dos tremores – um deles, perdendo o equilíbrio, caiu no meio-fio da calçada, e escalavrou o joelho direito; e pessoas que andavam pelas calçadas dos quarteirões próximos, e achavam-se não muito distantes do entroncamento das avenidas X* e A*, detiveram-se, intrigadas e assustadas, e olharam de um lado para o outro, todas a perguntarem-se o que ocorrera.

– Um terremoto – sugeriu um homem, que aparentava a idade de quarenta anos.

– Aqui em Sampa? – perguntou-lhe o que com ele conversava. – Não estamos em Tóquio – comentou, bem-humorado.

– Estranho o estrondo… E os tremores… – balbuciou o homem que aparentava quarenta anos.

Não bem o homem que aparentava quarenta anos encerrou o seu comentário, ouviu-se um estrondo estrondejante, tendo como núcleo o cruzamento das avenidas X* e A*, e os tremores que se seguiram espalharam-se por um raio de mil metros. E no entroncamento das avenidas X* e A* rompeu-se o asfalto de baixo para cima, e blocos imensos foram arremessados em todas as direções, e o que foi lançado mais longe, passou, como um míssil, por toda a extensão da avenida X*, percorreu quinhentos metros, e atingiu um carro, amassando-o, e deslocou-o, em decorrência da força do impacto, dois metros. Carros, na interseção das avenidas X* e A* foram revirados, e alguns arremessados a alguns metros de distância, e um ônibus tombou, e um caminhão, atulhado de legumes e verduras, que passava pelo cruzamento das avenidas X* e A* no exato momento em que o asfalto rompeu-se de baixo para cima, foi arremessado a vinte metros de distância. Uma nuvem de poeira e detritos, e fumaça, e água, que foi cuspida dos encanamentos rompidos, e faíscas, que sibilaram dos cabos cortados, subiu e dominou todo o entroncamento das avenidas X* e A* e considerável extensão delas. Pessoas gritavam e corriam. Várias pessoas estavam machucadas, umas, com ferimentos superficiais, outras tiveram fraturadas pernas e braços. Uma mulher, atingida, no peito, por um estilhaço, arrastava-se no chão, e berrava de dor – ela não conseguia levantar-se, e ninguém a acudiu tamanha a turbamulta. Muitas pessoas, confusas, corriam – as que podiam correr – de um lado para o outro. Ninguém sabia o que ocorrera. Muita gente zanzava de um lado para o outro, desorientada, as mãos às orelhas, ensurdecidas, olhares perdidos, sem saber o que pensar. Esvaiu-se em sangue um homem, a carótida lacerada por um estilhaço cortante – escabujou, nos seus derradeiros instantes de vida; uma jovem morena, na idade de dezessete anos, ao fitá-lo, berrou, ensandecida, apavorada. Um carro – o motorista que o manobrava perdeu o seu controle – da avenida X* passou para a calçada da avenida A*, e premiu contra o muro de um prédio dois homens, matando um deles, e ferindo, gravemente, o outro. Os vidros dos prédios cuja face dava para a intersecção das avenidas X* e A* estilhaçaram-se, uns, com o impacto de pedaços do asfalto rompido, pequenos uns, grandes outros, que foram arremessados para todas as direções, ou três, em decorrência de ondas de choques provenientes da explosão. Algumas pessoas atingidas por cacos de vidro feriram-se gravemente, outras tiveram ferimentos epidérmicos. Dispararam alarmes de vários carros estacionados ao longo das avenidas X* e A* e de ruas não muito distantes. Centenas de milhares de pessoas detiveram-se, e perguntaram-se o que ocorrera. E ninguém tinha uma explicação para o ocorrido. E ampliava-se e adensava-se a nuvem de pó, fumaça, detritos, água e faíscas.

Espalhou-se a notícia. Algumas pessoas, que se recompuseram do susto, de posse de um telefone celular, apontaram a câmera dele para a nuvem, e as imagens, de inúmeros ângulos, do chão, de dentro de prédios e do topo de prédios espalharam-se via internet, redes sociais, instantaneamente, por todo o mundo, que tomava conhecimento do evento que se desenrolava num entroncamento de duas avenidas situado no centro da cidade de São Paulo.

E o tempo passava.

O pó e os detritos regressavam ao chão. E reduzia-se de tamanho a nuvem. E do seu interior revelou-se aos olhos de todos os curiosos que convergiam para o cruzamento das avenidas X* e A* uma criatura humanóide de quatro metros de altura, musculosa, disforme, indescritível. Suas coxas e braços, da espessura de um homem adulto, espadaúdo, halterofilista; suas mãos, imensas, de veias intumescidas; seus ombros, largos – de um ombro ao outro ombro tinha, calculava-se, dois metros; seu tórax, amplo, da espessura de mais de um metro; sua cabeça, calva; suas orelhas, pequenas; seu nariz, pequeno e achatado; seus olhos, ocultos sob sobrancelhas espessas, peludas.

O primeiro ato da criatura, assim que ela deu os primeiros passos sobre o asfalto rachado: Agarrou, com a mão direita, um carro, ergueu-o como se erguesse uma pena de canarinho, e arremessou-o, sem esforço, contra um helicóptero, que passava, naquele instante, a duzentos metros de altura, a trezentos metros de distância, atingindo-o. Explodiram o helicóptero e o carro. Assim que o helicóptero atingiu o chão, ouviu-se outra explosão; e ouviu-se outra explosão quando o carro atingiu um posto de combustíveis. Morreram os dois tripulantes do helicóptero, os quatro ocupantes do carro e três pessoas que estavam no posto de combustíveis.

A criatura humanóide, intumescidos todos os seus vasos sanguíneos, contraídos e enrijecidos todos os seus músculos, inflado seu tórax, ergueu a cabeça, e gritou. O seu grito, altissonante, grave, cavernoso, agourento, o ouviram à distância de vários quilômetros. Cessado o grito, rilhou a criatura os dentes, e proferiu as sentenças:

– Curvem-se, humanos, diante do Conquistador! Curvem-se diante do deus que veio para escravizá-los! Curvem-se diante de Massa Bruta! – e bateu as duas palmas, abertas, uma contra a outra, deslocando o ar, arremessando dezenas de pessoas a vários metros de distância. – Humanos, eu vim para conquistar o mundo! Curvem-se diante de Massa Bruta, covardes! Curvem-se diante de Massa Bruta, o Conquistador!

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