Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 4 de 8

Capítulo 4

E entram em cena Tatu-Bola e Taco de Baseball

Gravadas por telefones celulares imagens de Massa Bruta e dos outros dois personagens, o mundo em pouco tempo tomou conhecimento do desenrolar dos eventos que se sucediam, para espanto de todos, no centro da cidade de São Paulo. E lá estavam, encarando-se, Massa Bruta e um homem coberto com uma carapaça de tatu e um homem embrulhado com uma armadura azul prateada. Quem eram eles? perguntavam-se todos. A chegada dos dois personagens que, tudo indicava, lutariam contra Massa Bruta, causou espanto e admiração em todos. E muitas interrogações foram aventadas nos quatro quadrantes do universo. A cidade de São Paulo converteu-se, naqueles poucos minutos, desde o surgimento de Massa Bruta no entroncamento das avenidas X* e A*, no centro do mundo, e aqueles três estranhos personagens inspiraram muitas perguntas. Um chamava-se Massa Bruta. E quem eram os outros dois?

Massa Bruta rilhou os dentes e franziu a testa. A sua aparência, que já era grotesca, assumiu ares teratológicos, assustadoramente petrificantes. Os dois personagens que desceram a poucos metros dele, no entanto, não se mostraram intimidados com aquela disforme, grotesca, monstruosa figura, que se alcunhava Massa Bruta. Ao contrário, exibiam, dir-se-ia, coragem incomum, audácia e atrevimento, e, desdenhosos, fitavam-lo como se tivessem diante de si uma criatura insignificante. A postura deles irritou Massa Bruta, que, não se contendo em seu ímpeto, deixou transparecer a raiva que o impeliria na direção do humano de constituição de tatu que lhe golpeara as costas.

– Quem são aqueles dois? – perguntavam-se todas as pessoas que, em todo o mundo, acompanhavam o desenrolar dos eventos protagonizados pelos três personagens de aparência singular.

– Não sei. Não tenho a mais remota idéia de quem eles possam ser – foi essa a resposta que mais se ouviu. E outras, especulativas, foram:

– Eles são deuses egípcios.

– Deuses egípcios? Havia, no Egito, um deus de corpo de tatu?

– No Egito não existe tatu.

– Eles são alienígenas.

– E de que planeta eles vieram?

– E eu sei!?

– Três criaturas, tão escalafobéticas, que só podem ser produtos de uma experiência fracassada.

– São eles oriundos de um universo paralelo. Resta-nos saber de qual, pois há infinitos universos paralelos. E cada um daqueles três esquisitões pode ser originário de um.

– Eles são produtos de experiências genéticas mal-sucedidas. O monstro é um urso geneticamente modificado; o tatuzão é um tatu que cresceu mais do que podia crescer, e o outro é… Sei lá. Talvez um ser humano e máquina, uma máquina orgânica, uma máquina, ou robô, ou sintético, ou andróide, ou sintozóide fundido num corpo humano.

– O tatu gigante é uma criatura híbrida de homem e tatu-bola como aquelas criaturas híbridas do livro Amálgamas.

– O homem do planador e do taco de baseball é um cientista maluco.

– Ele usa armadura.

– O brutamontes monstruoso é uma miniatura do Godzilla.

– Não. Não. Ele é um super-vilão, que ganhou vida, de revistas de super-heróis.

– O tatu gigante é um ornitorrinco geneticamente modificado.

– Não sei quem são aqueles três, e não quero saber, e tenho raiva de quem sabe. Eu quero vê-los engalfinharem-se, e espancarem-se, e esmurrarem-se, e esmagarem-se, triturarem-se e esmigalharem-se uns os ossos dos outros.

– Eles se conhecem de outros carnavais?

– O tatuzão e o homem com taco de baseball são amigos e ambos lutarão contra o Massa Bruta.

– Quero ver entranhas expostas, cérebros esmagados, ossos triturados e muita destruição.

– Eles irão lutar. A luta será um espetáculo.

– A luta do século.

– Quero ver sangue escorrendo do nariz deles.

– O Massa Bruta vai levar uma sova.

– Vai, nada. Ele vai pulverizar o homem-tatu e o homem-taco-de-baseball.

*

Carla, Larissa e Rodolfo dirigiram-se ao local do embate entre Massa Bruta e os seus dois oponentes.

– Rápido, Rodolfo, rápido – apressava-o Larissa, ansiosa, descabelando-se.

– Acalme-se – retrucou Rodolfo. – Como irei rápido com o trânsito…

– Rápido, Rodolfo – resmungou Carla. – Pare de falar, e dirija.

– E vocês – retrucou Rodolfo, impaciente -, matracas, tagarelas, calem a boca! Como dirigirei o carro, se vocês não param de falar nos meus ouvidos? Vocês são piores do que pernilongos. São irritantes, diabos!

A discussão seguiu neste tom durante todo o trajeto. Larissa e Carla, impacientes, exigiam de Rodolfo que ele acelerasse o carro, e Rodolfo a retrucar, irritado, ameaçava parar o carro, e dele expulsá-las, jogá-las para fora dele, para obrigá-las a irem a pé até onde encontrava-se Massa Bruta, caso nenhuma alma caridosa oferecesse-lhes carona. E encerrou a discussão um estrondo provocado por algo que caiu sobre o carro, algo não muito pesado, e nem muito leve, mas que atingiu o carro com força suficiente para amassar-lhe o capô. Rodolfo pisou, involuntariamente, no pedal do freio, e conseguiu manter o controle da direção, impedindo o carro de se desgovernar, subir na calçada e atropelar duas pessoas, um jovem de quinze anos e uma anciã octogenária. Enfim, parou o carro, em cujo interior imperou o silêncio. O carro parado, entreolharam-se Rodolfo, Carla e Larissa.

– O que aconteceu? – perguntou Rodolfo, mais para si do que para as suas colegas de trabalho, fitando o teto amassado do carro.

– Veja o que atingiu o carro, Rodolfo – sugeriu Carla.

Rodolfo desafivelou o cinto de segurança. Hesitante, cauteloso, abriu, intrigado, a porta do carro, e olhou para o céu à procura de algum objeto sobrevoando a região e os arredores.

– Vá, Rodolfo – apressou-o Larissa.

– Cale a boca! – resmungou Rodolfo, num tom de voz grave, firme, baixo e contido.

Rodolfo, enfim, saiu do carro. Desconfiado, e a fisionomia a transparecer preocupação, fitou o capô do carro e nele viu a concavidade produzida por um objeto pequeno, duro e coberto de arestas, presumiu, ao avaliar as irregularidades da concavidade, e perguntou-se que objeto atingira o capô do carro.

De dentro do carro, Larissa e Carla circunvagavam os olhos pelos arredores, avaliando o céu à procura de algum sinal que lhes indicasse o que ocorrera.

– O que você achou, Rodolfo? – perguntou Larissa.

– Nada – respondeu Rodolfo. – Estou vendo apenas o capô amassado do carro. Venham vê-lo.

Encorajadas pelo convite de Rodolfo, Larissa e Carla retiraram-se do carro.

Não havia decorrido um minuto, os três ouviram vidros estilhaçando-se, e olharam para a direita, direção da qual os barulhos de vidros quebrando-se chegaram-lhes aos ouvidos, e viram algumas pessoas acocoradas, e outras, a passos acelerados, protegendo, cada uma, a sua cabeça ou com uma bolsa, ou com uma maleta, ou com uma caixa, e duas mulheres gritando, e pedaços de vidros caindo, na calçada; e ao olharem para o alto, viram, de uma janela do terceiro andar de um prédio estilhaços de vidros desprenderem-se, e caírem, e um vidro quebrado.

– O que aconteceu? – perguntou Rodolfo.

– Cuidado! – gritou um garoto, ao mesmo tempo que apontava, com o dedo indicador esquerdo, um ponto do céu, para o qual voltaram-se Rodolfo, Larissa, Carla e dezenas de outras pessoas. E todos viram uma chuva de bólidos riscando o céu. Eram pedaços de carros, pneus, pedaços de asfalto, paralelepípedos e uma esfera acobreada. Todos procuraram por um abrigo. Rodolfo, Larissa e Carla encolheram-se ao lado direito do carro. E os bólidos atingiram, uns, algum prédio, outros, o asfalto, ou o muro de um terreno baldio, ou um poste, ou a porta de um estabelecimento comercial. Um poste atingiu uma loja, pelo enquadramento da porta, então aberta, e incursionou pelo seu interior, arrastando roupas, prateleiras, calçados, computadores, provocando muitos estragos – felizmente, ninguém se feriu, e os que se viram na sua trajetória esquivaram-se a tempo de evitar o impacto. Duas pedras, uma, de uns dez quilos, outra de uns vinte quilos, atingiram, quase que simultaneamente, um ônibus, estilhaçando-lhe todos os vidros. Um paralelepípedo atingiu uma moto preta, reduzindo-a a pó. Uma tempestade de pedriscos alvejou três pessoas – um homem de quarenta anos, barbudo, gordo e negro, uma jovem de dezesseis anos, de cabelos compridos, branca, magra e loira, um homem magro, moreno, de trinta anos, careca, e de barba e bigode rapados -, matando-os, instantaneamente.

Instalou-se o caos naquela região. Todos, assustados, olhavam para o céu à procura de uma explicação para o que ocorria.

A esfera acobreada atingiu a pilastra, no vértice, da parede reforçada de um prédio corporativo, rolou alguns metros, e foi parar a dois metros de distância de Rodolfo, Carla e Larissa. E os três a fitaram, apalermados, embasbacados, intrigados, curiosos, e mais apalermados, embasbacados e intrigados ficaram quando ela abriu-se e revelou-lhes o seu interior: um homem acobreado, que, sobrancelhas descerradas, sorriso no rosto cativante em sua aparência excêntrica, proferiu as seguintes palavras:

– Bom dia, madames. Bom dia, cavalheiro. Chamo-me Tatu-Bola, criado de vossas senhorias – e pôs-se de pé. E Rodolfo, Larissa e Carla puderam, então, dimensionar-lhe a estatura. Fitaram-lo, mais embasbacados e apalermados do que antes, arregalados os olhos, desmesuradamente abertas as bocas, e caídos os queixos. – As senhoritas estão encantadas com o meu charme, a minha simpatia excepcional e a minha beleza apolínea, e o senhor está admirando o meu excepcional e invejável porte físico.

– Quem é você? – perguntou-lhe Larissa, gaguejando, trêmulos seus lábios.

– Eu já vos disse o meu nome, encantadora senhorita. Compreendo-vos a vossa desatenção. O meu charme, a minha simpatia e a minha beleza helênica, presente dos deuses, encantaram-vos tanto que nublaram os vossos sentidos, o vosso entendimento, impedindo-vos de ouvir as palavras que, com a minha voz argêntea, que insufla no espírito de todos os seres viventes encanto e admiração, proferi. Não me faço de rogado. Paciente, gentil e prestativo, elimino a vossa dúvida: Tatu-Bola é o nome deste vosso humilde e leal servo – e genuflexionou-se, e, desembaraçado, exibiu mesuras anacrônicas, que arrancaram risos desconcertados de Larissa.

E Tatu-Bola anunciou a sua retirada:

– Perdoem-me, nobres damas – e atraiu, suavemente, para si, a mão direita de Larissa e a mão direita de Carla, que não lhas recusaram, e osculou-as com suavidade, mal roçando-lhes os lábios no dorso -, e perdoe-me, gentil cavalheiro – dirigiu-se a Rodolfo, então estupidificado, assim que abandonou a mão de Larissa e a de Carla – não poder conservar-me por mais tempo na vossa companhia. Chama-me o dever. Não posso dilatar, aqui, a minha humilde presença. Tenho de ir em auxílio de um heróico amigo meu, Taco de Baseball, que se vê em apuros num embate com um monstro saído das profundezas do inferno dantesco, Massa Bruta, o Destruidor, o Conquistador, o Aniquilador, o Exterminador, o Pulverizador, o Esmagador. Dai-me licença, senhoritas. Dai-me licença, cavalheiro – e saudou-os com salamaleques. Com desenvoltura, curvando-se ligeiramente, virou-lhes as costas, e deles afastou-se, correndo, numa velocidade impressionante.

– Tatu-Bola… – disse Rodolfo, gaguejando. – Taco de Baseball… Quem são eles? Eles estão lutando contra o monstro… com o… Qual é o nome dele?

– Massa Bruta – respondeu Carla.

– Temos de sair daqui – disse Larissa -, e ir até onde eles estão – referia-se a Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu Bola.

Entraram no carro, Rodolfo ao volante, e rumaram para a direção que Tatu-Bola seguira.

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