As surpresas que o amor reserva – parte 2 de 5

– Arrumei um novo emprego, Paulo – disse Gislaine, sorridente, animada, na varanda. Estreitou Paulo ao corpo, cingiu-o, com os braços, pelo pescoço, colando seu corpo ao dele, e beijou-o. Paulo encostou-se no carro, e enlaçou-a pela cintura.

Gislaine descolou seus lábios dos lábios de Paulo, e disse-lhe:

– Consegui um novo emprego, melhor do que o anterior. Tu não me acreditarás – beijou-o, duas vezes, e prosseguiu: – Receberei, nos três primeiros meses de trabalho, o dobro do salário que recebo na Atlântico Empreendimentos Imobiliários; depois, dependendo da minha desenvoltura, o meu salário poderá quintuplicar.

– Em que empresa irás trabalhar? – perguntou-lhe Paulo.

– Na Telemarketing.com.Brazil.

– Que empresa é essa? Dela nunca ouvi falar.

– É uma empresa que presta serviços para empresas indianas…

– Tu trabalharás na Índia?

Gislaine sorriu e beijou-o, e, fitando-o, perguntou-lhe, zombeteira:

– Sabes que estamos em pleno século XXI?

Paulo simulou azedume.

– Vou recapitular os principais eventos deste início de século: o ataque terrorista que destruiu o World Trade Center; o ataque terrorista a Londres; o ataque terrorista a Barcelona; a guerra no Iraque; a guerra no Afeganistão.

– Não deboches, Gislaine.

– Tu sabias que já inventaram a internet? Já ouviste falar de telemarketing? Sabes o que é videoconferência? Já viste um telefone celular?

– Chata! És chata.

– O homem já foi à lua, sabias? Bobo, não trabalharei, na Índia, não. Bobinho. Trabalharei, aqui, no Brasil, para a nossa felicidade. Não irei para a Índia. Eu gostaria de visitar o Taj Mahal. É o meu sonho. O Taj Mahal é uma das sete maravilhas do mundo, e eu o visitarei, um dia.

– E eu irei contigo?

– Não sei… Pensarei a respeito. Tu sabes quem me falou do emprego na Telemarketing.com.Brazil? A Marilene, hoje, de manhã, um pouco antes das sete horas. Eu saía de casa; à porta, enquanto a fechava, a Marilene saudou-me, perguntou-me se eu ia para a empresa, para trabalhar, e disse-me que hoje é dia de folga dela. Ela usava uma camisa regata e uma calça de malha. Saíra para caminhar. Passaria na casa da Solange. Como o Sol, hoje, quer torrar a Terra, e assar-nos a todos nós, para satisfação de uma raça alienígena, a Marilene e a Solange combinaram de caminharem. Para benefício do coração, claro. Não reconheceriam que querem perder os pneuzinhos… Nós mulheres não somos vaidosas… Quê! Ficar bela e atraente para atrair os homens? Não. As mulheres somos independentes. Os homens nós mulheres os dispensamos. Nos embelezamos para a nossa satisfação narcísica, indiferentes ao que os homens pensam de nós. Há alguém, neste mundo de Deus, que acredita nesta bobagem?

– Perdi o fio da meada, Gislaine. Do que tu me falavas? Recapitulando: Uma raça alienígena inteligente aportou na Terra e, por meio de uma empresa de telemarketing, ensinou mitologia grega às mulheres. O mentor intelectual alienígena, Narciso, na Índia, abduziu engenheiros e arquitetos indianos em cujos cérebros implantou o conhecimento da ereção do Taj Mahal e das outras seis maravilhas, mas o Sol, antipático…

Gislaine cobriu-lhe a boca com a mão direita e a mão direita com a mão esquerda, ordenou-o que se calasse, e disse-lhe que lhe liberaria a boca se ele prometesse manter-se em silêncio e a ouvisse, sem interrompê-la, atentamente. Paulo assentiu, com o olhar e o sorriso.

– A Marilene, hoje de manhã, falou-me da empresa de telemarketing, que queria contratar uma pessoa com boa dicção, bom vocabulário, desembaraçada, e que soubesse falar, fluentemente, inglês e espanhol. Assim que cheguei na Atlântico, conversei com a Luciana a respeito; ela, com uma pulga atrás da orelha, perguntou-me se se tratava de uma empresa séria, ou uma empresa de fachada; disse-me, quando lhe fiz referências ao salário que a empresa oferecia aos operadores de telemarketing, que quando a esmola é demasiada até o santo desconfia, e aconselhou-me prudência. Telefonei para a Telemarketing, agendei a entrevista, e fui lá. Durante a entrevista, que durou duas horas, o entrevistador conversou comigo em inglês e em espanhol. Bobo, ele, né!? Coitados dos candidatos que, desconhecendo esses dois idiomas, dizem que os conhecem! Depois, ele simulou uma conversa telefônica. O entrevistador… Como é mesmo o nome dele? André, ou Adriano, ou Adrien, não me recordo. Após o encerramento da conversa telefônica, disse-me ele que apreciara o que ouvira, e perguntou-me se eu poderia começar a trabalhar, na segunda-feira, na Telemarketing. Não pensei duas vezes: eu lhe disse que sim, poderia. A partir de segunda-feira, Paulo, trabalharei pelo dobro do salário que recebo na Atlântico.

– Parabéns – disse Paulo, que lhe deu um beijo nos lábios, e mordeu-lhe o queixo assim que ela ergueu a cabeça para lhe falar:

– Trabalharei segunda-feira, à noite.

Paulo afastou-se dela a cabeça, fitou-a, surpreso, e indagou-lhe:

– À noite? Trabalharás à noite?

– Sim. À noite. A Índia, no outro lado do planeta… Já ouviste falar de um continente chamado Ásia? A Ásia é um continente imenso, e lá estão a Índia, a China, as Coréias, o Japão. Japão é uma ilha, e…

– Boba. Sei disso. Mas, à noite… Trabalharás à noite… E nós? Trabalharás à noite. Dormirás, portanto, à tarde; e eu, que durmo à noite…

– Muita coisa mudará, eu sei. Nos adaptaremos aos novos tempos. Nos encontraremos nos finais da tarde e nos dias de folga. Trabalharei em alguns finais de semana; em outros, não. Como tu, terei dias de folga. E os meus dias de folga poderão coincidir com os teus. Mudaremos alguns dos nossos hábitos. Alguns? Não. Alguns, não. Muitos. No início, será difícil, eu sei. Trocarei o dia pela noite e a noite pelo dia. Imagino como me ajeitarei nesta nova fase da minha vida. Melhor: da nossa vida. Estamos juntos, né, Paulo? Nos entenderemos um com o outro, como fazemos desde que nos conhecemos de um jeito inusitado. Lembra-se? Tu pisaste-me o pé, malvado.

– Pisei-te o pé? – perguntou Paulo, sorrindo. – Mentirosa. Não pisei-te o pé.

– Não!? Não pisaste!? Recapitulemos a história. Eu andava, calmamente, pela cidade. Tirei da bolsa a carteira, por alguma razão, da qual não me recordo, e uma valiosa moeda prateada de borda dourada cunhada por mestres moedeiros escapou-se-me das mãos, rolou pela calçada, deu cambalhotas, cabriolas, piruetas, executou manobras radicais e foi parar a alguns metros de mim, e eu, que não desejava perder tal preciosidade, agachei-me, e foi então que um ilustre desconhecido, um sapo presunçoso, que pensa ser um príncipe encantado, pisou-me… Ah! Paulo… Chato!

– Pisei-te o pé? Continues com a narração da história. Tu já pensaste em escrever um livro? Tu serias uma ótima escritora. Escreva uma estória com fidelidade aos fatos, como tu a pouco provaste ser capaz de fazer, se auto-intitular uma escritora realista, existencialista, e coisa e tal, e o sucesso estará garantido. É tiro e queda, minha princesa fofinha!

Beijaram-se. O deslize de Gislaine inspirou piadas e comentários zombeteiros de Paulo, piadas e comentários que inspiraram réplicas de Gislaine, às quais Paulo não deixou de apresentar as tréplicas. Estenderam-se em provocações; simularam irritação, até que decidiram conversar, sérios, sobre a vida deles dali em diante.

Transcorreram-se os dias. Paulo e Gislaine enfrentaram alguns incidentes indesejáveis, que geraram atritos entre eles.

Gustavo, em certa ocasião, contou para Gislaine e Paulo, que Camila o procurara, e confessara-lhe o desejo de com ele reatar o namoro, pois havia se arrependido do ato reprovável que cometera, e pediu-lhe desculpas. Gustavo relatou o episódio com tanta convicção que Paulo e Gislaine nele acreditaram. Dias depois, Paulo ouviu, de Camila, outra história: a de que Gustavo tivera um caso com uma mulher que conheceu em Ubatuba, nas férias, e que ela, Camila, e não Gustavo, rompera o namoro, e Gustavo a procurara, pedira-lhe desculpas, e dissera-lhe que desejava reatar o namoro, e ela o recusara. Paulo acreditou no que ela lhe disse. No dia seguinte, contaram-lhe outras versões da história protagonizada por Gustavo e Camila, uma novela cujo enredo era mais complexo do que os relatos de Gustavo e Camila davam a entender e envolviam outros personagens. Paulo, amigo, tanto de Gustavo quanto de Camila, conservou-se à parte da trama; não tomaria o partido de nenhum deles. Ouvia-os, sempre que eles lhe confidenciavam os sentimentos, os pensamentos, mas não assumiu uma posição favorável a nenhum deles. O que ele teria de fazer? Gustavo narrava-lhe uma história; Camila narrava-lhe outra história. Outras pessoas que lhe falavam a respeito contavam-lhe outras histórias, inseriam outras personagens, adicionavam outros capítulos, e outros motivos, para apimentar a novela, pois a realidade, presumiam, carecia de ingredientes que lhe realçassem o sabor.

Renato, certo dia, foi à casa de Paulo, e falou para Paulo da crise conjugal: Juliana pedira o divórcio. Motivo: Incompatibilidade de gênios. Paulo pensou em perguntar-lhe: “Descobriram-na após dois anos de namoro e três anos de vida conjugal?”, mas conteve-se. Ouviu-o, atentamente; exortou-o a aceitar o divórcio, e resolver, rapidamente, e sem o auxílio de um advogado, o caso, antes que as vozes dos sensatos persuadissem-no a mudar de idéia, e consultasse pessoas em quem ele confiava; dentre outros, Clóvis e Maria Elizabeth, pai e mãe de Juliana, que os ajudariam a chegar a um entendimento e, quem sabe? reatarem o casamento. Renato fitou-o com olhar reprovador. Paulo pediu-lhe desculpas. Renato disse que jamais perdoaria Juliana. O tom de sua voz e o seu olhar persuadiram Paulo de que sofria deveras. Renato amava Juliana. A separação feria-o profundamente. Se ele pudesse evitá-la, evitá-la-ia. Encerrado o assunto, falaram de Gustavo e Camila. Renato teceu os seus comentários: suspeitava que Gustavo faltava com a verdade; defendeu Camila, que não era a pervertida que Gustavo descrevia. Depois, Renato perguntou de Gislaine. Paulo falou-lhe do trabalho de operadora de telemarketing; não atentou, no início, para a tristeza que a sua felicidade infundia em Renato, que o ouvia, com o olhar perdido, vazio, o rosto a expressar a dor que o afligia, mas, assim que a notou, abreviou os elogios à Gislaine, e sem dar um corte abrupto à conversa, passou a tratar de fofocas, esportes e filmes. Renato falava, num tom pausado, medindo as palavras; corrigia-se ao perceber que empregava palavras que não reproduziam os seus pensamentos. Paulo teve de interrompê-lo inúmeras vezes para lhe pedir esclarecimentos.

Nas semanas seguintes, Paulo colheu mais informações a respeito de Gustavo e Camila. Nenhuma delas projetou luz sobre o caso; ao contrário, todas obscureceram-no. Quanto mais informações reunia, mais obscura a questão se tornava. Ficou preocupado com a conduta de Gustavo, desregrada e inconsequente. Madalena, mãe de Gustavo, e Elói, pai dele, contaram a Paulo as preocupações que a conduta de Gustavo lhes inspirava. Elói, em tom confidencial, disse-lhe que Gustavo nunca primou pelo comportamento exemplar, e evocou episódios sucedidos quatro anos antes – dos quais Paulo recordava-se. Paulo disse-lhe que Gustavo se regenerara. Elói meneou a cabeça. Gustavo, disseram Madalena, Elói, amigos e familiares, frequentava prostíbulos e, em um bar, discutiu com uma prostituta, deu-lhe um tapa, e dois homens o estapearam, e ele correu, desajeitadamente, embriagado, perdeu o equilíbrio, escalavrou os joelhos, o cotovelo, e bateu, ao cair, após tropeçar num paralelepípedo, com a testa numa raiz de uma árvore. Tal notícia entristeceu Paulo, que foi à casa de Gustavo, e passou-lhe descompostura. Não foram raras as ocasiões em que Gustavo e Paulo discutiram, e Gustavo exibiu desprezo por ele, e insultou-o com os vocábulos mais ferinos que conhecia e com insinuações maldosas a ele, Paulo, e a Gislaine. Não foram raras as vezes que Paulo virou-lhe as costas, prometendo, enfurecido, para si mesmo, que excluiria Gustavo do rol de seus amigos – tal promessa ele não a cumpriu. Sempre que Gustavo solicitava-lhe ajuda, ajudava-o; inúmeras foram as vezes que Elói e Madalena, privados de paciência, solicitaram-lhe ajuda, e Paulo os ajudou a socorrer Gustavo ou a remediar males por ele causados; certa ocasião, carregou-o ao hospital após ele sofrer convulsões em decorrência do excesso de ingestão de bebidas alcoólicas, maconha e cocaína.

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