As surpresas que o amor reserva – parte 3 de 5

Não eram dez da noite. Na rua Juscelino Kubitschek, Paulo, exausto, ao volante do carro prateado com o qual Gislaine o presenteara no aniversário, passou em frente a Mercado Branco Empréstimos & Investimentos. Os seus olhos estavam fundos, as pálpebras, caídas sobre os olhos entreabertos. A primeira semana de trabalho na Global Indústria e Comércio consumiu-lhe as energias. Estava feliz com o novo emprego, desafiador – e o salário era ótimo.

Ao retirar-se da empresa, decidira ir à loja É luxo só! para comprar um vestido para Gislaine, um vestido, como ela dizia, escandindo as sílabas, maravilhoso.

Guiado pelo GPS, que se pronunciava com voz feminina, ria, a curtos intervalos.

Na rua Juscelino Kubitschek, esburacada, mal iluminada, sob as árvores homens e mulheres conversavam. Naquele bairro mal-afamado, freqüentado, à noite, por prostitutas, cafetões, traficantes de drogas, maconheiros e cocainômanos, em frente ao Mercado Branco Empréstimos & Investimentos, surpreendeu Paulo uma jovem, montada numa bicicleta vermelha, que lhe apareceu, na contramão, à frente do carro. Paulo pisou no freio. A moça, jovem de dezesseis, ou dezessete, anos de idade, fitou-o com olhos arregalados e pousou a mão direita sobre o capô do carro. Paulo desvencilhou-se do cinto de segurança, retirou-se do carro, e foi até a jovem, que, pálida, fitava-o e massageava a perna direita.

– Tu estás bem? – perguntou-lhe Paulo. – Te machucaste?

A jovem, com voz abafada, disse-lhe que não se machucara. De Paulo não passou despercebido o olhar assustado dela, tampouco o contrair dos músculos da face.

– E a tua perna? – perguntou-lhe Paulo, preocupado, ao vê-la massagear a perna direita.

– Não me machuquei.

Curiosos acompanharam o desenrolar dos eventos. Motoristas desviavam-se do carro de Paulo, a maioria, calado, outros, reclamando, exigindo de Paulo a remoção do carro do meio da rua, e uns, em tom desdenhoso, a remoção daquela lata velha, outros, esgoelando-se, perguntaram-lhe se ele era um cafetão, e a jovem, a sua mocinha de estimação. Tais palavras constrangeram Paulo, e a jovem, que sentia olhares reprovadores e lúbricos convergindo para si. Paulo, para poupar-lhe constrangimentos, exortou a jovem à prudência, decidiu encerrar a conversa, e voltou para o carro. A jovem, constrangida, disse-lhe que seria mais cuidadosa dali em diante, e afastou-se, pedalando a bicicleta.

Ao volante do carro, Paulo, com a atenção redobrada, atentou para os ciclistas e os pedestres. Não desejava que o surpreendesse outra ciclista imprudente, tampouco um pedestre.

Dobrou a esquina. Entrou à rua Juó Bananeri. Vislumbrou uma silhueta inconfundível, a cinquenta metros de distância: a de Gislaine. Arregalou os olhos, surpreso, estupefato. Debruçou-se sobre o volante. Indagou-se se seus olhos não se divertiam consigo, se já caíra no sono, e, naquele momento, na cama, sob o lençol, dormia profundamente, e sonhava com Gislaine, ou se protagonizava um pesadelo, ou se o incidente envolvendo-o e à jovem de bicicleta danificara-lhe os neurônios. Não era Gislaine aquela moça, naquele bairro mal-afamado… Paulo, como se despertasse de um transe hipnótico, esfregou os olhos com os nós dos dedos, e focalizou Gislaine. Assim que ela se voltou, como se esperasse por alguém, na direção de Paulo, mas sem vê-lo, ele teve a certeza de que ela era a Gislaine. O que ela fazia lá? Paulo estacionou o carro, com o auxílio de um flanelinha, que o saudou e disse-lhe, para tranqüilizá-lo, que o carro estava em boas mãos e que ele poderia se divertir até o Sol raiar. Paulo retirou-se do carro. O flanelinha deu-lhe um tapinha amigável no ombro esquerdo e renovou a sua promessa de zelar pelo carro – que estava em boas mãos, insistiu. Paulo fez-lhe um sinal de assentimento com a mão direita, o polegar destacado para cima e todos os outros quatro dedos encolhidos, fechou o carro, do qual acionou o alarme, e, fitando Gislaine, andou, passos apressados, entre os carros estacionados e os que passavam, na direção dela. Aproximou-se dela uns vinte metros. Ela andou no mesmo sentido que ele, desviando-se das pessoas que enxameavam a calçada. Para não a perder de vista, Paulo acelerou os passos, pôs-se na ponta dos pés, para distinguir a cabeça de Gislaine naquele mar de gente, e dela aproximava-se.

Gislaine deteve-se à frente de uma casa noturna, a Prazer Virtual. Paulo pôs as mãos, em concha, à boca, e preparou-se para gritar-lhe o nome, mas conteve-se ao vê-la saudar, com dois beijos no rosto, um homem de terno e gravata, e abaixou as mãos, e seu coração cessou as vibrações. Excluiu do seu campo visual todas as outras pessoas. O homem de terno e gravata e Gislaine abraçaram-se calorosamente. Paulo fitou-os, emudecido, embasbacado, boquiaberto. O homem e Gislaine entraram na Prazer Virtual, que, sabia Paulo, era uma casa de prostituição. Com a mente vazia, Paulo conservou-se, braços caídos justapostos ao corpo, olhos fitos na fachada da Prazer Virtual, indiferente ao que se sucedia ao redor, até que um homem, montado numa moto, com a viseira do capacete erguida, passando por entre os carros estacionados e os que se deslocavam, após frear, bruscamente, atrás de Paulo, que lhe obstruía a passagem, buzinou. Paulo deu passos, e ficou entre dois carros estacionados. O motoqueiro, esbravejando e exibindo gestos obscenos, afastou-se. Paulo, assim que retomou consciência de si, inclinou a cabeça para trás, cerrou as pálpebras, fitou as estrelas, inclinou a cabeça para a frente, massageou as pálpebras com as extremidades dos dedos indicadores, e, ao erguer a cabeça e fitar a fachada da casa noturna, tomou uma decisão: entraria na casa noturna, procuraria por Gislaine, e, ao encontrá-la, de lá a retiraria, e dela exigiria explicações. Ansioso, tenso, inseguro, o coração a vibrar descompassado, os passos incertos, foi em direção à Prazer Virtual. Detinha-se a cada metro percorrido, no temor de se deparar com Gislaine. Se a encontrasse, o que lhe diria? Não seria melhor dar meia-volta e ir-se embora? Esbarrou em algumas pessoas; pediu-lhes desculpas, e elas lhes pediram desculpas, outras, indiferentes a ele, ao nele se esbarrarem, continuaram a andar. Deteve-se Paulo à frente da Prazer Virtual. Indeciso, conservou-se, lá, observando as pessoas que nela entravam e as que dela saíam. Irresoluto, ajeitou os cabelos com as mãos, massageou o nariz, e enfiou as mãos nos bolsos anteriores da calça. Temia que alguém de sua família e de seu círculo de amizades o visse. Se algum familiar ou amigo dele viu Gislaine… Pensou em ir-se embora. Temia encontrar-se com Gislaine. Se fosse embora, depois, ao encontrar-se com ela, dir-lhe-ia que a viu na Prazer Virtual, na companhia de um homem? Paulo perguntou-se porque decidira passar por aquele bairro. Por que ouvira as orientações do GPS, aquela máquina diabólica, que lhe suprimia a faculdade de orientação pelas labirínticas ruas da cidade? Os seus pensamentos, tolices em estado bruto. Perguntou-se porque pensava tais tolices, tolices que jamais lhe aflorariam à mente se não houvesse sido privado da consciência. Talvez, pensou, fosse melhor ir-se embora, e esquecer o que viu. Mas tinha de entrar na casa noturna, e conhecer a verdade. Não podia se recusar a fazê-lo. Com as pernas trêmulas, foi até a portaria, enfiou a mão direita no bolso da calça, retirou a carteira, da carteira tirou uma nota de cem reais, e pagou pela entrada. Enfiou a carteira no bolso da calça, e encaminhou-se à porta. O segurança, um homenzarrão hercúleo de nariz achatado, cabelos rentes à cabeça, sobrancelhas debruçadas sobre os olhos, transmitia, com a força de sua expressão impassível, poder, como se fosse dotado de força capaz de trucidar um exército empunhando, unicamente, um osso de um javali.

Paulo entrou na casa noturna, misturou-se à multidão, esquadrinhou o salão. Do teto lâmpadas caleidoscópicas preenchiam, com a luz multicolorida, o salão repleto de gente eufórica, que dançava, ou ensaiava uma dança. Andou, vagarosamente, entre as pessoas, observando-as, avaliando-as. Havia pessoas de aspecto repulsivo, outras, atraente. Dentre as mulheres, muitas vergavam roupas provocantes, que lhes sublimavam a formosura, a exuberância do porte, salientavam-lhe os atrativos, e remexiam-se, voluptuosamente, atraindo os olhares e despertando o interesse dos faunos. Procurou por Gislaine durante quase uma hora. Mulheres abordaram-no, e propuseram-lhe uma noite de aventuras inesquecíveis. Esfregaram-se-lhe ao corpo as mais desinibidas. Certo de que Gislaine não se encontrava no salão, Paulo desistiu de procurá-la, transpôs o mar de gente, e foi ao balcão, que servia de parapeito para duas mulheres exuberantes, uma branca, loira, outra, negra, ambas espécimes femininas humanas esplendorosas as quais uma horda de faunos vorazes cobiçava. Chamou pelo balconista, que atendia a um homem engravatado, à direita das duas mulheres. Assim que o homem e as duas mulheres retiraram-se, ele enlaçando-as pela cintura, o balconista foi até Paulo.

– Aquele homem – comentou o balconista, apontando o homem e as duas mulheres – é um sujeito de sorte e gosta de aventuras radicais. Espero que ele sobreviva à esta noite, para nos dar lucro. Não temos interesse na morte dele – gargalhou, saudou Paulo, e perguntou-lhe o que desejava.

– Uma belíssima mulher – respondeu Paulo, simulando desinibição. Conteve-se no seu desejo de perguntar por Gislaine e dela apresentar-lhe uma descrição minuciosa caso ele dissesse que não a conhecia. – Aquelas duas mulheres trabalham aqui?

– Sim. A loira é a Barbie. A negra é a Cleópatra, a maravilha de ébano. Ela veio do Egito. Os homens a adoram.

– Elas estarão disponíveis, hoje…

– Não. Hoje, não. O nosso amigo, tu vistes, irá se divertir com elas durante esta noite, se elas não lhe extraírem a energia em vinte minutos. Não sei se ele tem energia para brincar com as duas bonecas até o galo anunciar o dia de amanhã. Talvez ele use uma pílula azul, ou duas, se lhe faltar energia. A Barbie e a Cléo estarão ocupadas durante esta noite… Queres agendar, para outra noite…

– Não. Não. Há muitas mulheres bonitas, como aquelas, para esta noite?

– Para esta noite, não sei se há alguma disponível. As meninas estão realizando as fantasias dos nossos clientes, que são muito criativos. Leram muito Aretino, Sade. Assistiram Tinto Brass.

– Quero uma morena – disse Paulo, cortando-lhe a palavra, com voz amistosa. – Gosto de morenas. Não dispenso as loiras, nem as negras, nem as orientais. Tu poderias verificar, no computador, se há morenas à disposição?

– Como eu te disse, acho que todas as meninas estão trabalhando… É o trabalho delas, tu sabes… E elas são bem remuneradas… Eu, para ganhar o que elas ganham em uma noite, tenho de trabalhar dez anos. Refiro-me às mais requisitadas pelos nossos clientes, que são exigentes e adoram o que de melhor a vida pode oferecer – enquanto falava, acessava os arquivos do computador; assim que concluiu a verificação, voltou-se para Paulo. – Todas as meninas estão trabalhando, hoje. A casa está cheia, como podes ver. Aqui aportam milionários, bilionários e trilionários de todos os quadrantes do universo. Americanos, europeus, japoneses, árabes, africanos. Muitos deles, providos de gostos exóticos (exóticos, segundo eles), exigem a mulher brasileira típica, isto é, provida de um arsenal de deixar todos os marmanjos de queixo caído. Preferência nacional. As morenas são as mais requisitadas. Tu tens de ver como os gringos olham para as meninas. Eles não acreditam no que os olhos lhes mostram. Beliscam-se, os nababos.

– Tu me disseste que poderei agendar…

– Sim. Com a menina que desejares. Como já viste, há a Cleópatra e a Barbie. Há, também, a Brigite, a Marylin, a Mata Hari, que é letal, e a Drunna, a Betty Boop, a Jéssica Rabbit, a Mary Jane, a Joana d’Arc, a Semíramis, a Marquesa dos Santos, a Capitu, a Rainha Vitória, a Gioconda, a Dama das Camélias, a Diana, a Iracema, a Sinhá Moça, a Sophia, e outras meninas, todas capazes de te conduzir para o sétimo céu.

– Eu gostaria de agendar, com uma morena…

– Morena… Alta? Baixa? Magra? Robusta? Há morenas para todos os gostos. Diga-me que tipo de morena preferes, e te direi quem és. Com base no que tu me disseres, com a descrição que tu me fizeres da mulher de tua preferência, consultarei o nosso banco de dados, para ver quais meninas correspondem ao teu gosto.

– Quero uma morena carnuda. Sou carnívoro, sabes? Descendente de índios antropófagos.

– Canibais…

– Exato. De silvícolas…

– Silvícolas…

– Povos das selvas…

– Navi’s?

– Naves!?

– Os azuis magricelas.

– Eles não são canibais. São criaturas idealizadas. A natureza nunca produziu, e nunca há de produzir, seres similares a eles, vivendo em simbiose com a mãe natureza.

– Obra de ficção.

– Sim. Eu me referia aos ameríndios.

– Ameríndios…

– Povos nativos das Américas.

– Américas!? Pensei que existisse apenas uma América.

– Não estamos falando o mesmo idioma.

– Sempre fui péssimo em geografia. Até hoje não sei se a Grécia fica na África ou na Ásia.

– A Grécia fica na Europa.

– Como vês… Geografia não é o meu forte.

– Se tu me apresentares uma morena de encher os olhos; que satisfaça a minha voracidade de silvícola ameríndio antropófago… Tu me entendeste…

– Canibal das florestas das Américas.

– Exatamente, se tu me apresentares uma daquelas belezuras, que me agrade, eu te darei aulas de geografia, e não te cobrarei nem um tostão, e tu jamais esquecerá que a Grécia fica na Ásia.

– Tu me disseste que a Grécia fica na Europa.

– Estás aprendendo.

– Pois, então, professor, digas-me qual é o teu desejo…

– Como eu te disse, sou antropófago. Aprecio carnes. Quanto mais carnes a mulher tem, mais suculenta ela é, e mais satisfará ao meu paladar. Não quero mulheres esqueléticas. Esqueças as que seguem a cartilha da moda. Quero carne. Sonho com uma mulher da minha altura, de olhos azuis, ou verdes. Os olhos verdes cativam-me. E ela tem de ter cabelos lisos compridíssimos, que chegam até a cintura, caídos à frente dos olhos. Gosto de mulheres de cabeleira basta. Tenho as minhas fantasias. Não sou diferente dos outros homens… Deles me distinguo nas preferências. Não sou um sujeito singular, conquanto eu seja provido de certas peculiaridades que raramente se encontram em outro homem… Gosto de mulheres de comissão de frente de bom tamanho; muito grande, não. Bolas de basquete… Não as quero. E tem de ter cintura fina, mas não muito fina; e quadris largos, mas não muito largos, e bunda avantajada, mas não muito avantajada, e lábios carnudos, mas não muito carnudos; e um bom balanceio de quadris.

Paulo fez a descrição de uma mulher que correspondia, em alguns aspectos, com a figura de Gislaine. Tomou o cuidado de não a descrever com exatidão, pois desejava não levantar suspeitas, pois, presumia, o balconista não era um paspalhão como dava a entender; havia, era certo, sido treinado para identificar policiais disfarçados, espiões de outras casas noturnas, cafetões, namorados e maridos ciumentos, pais enraivecidos, e outros promotores de contratempos incontornáveis.

Assim que Paulo encerrou a descrição da mulher que desejava, o balconista consultou o banco de dados, e disse:

– Temos oito meninas que correspondem, com dessemelhanças, à qual tu me descreveste: São morenas, de cabelos compridos, peitos firmes, olhos azuis, umas, verdes, outras… Belíssimas, todas elas. Supimpas! Vieram do paraíso. Escolha, dentre as oito maravilhas, aquela que preferires – e virou-lhe a tela do monitor, e explicou-lhe quais os procedimentos de acesso às informações a respeito das oito beldades. Na tela, as oito fotos – dispostas em duas linhas, quatro em cada uma delas, e sob cada foto, o nome artístico de cada mulher. Sob a segunda foto da segunda linha, um nome: Diana. A foto, para espanto de Paulo, era a de Gislaine. Paulo petrificou-se. Esvaiu-se-lhe a consciência. Conteve-se em seu desejo de agarrar o monitor e quebrá-lo na cabeça do balconista, saltar por sobre o balcão, e moer o balconista de pancadas. Não poderia transparecer nenhum sentimento que não o que coincidia com o de um homem à procura de prazer por uma noite. Para agir com atitude que correspondesse ao do personagem que interpretava, não clicou, de imediato, com o mouse, sobre o ícone associado ao nome Diana. Não queria despertar suspeitas.

– Para conhecer todas elas – repetiu-lhe o balconista -, basta clicar sobre as fotos. Tu acessarás páginas com fotos e vídeos das meninas.

Paulo nada comentou. Simulando seguir as instruções do balconista, clicou, no primeiro ícone, que trazia a foto de Iracema e acessou a página com vinte fotos dela e um vídeo de trinta segundos. Nas fotos, ela aprecia em poses discretas, e não revelava todo o esplendor da sua beleza. Era uma moça de uns vinte e cinco anos, de ar ingênuo – simulado, é provável, para seduzir os clientes. E Paulo assistiu ao vídeo. Iracema era uma mulher esplendorosa. Ao encerrar o exame das fotos e do vídeo de Iracema, Paulo passou para as fotos e o vídeo da segunda mulher, Gioconda; e na sequência, para os da terceira, os da quarta e os da quinta. À medida que se aproximava do ícone de Gislaine, o seu coração acelerava-se. Aos olhos do balconista, a sua atitude concentrada, seus olhos arregalados e o morder de lábios assumiram aspecto comum aos homens impressionados com o que admiravam. Ao fechar a página com as fotos e o vídeo da quinta mulher, Marquesa dos Santos, Paulo conduziu o cursor até o ícone de Diana, e hesitou. Bastaria um clique, e teria acesso a vinte fotos e ao vídeo. Mordeu o lábio inferior. Remoeu os pensamentos. Incapaz de coordená-los, clicou, hesitante, sobre o ícone. Abriu-se uma página. As fotos foram se lhe sucedendo aos olhos. Na tela do computador, vinte fotos de uma prostituta: Gislaine, nua. O que faria agora? Sabia que Gislaine encontrava-se, em um dos quartos, na companhia de um homem. Esmurraria o balconista, exigir-lhe-ia o número e a chave do quarto no qual estava Gislaine? Conteve-se, não sem esforço. Após ver todas as fotos, clicou no ícone do vídeo. Viu Gislaine insinuando-se, numas evoluções acrobáticas felinas, com o seu corpo esplendoroso, a sua graça juvenil, durante trinta segundos. Encerrado o vídeo, pensou em acessá-lo segunda vez. Não o fez, todavia. Fechou a página, e clicou sobre o ícone da sétima (terceira da segunda linha) prostituta, e o álbum de fotos passou diante de seus olhos. Paulo não atentou para nenhuma foto. Acessou o vídeo. Não o assistiu. Seus movimentos eram mecânicos, como os de um autômato. Ao final do vídeo da oitava mulher, Paulo, encerrada a pesquisa, disse que todas as mulheres eram belíssimas. O balconista perguntou-lhe qual a que mais o atraiu. Paulo fingiu olhar para as oito fotos, simulou indecisão, e, por fim, elogiando todas as oito mulheres, declarou que, de todas elas, a que mais o atraía era Diana, e teceu-lhe comentários elogiosos.

– Diana… – disse o balconista, com o olhar… apaixonado, dir-se-ia. Paulo rilhou os dentes, fuzilou-o com o olhar. – Diana… – e suspirou, olhando para o alto, para o vazio. – É uma belezura… Os clientes a adoram. Ela realiza as fantasias de todos eles. Todos eles lhe entreguem a senha da conta bancária. Ela recebe em dólares, em euros. Colares. Pulseiras. Pepitas de ouro. Anéis de diamantes, rubis e esmeraldas.

– Ela é mais bonita do que as outras moças.

– Todas as meninas são belíssimas. Eu gostaria de petiscá-las. Mas… Sou apenas o balconista. Elas cobram fortunas… Se eu tivesse uma conta bancária na Suíça…

– A Diana, tu me disseste, é adorada pelos clientes…

– Para muitos homens, que lhe devotam paixão, ela é uma deusa. Eles a reverenciam, servis. Diana tem muitos homens nas palmas das mãos. Ela estala os dedos, e os ricaços vêm, correndo, e arrojam-se, como cachorrinhos de estimação, aos seus pés, e os lambem, abanando o rabinho, os felizardos. Devotam-lhe obediência canina.

– Ela é poderosa, estou vendo.

– Poderosíssima! E de energia inesgotável. Em uma noite ela atende à três clientes; na outra, cinco. E não se cansa! Exibe, sempre, o esplendor de sua beleza majestosa. Há uns dez dias, seis empresários a contrataram. Divertiram-se com ela, das oito da noite às seis da manhã. Seis homens! Eles foram embora, satisfeitos. Prometeram voltar, e trazer amigos. Imagine o que ocorreu, no quarto. Lá há banheiro de hidromassagem, bebidas, brinquedinhos… Calígula se ruborizaria…

A raiva contida dilacerava o espírito de Paulo, que se esforçava para não transparecer os seus sentimentos.

– A Diana é poderosa – prosseguiu o balconista. – Uma mina de ouro. Uma jazida, pouco explorada, de pedras preciosas. Por hora, ela cobra dez mil reais.

– Dez mil reais?

– Sim. Por hora e por homem. Dos seis empresários, milionários todos eles, ela cobrou, por hora e por homem, trinta mil reais. Faça as contas. Os empresários desembolsaram, sem pestanejar, um milhão e oitocentos mil reais, e ainda presentearam a Diana com um colar de ouro cravejado de rubis e diamantes.

– Não acredito!

– Não acreditas? Pois acredite. Os empresários pagaram em dinheiro vivo. Aqui não entram cheques, nem cartões de crédito, e não assinamos recibo. Os empresários pagariam o dobro, o triplo, se a Diana lhes exigisse. Uma vez, vou te contar… Tu, incrédulo, não acreditas nas deusas. Uma vez, um milionário russo, proprietário de um petrolífero, ofereceu quinhentos mil dólares para a Diana brincar com ele durante uma noite, da meia-noite às seis da manhã. Sabes o que são quinhentos mil dólares? E tu pensas que não pagam o que a Diana pedir? Ela é a nossa melhor profissional. Ela e a Iracema são as melhores. As outras meninas também nos enchem as burras de ouro. Os patrões estão pensando em construir uma igreja, para agradecer a Deus pela beleza das meninas. Deus é generoso. Somos gratos a Ele… Não faremos, como os povos primitivos, sacrifícios de virgens. Não eram os astecas que sacrificavam, em holocausto, milhares de pessoas, todos os anos? Construiremos uma igreja luxuosa. A fortuna amealhada pelas meninas nos permitirá construir uma basílica maior e mais luxuosa do que a de Aparecida. Tu desejas agendar uma noite com a Diana? Ou uma hora? Ou duas horas? Vamos ao computador. A Diana é muito requisitada…

Paulo e o balconista conversaram durante um bom tempo. Paulo disse que o preço a pagar pelos serviços das ‘santinhas’ não estava ao alcance de seu bolso. O balconista, jocoso, disse-lhe que ele poderia abater no imposto de renda, incluir o pagamento à Diana no campo das despesas médicas, pois ela, um santo remédio, previne complicações cardíacas, respiratórias, acne e caspa, além de outros benefícios.

Paulo despediu-se do balconista.

No carro, ao volante, lágrimas encheram-lhe os olhos, e tremeram-lhe os lábios. Segurou o volante, curvou-se, nele pousou a cabeça, e cerrou as pálpebras. Lá permaneceu, até o flanelinha tocar, com o nó do dedo indicador direito, na janela do carro. Paulo, disfarçando seus gestos, removeu as lágrimas dos olhos, e desceu a janela; o flanelinha perguntou-lhe se ele não se sentia bem. Paulo disse-lhe, numa voz sussurrada, quase inaudível, que estava um pouco cansado.

– Se precisar, doutor, me chame – disse o flanelinha, solícito. – Às suas ordens…

Paulo agradeceu. O flanelinha afastou-se. Agora ele sabia como Gislaine conseguira dinheiro para comprar dois carros e uma casa. Um carro custava cinquenta mil reais, o outro, oitenta mil reais; a casa, quinhentos mil reais. Era muito o dinheiro que entrava na conta bancária de Gislaine, e em tão pouco tempo. Paulo de nada desconfiava. Como podia ser tão ingênuo! Paulo perguntou-se quantos amigos de Gislaine e quantos amigos dele eram clientes dela, e quantas amigas dela trabalhavam na Prazer Virtual, e se amigas dela – dentre as que ela lhe apresentou, Gisele, Daniela, Rosângela, Denise, Tábata, Tamíris – são prostitutas contratadas pela Prazer Virtual. Não reconheceu, nas fotos das moças que viu, nenhuma das amigas de Gislaine, mas ficou com a sensação, indefinível, de que a Barbie não lhe era desconhecida. E ela o fitou de um modo que, agora Paulo compreendia, era o de uma pessoa que o conhecia, que dele zombava, ao mesmo tempo que temia que ele encontrasse Gislaine na Prazer Virtual. Em retrospectiva, era isso o que Paulo pensou haver visto em Barbie. Cobriu os olhos com as mãos, os cotovelos fincados no volante. O que faria, agora? Espancaria Gislaine? Roia-se de ódio. No dia seguinte, assim que a encontrasse, pensou, agarrá-la-ia pelo pescoço, e a sufocaria. Agarrá-la-ia pelos braços, arrastá-la-ia até um terreno baldio, rasgar-lhe-ia as roupas, a estupraria, vingando-se, assim, dela; ou contrataria uma prostituta, e com ela manteria o intercurso carnal, na própria cama, para que Gislaine os surpreendesse; ou contrataria um homem para estuprar Gislaine, enquanto ele, Paulo, assistiria ao estupro; ou permaneceria, no carro, até Gislaine retirar-se da casa noturna, segui-la-ia até a casa dela, e, lá, dir-lhe-ia que a vira na Prazer Virtual. Sua mente estilhaçou-se em bilhões de partículas. Tremeram-lhe as pernas. Lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos, e escorreram-se-lhe pelo rosto. Os lábios se lhe tremeram. Os músculos se lhe crisparam. Rilhava os dentes. Bufava.

Ligou o carro após duas horas imerso em lucubrações, pensamentos homicidas a lhe acossarem a mente, indagando-se se enlouqueceria.

Sob orientações do flanelinha, manobrou o carro, cuidadosamente, entre os dois carros que o espremiam naquele espaço reduzido. Dirigiu até a sua casa. Deixou o carro na garagem. Entrou na casa; não fechou a porta. A debulhar-se em lágrimas, jogou-se na cama. Chorou convulsivamente. Tremia. Estava certo de que a sua vida encerrava-se naquele momento. O mundo havia se lhe desabado sobre a cabeça. Pensou em pegar de um revólver, e atirar ou na boca, ou na têmpora. O sono surpreendeu-o, estirado na cama, da qual ele se retirou, na manhã seguinte, sob o esgoelar estridente do despertador. Banhou-se. Bebeu de um copo de café. Comeu duas bolachas de maisena. E foi-se para a Global Indústria e Comércio. Na caixa de mensagens do seu telefone celular, duas mensagens de Gislaine. Não as acessou. Pensou em instalar uma câmara oculta num dos quartos da Prazer Virtual e gravar um vídeo de Gislaine, na cama, com outro homem, e, depois, exibir o vídeo para o pai e a mãe de Gislaine, ou postá-lo na internet. Meneou a cabeça. Sorriu. Não sabia se afugentava tais pensamentos de si, ou se, com o auxílio de uma das ‘profissionais’ da Prazer Virtual, executava o seu projeto. Era certo que algumas delas eram desafetas de Gislaine, e aceitariam, de bom grado, sem remuneração, uma incumbência que a prejudicasse, e a eliminasse. Se Gislaine era, como disse o balconista, tão requisitada pelos clientes, é certo que as outras ‘meninas’ cobiçavam os milionários que ela agradava. Não seria difícil persuadir uma delas a participar de tal atividade. Não teria, acreditava Paulo, nenhuma dificuldade para reunir umas dez ‘meninas’, maquinar o projeto, pô-lo em execução em poucos dias, e expor Gislaine à irrisão pública. Imaginou o constrangimento dela diante dos próprios pais, e de outros familiares, todos assistindo ao vídeo.

No almoço, no restaurante **, Paulo, cabisbaixo, sozinho, à mesa, cortava um bife de alcatra. Renato deu-lhe um tapinha nas costas; ia acertar-lhe um tapa na cabeça, mas, ao vê-lo levar, com o garfo, o pedaço de bife à boca, recuou em seu propósito. Paulo voltou-se, assim que cerrou a boca ao prender o bife entre os dentes, para ele, e saudou-o. Renato puxou uma cadeira, sentou-se, fitou Paulo, cuja figura, consumida pelo sofrimento, revelou-se-lhe aos olhos, e indagou-lhe o que lhe sucedera. Paulo abaixou a cabeça. Renato anunciou a chegada de Gustavo, e Márcio, um amigo de Gustavo. Saudaram-se. Márcio, convidado, por Renato, a sentar-se na cadeira desocupada, de frente para Paulo, recuou do convite, desejou-lhes bom apetite, disse-lhes que já se fartara, no restaurante vizinho, anunciou a sua ida até a loja de dvds. Aproveitaria os minutos que lhe restavam de descanso, e procuraria pelo filme Era uma vez no Oeste, e, para Adriana, sua filha, os desenhos animados Aladim, Toy Story e Pequena Sereia, e retirou-se.

Gustavo, à saída de Márcio, voltou a sua atenção para Paulo, cujo olhar, perdido, e cuja fisionomia, entristecida, não lhe passaram despercebidos.

Entreolharam-se Renato e Gustavo, intrigados.

O garçom aproximou-se da mesa à qual estavam Renato, Paulo e Gustavo. Com uma caneta esferográfica azul, anotou, num pequeno bloco de papel que cabia na palma de sua mão, o pedido que eles lhe fizeram. Assim que ele se retirou, reinou, àquela mesa, silêncio constrangedor. Renato rompeu o silêncio ao dirigir-se a Paulo: indagou-lhe o que lhe ocorrera, disse-lhe que a aparência dele era de causar repulsa, perguntou-lhe do namoro dele com a Gislaine, e completou:

– Seja bem-vindo ao time dos solteiros.

Seu chiste extraiu um sorriso contido de Gustavo e nenhuma reação de Paulo, que moía um pedaço de bife e remoía os pensamentos. Paulo, ensimesmado, perguntava-se se inteiraria Gustavo e Renato do sucedido na véspera. Expôr-se-lhes-ia, se lhes revelasse a sua miséria? Gustavo e Renato eram seus amigos. Gustavo lhe falara, sem reservas, do rompimento do seu namoro com Camila – não foi fiel aos eventos, como indicavam as notícias que a Paulo chegaram, mas ele não lhe ocultara o que sentia; Renato também não lhe ocultara o seu caso com Juliana. Paulo, agora, abrir-se-ia para com eles? A vergonha impedia-o de fazê-lo. O que lhes diria? Que Gislaine era uma prostituta? De cabeça abaixada, debruçado sobre o prato, conservou silêncio imperial durante um bom tempo. Renato e Gustavo, enquanto degustavam do almoço, falavam de futebol, não com a extroversão habitual; descreveram, lacônicos, numa voz monótona, algumas cenas de jogos que mais lhe atraíram a atenção. A atitude deles não passou despercebida de Paulo, que, constrangido, deu início à narrativa, repleta de reticências, recuos, cortes abruptos, dos eventos da véspera. Renato e Gustavo dedicaram-lhe, em silêncio absoluto, atenção integral.

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