As surpresas que o amor reserva – parte 4 de 5

– Diana, a cada dia que passa, tu conquistas novos admiradores – disse-lhe Ronaldo, proprietário da Prazer Virtual, homem de cabelos grisalhos, na altura dos seus sessenta anos, esbelto e charmoso. A sua pele não indicava a sua idade. – Tu és a rainha da casa. És a imperatriz. Um príncipe já viveu uma noite contigo…

– Um príncipe que não era encantado – respondeu Gislaine. – Um príncipe desencantado. Ele é feio, e não cheira bem. Ele é um sapo, Ronaldo.

– É um sapo, mas não deixa de ser um príncipe. O porte dele, imperial. Não… Principesco.

– Não se parece com os príncipes dos filmes.

– Quem tu querias? Hollywood, quando quer enaltecer a realeza, contrata um galã para representar o príncipe. O galã nem sempre é bonitão como diz a fama… Isso não vem ao caso. São galãs, para todos os efeitos. E põem-se efeitos… especiais. Não podemos nos esquecer, Diana, que o príncipe, que é um sapo, desembolsou uma fortuna por ti. Em ouro. Convertido em moeda sonante… um milhão de reais. Nenhuma outra das minhas princesas ganhou tanto. Nem a Barbie; nem a Mata-Hari.

– Ronaldo, ou eu me engano… Se te conheço bem, tu queres falar-me de outra coisa…

– Sim, Diana, sim. É que… É tão engraçado…

– Conte-me a piada.

– Não é uma piada. Neste mundo há tanta gente estranha, que me pergunto se os humanos padecemos de insanidade crônica.

– Estou esperando pela notícia.

– Notícia que não está no gibi. Ou está? É surreal, Diana. Já vi coisas mais estranhas; engraçada, não.

– Estou esperando…

– Imagines… Sabes da novidade? Um ricaço esteve aqui, esta noite, e consultou os nossos arquivos. Te viste, e se apaixonou por ti. Não foi o primeiro; e não será o último a sucumbir à tua beleza. Ele te quer. Tu realizarás a fantasia dele.

– Ele não é sádico, nem masoquista, é?

– Não. Ele é… Como direi? Excêntrico.

– Excêntrico!?

– Não te preocupes. Ele joga no time dos mocinhos. Ele nos pediu discrição. É casado, tem dois filhos, ama a esposa, segundo ele… Ele não quer se expor. Se a aventura dele alcançar os ouvidos da esposa, ela entrará com o processo de divórcio e reduzir-lhe-á o patrimônio à metade. Honorários advocatícios… Tu sabes… Aquela papelada. Resumindo, para não me estender… Não faz sentido o que eu disse. O nosso homem, Diana, teu admirador, casado, com a cumplicidade do motorista, que não abrirá o bico, nem sob tortura, pois não quer perder a boquinha, veio à nossa casa de bons costumes, apaixonou-se por ti, e agendou uma noite contigo. Esta noite. Ele te surpreenderá.

– Quanto mistério. Sinto-me a protagonista de um filme de suspense.

– O nosso homem…

– Aceitas um conselho, Ronaldo: Pare de dizer ‘o nosso homem’. Dá a entender que…

– Tu sabes em que time jogo. O nosso homem está no teu quarto, esperando por ti. Ele é o paladino da justiça, o vingador da noite, o defensor dos fracos e dos oprimidos, aguerrido noctívago, que saltou das páginas dos gibis para passar horas de prazer contigo: Ele é um super-herói.

– O quê? – perguntou Gislaine, gargalhando. – Que brincadeira…

– Não é brincadeira, não. O nosso super-herói está, no quarto, à tua espera, Lois Lane.

– E quem é o meu super-herói? Espere. Se eu sou a Lois Lane, ele é o único sobrevivente de Krypton.

– Ele não é o Superman. Ele é o Batman, o homem-morcego, o cavaleiro das trevas, o cavalheiro das trevas, o playboy perdulário, o filantropo…

– Batman! – Gislaine gargalhou. – É uma piada.

– Ele me disse que o super-herói predileto dele é o Superman, mas, como o filho de Jor-El não usa máscara, ele assumiu a persona do Batman, o temido cavaleiro das trevas, super-herói hematófago.

– Mas… Ronaldo, a máscara do Batman não cobre os lábios e o queixo.

– Tu és perspicaz. Não sei que modelo de máscara ele vai usar. Talvez seja uma daquelas máscaras que cobrem todo o corpo, dos pés à cabeça.

– Tu lhe perguntaste por que ele não se fantasiou de Homem-Aranha, ou de outro super-herói.

– Perguntei-lhe, sim, Diana. Tu aprecias essas… esses detalhes, essas informações… Falei-lhe do Homem-Aranha… Spiderman, dizem os jovens… e do Fantasma. Mas o nosso homem prefere o Batman, que é misterioso. E ele não dispensou nem a capa, nem o cinto de utilidades. Imagines o que há no cinto de utilidades… Diana, o nosso super-herói desembolsou uma nota preta… Cinquenta mil reais por duas horas. Duas horas é o tempo que tu tens para sugar-lhe as energias vinte vezes. Agrade-o, e ele retornará, com os bolsos cheios de dinheiro. Ah! Esquecia-me. Vê essa caixa… Pegue-a.

– O que tem aqui? – perguntou Gislaine, excitada pela curiosidade.

– A tua fantasia.

– A minha fantasia!?

– O nosso super-herói nos fez uma exigência: Quer que tu uses a fantasia que está nessa caixa: a da Mulher-Maravilha.

– Ufa! Eu estava preocupada… Pensei que fosse uma fantasia do Robin – comentou Gislaine. Ela e Ronaldo gargalharam.

– E ele quer que tu lhe faças um strip-tease, e o enlace com o cordão… Como ele me disse? Cordão da sinceridade. Da verdade. Não sei. E comece o strip-tease pelas botas. Ah! Não tires a máscara do teu super-herói. O nosso homem misterioso não quer que tu lha removas.

Gislaine meneou a cabeça, e sorriu. Ela e Ronaldo gargalharam.

– Agrade-o. Ele disse que virá, se tu agradá-lo, em outros finais de semana, e pagará cinquenta mil reais por hora.

– Na cama, comando a festa – disse Gislaine, que pegou a caixa com a fantasia da Mulher-Maravilha, deu meia-volta e foi preparar-se para a diversão com o seu super-herói.

Durante duas horas, Mulher-Maravilha e Batman digladiaram-se até exaurirem-se as energias, e sucumbirem, exaustos. Batman, um reles humano, não foi páreo para a deusa grega, que lhe sugou toda a energia. O super-herói prometeu visitá-la em outro final de semana; elogiou-lhe a beleza, despediu-se dela, e foi-se embora, renovando os elogios e a promessa de outras aventuras. Gislaine, sob o chuveiro, banhou-se; e enquanto preparava-se para receber outro cliente, perguntava-se quem era o homem sob a máscara.

*

Paulo evitou Gislaine o quanto pôde. Inventou compromissos para os raros minutos durante os quais as horas de folga deles coincidiam, à manhã e à tarde. Falavam-se apenas ao telefone. Paulo não sabia o que lhe diria se com ela se encontrasse. Amava-a; mas a perdoaria? Nos dias seguintes, apático, cabisbaixo, executou, mecanicamente, o seu trabalho.

Além de se ocupar de pensamentos relacionados a Gislaine, atormentou-se com outros pensamentos: diziam respeito ao comportamento de Gustavo e Renato. Não ignorava os olhares cobiçosos deles desde o dia que lhes apresentou Gislaine, que, formosa, morena de pele acetinada, pródiga de atrativos, atraiu-lhes a atenção; agora, ambos estão descompromissados. Renato divorciou-se de Juliana; Gustavo rompeu o namoro com Camila. Ambos sabem que Gislaine é uma das ‘meninas’ da Prazer Virtual. Gustavo, após o rompimento do namoro com Camila, mergulhou, de cabeça, na promiscuidade e no desregramento, e contratou serviços de prostitutas. Agora, sabedor da profissão de Gislaine, ele foi até a Prazer Virtual? E Renato, divorciado, certo de que poderia contratar os serviços de Gislaine, foi à Prazer Virtual? Ambos sabiam que Gislaine jamais falaria a respeito. Paulo remoeu tais pensamentos. Renato e Gustavo o traíram, ou o trairiam? Renato, ciente de que Paulo sofria, foi, ou iria, à Prazer Virtual? Renato era extrovertido, nunca lhe faltara com o respeito. E Gustavo, que rompeu o namoro com Camila? Ele vivia na promiscuidade, no desregramento, numa vida de dissipação. Atraiçoaria Paulo? Renato e Gustavo talvez sopesassem os seus desejos e a amizade de Paulo. Satisfariam o prazer, que Gislaine poderia lhes oferecer, ou respeitariam Paulo? Paulo acreditava que Renato e Gustavo viviam tal dilema. Eles, perguntava-se Paulo, faltar-lhe-iam com o respeito, para satisfazerem desejo irrefreável?

O que diria para Gislaine, ao se encontrar com ela? Não poderia evitá-la, todos os dias. Teria de falar com ela, algum dia. A raiva arrasava-o sempre que pensava em Gislaine. Desejava matá-la. Primeiro, iria surrá-la. Meneava a cabeça, sustentava-a com as mãos. Tais pensamentos, recorrentes, devastavam-no.

Paulo não podia evitar Gislaine, indefinidamente. Naquele dia, na empresa, dela recebeu um telefonema:

– Tu já almoçaste? – perguntou-lhe Gislaine.

– Não.

– Ótimo. Estou, aqui, no Garfo de Ouro. Espero por ti.

O coração de Paulo bateu acelerado. Paulo emudeceu.

– Paulo, tu me ouves?

– Sim.

– Espero por ti. Que horas sairás daí?

– Daqui a pouco.

– Queres que eu peça para ti o teu almoço?

– Não. Eu… Eu… Estarei aí daqui a pouco, e pedirei… Não estou com fome…

– Mas terás fome assim que chegares aqui. Espero por ti, querido. Um beijo.

Encerrada a ligação telefônica, Paulo sentiu os pés enraizados no chão, o corpo petrificado e a respiração suspensa. Sabia que não poderia evitar o encontro com Gislaine. Teria de olhá-la nos olhos. O que lhe diria? As pernas bambearam ao se levantar. Sentou-se. Fincou os cotovelos na mesa, curvou-se, e a cabeça pendeu como um bloco sobre as palmas das mãos abertas. Respirou profundamente. Soltou, com força, o ar dos pulmões. Massageou o rosto. Empinou-se. Ao encosto da cadeira, fincou o cotovelo direito no braço da cadeira, inclinou-se para a direita, com a mão sustentou a cabeça, e cerrou as pálpebras.

– Paulo, sente-te bem? – perguntou-lhe Gisele, uma funcionária, que entrou, naquele momento, na sala.

– Sim – disse Paulo ao erguer a cabeça e descerrar as pálpebras. – Sim. Eu pensava com os meus botões.

– Tu estás pálido. O que houve?

– Preocupações. Assuntos familiares.

– A família sempre nos dá preocupações – sentenciou Gisele, que se afastou, pontilhando os passos com o salto alto.

Com as pálpebras cerradas, Paulo encheu de ar os pulmões, e esvaziou-os pelo nariz. Entrelaçou os dedos das mãos, e estendeu os braços para o alto, mantendo a cabeça entre eles, espreguiçou-se e empinou o corpo. Na sequência, fincou os cotovelos na mesa, abaixou a cabeça, passou as mãos pelo rosto, encheu os pulmões de ar com um forte hausto, e expirou. Descerrou as pálpebras. Levantou-se. Empurrou a cadeira para trás. Com fisionomia carregada, andou até o elevador. Desceu ao térreo. Em completo silêncio, andou pelo saguão, atravessou a rua, e, com o coração aos pinotes, entrou no restaurante. Relanceou o olhar. Vislumbrou Gislaine, à mesa, levando à boca um copo de líquido transparente. Coçou o queixo, mordeu o lábio superior, coçou a testa, passeou as mãos pelo rosto, e andou na direção de Gislaine. Seu coração estrondejava. Sua mente, um turbilhão de pensamentos, que o avassalavam. Estava a dois passos de Gislaine quando ela se virou na direção dele. Ela sorriu. Paulo emudeceu. Gislaine trajava um vestido azul claro deslumbrante. O penteado dela sublimava-lhe a beleza dos cabelos; os lábios carnudos estavam realçados com batons escarlates.

– Feliz aniversário, querido.

Aniversário? Paulo esquecera-se do seu aniversário natalício.

Gislaine pousou-lhe no rosto as mãos e beijou-o nos lábios.

– Esqueceste que hoje é o teu aniversário?

O rosto de Paulo respondeu-lhe à pergunta.

– Esqueceste do teu aniversário – disse Gislaine, sorrindo. – Tonto. Senta-te. Almoçaremos… Como não poderemos nos encontrar à noite, fiz esta surpresa para ti. Há dias que quero almoçar contigo, mas tu estavas muito ocupado. Passou-me pela cabeça que tu me evitaste. Tu esqueceste do teu aniversário… Senta-te, Paulo. O que tu esperas? Queres que eu te empurre para a cadeira? Senta-te, tonto.

Paulo sentou-se à mesa. Sorria, confuso. Fitou Gislaine, fascinado. Pensou em lhe falar a respeito do que soubera, mas as palavras engasgaram-se-lhe no esôfago.

O almoço prolongou-se por duas horas. Paulo e Gislaine falaram do trabalho. Gislaine falou-lhe dos clientes indianos que atendera, dos produtos que vendera, da grosseria de alguns clientes, da simpatia de outros, de como era fácil agradar alguns clientes, e difícil agradar outros. As suas palavras assumiam, aos ouvidos de Paulo, um sentido diferente daquele que ela pretendia lhes emprestar. Ela empregou um expediente eficaz: falar dos clientes; todos os clientes são, uns, exigentes, outros, simpáticos, outros, ranzinzas, outros, extrovertidos, outros sugestionáveis. Gislaine não recuou ante nenhuma pergunta que Paulo lhe fez. As respostas saíam-lhe da boca, fáceis demais, pensava Paulo, enquanto a ouvia. Paulo procurava, na conversa, por uma brecha pela qual inserir o relato que, em pensamento, contava e recontava para si, mas não a encontrava, ou a encontrava, e contornava-a, em sua incerteza, incapaz de se decidir se falava para Gislaine a respeito da ‘profissão’ dela, ou se se calava a respeito. Calou-se.

Encerrado o almoço, à porta do restaurante, despediram-se. Gislaine desejou uma ótima tarde de trabalho a Paulo e pediu-lhe que ele lha desejasse uma ótima tarde de sono. Ele a desejou. Beijaram-se, apaixonadamente. No beijo, Paulo identificou um sabor indefinível, indescritível, que jamais havia experimentado.

Gislaine afastou-se, andando por entre a multidão. Muitos homens a fitaram. Paulo cerrou as pálpebras, meneou a cabeça, os braços ladeando o corpo, o tronco caído. Lágrimas se lhe afloraram aos olhos. Os lábios e o queixo se lhe tremeram. Cerrou os punhos. Rilhou os dentes. Franziu a testa. Comprimiu as pálpebras. Descerrou as pálpebras. Atravessou a rua. Foi ao prédio da Global Indústria e Comércio. Subiu até o 7º andar, de elevador, e mergulhou, de cabeça, no trabalho, para afugentar de si os pensamentos incômodos.

*

À frente da casa de Paulo, Gustavo convidou Paulo para um jogo de futebol, a se realizar dali duas semanas, no Campo do Quebra-Canela. Paulo ia recusar o convite; preparava as desculpas, quando Gislaine apareceu em seu campo de visão. Fitou-a. Ela lhe acenou. Gustavo voltou-se para ela. Boquiabriu-se ao vê-la. Seu coração vibrou, descompassado. Mordeu o lábio superior e desviou o olhar para, logo em seguida, olhar para Paulo. Entreolharam-se Paulo e Gustavo.

– Oi, querido – e Gislaine ofereceu seus lábios a Paulo, que os beijou, sob o olhar de Gustavo. Em seguida, ofereceu a face direita a Gustavo, que a beijou. – A respeito do que os meninos conversavam?

– Vim convidar o Paulo para um jogo de futebol, mas ele, parece-me, não aceitará o convite.

– Vá com ele, Paulo – disse-lhe Gislaine.

– O jogo não será hoje – respondeu Gustavo, antecipando-se a Paulo. – Será daqui duas semanas. Tenho de formar o time com uma semana de antecedência. O Carlos, o Denílson, o Wanderley, o Edson, o Rodrigo e o Renato aceitaram o convite.

– Com o Paulo, oito – disse Gislaine, ao enlaçar Paulo pela cintura, e beijá-lo no rosto. – Paulo, tu precisas se distrair – disse-lhe, fitando-o. – Tu trabalhas demais. Estás desanimado, triste – neste momento, Paulo e Gustavo entreolharam-se; voltando-se para Gustavo, Gislaine disse-lhe. – Ele está triste, não está, Gustavo? – e voltou-se para Paulo. – Olha o rostinho dele. Tão tristezinho – enlaçou-o pelo pescoço, e beijou-o nos lábios.

Gislaine disse-lhes que ia beber um copo de café-com-leite e comer algumas bolachinhas, pediu-lhes licença, e entrou na casa. Paulo e Gustavo permaneceram à porta. Paulo pediu-lhe que entrasse. Gustavo aceitou o convite. Estavam na varanda quando ouviram a voz de Renato. Estacaram.

– Caros colegas – saudou-os Renato. – Que dia maravilhoso. Realizei, hoje, um dos meus sonhos da juventude: Comprei uma bicicleta.

– Agora tu és um agente preservacionista, não-poluidor, um ecologista, e não quer poluir a Terra… – comentou Gustavo, sorrindo, mas Renato o interrompeu.

– Que papo furado, Gustavo – disse Renato. – Comprei a bicicleta porque a Juliana é a dona do carro. O carro é dela. Além disso, preciso perder as gordurinhas da barriga; elas são obscenas. Um pouco de malhação não faz mal a ninguém.

– E a Terra? – perguntou-lhe Gustavo. – Pensei que tu tivesses consciência ecológica. Pedalar uma bike e não poluir…

– A produção de bicicletas é uma atividade poluidora – sentenciou Renato. – As fábricas de bicicletas poluem a atmosfera e os rios. Quem foi que disse que as bicicletas são o melhor meio de locomoção? Monte uma bike e vá daqui até Brasília. Não precisa ir tão longe. Vá daqui até São Paulo. Ao chegar lá, a bicicleta estará em pandarecos, e tu, se estiver sobre ela, terás perdido cinquenta quilos e se transformado num esqueleto. O mais provável é que, ao chegar lá, se chegar lá, tu estejas carregando a bicicleta nas costas. E as peças de reposição? A produção delas não é uma atividade poluidora? As borrachas dos pneus, fragmentando-se, não poluem rios e lagos? E os esqueletos de bicicletas jogadas por aí…

– Tu não queres que a Terra viva – comentou Gustavo. – A Terra é a mãe Gaia, generosa e protetora.

– Se não te conhecesse, eu acreditaria que tu acreditas nessas baboseiras – disse Renato. – Gaia generosa e protetora! Asneira das grossas! Diga isso para um coelho que está nas garras de uma águia, ou para um rato que está na goela de uma serpente, ou para um gnu que está sendo trucidado por um leão, ou para um pingüim que foi abocanhado por uma baleia. Gaia protetora! Gaia generosa! Tu não és tão idiota quanto pensas que és.

Enquanto conversavam, entravam na casa Renato deixou a bicicleta – a magrela, nas palavras dele – na garagem, ao lado do carro de Paulo. Na casa, Renato saudou Gislaine, com um beijo no rosto. Quando Gislaine disse-lhe que não o via há dias, disse-lhe:

– Tu não me viste, mas eu te vi, dias atrás – e entraram a falar de eventos dos dias anteriores.

Paulo ficou intrigado com as palavras de Renato; notou que ele tratava Gislaine com desembaraço incomum; com ela Renato sempre agira com reserva; a beleza de Gislaine o intimidava; agora, ele, atrevido, gracejava, e assumia liberdade que, no trato com Gislaine, jamais tinha assumido. Intrigado, estudou-os; não deixou escapar de si nenhum dos movimentos deles, tampouco os de Gustavo, cujo comportamento contrastava com o de Renato. O olhar de Gustavo ia de Renato para Gislaine, de Gislaine para Renato; aos olhos de Paulo, Gustavo não apreciava a intimidade que Renato e Gislaine exibiam.

Beberam do café que Gislaine ofereceu-lhes. Como Paulo estava calado e Gustavo ensimesmado, Renato conduziu a conversa para a direção que quis.

Gislaine perguntou para Paulo se ele queria ir a um restaurante – ele disse-lhe que sim. E convidou Renato e Gustavo, e ambos declinaram do convite. Gislaine renovou-o. Eles, irredutíveis, disseram-lhe que tinham outro compromisso.

Renato e Gustavo despediram-se de Paulo e Gislaine.

A cem metros da casa de Paulo, Gustavo perguntou para Renato:

– O que há entre tu e a Gislaine?

– Entre eu e a Gislaine?

– Tu e ela conversaram, tão animados, tão felizes.

– Não há nada entre eu e ela.

– Tu não viste o Paulo, calado, triste…

– Vi. Eu quis animar, alegrar…

– Quanto mais tu e a Gislaine falavam, mais o Paulo afundava-se.

– Percebi que o Paulo está triste. Admira-me ele não haver dado um chute na Gislaine…

– É isso o que tu queres, não é?

– O que tu queres que eu queira? A Gislaine é uma das ‘meninas’ da Prazer Virtual. Ela mente, descaradamente, para o Paulo, que se definha a olhos vistos. Estou preocupado com ele.

– Queres que ele dispense a Gislaine, para tu a agarrares.

– O quê? Que tolice, Gustavo.

– Tolice, vi o jeito que tu olhaste para ela. Desconfio que tu nem esperaste o Paulo dar fim ao namoro, e foste até a Prazer Virtual…

– O quê! Não completes a frase. Não se julga um amigo com tal leviandade.

– Tu e a Gislaine pareceram-me muito íntimos, e também aos olhos do Paulo.

– Paulo e eu somos amigos. Estou feliz, hoje. Acordei com o pé direito, e quero extravasar a minha felicidade. O Paulo está triste, calado, taciturno. Tu, sorumbático. A única pessoa alegre, além de mim, lá, na casa do Paulo, era a Gislaine. Daí nos entendermos, hoje. Como eu disse, não entendo o que o Paulo pensa a respeito do namoro dele com a Gislaine. Se ele não o deu por encerrado… Teve um bom motivo. Qual motivo? Se ele não falou para a Gislaine, e não falou, estou certo, a respeito do que descobriu, ele está… Não sei o que ele está pensando. Desejo que ele tome a decisão certa.

– Que é mandar a Gislaine ir-se embora, escafeder-se.

– Sim. É a melhor decisão a se tomar; todavia, como eu disse, não sei o que se passa na cabeça do Paulo. Espero que ele não cometa nenhum crime.

– Matar a Gislaine?

– Nesta altura do campeonato…

– Diga-me, Renato…

– Ouça-me, Gustavo. Não sei o que se passa pela tua cabeça. Não preciso recapitular a tua vida nos últimos meses. A tua conduta, tu sabes, e melhor do que eu, é reprovável, e tu, sou sincero, perdeste certos escrúpulos; além disso, hoje, na casa do Paulo, tu te conservaste calado, provoquei-te, para ver se tu abandonavas o teu mutismo, que me dava nos nervos. Tu me olhavas como se me desejasse dilacerar. Incomodou-me a tua atitude. Pareceu-me, até, que tu estavas enciumado, e ainda está. Faço, para ti, a pergunta que tu me fizeste. Tu foste à Prazer Virtual? Ora, Gustavo, nós sabemos que sentimos atração pela Gislaine, mas, dar uma facada no Paulo pelas costas…

Gustavo abaixou a cabeça, desviou o olhar, e despediu-se, com rispidez, de Renato, que, com o olhar, acompanhou-o afastando-se de si e, assim que ele dobrou a esquina, montou na bicicleta, e pedalou até a sua casa.

Nos quatro meses seguintes, em alguns finais de semana, ou em qualquer outro dia da semana, Gislaine, Mulher-Maravilha personificada, acolheu, aos seus braços, o cliente que personificava o Batman. Tal cliente, que exigia Diana, sempre, e recusava as outras ‘meninas’, excitou a curiosidade de Ronaldo e a de Gislaine. Por que ele fazia questão de ficar com ela e recusava as outras ‘meninas’? perguntavam-se. Foram-lhe oferecidas Barbie, Mata-Hari, Marilyn, Brigite, Cleópatra. Ele as recusou. Ele, obcecado pela Diana, poderia vir a causar problemas para a casa e para Gislaine? Investigaram-no, durante alguns dias. Como ele se comportava com lucidez, e agia com urbanidade, e tratava Gislaine com carinho incomum, e foi compreensivo com ela nas duas ocasiões em que ela, exausta, não se desincumbiu, com a desenvoltura habitual, das suas tarefas, sendo que numa delas ela dormiu durante três horas, e ele não falara a respeito com Ronaldo, que tomou conhecimento do caso pela boca de Gislaine, ficaram cismados, mas não preocupados, convenceram-se de que ele não representava ameaças, embora houvesse uma pulga atrás da orelha de Ronaldo.

Certa noite, o cliente mascarado desembolsou cento e cinqüenta mil reais pelos serviços de Gislaine, por cinco horas – da meia-noite às cinco da manhã. Gislaine desdobrou-se com desenvoltura incomum até mesmo para ela. Divertiu-se. Usufruiu de prazer singular, prazer que ela jamais experimentara. A partir desta noite os seus sentimentos a atormentaram. Ela se via neles imersa, em todos os momentos. Gislaine ofereceu ao seu cliente mascarado três horas de diversão, na casa dela, mas lhe fez uma exigência: que ele não usasse a máscara. Ele recusou o convite; disse-lhe que sua esposa, que já suspeitava das suas atividades noturnas, poderia descobrir o que ele fazia durante as ‘reuniões’. Gislaine não insistiu, afinal, não desejava perder um cliente que lhe enchia as burras de dólares e euros, além de reais – ficou, entretanto, intrigada. Se ele a desejava, e apenas a ela, porque não queria ir à casa dela? Seria ele um homem excêntrico que sentia prazer apenas quando pagava pelos “serviços” de uma mulher? Ele, desde a juventude, à noite, na cama, dormindo, ou acordado, sonhava com a Mulher-Maravilha, e protagonizava, na sua fértil imaginação juvenil, o papel de Batman? E agora ele, homem maduro, realizava o sonho daquele garoto, satisfazendo-o? Gislaine ficou feliz ao se persuadir, durante as suas reflexões, de que não lhe satisfazia apenas aos prazeres do corpo, mas também aos do espírito. Perguntava-se o que se passava consigo e por que via os outros clientes com o rosto do Batman. E por que o seu cliente mascarado recusou o convite que ela lhe fizera? Ele lhe dissera que era casado. Seria um homem que ela conhecia, e temia que ela o reconhecesse? Ele era casado, ou mentia a respeito do seu estado civil, para afastar dela quaisquer suspeitas? Mergulhava nessas cogitações e nelas permanecia imersa por muito tempo, até que outras tarefas lhe absorvessem os pensamentos.

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