As surpresas que o amor reserva – parte 5 de 5

Na sua casa, durante o almoço, Paulo, calado, fitava Gislaine, que estava alheada. O silêncio dela constrangia-o. Gislaine não se interessava pelo que ele lhe dizia; estava ocupada com os seus pensamentos; curvada para a frente, olhava para o prato em cuja comida mal tocara. Por duas vezes, lentamente, sem vontade, enfiou o garfo no prato, e puxou, para a boca, um pouco de arroz e de feijão. Paulo falava-lhe, e a estudava. O rosto dela, inexpressivo, intrigava-o. Também intrigava-o o ar dela, pensativo, de uma pessoa ocupada com pensamentos difusos.

Enfim, Paulo perguntou para Gislaine:

– Vamos marcar a data do nosso casamento?

Gislaine não o ouviu. Paulo chamou-a. Ela não tomou conhecimento do que ele lhe disse.

Paulo degustou da comida. Gislaine raras vezes se dignou dirigir-lhe a palavra. Paulo perguntou-lhe o que a incomodava. Ela lhe disse que estava cansada e que certas coisas no emprego a desgostavam. E ele disse-lhe que ela era muito bem remunerada, e pediu-lhe que contasse o que se sucedia na empresa. Gislaine nada lhe disse.

A atitude de Gislaine atormentava Paulo, que, por duas vezes, iniciou a narração do que sucedera naquele fatídico dia em que soube que ela era uma das prostitutas da Prazer Virtual. Falou da moça de bicicleta, dos entes noctívagos que perambulavam pelas ruas; não lhe deu, no entanto, a localização das ruas; e encerrou o relato ao vê-la calada – não sabia se lhe contava o que era de seu conhecimento, e pedia-lhe explicações. Coçou a cabeça, sem saber o que lhe dizer. Queria cobrar-lhe explicações, queria que ela lhe dissesse a verdade, mas calou-se a respeito. Diante do silêncio dela, imergiu nos próprios pensamentos, e assim se conservou até o fim do almoço.

Nas semanas subseqüentes, Gislaine, não raras vezes, dizia que recebeu aumento de salário, pois, vendedora persuasiva, vendia produtos caríssimos para clientes americanos, alemães, árabes, japoneses, brasileiros e indianos, todos eles milionários. Paulo a ouvia, atentamente, e mordia a língua para não lhe revelar que sabia da verdadeira ‘profissão’ dela e dos ‘serviços’ que ela prestava aos clientes. Certa vez, Paulo e Gislaine passeavam pelo jardim da Praça Oswaldo Cruz. Ao ouvi-la falar do seu desempenho no trabalho e dos clientes que gostavam dela, Paulo sentiu os pêlos crisparem-se-lhe e os músculos contraírem-se-lhe; segurava a mão esquerda de Gislaine; apertou-lha, involuntariamente. Gislaine puxou a mão, não se livrando da de Paulo, e perguntou a Paulo se ele não conhecia modo mais gentil de expressar alegria. Paulo sorriu, e felicitou-a. Gislaine deu-lhe um beijo no rosto. Nos finais de semanas subseqüentes, passearam, pelos parques, e foram ao zoológico, e dançaram nos festivais de músicas populares, e assistiram, no teatro, à representações de peças de Arthur Azevedo, Martins Pena e Shakespeare. Divertiram-se com a Comédia dos Erros; apreciaram-na tanto que, uma semana depois, no penúltimo dia de exibição da peça, assistiram-na segunda vez. Visitaram exposições de esculturas e pinturas modernas – ambos saíam do museu de arte com a sensação de que foram ludibriados, convictos de que tais obras corroíam-lhe a sensibilidade estética e delas nenhuma lembrança preservariam vinte e quatro horas depois, em decorrência da inexistência de quaisquer sentimentos pelas obras inspirados; as obras ‘de arte’, diziam, não os faziam evocar episódios da própria vida, ou capítulos da história da civilização; tais obras ‘de arte’ não estavam associadas a nenhum sentimento; elas os arremessaram no limbo existencial; não lhes provocaram transpiração de sentimentos além dos relacionados aos objetos, não lhes inspiravam sentimentos que os fizessem transcender o corpo; ao contrário, tolheram-lhes o sentimento de maravilhamento. Não pretendiam visitar, mesmo que lhe pagassem, outra exposição de arte moderna – não se disporiam a ver objetos e pinturas destituídas de beleza estética e moral. Tais pinturas e tais esculturas reproduzem eventos históricos? Não. Reproduzem personalidades religiosas, artísticas, literárias, políticas? Não. Reproduzem entidades bíblicas, ou homéricas, ou babilônicas, ou presentes em outro livro sagrado? Não. Representam cenas de batalhas? Não. Reproduzem personagens literários? Não. Cenas famosas dos clássicos da literatura? Não. O que tais esculturas e pinturas reproduzem, então? Nem o vazio reproduzem. Nem o nada reproduzem. Tais pinturas e tais esculturas provocaram-lhe indefinível sensação de desconforto.

Nos passeios, Paulo estreitava Gislaine em amplexos calorosos. Beijava-a, apaixonadamente, no seu vão esforço de esquecer o que dela sabia. Infrutíferos, os artifícios que usou para suprimir da memória as informações concernentes à atividade de Gislaine. Não pretendia submeter-se à lobotomia, tampouco à lavagem cerebral. Teria de viver com o que sabia.

Paulo falou, em outra ocasião, de casamento para Gislaine, com o coração descompassado, perguntando-se porque não lhe contava o que sabia a respeito dela e não dava um fim ao namoro. Gislaine tergiversou, disse que desejava conhecê-lo melhor, apresentou justificativas estapafúrdias para não se casarem, disse-lhe que ainda não chegou o momento para assumirem tal compromisso. Paulo insistiu. Para persuadi-la, disse-lhe que pensava em ter um filho e uma filha, e concebeu, em imaginação, com relatos entusiasmados, para despertar-lhe o instinto maternal, cenas protagonizadas pelas duas crianças imaginárias. Riram. Sorriram. Entreolharam-se. Paulo engasgou, encabulado, após certo tempo. Ao mesmo tempo que descreveu para Gislaine o futuro imaginado, repudiou as próprias palavras e recriminou-se e teve ganas de se golpear com socos, até moer-se. Acreditava, ou queria acreditar, que Gislaine não o traía, que ela apenas executava as tarefas de uma “profissional”, e que ela pretendia amealhar fortuna considerável, e tão logo a conseguisse, abandonaria a prostituição, e se casaria com ele. Incomodava-o, no entanto, a postura dela, distante, conquanto ela se esforçasse para dele ocultá-la.

*

Nas semanas seguintes, Paulo atentou para a conduta arredia de Renato e Gustavo. Evasivos, eles, pareceu-lhe, evitavam-no. Intrigava-o a conduta deles. Nas conversas, eles, ou eram lacônicos, ou tratavam de assuntos referentes ao noticiário televisivo, ao futebol, aos vídeos que assistiram na internet, e, sempre que Paulo referia-se a Gislaine, mudavam de assunto, de um modo tão brusco, que lhe punham uma pulga atrás da orelha.

*

Num dos quartos da Prazer Virtual, abraçados, Gislaine e o seu cliente mascarado conversavam, deitados, na cama. Ela, nua; ele, com a máscara do Batman. Gislaine, nesta noite, reservava-lhe uma surpresa, que o deixaria embasbacado:

– Tenho uma coisa para te dizer, meu herói: Estou apaixonada por ti – as impressões que tal confissão provocou no homem mascarado não passaram despercebidas de Gislaine, que notou a mudança, imperceptível, dos batimentos cardíacos dele, e a dilatação da pupila, e a respiração em suspenso, que ele logo liberou, num movimento lento, que, notou Gislaine, ele se esforçou por controlar.

Assim que ele se recompôs, disse-lhe Gislaine:

– Tu pensas que sou louca. Eu, uma prostituta, apaixonada por um homem que não conheço.

– Não – disse o mascarado. – Não pensei isso. É que… É tão inusitado…

– É loucura…

– Não. Não te envergonhes dos teus sentimentos… Tu me surpreendeste, Diana – disse, gaguejando, quase sem voz. Diante do silêncio de Gislaine, prosseguiu: – Tu és belíssima. Teu corpo, maravilhoso… Sou casado… O sacramento não me impediu de vir aqui, várias vezes…

– Contratar-me…

– Espere, Diana. Não penses mal de mim, tampouco de ti… Tu és uma pessoa maravilhosa.

– Sou uma prostituta.

– Diana…

– Sei o que sou. Sei o que faço. Sei que… – lágrimas encheram-lhe os olhos. – Sei que tu me usas… O que sou para ti? Uma prostituta… – os lábios se lhe tremeram; pousou a mão esquerda na máscara dele, e puxou-a, tímida, hesitante, para removê-la.

– Não! – disse o mascarado. – Não, Diana. Não me tires a máscara.

– Por que não, Bruce? – perguntou Gislaine, aos soluços. – Por que não queres que eu te veja?

– Não quero que me reconheçam…

– Eu te conheço?

– Tu me chamaste de Bruce. Banner ou Wayne?

– Lee – disse Gislaine, e sorriu. Lágrimas escorreram-lhe dos olhos. O mascarado removeu-lhas, carinhosamente, e atraiu a cabeça de Gislaine para si, e Gislaine deitou-a sobre o tórax.

Conservaram-se em silêncio durante alguns minutos. Paulo o rompeu com um comentário:

– Esta máscara te causou forte impacto. De pavor, estou certo.

– De paixão, Bruce. De paixão – disse Gislaine, em tom baixo, como se estivesse encabulada – Estou apaixonada por ti, Bruce…

– Conversarei a respeito com a Mulher-Gato… – e o mascarado sorriu.

A partir deste momento, Gislaine e o mascarado não souberam o que falar um para o outro. Gislaine temia fazer-lhe exigências, as quais, assustando-o, o afugentassem. O mascarado temia feri-la com comentários depreciativos, mesmo que não alimentasse tal propósito, pois ela poderia emprestar às palavras dele significados os quais ele não pensou. Num acordo tácito, ficaram em silêncio. O mascarado despediu-se de Gislaine, às cinco da manhã. Na despedida, os olhares eram repositórios de pensamentos e sentimentos ocultos que leram um nos olhos do outro.

*

Na casa de Paulo, domingo, Gislaine e Paulo, às onze horas da noite, jantaram à luz de velas. Ao fim do jantar, à mesa, Paulo enfiou a mão direita no bolso da camisa, fitou Gislaine nos olhos, e perguntou-lhe, num tom suave:

– Gislaine, queres casar comigo? – pegou-lhe da mão, para pôr-lhe no dedo a aliança. Gislaine recolheu o braço, abaixou a cabeça, ergueu-a logo em seguida, passeou a mão pelo nariz, olhou para o teto, e soltou um suspiro. Paulo recuou, recostou-se no encosto da cadeira, e fitou Gislaine, que lhe disse:

– Paulo – e desviou o olhar, tão logo seus olhos encontraram-se com os dele, e fitou o vazio à sua direita, e suspirou.

– A tua voz e o teu olhar, Gislaine… Desconfio que tu não tens uma boa notícia para me dar.

– Não é uma boa notícia, Paulo – disse Gislaine, evitando o olhar de Paulo. – Não é uma boa notícia… Paulo… Conheci um homem…

– O quê? Gislaine!

– Deixe-me explicar, Paulo. Deixe-me explicar… Por favor, Paulo…

– Gislaine! Namoramos há dois anos. Agora, que te peço… que te peço em casamento…

– Paulo… Por favor… Escute-me…

– Não me diga que… Gislaine…

– Paulo, escute-me… Ouça-me… Eu queria te falar… Não te amo, Paulo…

– Não… Não me ama…

– Paulo, escute-me… Ouça-me… Ouça-me… Eu te amava… Conheci… Conheci outro homem… Estou apaixonada por ele…

– Gislaine, por favor… Nada mais me digas…

– Paulo, escute-me… Paulo… Não quero que fiques com raiva de mim… Não olhes pra mim… Por favor, não olhes…

– Gislaine… Gislaine… Se não queres… Não sinto raiva de ti… Não posso te impedir de viver a tua vida… Vá embora…

– Paulo…

– Gislaine, por favor… Sou eu que… Por favor… Dois anos maravilhosos, Gislaine… Preciso descansar…

– Paulo…

– Por favor, Gislaine…

– Não fiques com raiva de mim…

– Não estou… Tenho a minha vida; tu tens a tua…

– Paulo… Não fiques bravo comigo…

– Pensei que… Tudo bem, Gislaine… Por favor, deixe-me sozinho… Por favor… Tchau, Gislaine…

– Tchau, Paulo… Perdoa-me…

– Tchau, Gislaine…

*

Cabisbaixo, lágrimas se lhe escorrendo dos olhos, com as mãos no bolso da blusa, Paulo andava pela calçada da rua Emílio Ribas. Gritaram-lhe o nome. Eram Gustavo, Renato, e Roberto, este um amigo, com quem Paulo estudou no colegial e havia três anos não o via. Saudaram-se. Roberto pediu-lhe notícias dos familiares; Paulo pediu-lhe dos dele. Entraram numa pizzaria. Degustaram de uma pizza saborosa, e beberam, Gustavo, refrigerante de limão, Roberto, de laranja, Paulo e Renato, de guaraná. Não era meia-noite quando retiraram-se da pizzaria. Roberto foi-se embora, no seu carro. Renato ofereceu carona para Paulo e Gustavo. Eles a aceitaram.

– Paulo, tu estiveste – comentou Renato – cabisbaixo, calado, o tempo todo. O que aconteceu? – perguntou, diante da casa de Paulo, assim que se retiraram do carro. – Não quero ser inconveniente…

Paulo disse, após coçar a cabeça e o nariz:

– Eu e a Gislaine desmanchamos o namoro.

E reinou silêncio opressivo. Entreolharam-se Renato e Gustavo. Paulo desviou o olhar e disse-lhes que entraria na casa. Renato e Gustavo desejaram-lhe uma boa noite, e foram-se embora, cada qual ocupado com os seus pensamentos.

*

Três horas da madrugada. Na cama, num dos quartos da Prazer Virtual, deitados, Gislaine e o mascarado. Gislaine cortou o silêncio:

– Bruce Wayne – sorriu, tímida. – Rompi o namoro com o Paulo… – beijou-o na boca. Pôs-se a remover-lhe a máscara; o mascarado não a impediu de removê-la. – Estou loucamente apaixonada por ti, meu herói misterioso. Tu és adorável, Bruce Wayne – e removeu-lhe, com um puxão, a máscara.

– Paulo! Tu!

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