Conhece o Euclides?

De Euclides nada direi. Corrijo-me: Nada direi a respeito da personalidade de Euclides. Eu me acreditava conhecedor da sua personalidade, do seu caráter, dos seus pendores intelectuais; uma sucessão de eventos, no entanto, nos últimos dias, convenceu-me de que dele nada sei, a ponto de chegar a pensar que não o conheço. Ciente da minha ignorância, decidi, ao me pôr a escrever sobre Euclides, amigo de longa data, sonegar aos meus queridos leitores os meus pensamentos a seu respeito, quais sentimentos por ele eu alimento, e qual é o meu apreço por ele, apreço nutrido, há duas décadas, pelo nosso vínculo fraternal. Alguns leitores, e eles não seriam raros – principalmente os que dizem conhecer Euclides -, contestar-me-iam se eu apresentasse o Euclides como eu o vejo, e casquinariam, reprovar-me-iam, dir-me-iam que apresento traços injustificadamente favoráveis ao meu amigo Euclides, e, contrapondo-se-me, apresentariam as suas avaliações, fiéis, diriam, enfáticos, à pessoa do Euclides. Declinarei, portanto, da obrigação, que muitos leitores atribuem aos escritores, de fornecer uma descrição minuciosa da personagem, no que se refere ao seu caráter, e me concentrarei na descrição do seu aspecto físico, que não alimentará controvérsias infindáveis, e a nenhum dos meus desafetos e desafetos de Euclides propiciará oportunidades de me cuspir objurgatórias.

Não transcorreram vinte minutos da última conversa minha com o Euclides, cuja imagem está nítida em minha memória. Posso evocá-la. Talvez eu me detenha num aspecto em detrimento de outro, que necessitaria, ou de correção, ou de realce; talvez eu negligencie aspectos aos quais não farei menção, e algum leitor atento, que conhece o Euclides, chame-me a atenção para isso; e eu, escritor ciente das minhas responsabilidades, adicionarei o que falta, e retratarei a personagem – o protagonista só dará o ar da sua graça nas derradeiras linhas deste relato, mas a sua pessoa perpassa-o desde o título até a palavra de encerramento -, se não com fidelidade, o mais fiel que me for possível.

Euclides não é alto, nem baixo. Tem um metro e setenta. De estatura mediana, portanto – é poucos centímetros mais alto do que eu. Para um homem de um metro e setenta centímetros de altura, Euclides é razoavelmente pesado. Pesa noventa e oito quilos. Não digo que ele é gordo. Ele tem braços grossos, ombros largos, tórax amplo e uma barriga que começa a se pronunciar. Aos quarenta e seis anos é um homem bem conservado.

Traz no rosto espessos barba e bigode. Ostenta cabeleira que, de tão vasta, parece juba de leão. Metade das suas falripas são brancas, tanto as dos cabelos, quanto as da barba. Seus lábios, descorados, quase invisíveis em meio a tanta barba, podem ser divisados por observadores atentos. Seus olhos guardam pouca expressão. São feios, como é feia a sua figura. A Carmen, sua esposa, não partilharia do meu parecer se eu lho expusesse. As pernas dele são finas. Os pés, desproporcionalmente enormes. Tais aspectos físicos atraem a atenção de muita gente, principalmente a dos caçoadores e a dos seus desafetos.

Euclides é casado com Carmen, que nasceu dois anos antes dele, há vinte e dois anos. Suas filhas chamam-se Camila, Mariana e Heloísa; e seu filho, Ulisses. Todos solteiros. Nada mais direi a respeito deles. Este conto não os tem como personagens. Falarei de Euclides. Melhor: por intermédio de outras personagens, o apresentarei aos leitores.

Há quinze dias, cruzei, no mercado público, entre as barracas dos feirantes, com Hugo, meu amigo desde a juventude. Saudamo-nos. O Hugo enveredou por um tema que não me agrada: a vida alheia. Esse é o seu vício e, infelizmente, consta-se, o de nove em cada dez pessoas (ou o de noventa e nove em cada cem – talvez o de novecentas e noventa e nove em cada mil).

– Tu conheces o Euclides? – perguntou-me Hugo, em certo momento da conversa.

– Euclides? – perguntei. – Qual deles? Conheço quatro Euclides.

– O marido da Carmen – e deu-me descrição minuciosa do Euclides (a descrição aproximava-se da que forneci linhas acima).

– Sim. Conheço-o – respondi.

– Confessar-te-ei: Detesto-o. Sempre que me encontro com ele, dele procuro afastar-me, ou sinto ganas de enforcá-lo. Ele é chato. Intragável. Tem o rei na barriga. Pensa que é o dono do mundo. Acredita que é o maioral porque é empresário, tem quatro carros na garagem, filho estudando na melhor faculdade do Brasil, e filhas que falam inglês e espanhol. Ele me contou que ele, a Carmen, o filho e as filhas viajaram, no ano passado, aos Estados Unidos. Visitaram Miami, Flórida, Disneylândia, Texas, Los Angeles, Califórnia, Grande Canyon, Estátua da Liberdade e o monte não sei qual. O monte no qual há estátuas do Franklin, do Lincoln… Aquele monte que aparece nos filmes americanos. O daquelas quatro cabeças gigantes. Estados Unidos! Uma pessoa que vai aos Estados Unidos é superior às pessoas que nunca foram aos Estados Unidos? Soberbo, o Euclides. Ele adora contar vantagens. “Fui aos Estados Unidos com a minha família”, ele encheu a boca para me dizer. “Fomos à Califórnia”; “Conheci Washington”. Ele conheceu o Washington. Também o conheço. O Washington trabalha comigo. Estou morto de inveja! Pensei em perguntar para o Euclides se ele evoluiu depois de conhecer os gringos. Ele é um colonizado de mente tosca. Sei que muita gente gosta dele. Bajuladora, essa gente desocupada. O Euclides é rico. Rodeiam-no, os abutres. Tu o conheces. Talvez ele tenha te falado da viagem aos Estados Unidos, e também das viagens à Europa, à Noruega e ao Japão. Noruega! Em qual planeta se situa este país? Marte? Júpiter? E o Euclides mostrou-me as fotografias, provas das suas viagens ao exterior. E ele viu a Estátua da Liberdade. Que lindo! Ele, a Carmen, o filho e as filhas viram uma estátua enraizada numa ilha minúscula, localizada no meio de um rio desconhecido, próxima de uma outra ilha, que era uma prisão. Guantánamo, ou coisa que o valha. Prisão desativada. Aparece nos filmes americanos. Guantánamo… Ou Albatroz, não me recordo. O Euclides torrou uma nota preta para ver uma estátua enorme de grande. Que tolice! E na Europa, ele, a Carmen, as três filhas e o filhote foram à Torre Eiffel, visitaram castelos medievais, túmulos de escritores famosos, e pontes, e estátuas, e pinturas. E Paris. Conheceram Paris. Paris! E foram ao Palácio do Kremlin. Em que país encontra-se tal palácio? É um palácio tão famoso que ninguém sabe me dar a sua localização. E eles visitaram Londres, Lisboa, Barcelona, Atenas, Tóquio, Melbourne, Berlim. Conheceram mesquitas, palácios, pontes, igrejas, castelos, e pontes, e castelos, e mais pontes, e mais castelos, e mais castelos. E ruínas. Ruínas de igrejas, ruínas de pontes, ruínas de castelos. E mais ruínas de castelos. O Euclides é um sujeito intragável. Um exibicionista. Arrogante. Vive em um mundo à parte. No seu mundo, ele reina, e todos satisfazem os seus caprichos. Ele se considera o centro do mundo. Ninguém é mais importante do que ele, ele pensa. Com toda a sinceridade: ele é o homem mais arrogante, orgulhoso, prepotente e asqueroso que conheço. Sujeito repulsivo.

Abordou-me Pedro, um amigo, encerrando os vitupérios proferidos por Hugo. Eu vaticinava um dia tedioso, pois Hugo, enquanto não destilasse todo o seu veneno, não daria por encerrados os seus comentários depreciativos à pessoa do Euclides, amigo meu de duas décadas, constrangendo-me. Não aprecio críticas, ao meu ver infundadas e injustas, a ninguém, muito menos a um amigo meu cuja amizade me é valiosa. Para a minha sorte, Pedro, com a sua extroversão inusitada, e a sua filhinha loquaz, Camila, que, com sua voz sedosa, suas tranças, as suas meias compridas, que me fazem evocar Pippilota, filha de Efraim Meialonga, impediram que Hugo tecesse mais alguns comentários à pessoa do Euclides. Contrariado, após alguns minutos, ele de nós se despediu, e foi-se embora.

Três dias depois, na empresa, durante uma conversa descontraída, no refeitório, com dois amigos, Cléber e Gabriel, e uma amiga, Alaíde, deles ouvi comentários a respeito de Euclides.

Gabriel disse:

– Conheceis o Euclides? O empresário, marido da Carmen? Encontrei-me com ele dias destes, não faz uma semana, perto da minha casa. Ele gosta de se exibir. A elegância personificada. Esmera-se na aparência, o distinto doutor. Empedernido. Esnobe. Terno impecável. Gravata. Nariz empinado. Vaidoso. Prepotente. Exibiu-me o carro de luxo importado. Da Alemanha, dos Estados Unidos, não me recordo. Encheu a boca para me falar da aquisição de uma loja. Qual loja? Não me recordo. Sujeito insuportável. Soberbo. Ele pensa que é melhor do que todo mundo, e a esposa dele, a melhor esposa do mundo, e o filho dele, o melhor filho do mundo, e as filhas dele, as melhores filhas do mundo. O Euclides é intratável, arrogante, soberbo.

– Tu detestas o Euclides, estou vendo – comentou Alaíde. – O Euclides não é como tu o pintas. Conheço-o há seis, sete anos. Conheço a Carmen, o Ulisses, a Camila, a Heloísa e a Mariana. São educadíssimos. Eu os conheci na festa de casamento da Lúcia, minha prima, que há três anos se divorciou do Marcelo, e, no ano passado, se casou com o Adriano, dele se divorciando no mês passado. O Ulisses era um menino quando o conheci. Uma gracinha de menino. Agora, ele é um homem inteligente, bonito, alto e forte. Eu e o Renato nos encontramos com ele e com a namorada dele na casa da Márcia, há duas semanas. Educadíssimo, o Ulisses. A Mariana, a Camila e a Heloísa são moças educadíssimas. Das três a que melhor eu conheço é a Camila, que é moça simples, herdeira dos pendores do Euclides. Todos dizemos que são o nariz de um e o focinho do outro. A Camila puxou pelo Euclides. Das três moças, é a que herdou do pai o talento para os negócios. Incríveis, as semelhanças de temperamento e pendores intelectuais. O mesmo senso prático, o mesmo espírito empreendedor, a mesma confiança no valor do estudo e trabalho árduos. Certa vez, ela me disse que administrará as empresas do pai. Euclides é um felizardo. Raros empresários têm filhos com talento para os negócios. E ele tem uma filha, a Camila. O Euclides tem orgulho das próprias conquistas, do próprio sucesso. Ora, eu, embora não tenha alcançado sucesso equivalente ao dele, sou uma pessoa bem sucedida, e me orgulho das minhas conquistas. E sou ambiciosa. O Euclides é um homem ambicioso, seguro de si. Tem os seus defeitos, é óbvio. Ora, quem não os têm!? Ele distingue o certo do errado; o permitido do proibido. Ele, católico, defende aqueles valores antigos, e não se curva è pedagogia moderna, e tampouco ao discurso falacioso de intelectuais vigaristas, sórdidos inimigos da humanidade. Uma leitura de artigos publicados em sites e blogs de pensadores cuja integridade moral é inatacável nos dá um panorama da situação política atual, que nos põem abismados. E podemos descer às minúcias de cada pormenor que constitui tal situação. Euclides resiste ao avanço das hordas de seguidores de humanistas liberticidas. Ele é um homem de têmpera de aço, de pulso firme, na família e na empresa. Tatcher e Reagan são os seus ídolos. Ele educa as filhas e o filho, impondo-se como pai, uma autoridade moral. Agindo assim, ao contrário do que declaram os moderninhos, deles têm amor. Ele corrige os filhos quando estes cometem uma falta. Pune-os. E orienta-os, para eles evitarem dissabores. Catilinárias intelectualóides não o persuadem a mudar de atitude. Ele é um homem de fibra. Conheço-o e conheço a família dele. Ele é um homem trabalhador, honesto, confiável, um exemplo de homem para os homens.

– Que notável peça de oratória! – comentou, zombeteiro, Gabriel. – Um rosário de louvores. Escrevas uma hagiografia.

– A minha formação intelectual, fruto de leituras de livros clássicos, permite-me expressar-me com elegância, até mesmo sobre temas triviais – retrucou Alaíde, veemente. – Não escreverei uma hagiografia do Euclides. Eu nunca disse que ele é um santo.

– Vocês conhecem o Euclides – interveio Cléber, que, ao observar a fisionomia de Gabriel e a de Alaíde, e a troca de olhares entre eles, perspicaz, anteviu a irrupção de uma discussão interminável, certo de que, dentre os dois, Gabriel seria o que mais se exaltaria, e prorromperia em exclamações furibundas, e insultaria Alaíde, que defenderia Euclides e atiraria farpas ferinas contra Gabriel, como era do seu estilo. – Não o conheço. Conheço pessoas que o conhecem. Conheço vocês, que o conhecem. E conheço pessoas que conhecem pessoas que o conhecem – levou à boca um punhado de arroz. – Vejo-o, aqui e ali, a pé, acompanhado de uma mulher, a esposa dele, presumo. Morena clara de cabelos compridos ondulados, sempre bem vestida, elegante, com uma bolsa a tiracolo.

– É a Carmen, esposa dele – disse Alaíde.

– Falei de bolsa – comentou Cléber -, e a Alaíde identificou a dona da bolsa. Mulheres! Não resistem a bolsas e chocolates. Há homens que dizem ter dificuldades para seduzir as mulheres. Ofereça-lhes bolsas e chocolates. E anéis de brilhantes. Não podemos nos esquecer dos anéis de brilhantes. Comentários machistas. Alaíde, mantenha-se distante de mim, no mínimo, trinta metros – levou o copo com refrigerante à boca; sorveu do refrigerante, e, antes de pôr o copo sobre a mesa, disse: – Um brinde – e prosseguiu: – Sempre vejo o Euclides de terno, gravata e sapatos brilhantes de tão polidos. A postura dele, ao andar, correta. Nunca o vi curvado, como se carregasse um fardo às costas. Elegante, o Euclides é. Charmoso, também ele é. Bem vestido, sempre. Tem porte de aristocrata; não dos de Bruzundanga. A elegância, o charme e o gosto requintado não fazem ninguém arrogante. Sei que muitas pessoas não se simpatizam com ele. Por quê? Não me perguntem. Não o conheço. Vocês o conhecem.

– O Euclides é arrogante – disse Gabriel. – É um muquirana. Se vós pensais que o tio Patinhas é o maior mão-de-vaca que existe, enganardes redondamente. Euclides é o mão-de-vaca típico. Era pobre. Enricou. E pensa que é o dono do mundo. Ele não tem uma caixa forte, mas tem coração de pedra e despreza os pobres. Todo pobre, ao se enriquecer, envergonha-se da sua vida de misérias, e refocila-se no luxo, para ocultar a sua história, para esconder de si mesmo o seu passado. O Euclides envergonha-se, do mesmo modo que todos os pobres que se enricaram, do passado, que o persegue pela vida afora; daí, escreveria um romancista, as fumaças de aristocracia. Ostenta erudição que não tem, fortuna nababesca, títulos a mancheias, carros do ano, símbolos de status alcançado, não com trabalho árduo, estudo e mérito, mas devido ao seu vínculo com políticos influentes. Com os joelhos flexionados, o reverenciam, servis. Beijam-lhe os pés. A recompensa, sabemos, é farta. O Euclides vive em uma redoma. Mora num condomínio. O filho e as filhas estudam em escolas particulares. Por que eles não estudam em escola pública? O Euclides não quer que eles se misturem à gentalha. Dona Florinda que o diga. A família dele tem plano de saúde particular. Por que eles não vão a hospitais públicos? Não querem se misturar à gentalha. Na garagem, tem três carros, ou quatro. Não importa. Ele é um riquinho. O filho dele, um mauricinho; as filhas, patricinhas. Soberbos e arrogantes, todos eles.

– Não sei o que o Euclides possa ter-te feito para tu destilar tanto veneno – comentou Alaíde. – O Euclides é rico? É. A riqueza faz dele um homem arrogante e soberbo? Não. Ele é orgulhoso? É óbvio que ele se orgulha das conquistas dele, do mesmo modo que me orgulho das minhas. Nesta vida atribulada, e a do Euclides foi atribulada, repleta de percalços, almejar o sucesso com o suor do próprio rosto, e obtê-lo, não é tarefa para os fracos. É tarefa para os fortes. Há ricos arrogantes, prepotentes e soberbos. Há ricos humildes, simpáticos. Não generalize, Gabriel. E não use estereótipos. De estereótipos o inferno está cheio. E eu também. Conheço pobres que são arrogantes, prepotentes, soberbos, gananciosos, mesquinhos e invejosos. Conheço pobres que são humildes, dotados de nobres sentimentos. Não me venha com a história, preconceituosa, discriminatória, de que todo rico é mau-caráter, personificação do mal, e todo pobre, bom, inerentemente bom. O Euclides é um homem bom. Ele é vaidoso? É. Quem não é? Ele é ambicioso? É. Quem não é? Ele é orgulhoso? É. Quem não é? Ganancioso ele não é, e nem arrogante, e nem prepotente. Ele é um homem seguro de si, confiante. Muita gente confunde firmeza de propósitos com ganância, e a mediocridade, a incúria, o desleixo e a pobreza com humildade.

– Filósofa – casquinou Gabriel.

– Não queiras desmerecer a minha opinião, espezinhando-me – retrucou Alaíde. – Se queres, alfinete-me. Exorto-te a não perderes o teu tempo. Sei que muitas pessoas invejam o Euclides, pessoas que ambicionam o que ele possui: Nome respeitável, riqueza, família feliz, coragem para defender os seus princípios, que o norteiam; princípios que, posso declarar, convicta de que tenho razão no que digo, oferecem-lhe a força necessária para se dedicar ao estudo, ao trabalho, e a coragem para propugnar os seus propósitos. Conheço muitas pessoas que, ao se depararem com o primeiro obstáculo, detêm-se, petrificados, e, ao não conseguirem transpô-lo, sucumbem, prostrados no chão, e desistem dos seus sonhos, se sonham, efetivamente; depois, ao transcurso dos anos, ao se recordarem do insucesso, ou desconversam, ou o justificam, atribuindo o fracasso à ausência de apoio, à hostilidade de um rival desleal, e nunca confessam a falta de vontade, de fibra. Eu poderia citar muitas pessoas fracassadas que agem assim. Por decência, não o farei. Meu respeito por elas não mo permite.

A conversa estendeu-se por meia hora. Gabriel, Alaíde, Cléber e eu divergimos em muitos pontos. A polarização entre Alaíde e Gabriel destacou-se e predominou na conversa. Os meus apartes e os do Cléber, adicionamo-los, tímidos, para não ferir suscetibilidades dos dois contendores, que abandonaram a razão, e agiram impelidos pelos sentimentos feridos. Não sei o que pôs fim à conversa. Passamos para outro assunto ao modo de ‘mudando de pato pra ganso’.

Reproduzi um trecho da conversa, do que me lembro. Não pretendi evocá-la com exatidão – estou impossibilitado de fazê-lo. Conservei, no entanto, o essencial; como pude, reproduzi o vernáculo de cada um deles, e, inclusive – esforço ingente; frutífero, acredito – o tom de voz deles e os sentimentos que lhes inspiraram as palavras que cada um deles proferiu. É infundada a minha certeza nesta crença no meu sucesso? Terei de confrontar o meu testemunho com o do Cléber, o do Gabriel e o da Alaíde. Após isso, não saberei, estou certo, se o relato concebido a partir dos testemunhos deles será fiel ao teor da conversa.

Como se vê, no trecho no qual relato tal conversa, não apresentei os meus comentários a respeito do Euclides. Eu os escrevi, mas, certo de que a apresentação dos meus comentários conduziriam os leitores à uma direção que lhes daria uma idéia equivocada de quem é Euclides, os suprimi, pois não se adequam ao propósito que tenho em mente.

Encerrada esta digressão, prossigo:

Ouvi, nos dias seguintes, outras pessoas a comentarem sobre Euclides. Constatei que a maioria delas não se simpatizam com ele.

Durval, na mercearia perto de casa, disse-me, hoje de manhã:

– Conheces o Euclides? Sujeito intragável. Cruzei com ele na loja Pés Macios. Que sujeito chato! A chatice em pessoa. Ele perguntava ao vendedor o preço dos sapatos, anotava-os em um caderninho, pedia desconto de quinze por cento no pagamento à vista, e ditava o preço do mesmo modelo de sapatos em outra loja. Queria o desconto. E insistia em obtê-lo. Sujeito miserável. É podre de rico, e vive a barganhar em todas as lojas em que entra. Ele não abre a mão nem para dar tchau. De que lhe vale tal apego à riqueza? Morto, ele não a levará ao túmulo.

À tarde Jaqueline, minha amiga desde a juventude, casada, mãe de Poliana e Rebeca, disse-me:

– Conheces o Euclides? Que homem simpático! Conheci-o, ontem. Ele e a esposa, Carmen. Homem elegante, charmoso. Bonito. Não conte isso para o Tiago. Ele morrerá de ciúmes – sorriu. – O Euclides não é extrovertido; mas o sorriso dele é lindo. Apreciei a conversa que mantive com ele e a Carmen. Pessoas ricas e simples. Eu os imaginava diferentes. Disseram-me que ele é arrogante, prepotente. Ele é simpático! Um homem de opiniões próprias. A dicção dele, perfeita. Ele é elegante, confiante, inteligente. Admiro as pessoas inteligentes, confiantes, dotadas de espírito de iniciativa e que zelam pela liberdade, a própria e a dos outros. E ele é humilde, embora podre de rico. Ontem, ele trajava terno, gravata e calça social. Ao fitá-lo, pensei com os meus botões: “Xi! Terei, agora, de aturar este esnobe com o rei na barriga” quando o Tiago mo apresentou. Diante de mim, o rei da cocada preta. E quem conheci? O Euclides surpreendeu-me. O Euclides que conheci não foi o Euclides de quem me falaram. O Euclides é invejado por aqueles que o admiram e admirado por aqueles que o invejam. Enfim, o meu lar, doce lar. Minhas filhas aguardam-me. Iremos ao oftalmologista. Temos, ainda, tempo para uma xícara de café. Aceitas?

Recusei o convite. Disse-lhe que, em outra ocasião, aceitarei dela convite para um café. Despedimo-nos.

Minutos depois, sentado num banco da praça Rui Barbosa, eu descansava à sombra de uma árvore quando ouvi uma voz chamando-me pelo nome. Voltei-me. Era o Euclides de quem todos me perguntavam “Conheces o Euclides?”

– Boa tarde – saudou-me.

– Boa tarde, Euclides. Passeando, para espairecer?

– Para refrescar a cabeça – respondeu-me. – Para deixar os pensamentos livres, soltos. Para renovar as energias. O trabalho enobrece, até certo ponto – e sorriu. – Se me sobrecarregar, entrarei em curto-circuito.

Sentou-se à minha direita, ajeitou-se ao encosto do banco, e cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda.

– Que calor! – exclamou, mais para si do que para mim; curvou a cabeça para trás, e olhou para o céu. – O céu, limpo. Hoje não choverá. A Carmen está gripada. A Heloísa ficou uma semana acamada. Trinta e nove graus de febre. O tempo quente e seco maltrata as pessoas. As crianças e os velhos são os que mais sofrem. Com eles, os cuidados têm de ser redobrados. O Gustavo, menino de dois anos, filho do Henrique, o meu vizinho da direita, foi encaminhado ao hospital. Desidratação. Diarréia. Meu pai, minha mãe e meu sogro, até agora, não sucumbiram à gripe…

Intrigou-me o comportamento do Euclides. Ele, lacônico, jamais se permite a expansividade. Falou-me do clima, de seu pai, de sua mãe, de seu sogro, da Carmen, da Heloísa, do filho do vizinho. Intrigou-me o seu comportamento. Conversamos, sossegados, à sombra da árvore. Falamos da minha família, da família dele, de futebol, carnaval, conflitos entre árabes e israelenses, atritos diplomáticos envolvendo o governo dos Estados Unidos e o da China. Euclides, bem informado, para enriquecer os seus argumentos, parafraseou filósofos, sociólogos e citou políticos de inúmeros países e vertentes ideológicas. Prolongamos a conversa por duas horas. Levantei-me. Preparei-me para me despedir. O Euclides reteve-me, e perguntou-me:

– Conheces o Euclides?

Intrigado, sentei-me. Fitei-o. Ele abriu um sorriso acanhado, e disse-me:

– Conheces o Euclides? Tu te perguntas porque te faço esta pergunta. Para te dizer a verdade, não sei porque a faço a ti. Desgosta-me muitas coisas que ouço… Conheces o Euclides? É a pergunta que mais se ouve por aí. Já te fizeram tal pergunta, não? Conheces o Euclides? Parece o título de uma peça teatral cômica, não te parece? Conheces o Euclides? O que te falam do Euclides? O Euclides é arrogante, prepotente, ganancioso. É simpático, trabalhador, humilde. Conheces o Euclides? Eu sou o Euclides. Não sou, nem o arrogante e prepotente, nem o simples e humilde. Digo-te uma coisa: Não sei quem é o Euclides. Não conheço o Euclides de quem tanto falam e que tão bem conhecem. Sou o Euclides. Quem sou? Já me fiz esta pergunta milhares de vezes. Há momentos em que me considero um homem trabalhador, correto e ambicioso. Noutros, atribuo-me pendores que não me agradam. Sou quem penso que sou; sou quem as pessoas pensam que sou; sou quem sou. Quem sou? Eu, que sou quem penso que sou, não me porque -me, e de rico. assim,rabalha comigo. timentos por ele eu alimento, qual conheço como sou; as outras pessoas não podem me conhecer, pois elas conhecem quem acham que sou, não quem sou. Muitas pessoas me elogiam, e um número muito maior de pessoas criticam-me. Não sou quem elas dizem que sou; e elas não podem me conhecer melhor do que eu me conheço, e mal me conheço à idade de quarenta e seis anos. Para encerrar: Conheces o Euclides?

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