Atração irresistível

Era o doutor Castelo Branco aquele homem altivo de andar firme e com ar de aristocrata de tempos não muito distantes. Parecia um contemporâneo de Joaquim Nabuco que entrou em uma máquina do tempo, e transportou-se para a primeira década do século 21. Reputado juiz de direito, é respeitado e admirado por todos os munícipes. Seu pai e seu avô foram personalidades históricas. Seu avô, por antonomásia o Velho, tinha o porte de um imperador; no município, dizem ainda hoje, ele mandava mais do que o prefeito. Se é lenda ou não, ficou na mente do vulgo que ele era o cacique e o pajé deste município, outrora uma vila de ruas de terra pelas quais circulavam carroças.

O doutor Castelo Branco conservava, em todas as ocasiões, a dignidade que o cargo lhe exigia e o título lhe impunha. Jamais perdia a compostura e nem negligenciava a correção da pronúncia; não descia ao vulgo; o seu vocabulário, requintado. Um Rui Barbosa redivivo. Ele não considerava de bom-tom, para sustentar a sua digníssima autoridade, assumir atitudes indignas de um homem de sua posição privilegiada.

– Doutor Castelo Branco – abordou-o um transeunte, homem rústico de vestes vulgares, cabelos ensebados, falhas nos dentes, pele curtida de sol, mãos calosas.

– Bom dia, senhor – saudou-o, altivo, o doutor Castelo Branco, oferecendo-lhe a mão direita.

– Ótimo trabalho, doutor. Ontem, vossa senhoria mandou aqueles cafajestes filhos-da-mãe para o xilindró. Que Deus Nosso Senhor os envie para o inferno! Somos gratos, doutor. Deus vos guarde, vos ilumine. Que Deus vos dê saúde, muitos anos de vida, sabedoria e coragem para arrostar os filhos-da-égua que infestam esta cidade.

– A justiça é o norte dos filhos de Deus Nosso Senhor – sentenciou o doutor Castelo Branco. – Exige de nós homens de direito respeito às leis e dedicação aos estudos, numa faina diária, em prol do bem-estar das pessoas de bem. Ser-me-ia impossível exercer o nobre labor de homem da lei, se não me animasse o amor aos humanos. Orienta-me, em meu diligente trabalho, os ditames das leis divinas e os das leis dos homens. A justiça não é uma quimera. Aprendi, como sabeis, com meu saudoso avô, a jamais descurar de minhas incumbências, a jamais me acovardar diante do escárnio que me cospem as pessoas de má-fé, a jamais transigir diante das ameaças à minha integridade. Envidei todos os esforços no combate do bom combate. Não me aviltei. Não permito que os crápulas me empanem a visão com argumentos enviesados, oratória florida e salamaleques. Os que se confrontaram comigo, partiram do pressuposto de que todos os representantes da lei são corruptíveis. Enganaram-se. O povo desta cidade clamava por justiça. Como representante da justiça, impelido por nobres sentimentos, em mim inculcados por meus ascendentes, respeitáveis, vós sabeis, respeitando a justiça dos homens, inspirado pela justiça de Deus, para restabelecer a ordem nesta cidade, cujos moradores, decentes filhos de Deus, indignados com a selvageria animalesca de arautos de Satã, estavam na iminência de sucumbirem ao ódio, que corrói a alma, e violarem as leis de Deus, puni, com justiça, como representante da lei, os bandidos execráveis que ousaram seviciar e assassinar uma angelical menina, amada e adorada por todos nós. Não pleiteio galardões, senhor. Vossas palavras me são valiosas. Recuso os encômios. Deus concedeu-me força, coragem e sabedoria. A justiça está feita.

O transeunte renovou seus elogios ao doutor Castelo Branco, apertou-lhe a mão, e tocou-lhe, de leve, no ombro, receando enodoar o terno, que reverberava à luz do sol.

Ao despedir-se do transeunte, o doutor Castelo Branco prosseguiu, com passos cronometrados, a postura ereta, o queixo erguido, altivo, a sua caminhada até o Fórum Municipal.

– Aquele homem encarna a justiça – comentou o transeunte que cumprimentara o doutor Castelo Branco.

– Quem é ele, Raimundo? – perguntou-lhe um gordo atarracado com camisa e calça rasgadas.

– O doutor Castelo Branco.

– Foi ele que meteu no xadrez aqueles filhos-de-uma-égua que estupraram e mataram a filha do José da Granja e da dona Amélia?

– Foi ele, e não poderia ter sido nenhum outro. Ele, e apenas ele, tem coragem para mostrar aos facínoras quem é que dá as cartas aqui e pôr ordem na casa. O que pensavam eles? Eles pensaram que iriam embora, sem pagar pelos pecados?

– O doutor é um homem elegante, distinto. Nem um vinco no terno… De porte de rei.

– De majestade! De excelência!

– De reverência!

– De excrescência.

– Excrescência!? Não. Excrescência é palavrão, Raimundo. O doutor que mandou os estupradores e assassinos para o xilindró, e que eles apodreçam lá!, não é um palavrão. Raimundo, você está fazendo confusão. Excrescência é pústula, é verruga no nariz, é casca de ferida, é dente encavalado, é olho torto, é lábio de coelho, é chifre em cabeça de cavalo, é pêlo em casca de ovo, é pé virado do Curupira, é o nariz do Tião da Farmácia.

O doutor Castelo Branco caminhou pelas tranqüilas ruas da cidade. Os munícipes cumprimentavam-no, uns, com respeitoso aperto de mãos; a maioria dele conservou respeitosa distância, saudou-o com um gesto de mão, com um respeitoso “Oi”, ou um “Bom dia, doutor”.

O doutor Castelo Branco não transparecia a vaidade que lhe inflava o ego. Sustentava a elegância e a nobreza do porte e a fisionomia serena, impassível.

– Que homem! – suspiravam as mulheres solteiras, as casadas, as viúvas, as desquitadas, as jovens, as adultas e as velhas. – Doutor Castelo Branco! Não conheço homem tão elegante, tão charmoso. Que voz! Culto. Inteligente. Ele é o homem dos meus sonhos.

No verão de calor infernal, o doutor Castelo Branco saudava os transeuntes, sereno, impassível. Os seus passos, firmes. Atraía a atenção de todas as pessoas, que dele admiravam a postura, a elegância, os gestos suaves. Transpirava nobreza e autoridade. Destoava da multidão. “O doutor Castelo Branco. O doutor Castelo Branco”, sussurravam os munícipes que o apontavam, admirados com a elegante e majestosa figura do filho ilustre da cidade.

O doutor Castelo Branco passou pelo jardim da Igreja Matriz – acompanharam-no três dúzias de pares de olhos. Fez o sinal-da-cruz, voltado para a magnífica igreja edificada no século XVIII, e extraiu exclamações de louvor de todos os que testemunharam tão simples gesto. De repente, surpreendendo a todos, ele olhou para o céu, arregalou os olhos, que brilhavam de satisfação, escancarou a boca, e gritou:

– Içá! Içá!

Pondo a todos boquiabertos, correu como um medalhista olímpico nos cem metros rasos, passou pela frente de um carro, cujo motorista afundou o pé no pedal de freio e evitou a colisão, atravessou a rua, saltou, superou a altura alcançada pelo recordista mundial em salto em altura, e apanhou, a três metros de altura, a desacautelada formiga.

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