O pedido de desculpas

– Tu podes ouvir-me, Ivan? Quero conversar contigo. Estás ocupado? Ivan, se tu soubesses… Eu… Como eu poderia saber, Ivan, que era mentirosa a história que me contaram e contaram para meu pai, para minha mãe e para meu irmão? Ivan, por favor, ouça-me… Por favor, Ivan… Se tu soubesses… Estou tão arrependida… Julguei-te, sei… Eu não… Meu pai, ao saber da verdade… Ivan, nunca o vi tão desanimado, tão desorientado, tão… angustiado, desiludido… E minha mãe? Ela emudeceu ao saber… Ivan, minha mãe jamais imaginaria… Ao saber, ela, sentada, lamentou… Mãos à cabeça, a cobrir o rosto, a pensar, arrependida… E meu irmão não disse uma palavra. A expressão dele… Ele sentiu-se mal, muito mal, afinal ele te acertou um soco, e quebrou-te o nariz. Ivan, namoramos durante dois anos. Noivamos… Íamos nos casar. Tivemos altos e baixos… Desentendemo-nos, e não raras vezes, e por ninharias, tolices, enciumados, ou não… por uma migalha, uma bagatela, uma bobagem qualquer, um boato que ouvimos aqui, outro que ouvimos ali, outro que ouvimos acolá, por implicarmos um com o outro, sem razão, incomodados com qualquer coisa… E nos divertimos tanto! Tanto! Quantos momentos felizes… As festas… As aventuras, nas montanhas… nas praias… Lembra-te da tua vitória na corrida, em São José dos Campos? E da notícia da minha classificação no vestibular da universidade? E da nossa viagem de balão, lembra-te? E da nossa romaria até a Basílica de Aparecida? Exaustiva. E percorremos mais de cem quilômetros de mãos dadas… E quantos outros momentos posso evocar? São tantos… Na alegria e na tristeza… Na saúde e na doença… Lembra-te das nossas conversas? O que dizíamos um para o outro… Palavras que partiam da alma. Foram os dois melhores anos da minha vida. Sei que soa piegas…. Parecem palavras de mulheres apaixonadas dos romances açucarados e das novelas. Digo-te a verdade, Ivan. Tu foste o meu primeiro namorado, e o único. Há dois meses brigamos, e rompemos… Ivan, pensei em ti o em todos esses dias… As histórias que me contaram, e contaram ao meu pai, à minha mãe, ao meu irmão… Histórias… cabeludas. E mostraram-nos fotos. Como poderíamos saber que eram montagens as fotos!? Eu poderia ter confiado em ti… Sei que errei em não confiar em ti. Meu pai não confiou em ti. Minha mãe não confiou em ti. Meu irmão não confiou em ti. Era tanta a minha raiva quando vi as fotos! Tu não imaginas… Ferveu-me o sangue. Subi pelas paredes, de raiva. Como eu poderia saber que eram fotos manipuladas por computador que a Lúcia… Lúcia… Aquela sirigaita… Como eu poderia saber que ela chegaria a tal ponto para te conquistar? Nunca imaginei que alguém pudesse ir tão baixo, descer tanto. Sei que, depois que tu e eu brigamos; que meu pai e minha mãe te expulsaram de casa, a Lúcia te abordou e tu rejeitaste-a. Eu sei. Contaram-me. Depois, dias depois, soubemos eu, meu pai, minha mãe, meu irmão, da verdadeira história. Ivan, por favor, desculpe-me, e desculpe meu pai, e minha mãe, e meu irmão… Desculpe-nos, Ivan. Podemos reatar o namoro… Nosso noivado… Gosto muito de ti… Se tu soubesses como estou arrependida… Ivan, amo-te. Naquela hora… As fotos… Eram quantas as fotos? Trinta? Quarenta… Não sei… Tu estás com raiva de mim… Entendo… No teu lugar, eu também ficaria com raiva de mim, com muita raiva… Sabes, Ivan, quando vi aquelas fotos, que te mostravam aos beijos com aquela mulher… aquela sirigaita… aquela megera… aquela vadia… O que me aconteceu… Se tu puderes imaginar o que senti. Não sei dizer o que senti… Um sentimento que eu nunca havia sentido. Não sei explicar… Joguei meu pai, minha mãe e meu irmão contra ti, Ivan… Eu não pensava direito… Eu não sei no que eu pensava. Lembro-me como se tivesse acontecido ontem… Eu chorava… Eu… Eu… Ivan, eu estava fora de mim. Mostrei as fotos para meu pai, para minha mãe e para meu irmão… Desejei-te a morte, Ivan… A raiva era tanta, tanta, que pensei em coisas que eu jamais imaginei que eu fosse capaz de pensar… Depois, senti-me tão mal… Como pude pensar o que pensei!? Todos, irritados, nervosos… Um mês antes do casamento, e a notícia de que tu traías-me… Nervosos, eu, meu pai, minha mãe, meu irmão… Irritados… Assim que tu chegaste em casa… Explodimos, e fomos para cima de ti. Desculpai-me, Ivan. Desculpai-nos. Estamos arrependidos. Ivan, não te esqueci… Como eu te esqueceria, Ivan? Tu me fizeste, durante dois anos, a mulher mais feliz do mundo. Os finais de semanas, na praia, os passeios ao zoológico, o nosso passeio ao Pantanal… Nunca diverti-me tanto… Tu me fizeste feliz, Ivan. Dois anos maravilhosos… Lembras-te do dia em que me pediste em namoro? Lembra-te? Eu jamais me esqueceria daquele dia… Ivan, não quero tomar-te o teu tempo. Sei que estás ocupado… Sei que estás com raiva de mim… e com razão… e não apenas de mim, mas, também, de meu pai, de minha mãe e de meu irmão… Vim pedir-te perdão, Ivan… Amei-te… Amo-te… Por favor, Ivan, não me olhes… Sei que estás com raiva de mim. Sei que não esqueceste dos insultos que te cuspi na cara… Não me olhes assim, Ivan, por favor… Se tu soubeste como estou arrependida… Se tu soubeste que penso em ti, todas as noites… Se tu soubeste, Ivan, como eu gostaria de voltar no tempo, pegar aquelas fotos, e rasgá-las, e queimá-las… Se tu soubeste, Ivan, como te desejo… Ivan, se tu soubeste o quanto sofro… Ivan, se…

Ivan, surpreendendo-a, atraiu-a para si, estreitou-a em seus braços, envolveu-lhe o corpo, e beijou-a apaixonadamente.

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