A Cartomante (Várias Histórias) – de Machado de Assis

A Cartomante é o primeiro conto do volume Várias Histórias, de Machado de Assis. Está narrado no ritmo inconfundível do Bruxo do Cosme Velho, ponderado e ausente de emoções, embora trate de emoções, e de fortes emoções, dos três personagens principais, Camilo, o protagonista, e Vilela e Rita, seus coadjuvantes. Além destes três, há dois personagens secundários, a cartomante e o cocheiro, este, um figurante, aquela, de papel fundamental no desenlace da trama.
Camilo, cético, não crê em poderes místicos, em forças que transcendem a realidade. Contrariara a vontade de seu pai, que o queria médico, e amargava uma vida de desocupado, até obter, por intervenção de sua mãe, já viúva, que lhe viera ao socorro, uma sinecura. Vilela, seu amigo desde a infância, agora magistrado, reencontrara-o após regressar, casado com Rita, moça bela e tonta, da província.
Em decorrência da morte de seu pai,  Camilo renova os vínculos de amizade com Vilela, e estabelece amizade com Rita, que o consola, e passa a frequentar, com assiduidade, a casa do casal de amigos, e é tal a sua intimidade com Rita que, desconsiderando sua amizade fraternal com o marido dela, com ela estreita os laços de amizade, que se convertem em amor mútuo.
Recebe, certo dia, uma carta anônima, misteriosa, insultuosa, que lhe anuncia conhecer-lhe o segredo, que não é mencionado. Decide, então, intrigado, presumindo que Vilela sabia de seu caso com Rita, distanciar-se do casal, cessando as visitas à casa. E é neste ponto da trama que Rita, curiosa para conhecer as causas do procedimento distante de Camilo, decide consultar a cartomante.
E Camilo recebe outras duas cartas, que o põem de sobreaviso.
E parlamentam Camilo e Rita, que preparam meios para tirarem de Vilela, então taciturno, respostas que dele esclarecesse a conduta sombria.
Um dia recebe Camilo uma carta de Vilela, carta que trazia poucas palavras: “Vem, já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Tais palavras transtornam o espírito suscetível de Camilo, que se amedronta, suspeitando que seu amigo estava ciente da traição.
Passando, de tílburi, pela Rua da Guarda Velha, então bloqueada por uma carroça, Camilo vê a casa da cartomante, e após um momento de hesitação, perturbado, decide adentrar-lhe as entranhas e consultar a cartomante, de quem ouve palavras alvissareiras, que ele nada temesse.
Nas linhas seguintes, Machado de Assis, falando da barcarola cantada pela cartomante e repetindo a frase desta “ragazzo innamorato”, que, dita por ela, fizera Camilo abandonar os pensamentos sombrios que o fustigavam, envolve o leitor, preparando-o para o desenlace da trama. E foi Camilo, atendendo ao pedido – que lhe soou, então, como uma solicitação de ajuda, urgente – de Vilela, à casa dele. Lá chegando, abre a porta… Aqui, são indispensáveis as reticências.
Machado de Assis, com a sua proverbial sutileza, que lhe fez a fama, trata, neste conto, de adultério, sem descer às minúcias que outros escritores, desbragados e faltos de talento literário, descrevem gostosamente, e de paixões humanas incontroláveis.
É A cartomante um conto imperdível, para o gosto dos apreciadores de boas tramas de suspense.

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