NCIS – episódio 24 da temporada 16

No derradeiro episódio da temporada 16 de uma das séries mais populares da televisão americana – que já contou em sua galeria de personagens com os icônicos Anthony DiNozzo (Michael Weatherly), Abigail “Abby” Sciutto (Pauley Perrette) e Ziva David (Maria José de Pablo – Cote de Pablo), os três de tão grande popularidade que eclipsam as personagens que as substituíram, respectivamente Nick Torres (Wilmer Eduardo Valderrama), Kasie Hines (Diona Reasonover) e Eleanor Bishop (Emily Wickersham) -, Leroy Jethro Gibbs (Thomas Mark Harmon) e sua equipe, Nick Torres, Timothy McGee (Sean Murray) e Eleanor Bishop deparam-se com um caso que adquire um tom pessoal a Leroy Jethro Gibbs, que se vê obrigado a transgredir uma das suas proverbiais regras, a 10, que o dissuade de se envolver em seus casos, emprestando-lhe um caráter pessoal. Principia o episódio cena em que dois jovens, um moço e uma moça, em um carro, ele a dirigi-lo, rumam, em alta velocidade, para o hospital; apressam-los a iminência de uma tragédia: a morte de Emily Fornell (Juliette Angelo), filha de Tobias Fornell (Joseph Peter “Joe” Spano), ex-agente do FBI e investigador particular, e de Diane Sterling (uma das ex-esposas de Leroy Jethro Gibbs, já falecida, com cujo “fantasma” Gibbs conversa). Esta a razão de Leroy Jethro Gibbs atormentar-se em diálogos imaginários com Diane Sterling, que o repreende, e, praticamente, dá-lhe uma ordem: que ele desconsidere a regra 10, em cuja transgressão ele incorrera em outras situações, e investigue o caso que quase vitimou Emily Fornell. Leroy Jethro Gibbs, escudado pelo Doutor Donald “Ducky” Mallard (David Keith McCallum, Jr.) e autorizado pelo diretor Leon Vance (Roscoe “Rocky” Carroll), lidera a sua equipe. A trama é simples, de nenhuma complexidade artificial; as personagens executam suas respectivas tarefas, representam os papéis que lhes competem. O ponto nuclear do episódio não é o desenrolar da trama investigativa, quase inexistente, tampouco o seu desenlace, mas, sim, um flagelo que hoje em dia assola os Estados Unidos, aterrorizando os americanos: o do consumo de opioides pelos filhos do Tio Sam, uma enfermidade social sangrenta que ceifa, nos EUA, a vida de sessenta mil almas por ano.
Emily Fornell, descobre-se, sucumbira aos prazeres proporcionados pela substância, o opioide, e fica a ponto – é a cena representada no início do episódio – de partir desta para a melhor, separando-a da morte uma linha tênue, bem tênue, quase invisível. Sobrevive, milagrosamente, à overdose. Sabe-se, posteriormente, que ela está viciada em tal composto químico.
Chama a atenção um ponto: em nenhum momento, Emily Fornell é apresentada como uma criminosa; ao contrário, ela é exibida como uma vítima, que, jovem, deixara-se seduzir por uma cultura hedonista e inconsequente propagandeada como fornecedora de felicidade eterna que tantas alegrias promete – mas que entrega, unicamente, tristeza, sofrimento e miséria. Tobias Fornell trata sua filha com desvelo, carinho, dedicação de pai amoroso, devota-lhe todo o amor do mundo, conquanto ela, de comportamento alterado e fisionomia irreconhecível (e aqui os realizadores do episódio foram felizes ao emprestar-lhe um ar ensandecido, de uma pessoa possuída, não é exagero dizer, pelo demônio), lhe exiba desprezo e desdém. E entende que, mesmo protetor, não pôde impedi-la de ser atingida pelos perigos que o mundo oferece aos homens, o que dá-lhe sensação de impotência, obrigando-o a reconhecer que os pais não são onipotentes, onipresentes, oniscientes. Confrontado pela filha, que, desvairada, exibe-lhe desprezo, abre os braços, oferecendo-lhe amparo; e ela, então, se reconhece uma pessoa em desgraça, necessitada de ajuda, ajuda que ele lhe oferece ao acolhê-la aos braços.
O consumo de opioides, nos Estados Unidos, assumindo ares de epidemia, tão preocupante, recebe, da administração de Donald Trump, atenção especial. Dezenas de milhares de vidas se perdem todo ano. E neste episódio, que é o último da décima sexta temporada, toca-se em tal ferida social.
Os realizadores de NCIS foram felizes em tratar a questão com a seriedade e sensibilidade pedidas.

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