O vulto

Segunda-feira. 23:00.

Sob a escuridão da noite, nuvens cinzentas anunciando violenta borrasca, eclipsando a lua, Ana Verônica andava, apreensiva, a bolsa abraçada ao peito. Os seus passos, pesados, firmes, apressados, ecoavam no silêncio das ruas mal iluminadas. Seus olhos, alertas. Olhava Ana Verônica de um lado para o outro. O ruído de uma folha seca caindo, e os ouvidos de Ana Verônica, aguçados pelo medo e pelo que se pode chamar de instinto de conservação, ou instinto de sobrevivência, captavam-no, e sobressaltava-se Ana Verônica, e crispavam-se-lhe os pêlos de todo o corpo, a prova do medo e da apreensão que a assaltavam.

Ana Verônica, mulher bonita, dedicada à família e aos estudos, sonhadora, vaidosa, estudiosa, almejava seguir carreira de arquiteta respeitada e bem-sucedida; dedicada aos estudos, sacrificava os seus dias de lazer, feriados e finais-de-semana. Superava obstáculos que detém muita gente menos perseverante. A sua beleza, incomparável. Atraente, seu corpo enfeitiçava qualquer homem. Andava, todas as noites, por ruas mal iluminadas, temendo a investida de um ladrão, de um assassino, de um estuprador. Rogava ao Senhor que nenhum facínora lhe cruzasse o caminho.

Naquela noite de calor insuportável, trajava um vestido florido, que lhe modelava as perfeitas formas femininas. Seu corpo, belo e atraente em vestes comuns, sublimou-se com tal vestido. A vaidade, sentimento tão natural, poderia vir a perdê-la. Seu corpo, puro, poderia vir a ser enxovalhado, profanado – e talvez conservasse a beleza, cuja pureza, no entanto, não mais possuiria.

Diários, a apreensão e o medo de ser agarrada por um estuprador, por um assassino. Na sua casa, seu pai e sua mãe preocupavam-se com ela; enquanto ela à casa não regressava, eles não se recolhiam, para dormir, ao quarto. Conservavam-se acordados à espera da filha, a única filha, que lhes era querida.

A lubricidade de muitos homens aguçava-se quando eles deparavam-se com Ana Verônica. Havia algum homem espreitando Ana Verônica de detrás dos postes, das árvores, dos automóveis, oculto pela escuridão, à espreita, para avançar contra ela, agarrá-la e, ardendo de desejo, arrastá-la, para algum lugar imundo, e violentá-la?

Ana Verônica estava apreensiva, naquela noite, que prenunciava, aziaga, torpezas. Corajosa, o coração a pinotear, dava passo após passo. Ecoava, lúgubre, o bater da sola dos seus sapatos de saltos altos nas calçadas e nas ruas esburacadas e com raízes de árvores expostas.

Atingiram-na golpes de vento de uma corrente de ar frio. Calafrio percorreu-lhe o corpo. À sua frente, um vulto atravessou a rua, da direita para a esquerda, e desapareceu atrás de uma árvore. Ana Verônica estacou, olhos fitos na árvore, aguçadas a visão e a audição. Distinguia o contorno da árvore, e nada mais. Seu coração cabriolava. Sua boca secou-se. A sua bela fisionomia, suspensa, deformada, refletia o medo que a invadira. O sangue abandonou-lhe a face. Abraçou-se, abraçando-se à bolsa ao seu colo, apertando-a contra si como se a protegesse e por ela fosse protegida.

Andou, lenta e cuidadosamente. Recriminou-se. Por que usou um vestido que lhe sublimava os atrativos e esparziu-se perfume tão aromático, tão sedutor?

Passou pela árvore atrás da qual escondera-se o vulto, que desapareceu.

Não abandonaram Ana Verônica o medo e a apreensão; recrudesceram, à presença do vulto, que se moveu atrás dela, correndo, pelo meio da rua e detendo-se atrás de um carro.

Ana Verônica acelerou os passos, o coração a saltar, as pernas a tremerem, o corpo a trepidar. Pela sua mente transcorreu a sua vida até o presente, e ela anteviu o que lhe aconteceria nas mãos do vulto ao qual ela deu uma constituição física, um corpo humano masculino; até então, o vulto era-lhe uma entidade etérea, que já a havia assombrado em outros dias; desta vez, assumiu-lhe a consistência de um homem. Em sua mente, convergiram o passado, o presente e o futuro, que se fundiram numa coisa só. Evocou seu pai e sua mãe. Invocou-os. Orou. Solicitou a ajuda dos anjos.

Sentiu respiração ofegante atrás de si. Agitou os cabelos. Seu coração, acelerado, a ponto de explodir. De seus olhos escorreram fiozinhos de lágrimas, que secaram, instantaneamente, no rosto lívido.

Agrediam-lhe os ouvidos os assustadores ruídos dos passos do vulto. Tensa, seu corpo enrijeceu-se.

Notou que o vulto afastou-se de si, e desapareceu. Não afugentou de si o medo. Não lhe aliviava o espírito a escuridão lúgubre. O medo acompanhou-a até uma rua movimentada bem iluminada. A tensão abandonou-a. Renovou-se-lhe a beleza. Afrouxou o abraço à bolsa. Os braços moveram-se-lhe às laterais do corpo, como um pêndulo. Os seus passos, lentos, calmos, tranqüilos. Sorriu, aliviada, e logo suprimiu do rosto o sorriso. Seu coração, no compasso de música melodiosa. Deu os últimos passos até a sua casa. Enfiou a chave na fechadura, e abriu a porta, e na sua casa entrou. Na sala, sorriu para seu pai e sua mãe. Sua mãe abraçou-a, beijou-a nas duas faces, disse-lhe que tomasse um banho, afagou-lhe as bochechas. Ana Verônica banhou-se. Na cozinha, ela, seu pai e sua mãe, à mesa, compartilharam da última refeição do dia. Desejou Ana Verônica boa-noite ao seu pai e à sua mãe. Pediu-lhes a benção, e foi ao quarto. Substituiu as roupas por uma camisola, enfiou-se sob o lençol, apagou as lâmpadas. E dormiu profundamente.

*

Terça-feira. 23:00 horas.

Sob a escuridão da noite, nuvens cinzentas…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Por Yla Meu Blog

Escritora ○ Poetisa ○ Romancista ○ Lírica

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

%d blogueiros gostam disto: