Entre Santos (Várias Histórias) – de Machado de Assis

Conto inusitado, para um escritor inscrito na escola realista – o que me faz pensar o que querem dar a entender os críticos literários por realismo em literatura de ficção. No caso de Machado de Assis, o seu pessimismo!? Não digo que ele fosse pessimista. Ele era um descrente!? Talvez. Não sei se o era. Considerando este conto, unicamente, o Bruxo do Cosme Velho, criador de obras imortais da literatura brasileira, apresenta-se-me como um homem descrente das virtudes humanas, seres, para ele, incapazes de cumprir os mais simples deveres morais, pois sucumbem aos vícios da carne, aos desejos materiais, para gozarem de veleidades, às quais não podem resistir e elevarem-se à condição superior de seres de dons que, tendo origem na alma, transcendem o corpo. Para o criador de Capitu, o corpo é mais poderoso do que a alma.
No início, eu disse que é este conto, do volume Várias Histórias, inusitado, se se entender seu autor da escola realista. E inusitado é, independentemente do rótulo que se cola em quem o imaginou, tendo-se em vista as suas peculiaridades, que, entendo, fazem dele obra de um literato dotado de mais criatividade do que nele reconhecem.
O conto está em primeira pessoa. Um padre velho narra um episódio de sua biografia: capelão de S. Francisco de Paula, em uma noite – as portas da igreja fechadas – viu, por sob uma delas, luz no interior da igreja. Surpreso, assustado, decide, hesitante, amedrontado, de posse de uma lanterna, averiguar o que se dava nos domínios da igreja, desarmado, tremendo tal qual vara verde. Ouve vozes. Acredita tratarem-se de de ladrões. E anuncia o narrador evento assombroso, extraordinário, que, suspeito, nenhum leitor, antes de chegar neste ponto do relato, imaginara. E aqui está o inusitado. As imagens dos santos São José, São Miguel, São João Batista, São Francisco de Sales e São Francisco de Paula, descidos cada qual de seu nicho, sentados nos altares, parlamentavam. E o capelão refugia-se num canto escuro, e ouve a conversa dos santos.
Linhas acima eu afirmei, com outras palavras, que tenho no criador do Quincas Borba um homem descrente no poder do espírito sobre o corpo, e aqui, em poucas palavras, reforço a minha afirmação: evocando as duas histórias contadas, pelos santos, a primeira, a de uma adúltera, por São José, e a segunda a de um usurário e avarento, por São Francisco de Sales, em ambas as duas histórias, os fiéis, a adúltera e o usurário e avarento, que haviam recorrido aos santos em busca de indulgências, oravam, mas, enquanto oravam, perdiam-se em pensamentos reprováveis, a adúltera evocando o seu amante, o usurário e avarento o seu dinheiro. Ao caso deste o autor dedicou mais linhas do que ao daquela; revelou a mesquinhez de Sales, que recorrera ao santo para São Francisco de Sales para que ele intercedesse pela esposa, doente de erisipela em uma das pernas. Sales amava-a, deveras, mas sacrificava seu coração à outra paixão… Deixo as reticências.
Neste conto o criador de Brás Cubas exige leitores atentos. Não é Machado de Assis um escritor que deixa suas idéias explícitas aos leitores. Ele pede leitores que detectam as sutilezas de seu estilo narrativo inconfundível.

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