Os pioneiros – parte 1 de 3

Há seis meses, propus, durante uma tertúlia, na casa da Querosene – a Poliana, assim alcunhada devido ao seu pavio curto e ao seu sangue inflamável –, um tema para contos. Estávamos presentes, eu, Luis Amadeu, Poliana, Renata, Teresa, Gabriel e Rafael. A Poliana é a namorada do Rafael. A Renata é a minha namorada. A Teresa, uma semana antes, rompera o namoro com o Vinicius. O Gabriel havia dois dias brigara com a Adriana (Ele, não me resta dúvidas, compareceu à casa da Poliana porque, imprudente, involuntária e imprevidentemente o Luis Amadeu dissera-lhe que a Teresa iria lá. Qual foi a contribuição do Gabriel à assembléia literária? Nenhuma. Ele se limitou a beber o café-com-leite que a Poliana nos preparou e a degustar biscoitos de nata, bolachas, geléias e pudins, e a ouvir – e dar-se de desentendido – as insinuações, nem sempre sutis, que a Renata lhe lançou na cara).

A tertúlia foi proveitosa. Rafael, criativo, apresentou-nos as suas idéias para novelas de vários gêneros literários que pretendia escrever, leu-nos as anotações que havia feito desde a nossa última reunião (isto é, na reunião à qual ele compareceu, oito meses antes; entre a última participação dele numa tertúlia e a que promovemos no dia em questão, havíamos nos reunido cinco vezes. O Rafael não compareceu a esses cinco encontros devido ao seu trabalho, que lhe exigiu as vinte e quatro horas de cada dia), e as comentou, como, também, um conto que escrevera. Não sei o que ele tem no cérebro, que lhe permite produzir tantas idéias; muitas não são boas, é verdade, mas as que são boas são ótimas, e com elas o Rafael escreve novelas e contos empolgantes; o mesmo digo do Luis Amadeu, que, embora menos prolífico do que o Rafael, escreve histórias mesmerizantes. Ao dar início à leitura de um conto ou de uma novela de sua autoria, não consigo interrompê-la enquanto não a dou por encerrada. Já cheguei atrasado a compromissos por causa de contos e novelas escritas por Rafael e Luis Amadeu. E já ouvi muitos sermões da Renata. É impossível interromper a leitura de uma história escrita por eles. Quem já leu alguma obra deles, sabe do que estou falando, e concorda comigo, é certo.

De todos os que participavam do sarau, Teresa é a única vocacionada à análise crítica e dona de uma memória privilegiada. Ela sabe, puxando, sem esforço aparente, pela memória, o nome de todos os personagens de Guerra e Paz e todos os episódios de Dom Quixote de La Mancha. Contribuiu, para o enriquecimento da assembléia, com as comparações que apresentou de obras clássicas e modernas, e explicou-nos porque aquelas que ela reputava melhores eram as melhores. Confesso: perdi-me em alguns momentos durante os quais ela nos falava, prendendo-nos a atenção. Valiosa, a sua contribuição. Ela não nos deu idéias para contos e novelas, mas extraiu dos que leu a essência, e disse-nos porque todos os amantes da literatura têm de lê-los, se desejam conhecer literatura e escrever boas histórias. Rafael, com as suas dezenas de idéias, contrapôs-se à Teresa. Não é dotado de senso crítico equiparável ao dela. Tem um cérebro fantasioso. Converte a realidade numa fantasia eterna, duradoura, sem compromisso com o verossímil. Ele alheia-se do mundo, e deixa-se envolver pela nuvem da fantasia, que o transporta para outra dimensão, uma dimensão cuja localização raros humanos conhecem. Quanto à minha contribuição, à da Poliana e à da Renata, se não se equiparou à da Teresa, Rafael e Luis Amadeu, não foi inexistente como a do Gabriel.

Após o encerramento da tertúlia, saímos, eu e Luis Amadeu, da casa da Poliana, após nos despedirmos dos outros participantes. Andávamos pela rua São Francisco, quando o Luis Amadeu entregou-me uma pasta, e falou-me do seu teor; não proferiu vinte palavras, um acesso de tosse o dominou. Cessamos os passos. O rosto de Luis Amadeu tingiu-se de vermelho. Deu-me a impressão de que o sangue escapara-lhe dos vasos sanguíneos e, pelos poros, escapara-lhe para a pele, cobrindo-a inteiramente. Pouco depois, recomposto, Luis Amadeu reassumiu a sua aparência original. Durante o seu acesso de tosse e a sua recomposição, fitei a pasta que ele me entregara, em cuja capa havia, numa etiqueta, o título de uma novela: Os Pioneiros. Era mais uma das histórias repletas de criaturas extraordinárias que pululam da mente de Luis Amadeu, pensei comigo. Quantas histórias de sua autoria já li? Perdi a conta. Algumas, amalucadas, com extravagantes personagens pitorescos, que enfrentam criaturas fabulosas, em aventuras inusitadas, eu diria inenarráveis, em cenários extraordinariamente exuberantes, ocuparam o meu tempo por horas a fio, e induziram-me a desconectar a mente da realidade. Absorveram-me inteiramente. E aquele título, Os Pioneiros, fizeram-me evocar cenas de outros livros de autoria de Luis Amadeu. Fantásticas. Cativantes. Envolventes. Perguntei-me: Luis Amadeu, nesta novela, repete temas, cenas e episódios de outras histórias de sua autoria? Não que isso me desagradaria. A narrativa de Luis Amadeu é tão envolvente que leio uma história dele três vezes e acredito ter lido três histórias distintas. É um talento narrativo raro, o dele. Eu iria lhe perguntar o que havia naquela novela, e se ele reciclara idéias de outros livros, mas ele, antes que eu abrisse a boca, refeito do acesso de tosse, num tom pausado, porém animado – no início lentamente, escandindo as palavras e coordenando os pensamentos, depois, com seu tom peculiar, sua voz sonora, seu vocabulário, simultaneamente simples e sofisticado (a sofisticação está na simplicidade e a simplicidade na sofisticação) -, disse-me:

– Os Pioneiros contem relatos de uma expedição humana exploratória para um planeta que, segundo astrofísicos e exobiólogos, conserva semelhanças com a Terra. Baseei-me, para escrevê-los, nas mais recentes descobertas científicas; no entanto, a elas não me prendi. Não aprecio relatos que mais parecem tratados científicos, e não histórias de aventuras. Há escritores que dão relatos, realistas, dizem eles, e, portanto, superiores às aventuras fictícias, fantasiosas, sejam as de terror, as de espionagem, as políticas, as de ficção científica, as de fantasia à Tolkien. Realismo! Não há realismo na ficção. Ficção é ficção. A realidade não pode ser apreendida pelos humanos. Quero dizer: a realidade é apreendida pelos humanos, mas os humanos, ao usarmos de palavras para representá-la, não o fazemos com correção. Não sei se estou me fazendo entender. Corrijo-me… A emenda saiu pior do que o soneto? A argumentação filosófica não é um dos meus talentos. Digo, para me fazer entender: As palavras que empregamos para representar a realidade não são a realidade, são palavras; não representam a realidade, não a retratam. A linguagem humana não a traduz com correção. As palavras são palavras. Os tolos acreditam que as palavras retratam a realidade, reproduzem a realidade, são a realidade. As palavras não reproduzem a realidade, não a retratam, não são a realidade. As palavras são inexatas. Uma pessoa usa certas palavras para traduzir a realidade; outras pessoas usam outras palavras para traduzirem a realidade. Há uma realidade. E infinitas traduções dela. Não há duas pessoas com a mesma concepção do mundo, tampouco duas pessoas podem retratá-lo com as mesmas palavras. Estou me fazendo entender? A objetividade dos relatos, almejada por muitos escritores, é uma quimera, uma obsessão injustificada. Os que empreendem tal esforço despendem energia, que não é renovável. É uma tarefa infrutífera, um exercício infértil, fútil. Não desperdiço nem uma fração infinitesimal da minha inteligência num exercício que, como eu disse, é infrutífero. É impossível reproduzir, com palavras exatas, no papel, os eventos que presencio, pois sei que sou, como todas as pessoas, incapaz de fazê-lo, devido os limites da minha inteligência, que é a de um humano, e não a de um lunático, como muitas pessoas pensam. Não me canso de dizer, para as pessoas que se dispõem a me ouvir: Não há relatos realistas. Saiba que o realismo fantástico é um rótulo, apenas um rótulo, como outro rótulo qualquer, e nada quer dizer, absolutamente nada; é um rótulo sem pé nem cabeça, criado para identificar uma literatura que, dizem os pernósticos, é distinta da de outros continentes, criação singular dos povos sul-americanos. Bobagem! Estupidez sem paralelo na história da civilização! Típico de bárbaros presunçosos! Toda literatura é fantástica, em graus distintos. Difícil é saber qual é a mais fantástica e qual é a menos fantástica. Até agora ninguém me convenceu de que a literatura dita realista é realista, e as outras, não. Há mais realidade na Divina Comédia do que na Comédia Humana! As palavras, como eu disse, são palavras; não nos apresentam um retrato exato da realidade; representam, nunca com exatidão, o que as pessoas que as empregam captaram da realidade, pois tais pessoas as distorcem, involuntariamente, ou não. As palavras não são a realidade; não constróem a realidade. Reproduzem o que as pessoas acreditam ser a realidade. Estou sendo um pouco repetitivo, e, como não me é comum, estendo-me em reflexões filosóficas. Não sei o que a Teresa me faz sempre que com ela converso. Você já percebeu que, sempre que converso com a Teresa, e participo dos saraus nos quais ela participa, fico cheio de filosofias? Parece-me que ela me exerce uma influência, salutar, acredito. Ou não? Vivo com os meus desvarios fantásticos. Extrapolo, reconheço, o bom-senso, não raras vezes. Deixo minha mente espraiar-se por outros mundos, outros universos, outras dimensões. Não pelos mundos conhecidos. Quantos são? Dois mil? Não pelos universos presumidos. Nem pelas dimensões concebidas, nas teorias, pelos cosmólogos e pelos físicos teóricos; mas pelos mundos, universos e dimensões que se encontram, unicamente, na minha mente. As minhas idéias são corpóreas, ou constituem-se de ondas? São compostas de partículas? Preenchem um lugar no espaço? Como o cérebro, órgão físico, concebe coisas imateriais, os pensamentos, os sentimentos e as idéias? Espero não me encontrar com a Teresa nos próximos trinta dias. Não quero rechear as minhas narrativas com intermináveis elucubrações filosóficas. Que prolixidade! Você se lembra do que eu falava? Puxe pela memória, e ajude-me a restabelecer o fio da meada. Eu falava da história, que está nessa pasta, de uma aventura incrível num planeta inóspito. Puxa! A Teresa consegue inspirar o meu lado mal, o pior dos meus instintos racionais. O que ela possui? Qual o talento dela? Como posso definir a influência dos comentários da Teresa na minha mente? O que de meu cérebro a Teresa extraiu? E o que nele ela inseriu? Você acha que, para o meu bem-estar, tenho de me afastar da Teresa? Ela não me é uma boa influência. Ou é? Não sei mais no que estou pensando, e não sei a respeito do que eu falava. Qual era o assunto da nossa conversa? Você lembra qual era? Eu ainda me lembro. Vou tratar do tema de nosso interesse, antes que eu me estenda, com a minha tagarelice, e não me recorde mais do que falo, e retire essa pasta com a minha novela de suas mãos, não me recordando das razões que me levaram a entregá-la para você, e você não me pergunte porque eu a entreguei para você, e eu, com a pasta comigo, vá embora. Como não quero que isso aconteça, e você também não, estou certo, dou por encerradas, definitivamente encerradas, e que isso fique bem claro, estas minhas digressões, que nos afastam do assunto que pretendo tratar com você, e falo do que há nessa pasta. Você leu o título de uma novela que escrevi de três meses para cá: Os Pioneiros. Novela em que se narra uma aventura fantástica num planeta inóspito. Não me pergunte qual é o nome do planeta. Não me faça essa pergunta; se ma fizer, eu nenhuma resposta darei, e por uma razão bem simples, da qual você suspeita, você, um dos meus melhores leitores: Não escrevi o nome do planeta. Empreguei um recurso comum aos escritores que não desejam dar a localização da cidade, ou da região, ou do país: três asteriscos. Usei três asteriscos para identificar o planeta inóspito. Muitos escritores preferem o uso de três pontos após uma letra maiúscula. Qualquer letra. Uma letra e três pontos. O Claudemir emprega esse recurso, principalmente quando ambienta as suas histórias nesta cidade, e concebe personagens tendo como base as pessoas de seu relacionamento, inclusive familiares e amigos, alterando-lhes os nomes. Com tal recurso, ele não engana os leitores que o conhecem. Até eu ele já descreveu, o maldito! E duas vezes, uma no conto Vulgares, dando-me o nome de Celso, um dos coadjuvantes. Celso era… era, não; é; é o meu retrato, não exato, mas fiel, direi. E o outro ‘eu’ que o Claudemir descreveu encontra-se na novela Acessos e Retrocessos, novela herói cômica, assim a classificaria se eu apreciasse classificações; e o Claudemir me fez como um personagem que arquiteta as artimanhas mais extravagantes que se possa imaginar. Vinguei-me dele na novela Desencontros de Duas Almas que se Merecem. Retratei-o, como pude. O Claudemir se reconheceu, disse-me que dele fiz uma caricatura grotesca, e eu lhe agradeci o elogio. Se a caricatura é grotesca, e qual caricatura não o é?, então fui bem-sucedido no meu trabalho. Não foi em vão o meu esforço. Atingi um soco na boca do estômago do Claudemir, e ele me disse para eu me preparar para a revindita. Você leu Desencontros de Duas Almas que se Merecem? Leia-a. Você reconhecerá o Claudemir na caricatura. E leia Vulgares, e Acessos e Retrocessos. Você me reconhecerá no personagem Celso, e, digo agora, no Virgulino. Que nome para um personagem! Eu dizia: O Claudemir emprega a letra maiúscula seguida de três pontos quando não deseja identificar a cidade na qual a história se passa. Muitos escritores russos também empregaram tal recurso nos seus contos, novelas e romances. E eles também empregavam três estrelinhas; quero dizer, três asteriscos. Monteiro Lobato brincou com essa prática. E, dizia eu, na novela, há um planeta… Refiro-me, agora, à minha novela Os Pioneiros. O planeta eu o identifiquei com três asteriscos, e, antes dos três asteriscos, se eu ainda não disse, digo, a letra ‘A’ maiúscula. Pensei em conceber um nome para o planeta. Que nome eu lhe daria? Matutei. Dei-lhe dezenas, centenas, milhares de nomes. Por fim, após fundir a cuca, decidi pelo ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos. E é nesse planeta ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos que a história se passa. O planeta da novela… Novela? Do conto… Conto? A história é extensa para um conto, e tem muitos personagens, e detalhes e relatos que lhe dão uma dimensão que vai além do conto. Não é um conto. É uma novela. Quantos personagens participam da história? Uns quinze. Talvez mais de vinte. Uns trinta. Considerando-se a sua extensão e o número de personagens que se apresentam nas suas mais de cinquenta páginas, Os Pioneiros não é um conto; é uma novela. E eu quero que você a leia. Você será a primeira pessoa que a irá ler. Na verdade, a segunda.  A primeira pessoa que a leu fui eu. Tive esse privilégio. E eu, mesmo que desejasse concedê-lo a você, não poderia fazê-lo. Não se entristeça. Você terá o privilégio de ser a segunda pessoa a lê-la. E, depois de lê-la, me dirá o que achou dela. Depois, a entregarei para a Teresa. Talvez você esteja se perguntando porque não pedi para a Teresa ler Os Pioneiros. Tive as minhas razões. A Teresa iria dissecar a novela à procura de um defeito, um mísero defeito, de uma incoerência, de uma inconsistência, de um mísero erro gramatical, de uma discrepância, de uma deficiência no estilo, no vocabulário, e depois analisaria o tema, procuraria por sua relação com teorias científicas, psicológicas, filosóficas, ideológicas, as quais não tive em mente desenvolver, as quais nem sequer tangenciaram-me a cabeça, tampouco resvalaram-me o cérebro. A Teresa é obcecada por questões teológicas, sociológicas, filosóficas, psicológicas, praxeológicas, sociológicas, o diabo! Não reclamo. As observações da Teresa a respeito de alguns contos que lha apresentei e a respeito dos quais lhe pedi comentários, fizeram com que eu os modificasse, para melhor, os incrementasse com episódios que deixaram a trama mais sólida, e adicionasse personagens, ou excluísse personagens, conforme o caso, simplificando-os. Até mesmo com a adição de personagens e de episódios alguns enredos simplificaram-se porque se tornaram mais claros quando deles eliminei o desnecessário, que só servia para encher lingüiça. E também modifiquei o vocabulário de personagens, as suas expressões, sentenças, e a sua personalidade. A Teresa deu-me a sua contribuição, valiosa, para a redação de contos e novelas, e para um romance que escrevi há um ano: Amizade Eterna. Neste romance, por sugestão da Teresa, além de suprimir capítulos, e adicionar capítulos, suprimir personagens, e adicionar personagens, modifiquei o título, que ficou: Uma História Comum. O romance melhorou, depois de eu o modificar por sugestão da Teresa. Não acolhi todas as sugestões que ela me deu, é óbvio. Algumas não me agradavam. Atendiam ao gosto da Teresa; não ao meu; então, os descartei. Ora, sou o autor do romance; não a Teresa. Não posso escrever um romance, ou um conto, ou uma novela, que a Teresa gostaria de ler; e não eu. Escrevo ao meu gosto; sou escravo do meu gosto. Não rejeito sugestões que me agradam, que contribuem para melhorar as minhas histórias; acolho-as quando me convenço de que melhorarão as minhas idéias originais, mas não posso descaracterizar as minhas obras. Não quero dizer que a Teresa foi intransigente, e quis impor-me as suas idéias. Longe disso. Ela jamais faria isso. Pedi-lhe observações sobre o que escrevi porque ela é uma pessoa dotada de talento distinto do meu. O que ela vê do mundo é muito, mas muito, diferente do que vejo. Somos muito diferentes um do outro. Não sei se existe o pouco diferente e o muito diferente. Há o igual e o diferente. Há pouco igual e muito igual? Há pouco diferente e muito diferente? É absurdo falar assim, não é? Igual é igual. Diferente é diferente. Uma caneta é igual a outra caneta. Elas não são pouco iguais; elas não são muito iguais. Elas são iguais. Um lápis é diferente de outro lápis. Eles não são pouco diferentes. Eles não são muito diferentes. Eles são diferentes. Bastou-me evocar a Teresa, que comecei a filosofar. Depois desse tempo todo, depois de tudo o que falei a respeito de Os Pioneiros, pensei que a influência da Teresa sobre mim havia se dissipado. Enganei-me. A influência persiste. A sua força é imensurável, inexaurível. Persiste em mim. Não sei se isso é bom, ou se é ruim. Agora que já disse porque não pedi para a Teresa ler Os pioneiros, sabe o que farei? Direi que, ao entregar para você a minha obra-prima à qual me dediquei durante três meses, tive em mente pedir comentários sobre as idéias, as cenas de aventuras, se são empolgantes, emocionantes, ou não. Não quero comentários teológicos, filosóficos, e o raio que o parta! Quero saber se o leitor se encantou com as aventuras. Só isso. E isso a Teresa, mesmo que o desejasse, e mesmo que eu lhe pedisse encarecidamente, e lhe suplicasse, não poderia me oferecer. Iria contra a natureza dela. Ela não aprecia histórias fantásticas, ficção científica, fantasia. A fantasia, o gênero fantasia, segundo a Teresa, é fantasiosa demais para o gosto dela. E a ficção científica é muito fictícia, e pouco, ou nada, tem de científico. Quanto a isso, concordo com ela, com ressalvas. Quase não há ciência na ficção científica. Mas as boas histórias do gênero são boas obras de literatura; não são obras de ficção científica. São obras literárias. Não podemos negar valor literário à Fundação, A Guerra das Salamandras, Farenheit 451 e O homem ilustrado. Quatro dos melhores livros que li. Rivalizam-se com os clássicos da literatura. Exagero? Não. Ponho em pé de igualdade Moby Dick e Fundação; O vermelho e o negro e A guerra das salamandras; Viagens de Gulliver e Farenheit 451; A letra escarlate e O Homem ilustrado. As oito obras são importantes, de alto nível. Rivalizam-se. E não posso me esquecer de outro livro de ficção científica, um dos melhores que já li: O homem do castelo alto. Emblemático. Instigante. E Encontro com Rama é uma aventura empolgante. E não menciono outros livros do gênero porque não quero me estender mais do que já me estendi. Eu não me perdoaria se esquecesse de livros ótimos, como muitos que há. Não são poucos, não. E as obras de fantasia não são, também elas, obras de fantasia; são obras literárias. A Odisséia não é uma obra de fantasia? Ela não pode ser classificada no gênero fantasia? O Senhor dos Anéis não é uma odisséia? É uma odisséia. Fundação também é uma odisséia. A odisséia de uma civilização. Pinóquio é uma história de fantasia. A Chave do Tamanho também é uma história de fantasia, ou não? Gargântua e Pantagruel é obra de fantasia. E Dom Casmurro? E Dom Quixote? Não aprecio as classificações. São desnecessárias, e geram debates infindáveis, que a lugar nenhum nos levam, e produzem discriminações. E discordo da Teresa, quando ela diz que os romances são obras literárias, e os outros gêneros literários, não. E quando a Teresa diz romances, ela quer dizer os de cunho social, os realistas, referindo-se a Balzac, Proust, Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Mann, Dickens, Faulkner, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, e cuja classificação recebe a chancela de estudiosos, críticos literários e academias, que arregimentam o maior número de autoridades para fazer prevalecer as suas teses. Esses autores realistas, como a eles se referem os estudiosos, não são melhores do que os escritores de livros de fantasia e de ficção científica. A Teresa deixa-se levar pelos rótulos. Para uma pessoa inteligente, a Teresa é burra às vezes. E concordo com as pessoas que dizem que o termo ficção científica é inadequado. Esse assunto dá muito pano pra manga. Em outra ocasião, conversaremos a respeito. Você, estou certo, entendeu porque não pedi para a Teresa opiniões sobre Os Pioneiros. Entendeu, não entendeu? Ela dissecaria a novela, e me diria para nela eu incluir teses filosóficas, teológicas, psicológicas, sociológicas. Em resumo, ela me diria para rasgar todas essas folhas, ou me diria para jogá-las na lata de lixo, ou, então, para que eu nunca mais as lesse, me diria para queimá-las, para que elas não me inspirem outras idéias similares. Agora, com você, a história é diferente. Você não desmontará a minha novela, que me é muito valiosa, pois nela trabalhei durante três meses. Três meses de trabalho árduo. Perdi noites, que passei em branco. Refiz o texto inúmeras vezes. Quantas vezes o corrigi? Quinhentas vezes. Para dar consistência ao texto, fi-lo e refi-lo, incansavelmente. Quero dizer, cansavelmente. Exauri as minhas energias. E aí está, nas suas mãos, Os Pioneiros. Com você estão as aventuras de uma trupe de criaturas exóticas no planeta que nenhum humano são desejaria conhecer, no qual nenhum humano lúcido desejaria pôr os pés, e que todos, excluídos os insanos e os dotados de temperamentos afins, jamais se disporiam a conhecer, nem embaixo de porrete. Não espere por teorias científicas, descrições minuciosas de fenômenos cosmológicos, tampouco de espaçonaves, máquinas e equipamentos espaciais. Não procure por teorias das cordas, das supercordas, viagens espaço-temporais, travessia de uma galáxia para outra através de um buraco de minhoca. Alguns fenômenos previstos nas teorias cosmológicas estão considerados nessas folhas, mas neles não me detive. Eu os usei como um recurso para o andamento da narrativa, não de modo artificial, para encher lingüiça. Mais uma vez, lanço mão dessa linguagem, que não me agrada, mas que é clara, e serve, como uma luva, para o que tenho em mente. Divirta-se com a novela, e não negligencie a avaliação ponderada do que irá ler. Depois, se necessário, leia-a, novamente; na próxima vez que nos encontrarmos, pois não nos veremos por um bom tempo, porque estou de viagem marcada para o sul, e só regressarei daqui dois meses, se não depois de três meses, você me dirá, assim que eu regressar, o que pensou da novela. Quero uma análise, e quero saber o que você achou das criaturas e dos fenômenos naturais que se manifestam no planeta A***. Se são fantásticas as criaturas, extraordinariamente fantásticas, e se merecem figurar entre os seres fantásticos, fabulosos, as quimeras e os monstros descritos nos poemas épicos gregos, nórdicos, hindus, nas obras egípcias, e entre os da cultura popular que os viajantes e os aventureiros admitiram com eles terem se deparado. Frutos da imaginação! Imaginação fértil! E você me dirá qual foi o impacto da revelação final em você. Quais impressões provocaram em você. Se surpreendeu você, ou não. Se você previu a cena derradeira… Se você a prever, então fui mal-sucedido em meu propósito: prender a atenção do leitor até o momento das revelações, as quais, acredito, são imprevisíveis. A cena derradeira tem de pôr você em suspenso, boquiaberto, estupefato, e de olhos arregalados e de queixo caído. Nas cenas que a antecedem, você terá de suspender a respiração e temer pela sua vida. Se isso não se suceder a você durante a leitura, então, concluirei, fui mal sucedido em meu propósito, e terei de reescrever a novela. Mas não me diga que as revelações surpreenderam você, e você suou frio, e calafrio gelou a sua espinha, apenas para me poupar trabalho. Não faça isso, está bem? Não pense, nem por um segundo, em elogiar a minha obra-prima para me poupar trabalho e para não me desagradar. Assim que nós nos reencontrarmos, você me apresentará a sua avaliação do meu livro, e eu, se suspeitar de você, submeterei você a uma sabatina. Os meus critérios, saiba, são rigorosos, e eu empurrarei você contra a parede, e espremerei você até você me suplicar liberdade. Sou seu amigo, e você é meu amigo; você será sincero comigo; e não me poupará críticas severas, se eu as merecer. Confio em você, e você confia em mim. Sei que você não me faltará com a sinceridade, mas nada me custa salientar este ponto. Despedimo-nos aqui, e eu seguirei o meu rumo, e você o seu, e nossos caminhos se reencontrarão em breve. Boa leitura. Ah! Esquecia-me: Mande abraços meu para seu pai e sua mãe, abraços apertados, apertadíssimos. Tchau. Nos veremos daqui uns dois meses, ou dentro de três meses. Divirta-se com a leitura da minha obra-prima, que será um sucesso estrondoso. Tchau, e até breve.

Luis Amadeu afastou-se, a passos acelerados. Nunca o vi, quando só, a andar num ritmo vagaroso.

Voltei a minha atenção para a pasta. Li a etiqueta com o título da novela. Abri a pasta. Na primeira página, na primeira linha, o título da novela Os Pioneiros. E lá, na calçada, andando, cuidadoso, interrompendo a leitura, li as quatro primeiras páginas das aventuras concebidas por Luis Amadeu. Empolgantes! Acelerei os passos, no desejo de ler, tranquilamente, a novela, na minha casa, onde eu recomeçaria a leitura, desde o título. Encavernar-me-ia, no meu quarto, e não interromperia a leitura. Eu iria ler Os Pioneiros do começo ao fim. Empolgaram-me as primeiras páginas. As outras, eu acreditava, prenderiam a minha atenção. Eu só encerraria a leitura no ponto final derradeiro. A narrativa que li surpreendeu-me sobremaneira. Tal obra merece ser conhecida por todas as pessoas que amam a literatura.

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