Os pioneiros – parte 2 de 3

Os Pioneiros

A criatura emitiu urros estrondejantes. Enorme, de quatro metros de altura, aproximava-se, rapidamente, de Osvaldo, que não a viu em suas reais dimensões porque a penumbra o impedia, até que, não muito tempo depois, distinguiu-lhe a figura, todavia dela não definiu a coloração da pele (ou do que lhe revestia o corpo), que era rígida como rocha. Antes que Osvaldo compreendesse o que ocorria, a criatura golpeou-lhe o braço, e arremessou-o a mais de vinte metros de distância. Osvaldo sentiu o golpe, atenuado pelo exoesqueleto. Caído, olhou para a criatura, e distinguiu-lhe o vulto; mas mal pôde ver-lhe a cabeça, e dela viu a cauda de uns cinco metros, e que se encompridava. A criatura urrou. Odor miasmático atingiu Osvaldo, que, protegido pelo capacete, não o sentiu, mas a pele de seus braços e antebraços expostos sentiu-o, e a reação foi instantânea: bolhas rubras de sangue manifestaram-se nos braços e antebraços de Osvaldo; parecia que a pele dele havia sido removida. Ele olhou para seus braços, neles fixou o olhar por uma fração de segundo, e voltou-se para a criatura, que, embora gigantesca, dele se aproximara sem que os sensores do exoesqueleto captassem-na, e tampouco detectassem os tremores de terra que ela, com seus vinte mil quilos, produzia. Levantou-se; recompôs-se; viu a criatura indo em sua direção, e tratou de correr. E hesitou. Para onde correria? Olhou, apavorado, em torno. O descampado não lhe oferecia abrigo. Não tinha para onde fugir. O único meio de escapar da criatura gigantesca era contatar a espaçonave exploratória, e solicitar-lhe o seu (dele, Osvaldo) imediato resgate. E a criatura avançava em sua direção. Com os mapas tridimensionais, que os sensores do exoesqueleto desenhavam, de um raio de cinquenta metros, Osvaldo ampliou o seu conhecimento da região inóspita, desértica, mas espessa camada de nuvem, cuja composição ele desconhecia, impedia-o de ver com clareza o que havia ao seu redor, e as câmeras do capacete não a penetravam, para ajudá-lo a se orientar, e a penumbra, tenebrosa, terrificante, enfatizava o opressivo ambiente da região. Nenhum abrigo havia nas proximidades. Osvaldo não sabia para onde correr, mas tratou de correr, sem rumo, para se afastar da criatura, que o ameaçava, pois não queria se lhe servir de repasto. Desejava, sim, empanturrar-se com um banquete republicano; mas não era desejo seu servir-se de banquete para a criatura que o perseguia. O encerramento da vida do Pioneiro, ensina a lenda, não era o que Osvaldo desejava para si – nunca sonhou acabar sua vida no estômago de uma criatura escatológica. Ofegante, olhou, na sua corrida desabalada, por sobre os ombros, e viu a criatura, que de si não se aproximava, e tampouco dela ele se distanciava. Voltou-se para a frente; percorreu uns cem metros, pulou por sobre uma saliência, e atingiu criatura, cujos urro, e hálito, que lhe queimou a pele, indicaram-lhe que se tratava de uma criatura como a que o perseguia. Uma criatura rochosa, ele concluiu. Viu-se cercado, presumiu, pelas duas criaturas. Para onde ele correria? Os sensores do seu exoesqueleto detectavam a presença de uma criatura rochosa, e não de duas. Seria, aquela criatura que ele tinha diante de si, a criatura que o perseguia? Como ela se deslocara tão rapidamente, tão silenciosamente, sem que os sensores do exoesqueleto a detectassem? Ou a criatura rochosa que o perseguia não ia mais no seu encalço, abandonara a perseguição, e outra criatura rochosa lhe surgira diante dos olhos? Osvaldo se via em apuros; a situação não lhe era favorável. E se outras criaturas rochosas o abordassem? Como delas ele se livraria? A cauda da criatura rochosa serpenteava, ia na direção de Osvaldo, que, desorientado, impelido pelos sensores do exoesqueleto, se esquivou, e resvalou-lhe o capacete. Não foi Osvaldo que se esquivou da cauda; foi o exoesqueleto que dela se esquivou, livrando Osvaldo da morte. A criatura rochosa poderia esmagá-lo com um golpe da cauda. O exoesqueleto não resistiria à pressão da cauda, se a criatura rochosa com ela o envolvesse. Naquele momento, afinaram-se as nuvens, e Osvaldo pôde ver alguns detalhes da criatura rochosa. A penumbra, em alguns momentos, não a envolvia inteiramente, e, na cabeça dela Osvaldo viu três olhos, cuja disposição indicava que ela possuía mais dois olhos. Osvaldo não viu uma boca, e nem um nariz na criatura. Como ela urrava? E o hálito dela, que o atingiu, queimando-lhe a pele? Como ela respirava? No topo da cabeça dela havia duas saliências – cada uma destacava-se de uma têmpora – compridas e de ponta arredondada – cada uma delas de um metro de comprimento e diâmetro de meio metro na base e vinte centímetros na extremidade – e, na região central da cabeça, saliências que se assemelhavam a uma linha de cornos pontudos de vinte centímetros de comprimento cada um, e nas laterais da cabeça filamentos segmentados repulsivos, cuja aparência assumiram, aos olhos de Osvaldo, a aparência de criaturas parasitas – cinquenta ou mais -, que vibravam-se, ininterruptamente, e emitiam, ao se tocarem, estalidos agudos penetrantes, que feririam os tímpanos de Osvaldo se o capacete não lhos protegesse. Visão horripilante! Quais as dimensões da cabeça da criatura rochosa? Ela era enorme, vinte vezes maior do que a cabeça de Osvaldo. Outros aspectos da criatura que Osvaldo distinguiu: Inexistência de pescoço; revestimento repleto de protuberâncias; vegetais de coloração azul-esverdeada e vermelho-alaranjado cobriam-na em alguns pontos; dois pés curtos e grossos.

A criatura rochosa avançou na direção de Osvaldo, que se esquivou, com um salto, e caiu, em pé, a três metros de distância, e, hesitante, voltou-se para olhá-la, mas ela havia desaparecido. Foi neste instante que a mão pétrea da criatura rochosa segurou-lhe o capacete. Os sensores do exoesqueleto não indicavam a presença da criatura rochosa próxima de Osvaldo, que, para dela se desvencilhar, desferiu-lhe uma sequência de golpes. A criatura rochosa arrastou-o. Osvaldo, apavorado, esgoelou-se, e dobrou as pernas, para um salto; dobrou o corpo; e desdobrou-o para livrar-se da mão da criatura rochosa, e redobrou os seus esforços. Desvencilhou-se, enfim, da mão da criatura rochosa, acionou a pistola, e disparou. A onda de energia viajou por quilômetros, até atingir uma montanha. A criatura rochosa havia desaparecido. Que mistério rondava Osvaldo? Como uma criatura – presumindo-se que fosse apenas uma criatura – aparecia e desaparecia – e os sensores do exoesqueleto não a captavam -, e não deixava sinais da sua presença? Nenhum vestígio havia da existência dela. Pegadas? Nenhuma. Ela desapareceu, sem deixar vestígios. Viera de onde? Para onde foi? Os mapas tridimensionais elaborados pelos sensores do exoesqueleto de Osvaldo não indicavam a presença de nenhuma criatura num raio de duzentos metros. Osvaldo não deu, no entanto, atenção aos sensores do exoesqueleto, pois estava persuadido de que de nada lhe valiam, pois eles não captavam a criatura rochosa; era como se ela não existisse. De sobreaviso, Osvaldo andou. Circunvagava os olhos. Detinha-se. Procurava pela criatura rochosa. Sabia que ela poderia atirar-se sobre ele de qualquer direção. Deparava-se, sabia, com uma criatura a respeito da qual tudo ignorava. Não sabia se poderia se antecipar a um ataque desfechado por ela. Aterrorizava-o tal situação. Petrificá-lo-iam as incertezas se o exoesqueleto não o conservasse alerta, com os olhos bem abertos, os ouvidos bem apurados, para, se necessário, reagir a qualquer ataque desfechado por uma criatura rochosa, ou por outra criatura qualquer. A tensão inspirava-lhe pensamentos caóticos, os de um derrotado, os de uma pessoa que desistia de viver, e estava na iminência de sucumbir ao destino que, acreditava, era o seu, e dele não poderia esquivar-se. O exoesqueleto, todavia, ao injetar-lhe ânimo, não permitiu que ele se curvasse ao destino que, acreditava ele, estava traçado para si, mas ele, no entanto, não abandonou os pensamentos lúgubres, que o atormentavam. Sabia que não podia negligenciar atenção. O exoesqueleto não o deixava esquecer disso. A passos curtos, firmes, andou, lentamente, desorientado, sem saber que direção seguir. Envolveu-o nuvem de partículas, que lhe rasgaram a pele dos braços e dos antebraços. Imprevidentemente, ele expusera-se ao desconhecido com um exoesqueleto que não reconstituía as partes danificadas – algo a havia danificado assim que ele deu os primeiros passos para fora da espaçonave exploratória, mas, ao invés de acolher as sensatas exortações de Mariana e Jennifer, à espaçonave regressar, e reconstituir o exoesqueleto, rejeitou-as, e insistiu na sua aventura exploratória, que quase lhe custou a vida, para registrar, unicamente, seu nome na história, o do primeiro humano a pisar no solo de A***, o planeta inóspito. A história registrará o nome de Osvaldo, e o associará à primeira aventura em solo de A***, o planeta inóspito, e não deixará de registrar a sua imprudência, as suas atitudes insensatas, de absoluto descompromisso com o seu companheiro de jornada. Os pioneiros eram os argonautas, e Osvaldo atribuía-se as virtudes de Ulisses, e se autocondecorara o líder incontestável da odisséia; no entanto, os eventos o desmentiam.

Enfim, a espaçonave exploratória A-1 resgatou Osvaldo.

Assim que Osvaldo removeu o capacete, Jennifer desferiu-lhe um tapa, ferindo-lhe o ego. De baixa estatura, leve, de mãos pequenas, sedosas, ela não é dotada de força para desferir um tapa que imprimisse marcas no rosto dele. O tapa era mais simbólico do que concreto. Não tinha as propriedades de um tapa. Ato contínuo, Jennifer, com palavras ferinas, desancou Osvaldo. Acutilou-o, feroz, com sua voz argentina, que, parecia, era amplificada por uma caixa de ressonância. Uma mulher tão pequena com uma voz tão poderosa! Contrariado, rilhando os dentes, Osvaldo ouviu-a. Dela desejava afastar-se, mas seus pés, enraizados no piso, não lhe permitiram dar um passo; diriam seus antepassados: “Osvaldo ouviu o sabão que a Jennifer lhe passou”; uma expressão antiga intraduzível. Jennifer repreendeu-o, vigorosamente, com autoridade, e não permitiu que ele lhe replicasse. Foi a primeira censura que ele ouviu, e não seria a última. Encerradas as censuras, Osvaldo encaminhou-se ao consultório médico, onde despiu-se do exoesqueleto, e reconstituiu suas células que o hálito da criatura rochosa destruíra. Em seguida, reuniu-se, na sala de conferências, com Jennifer, Mariana, Susana, Leonel, Ricardo, Washington e Katsushiro. O ambiente não lhe era favorável. Repreenderam-no todos os presentes. Após as censuras, concederam-lhe o direito de falar; e ele falou, e os seus interlocutores surpreenderam-se com o teor do seu relato. E Katsushiro, assim que Osvaldo encerrou o seu relato, pronunciou-se, antecipando-se a Jennifer e Susana, que haviam se movido, indicando que desejavam se pronunciar, mas, diante do gesto de Katsushiro, se recompuseram. Katsushiro, e não Osvaldo, era o Ulisses da expedição.

– Osvaldo, tu nos falaste de uma criatura rochosa. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe, todavia, não a captaram. Captaram, unicamente, numa vasta área em torno de ti, movimentos incomuns de partículas metálicas, e algumas destas partículas tinham propriedades ígneas, e foram elas, presumimos, que te queimaram a pele.

– Ouça, Katsushiro. Ouçais todos vós – pronunciou-se Osvaldo, contrariado, num tom de voz desafiador. – Vi uma criatura rochosa, de cujo corpo vos dei uma descrição; aliás, descrevi-lhes o que dela pude ver, pois não a vi toda, devido à penumbra e à densa nuvem. E ela atacou-me, e perseguiu-me, e feriu-me. Vi, repito, uma criatura de constituição rochosa, que me atacou, golpeou-me, agarrou-me, perseguiu-me…

– Reconheças, Osvaldo – disse Jennifer, com a autoridade que lhe era peculiar -, que estamos em um planeta inexplorado…

– Inexplorado por humanos – interrompeu-a Susana, cujo sorriso não ocultava os seus pensamentos e revelava a sua antipatia por Jennifer.

– Um planeta inexplorado, este planeta inóspito – prosseguiu Jennifer, elevando o tom de voz e conferindo-lhe firmeza dissuasiva. – De A***, um planeta inexplorado – escandiu as sílabas –, nada sabemos. Não sabemos quais fenômenos manifestam-se em A***. Os sensores do exoesqueleto de Osvaldo foram danificados, sabemos; mas os desta espaçonave exploratória, não, e tampouco os da espaçonave-mãe. E os desta espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nenhuma criatura semovente detectaram, Osvaldo, além de ti.

– Não sabemos o que tu viste – pronunciou-se Washington, no seu inconfundível tom contido. Osvaldo interrompeu-o, exaltado:

– Vi uma criatura rochosa, que me atacou.

Katsushiro observou-o, atentamente.

– Não digo que tu não a viste – interveio Ricardo, pacificador, ao notar que Osvaldo exaltava-se. – Tu nos disseste ter visto uma criatura rochosa. Acredito em ti.

– Tu dás mãos à palmatória – sentenciou Osvaldo.

– O quê? Não entendi – disse, confuso, Ricardo.

– Nada. É apenas uma expressão antiga – explicou Osvaldo, sem se estender em pormenores.

– Os sensores do teu exoesqueleto estavam danificados – prosseguiu Ricardo. – O teu exoesqueleto não detectou uma criatura rochosa, e nem as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas que te envolveram. Os sensores da espaçonave exploratória, todavia, como tu podes ver no holograma, detectaram as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas, mas não detectaram a criatura rochosa. Como podes ver, Osvaldo, a densidade e a espessura da nuvem eram maiores nas proximidades de ti. Não sabemos que fenômeno manifestou-se, lá, no solo…

– Não sejas tão amigável – interrompeu-o Osvaldo, com sorriso escarninho e gesto de impaciência. – Desejas desmerecer a minha conquista? Ora, para que tanta tagarelice?

– Queremos saber o que se passou no solo – disse Mariana.

– Eu já vos disse: Uma criatura rochosa atacou-me – replicou Osvaldo, alterado, mas contendo-se.

– Não é o que os sensores da espaçonave exploratória indicam – sentenciou Jennifer.

– O que vós quereis que eu vos diga? – desafiou-os Osvaldo. – Vi uma criatura rochosa, que me atacou. Quereis que eu vos confirme as informações que os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe vos forneceram? Não o farei. Sabeis as razões? Vi uma criatura rochosa, e ela não é uma criatura amigável. E não pretendo cruzar o caminho dela novamente – encostou-se ao espaldar da cadeira, e expulsou, com um expirar vigoroso, todo o ar dos pulmões.

– As áreas mais escuras do holograma – retomou a palavra Ricardo – indicam a maior densidade da nuvem. E elas, podemos ver, encontram-se próximas de Osvaldo, e deslocam-se, aleatoriamente. Não seguem os movimentos da nuvem. Osvaldo disse-nos que a criatura rochosa tinha em torno de quatro metros de altura, e, supôs, vinte toneladas. Os sensores da espaçonave exploratória não detectaram tremores de terra. Uma criatura de tais dimensões produziria, ao deslocar-se, tremores que os sensores da espaçonave exploratória poderiam captar, mas não os captaram. Esta informação é pertinente. Na imagem holográfica, vemos que as áreas escuras correspondem a pequenas áreas, e a maior delas não corresponde sequer à uma área de um metro cúbico. E é esta área, estou convencido, que segue no encalço de Osvaldo. Acredito que as partículas metálicas ígneas, atraídas pelo exoesqueleto, como imãs…

– O que tu insinuas, Ricardo? – perguntou-lhe, interrompendo-o, Osvaldo, com voz firme, hostil, encarando-o. – Insinuas que nenhuma criatura rochosa me atacou? Insinuas que nenhuma criatura rochosa me perseguiu? Insinuas que inventei tal história? Insinuas que enlouqueci?

– Osvaldo, contenha-se – pediu-lhe Katsushiro, em tom de ordem. – O Ricardo nos forneceu um breve resumo das informações acumuladas desde o instante em que tu principiaste a exploração do solo de A*** e as inferências óbvias. Ele, como todos nós, deseja entender o que se passou no solo de A***. Eliminou as incongruências, mas, ciente das suas responsabilidades, apresenta-nos as que não pôde eliminar. Um trabalho complexo, tu sabes, Osvaldo. Há discrepâncias nos dois relatos, isto é, no teu e no do Ricardo. O teu, originado da tua experiência em solo; o do Ricardo, das informações fornecidas pelos sensores da espaçonave exploratória e da espaçonave-mãe. Tu nos fala de uma criatura rochosa, que te atacaste. Te ouvimos atentamente. Ricardo nos fala de uma nuvem composta de partículas metálicas ígneas. Os dois relatos não combinam. Anulam-se. Não sabemos, Osvaldo, quais fenômenos manifestam-se em A***. Fomos imprudentes ao iniciarmos uma expedição exploratória antes de reunirmos informações mais consistentes, que nos propiciassem segurança; sem a mais remota idéia de quais informações nos são imprescindíveis, principiamos a expedição exploratória certos de que fenômenos e criaturas nos surpreenderiam. Não sabemos se há seres vivos inteligentes em A***. Não sabemos se há uma civilização em A***. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nada detectaram, e as espaçonaves exploratórias miniaturas não-tripuladas transmitem-nos informações do solo e dos fenômenos naturais, alguns incomuns, de A***, mas nada que indique a presença de seres vivos. O teu relato, Osvaldo, dá-nos notícias de uma criatura, inconcebível por nós, revestida de uma pele rochosa e de aparência grotesca. O relato de Ricardo dá-nos notícia de um fenômeno natural inusitado para o qual ele procura uma explicação plausível. Entendas, Osvaldo, que empreendemos uma expedição exploratória em um planeta que desconhecemos. Não sabemos o que nos espera. E o Ricardo tem de nos dar as informações colhidas e as interpretações apropriadas, na certeza de que não sabe se procedem. Como tu, ele tem de dar relatos fiéis dos eventos…

– Presumo tratar-se de partículas imantadas – prosseguiu Ricardo, assim que Katsushiro concedeu-lhe a palavra. – Partículas metálicas ígneas de propriedades de imã. Quando Osvaldo detinha-se, tais partículas detinham-se em torno dele, mas não cessavam os movimentos; rodeavam-no, como se o avaliassem. Não quero atribuir faculdades sensitivas às partículas metálicas ígneas, mas elas manifestavam características singulares. Elas, presumo, ao tocarem os braços de Osvaldo, feriram-no. Os movimentos delas eram aleatórios, mas, incrível!, seguiam um padrão. Sei que as minhas explicações são enigmáticas. Não esclareço nenhum ponto. Não sabemos o que Osvaldo enfrentou; e diante do desconhecido e da escassez de informações, temos de adiar outra expedição exploratória com humanos.

As últimas palavras ditas por Ricardo enraiveceram Osvaldo, que se exaltou, levantou-se da cadeira, pousou as mãos na mesa, encarou Ricardo, e disse, esbravejando:

– Tu não sabes o que enfrentei, humano artificial. Sei o que enfrentei, anomalia de laboratório. Enfrentei uma criatura rochosa, que me perseguiu, e agarrou-me, e agrediu-me. Autômato, tu não sabes o que diz. Tu detestas os humanos. Não sei porque tu fostes convidado para esta expedição. Tua raça é prejudicial à humana, parasita artificial. Por que te aturam? Tu injetaste nanorrobôs, filhos teus, no cérebro de todos aqui, replicante? Regresses ao teu ovo simbiótico. Regresses ao útero ectoplasmático de tua matrix!

Katsushiro e Jennifer pronunciaram-se com vigor. Inadmissível, a postura de Osvaldo. Katsushiro ordenou-lhe que se retirasse. Osvaldo recusou-se a atendê-lo. Dois robôs, então, ladearam-no, e Katsushiro ordenou a Osvaldo que os acompanhasse até o quarto, e lá permanecesse, incomunicável.

Osvaldo, bufando, retirou-se, ladeado pelos robôs, da sala de conferências.

Entreolharam-se Katsushiro e Jennifer.

Excetuando Katsushiro e Jennifer, os outros participantes da reunião retiraram-se da sala de conferências.

Com voz pausada, palavras calculadas, Jennifer disse:

– Não me agradou o comportamento do Osvaldo. O que ocorreu em A***? Não sabemos, Katsushiro, o que enfrentamos. Osvaldo, um homem pacífico, sereno, está tão suscetível às divergências…

– Conheço-o à décadas – disse Katsushiro. – Nunca o vi agir de tal modo. Não digo que é incomum a atitude de Osvaldo. Digo que é inédita. Não direi que é inexplicável, pois inexplicável não é. Algo afetou Osvaldo. Ele não pondera, não procura explicações racionais para o episódio. Há incongruências nos relatos. As análises feitas pela espaçonave exploratória e pela espaçonave-mãe contestam o relato que Osvaldo nos apresentou. Não sabemos o que inspirou a Osvaldo as, supomos, alucinações. É certo: Não o enviaremos para outra expedição exploratória a A***. Aliás, humanos não mais descerão em A***. Enviarei robôs, nas próximas expedições exploratórias. Osvaldo foi convidado a participar desta expedição intergaláctica devido à sua coragem singular, à extraordinária rapidez de seu raciocínio, à sua inigualável destreza manual, à sua irrivalizada inteligência prática. Raros humanos são dotados das virtudes imprescindíveis para o exercício apropriado de aventuras similares às que ele viveu. Tu sabes que temos de impedir que recrudesça os danos à mente de Osvaldo. Temos de preservá-lo, neste momento, dele mesmo. Tu viste como ele agiu, tão suscetível, tão contrariado quando Ricardo apresentou-nos as informações que a espaçonave exploratória e a espaçonave-mãe nos forneceram. Ricardo não aludiu ao estado mental alterado de Osvaldo, nenhuma insinuação mal intencionada ele fez. A sua postura, o seu vocabulário, o seu olhar, os seus gestos, indicaram que ele, ao notar que Osvaldo não estava em seu juízo perfeito, falava e, para não ferir suscetibilidades, pensava nas palavras que usava. Osvaldo, com os olhos esbugalhados, e os dedos a tamborilar a mesa, estava agitado, impaciente, irritado. O propósito de Ricardo era induzir Osvaldo a refletir no que aconteceu em A***, ponderar, e procurar por uma explicação racional. Foi mal sucedido, como vimos.

– Manteremos Osvaldo isolado?

– Por enquanto, sim… E pelo tempo necessário, para lhe avaliarmos o comportamento. Temos de saber o que ocorreu com ele, e o que com ele se passa. Ele, esteja certa, Jennifer, se oferecerá para empreender outra expedição exploratória, mas enviarei robôs para A***, e não ele.

– Chamou-me a atenção, Katsushiro, o vitupério que Osvaldo disparou contra Ricardo. Disse-lhe que regressasse ao ovo simbiótico. Alcunhou-o replicante, autômato, anomalia de laboratório. O Ricardo, não me passou despercebido, empalideceu; surpreso, pareceu-me, e, como direi?, admirado, ele fitou Osvaldo, e… Como direi? Ele, contrariado, à revelação de um segredo, que ele nos oculta, dele, e Osvaldo… Ricardo, estupefato, removida a sua máscara…

– Ricardo, que conhece a reputação de Osvaldo – interrompeu-a Katsushiro, abruptamente -, dele jamais esperou tal atitude, pois o admira, afinal, dele ouviu histórias enaltecedoras. E na primeira vez que com ele depara-se, dele ouve ofensas. E testemunha postura, tão irracional, que o surpreende, em uma pessoa de quem sempre lhe disseram tratar-se de uma cornucópia de paciência e ponderação. A frustração e a desilusão, instantâneas, conquanto saiba que Osvaldo está com a mente afetada, ou por uma bactéria, ou por um virus, ou… não sabemos o quê… Ricardo surpreendeu-se com a postura de Osvaldo, daí a sua palidez, a sua contrariedade…

– Não foi essa a impressão que tive – disse Jennifer, áspera, ao mesmo tempo que se levantava para se retirar da sala de conferências. – Fiquei com a impressão de que Ricardo surprendeeu-se, não com a reação violenta, injustificada, de Osvaldo, mas, sim, com as palavras que ele proferiu, com as alcunhas que ele lhe atirou.

Katsushiro observou-a ir até a porta, esquadrinhando-a com olhar penetrante, enviesado, ambíguo.

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