Os pioneiros – parte 3 de 3

A espaçonave exploratória A-1 deslocou-se sete mil quilômetros para o norte de A***, sobrevoando-o a trinta mil metros de altura. Os seus sensores detectaram milhares de criaturas aladas gigantes, que se deslocavam a duzentos e oitenta quilômetros por hora, e no encalço delas a espaçonave-mãe enviou dezenas de pequenos robôs exploradores. Cada criatura alada gigante tinha cinquenta metros de extensão, oitenta metros da ponta da asa esquerda à ponta da asa direita, três caudas, pele revestida de substância semelhante a vidro que vibrava consoante os movimentos das criaturas e refletia a luz das duas estrelas brancas que nela incidia criando um caleidoscópio indescritível, nove fileiras de dentes de quatro cabeças serrilhados afiadíssimos, três narinas localizadas entre os sete olhos dispostos aleatoriamente na face anterior da cabeça juncada de excrescências e cavidades cavernosas (as excrescências segregavam líquido fluídico amarelo-esverdeado, e as cavidades, líquido fluídico cinza-azulado, que, exposto à luz, inflava-se, e assumia a configuração de esferas e a constituição de espuma, e alguma criatura, voando, manobrava o corpo de modo a interceptá-las, abriam a boca, e as engoliam. Eram alimentos muito apreciados por algumas criaturas, que por eles se digladiavam, e só encerravam a briga quando a criatura que encabeçava o grupo emitia um assobio grave), emitiam assobios agudos, de infinitos timbres, e estalavam as quatro línguas bifurcadas, duas localizadas no céu da boca e duas no chão da boca, separadas por saliências de cinquenta centímetros de altura.

As criaturas aladas gigantes atravessaram nuvens carregadas, que disparavam raios violentíssimos, que as atingiam, e renovavam-lhes as energias, e elas agitavam-se e emitiam gritos estridentes.

A criatura alada gigante que comandava o grupo escancarava a boca, a curtos intervalos, e engolia os raios. E regozijava-se. Era ela a única criatura que engolia raios. E a sua pele vítrea vibrava, assumia colorações inusitadas, multicoloria-se – espetáculo que as outras criaturas aladas, embevecidas, admiravam. Além de engolir raios, ela sorvia nuvens, em haustos vigorosos. Assustador! Admirável! Boquiabriram-se os expedicionários que se encontravam na espaçonave exploratória A-1 e os que se encontravam na espaçonave-mãe, a três milhões e quinhentos mil quilômetros de distância, em órbita de A***.

As criaturas aladas gigantes voaram – e nada lhes estorvou a jornada, nem raios, nem tempestades, nem furacões, nem erupções vulcânicas, tampouco outras criaturas aladas – até uma cavidade imensa e profunda, localizada, a dois mil metros abaixo do topo de uma montanha íngreme de seis mil metros de altura, coberta de gelo e rocha, cujo topo era inacessível para criaturas que não voam, e nela entraram, e rumaram, por um túnel de cinquenta quilômetros de extensão, para as profundezas vulcânicas do solo da montanha, que não estavam dominadas por trevas eternas. Pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade refletiam a luz emitida pelas estrelas brancas, e pedras iridescentes refletoras localizadas na garganta da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade, e pedras iridescentes refletoras localizadas mais no interior da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas acima; e, de pedras iridescentes refletoras para pedras iridescentes refletoras, e para a pele vítrea das criaturas aladas gigantes, a luz penetrava nas profundezas da montanha, imensa residência das criaturas aladas gigantes, de mais de dois quilômetros do chão até o teto e de três mil quilômetros de área; lá viviam milhares de criaturas aladas gigantes, que se alimentavam de rochas ígneas, e banhavam-se na lava que escorria por um rio estreito e profundo; na lava imergiam, e, ao emergirem, eriçavam a pele vítrea, regozijadas. O banho lhes era salutar, prazeroso. Para elas, as profundezas da montanha eram uma moradia aprazível, confortável, aconchegante.

Robôs exploradores detectaram uma serpente de quatro mil metros de extensão, dormindo, despreocupada, no interior de uma nuvem amarela composta de substâncias desconhecidas e cuja temperatura interior era de mil e duzentos graus Célsius. Sua pele era maleável, preta em toda a sua extensão; possuía um olho em cada extremidade do corpo de oito metros de diâmetro; e irradiava energia nuclear. Uma criatura fabulosa! Robôs exploradores observaram-na durante vários dias. A serpente hibernava. Quando ela despertaria? Ela não possuía asas. Por sorte, pensaram os expedicionários, a serpente e as criaturas aladas gigantes não atacaram Osvaldo em sua excursão, e não contataram a espaçonave exploratória, não a abordaram, e não a atacaram. A serpente preta gigante podia, com o seu compridíssimo corpo, envolver a espaçonave exploratória. Todas as imagens seriam apresentadas para Osvaldo, para persuadi-lo a desistir de empreender nova expedição exploratória a A***, ou, se dela não desistir, a adiá-la. Ele ficaria contrariado, mas, chamado à razão, conter-se-ia em seu irrefreável ímpeto aventureiro, acolheria as sensatas exortações de Katsushiro e, com o ânimo serenado, planejaria a próxima expedição exploratória, e não se lançaria, imprevidentemente, em uma aventura desnecessariamente arriscada. Todas as aventuras exploratórias consistiam em riscos, todos os expedicionários sabiam, mas era possível mensurá-los, e providenciar a redução dos estragos, até mesmo anulá-los. As imagens acima elencadas não seriam as únicas que Katsushiro apresentaria a Osvaldo para chamá-lo à razão. Havia inúmeras outras, mais espetaculares.

Além de criaturas, os robôs exploradores detectaram fenômenos naturais inefáveis: Raios, a milhares de metros de altura, originados de nuvens alaranjadas e azuis celestes, serpenteavam pelo céu, em movimentos descendentes e ascendentes, atingiam o solo, abrindo-lhe sulcos – e ramificavam-se em dezenas de raios menores, que percorriam milhares de metros, até que a energia se lhes dissipasse. No céu de uma ilha, cujo solo estava juncado de ossos carbonizados, nuvens aglomeradas, que formavam camadas espessas de mais de dez quilômetros a partir de quinhentos metros de altura, dispararam centenas de milhares de raios, muitos dos quais atingiam a superfície do mar de águas esverdeadas violentas – que despencavam, em sucessivas ondas de trinta metros de altura, próximo da ilha -, dançavam por sobre a superfície da água e, ao atingirem a ilha, estrondejavam em um clarão enceguecedor, aquecendo o solo em um raio de dez metros, e o solo adquiria coloração amarelo-alaranjado e vermelho-alaranjado, e retomava, não muito tempo depois, a sua cor original. Quando dois ou mais raios colidiam-se no céu, uma gigantesca esfera de fogo formava-se, detinha-se no local em que ocorrera a colisão de raios, lentamente deslocava-se em direção à nuvem, e, ao atingi-la, explodia em uma descarga energética violentíssima, e um raio dourado rasgava o céu, do ponto em que a esfera de fogo atingira a nuvem até o solo (e, no outro lado do planeta há uma ilha da qual emergiam raios acobreados). Quando um raio atingia uma esfera de fogo formada da colisão e fusão de dois ou mais raios, a esfera de fogo despencava em direção ao solo, e, ao atingi-lo, desaparecia, em uma explosão termonuclear devastadora, e abria uma cavidade, que chuva de partículas de rochas e rochas que escorriam das bordas da cavidade enchiam, e, na cavidade, fundiam-se. A colisão de duas esferas formadas em decorrência da colisão de dois ou mais raios a fundiam, e produzia uma esfera vermelho rubra, que se expandia até um quilômetro de diâmetro, e, ao atingir o solo, provocava uma explosão devastadora. A colisão simultânea de três esferas de fogo as extinguia silenciosamente.

Nesta ilha havia oito criaturas de três metros de comprimento, dois metros de altura, corpo achatado, rígido, surpreendentemente maleável, revestido de couraça resistente às explosões mais devastadoras, e desprovidas de olhos, nariz, boca, orelhas, pêlos, unhas, dedos, mãos e pés.

No transcurso de vinte dias – cada dia de A*** correspondia a cinco dias terrestres; e cada ano, a oito anos e três quartos de um ano terrestre – os expedicionários recolheram inúmeras informações sobre A***.

Os expedicionários pretendiam empreender uma expedição exploratória ao solo de A***. Osvaldo, impaciente, contrariado, nem sempre com a urbanidade que lhe era exigida e a compostura que o seu cargo pedia e a sua maturidade conferia-lhe, manifestava o seu desejo de ir ao planeta. Katsushiro rejeitava-o, com firmeza.

Osvaldo arquitetou a sua fuga. Sabia que estudavam-lhe o comportamento. Rilhava os dentes toda vez que evocava a figura de Ricardo, aquele simulacro de humano, que ludibriava os outros expedicionários com a sua civilidade, a sua elegância no trato, conferindo a si mesmo a identidade de um humano ciente das suas responsabilidades e que se desincumbia dos seus afazeres com a competência peculiar, decorrente – acreditavam os parvos desprovidos de sagacidade intelectual equivalente à dele, Osvaldo – da sua inata personalidade e das suas virtudes anímicas. Prometeu, para si mesmo, que revelaria, para os toleirões, a verdadeira face de Ricardo, e eliminaria Katsushiro, sujeito ambíguo, cuja origem é desconhecida, e que ocultava os seus propósitos sob a máscara do seu rosto inexpressivo, enigmático, insondável, e sob o olhar penetrante de olhos sombreados pelas sobrancelhas as quais arqueava para se conferir um olhar petrificante, intimidador, e compor a sua figura venerável perante a qual todos se curvavam, obsequiosos.

Katsushiro criou de Osvaldo a reputação de homem intransigente, cujos atos acarretarão transtornos para os expedicionários, e esforçava-se para isolá-lo, e mantê-lo isolado, e excluí-lo do rol dos expedicionários de campo, embora dissesse, com ênfase, que o admirava e o considerava o melhor expedicionário que jamais conhecera, para, suspeitava Osvaldo, afastar as suspeitas que pairavam sobre a sua cabeça, e impedi-lo de principiar uma investigação, independentemente de qual fosse a postura de Katsushiro, e revelar a verdade, com o auxílio dos seus admiradores e expedicionários com os quais compartilhava idéias afins.

Ensimesmada, Jennifer refletia a respeito do comportamento arredio e introspectivo de Ricardo, e deitava-o sob o seu olhar escrutinador. Ricardo nunca se destacara pela extroversão e convivência amistosa com os outros expedicionários. Após as alcunhas que Osvaldo cuspira contra ele, Jennifer, sempre que com ele conversava, fitava-o, de outra perspectiva, e, em retrospectiva, evocava a discussão entre ele e Osvaldo. Em certa ocasião, imersa em suspeitas, não sabia se infundadas, mas com elas incomodadas, com o auxílio de um vídeo da reunião, que lhe exibia imagens nítidas, percebeu que Ricardo modulou a voz, conferiu-lhe timbre suave, e, associando-a com expressões faciais que lhe eram incomuns e gestos das mãos e movimentos dos dedos imperceptíveis, provocou Osvaldo com o propósito, era inegável, de induzi-lo a perder a compostura. As palavras que Ricardo proferiu não foram inapropriadas, concluiu Jennifer, que anotou, no seu caderno de expedição, as suas observações, mas os gestos dele, imperceptíveis, sim, foram inapropriados, insinuantes, provocativos. Na primeira vez que assistiu ao vídeo, não pôde avaliá-lo com a atenção necessária para obter as respostas que procurava. Outras tarefas exigiram-lhe a atenção, e adiou o estudo minucioso que do vídeo pretendia fazer. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, dias depois, para escoimar os seus pensamentos das dúvidas que persistiam em se conservar intactas, analisou o vídeo da reunião. Não queria trocar os pés pelas mãos, e aventar suspeitas infundadas, sob a influência das palavras enérgicas, embora deselegantes, de Osvaldo. Perguntou-se se procedia a acusação de injeção de nanorrobôs em todos os expedicionários e se Ricardo era um autômato, e, se era, de quem ele estava sob comando. Ricardo injetou nanorrobôs em Osvaldo, e os nanorrobôs alteraram-lhe a postura? Era uma explicação plausível. Mas, e nela, Jennifer, Ricardo injetou nanorrobôs? Se nela Ricardo injetou nanorrobôs, então por que ela não agia de modo que não correspondia ao seu temperamento? Ou agia, mas ela não notava a mudança? Além disso, quem, além de Ricardo, tem acesso aos mecanismos que recolhem informações de A***? Jennifer arregalou os olhos ao perceber que adulteraram o vídeo. Alimentava suspeitas a respeito do que havia visto e ouvido na primeira vez que assistiu ao vídeo, mas sabia o que seus olhos e seus ouvidos haviam captado: os gestos, sutis, provocativos, de Ricardo, e o seu tom de voz, incomum. Agora, viu que do vídeo os gestos de Ricardo foram suprimidos, e o seu tom de voz, alterado. Jennifer não suspeitava dessa sua análise do vídeo. Estarrecida, recostou-se à cadeira, e cobriu com as mãos a boca, incrédula, e preocupada. Adulteraram o vídeo. Quem o adulterou, e com qual propósito? E a quem interessava a adulteração do vídeo? Quem estava envolvido com a manipulação do vídeo? Ricardo? Quais pessoas – ou quais instituições – financiavam o trabalho de Ricardo? Katsushiro? Às quais pessoas ele respondia? O que elas arquitetavam? Recostada à cadeira, Jennifer levou as mãos à nuca, para sustentar a cabeça, e cerrou as pálpebras, como se assim pudesse se concentrar nos seus pensamentos, e concebeu as mais inusitadas, absurdas, estupefacientes explicações – nenhuma delas lhe fazia sentido. Não se negou, no entanto, as elucubrações; talvez alguma delas lhe revelasse o que ocorria nas profundezas das salas cuja localização é desconhecida pelo comum dos mortais.

Os expedicionários planejaram nova expedição exploratória a A***, mas não a empreenderam. As razões para isso serão apresentadas nas próximas linhas.

A espaçonave-mãe registrou um fenômeno inédito: O núcleo de A*** aquecia-se e esfriava-se, em rápida sequência alternada. As conseqüências, imprevisíveis. Sucederam-se terremotos, em inúmeras regiões do planeta. Planícies foram rasgadas; montanhas, destruídas; onde havia mar, apareceram montanhas; onde havia montanhas, apareceram vales. O solo convulsionado transformou a figura de A***. Intensificaram-se os terremotos. O aquecimento e o esfriamento do núcleo de A*** alternavam-se, incessantes, a intervalos cada vez mais curtos. Nas primeiras alternâncias, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa era de trezentos e oitenta graus célsius; em pouco tempo, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa passou para três mil e trezentos e oitenta e quatro graus célsius. E a temperatura atingiu, no pico, sete mil graus célsius, e, no fundo, cento e vinte graus célsius abaixo de zero. A ininterrupta oscilação da temperatura do núcleo de A*** transformava a crosta planetária e afetava a atmosfera e o campo magnético do planeta.

A espaçonave exploratória A-1 afastou-se de A***, e rumou à espaçonave-mãe, que a recolheu. Os expedicionários ficaram de sobreaviso. O recrudescimento da alternância da temperatura do núcleo de A*** e as alterações do campo magnético do planeta persuadiram os expedicionários a se afastarem de A*** – o que fizeram, contrariados, incontinenti. Previram, uns, a explosão de A***; se isso se sucedesse, pela primeira vez na história olhos humanos testemunhariam a morte de um planeta. Tal evento afetaria aquele sistema estelar de duas estrelas brancas. Qual seria o impacto da explosão de A*** nos outros planetas e nas estrelas que compunham aquele sistema estelar?

Chegaram aos sensores da espaçonave-mãe imagens espetaculares, fabulosas, indescritíveis, de fenômenos que se sucediam na crosta planetária. Se os expedicionários não os testemunhassem, e alguém lhos descrevessem, eles não acreditariam, pois tais fenômenos transcendiam as leis da física. Raios viajavam pelas nuvens, que assumiam coloração incomum. Raios de milhares de quilômetros de extensão transpunham a atmosfera de A***; os mais extensos estendiam-se a mais de cinquenta mil quilômetros, e afetavam o campo magnético, que os afetava. As explosões que se seguiam liberavam energia suficiente para pulverizar a espaçonave exploratória e danificar, talvez destruir, a espaçonave-mãe. Nuvens vermelhas, amarelas, azuis e amarelo-alaranjadas ampliavam-se, aglomeravam-se, e constituíam nuvens pretas, que cobriam a metade da superfície de A***. Raios as rasgavam e liberavam energia imensurável. Serpentes gigantes viajavam entre as nuvens, delas se alimentavam, e cresciam. A maior serpente que os sensores da espaçonave-mãe detectaram tinha oito mil e setecentos quilômetros de extensão, e crescia. Quanto mais crescia, mais energia acumulava; como A*** liberava maior quantidade de energia com a intensificação da vibração do seu núcleo, mais energia a serpente gigante ingeria, mais energia armazenava, e mais crescia, e crescia, e crescia. O solo de A*** modificava-se a olhos vistos, sem cessar. A sua configuração foi alterada, tornado-a irreconhecível. A cada fração de segundo, assumia uma configuração. Um planeta não pode suportar tal convulsão sem se desintegrar, pensavam os expedicionários. Qual a origem da convulsão planetária?, perguntavam-se, intrigados, acompanhando, suspensos, o desenrolar de evento tão grandioso, inédito aos olhos humanos. Desapareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Apareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Criaturas corriam pelos continentes, mergulhavam nos mares de águas borbulhantes, caminhavam pelo gelo da superfície dos rios. A***, convulsionado, contraía-se e dilatava-se, frenético. Arremessava raios, esferas chamejantes e ondas de energia. Sugava energia das estrelas. Línguas de fogo partiam das estrelas rumo a A***. Um fenômeno surpreendente, mais surpreendente do que todos os fenômenos até então testemunhados pelos expedicionários, se manifestou. De cada estrela branca partiu uma faixa dourada. As duas faixas douradas rumaram, serpenteando, até A***, como se o planetas as atraíssem, cobriram-no, e eliminaram o seu campo gravitacional e o seu campo magnético. Nenhum raio, nenhuma esfera chamejante escapava de A***. Raios e esferas chamejantes atingiam as faixas douradas. Nem o som e nem a luz as atravessavam. Não se via a intensa luminosidade decorrente das explosões das esferas chamejantes e dos raios. De propriedade elástica, as faixas esticavam-se. Os expedicionários, expectantes, intrigados, perguntavam-se o que ocorria em A***, e procuravam uma explicação plausível para fenômeno tão fantástico, tão fabuloso, tão espetacular. Temendo que a energia oriunda da convulsão de A*** rompesse as faixas que o cobriam, os expedicionários afastaram-se do planeta até uma distância que, acreditavam, era segura. Os sensores dos robôs que se localizavam nas proximidades de A*** não detectavam os eventos que se sucediam no planeta. Os expedicionários pensaram em disparar um raio de energia para abrir uma fresta, nas faixas douradas, pela qual robôs pequenos pudessem atravessar. Deparavam-se com fenômeno que olhos humanos jamais presenciaram, fenômeno que a imaginação humana jamais poderia conceber. Diante do desconhecido, incapazes de antever a reação de A*** e das faixas que o cobriam, abandonaram a idéia tão logo a pensaram. A*** poderia explodir, as faixas poderiam disparar raios na direção da espaçonave-mãe, ou, Mariana aventou a hipótese, seres inteligentes que viviam nas estrelas brancas reagiriam ao disparo do rio, e disparariam raios e esferas flamejantes contra a espaçonave-mãe. Tal hipótese era implausível, fantástica demais, fantasiosa demais, fabulosa demais, extraordinária demais. Os expedicionários fitaram Mariana; nada disseram; com o olhar, indagaram-lhe de onde ela extraíra idéia tão estapafúrdia. Seres vivos vivendo em uma estrela! Seres vivos inteligentes, em uma estrela cuja temperatura, na superfície, era de duzentos mil graus célsius, e, no núcleo, calculavam os sensores da espaçonave-mãe, doze milhões de graus célsius! Nenhum ser vivo, inteligente ou não, viveria sob tão alta temperatura! Todavia, conquanto extraordinariamente fantasiosa tal hipótese, ninguém concluiu que ela fosse inverossímil, e não a desconsideraram.

Transcorreu quanto tempo? Os expedicionários não sabiam.

Cessaram as convulsões das faixas douradas que cobriam A***.

Os expedicionários, na expectativa, petrificados, apalermados, de sobreaviso, e curiosos, esvaziaram de pensamentos o cérebro. Aguardaram, expectantes, pelas revelações que, estavam certos, não demorariam para lhes serem apresentadas. Pareceu-lhes que o tempo cessara, como se o tempo não fosse um fenômeno cosmológico, como se fosse, unicamente, um fenômeno psicológico produzido pela mente humana. Nenhum expedicionário saberia dizer quantos dias transcorreram a partir do momento em que cessaram as convulsões até o momento em que as faixas se soltaram de A***, e rumaram, cada faixa, para uma estrela. E os expedicionários, embasbacados, boquiabertos, viram, diante de seus olhos, não um planeta, mas dois planetas, um, dourado, um, esverdeado. Ora o planeta dourado girava em torno do planeta esverdeado; ora o planeta esverdeado girava ao redor do planeta dourado. A velocidade de ambos os planetas modificava-se, constantemente, e os planetas mudavam de curso. Na letargia que tal fenômeno lançou-os os expedicionários conservaram-se por um bom tempo, obcecados por uma explicação; não tinham nenhuma, nem para a existência das criaturas rochosas que atacaram Osvaldo, nem para as criaturas aladas gigantes que se alimentavam de rochas ígneas e banhavam-se nos rios de lava nas profundezas de uma montanha, nem para as serpentes gigantes que dormiam nas nuvens, nem para todos os fenômenos maravilhosos que presenciaram.

Osvaldo se ofereceu para empreender uma expedição exploratória aos planetas gêmeos. Katsushiro e os comandantes da espaçonave-mãe decidiram autorizar expedições exploratórias não-tripuladas.

Os expedicionários não sabiam o que lhes estava reservado. Presenciaram a conversão de um planeta em dois planetas e outros fenômenos inexplicáveis – pela inteligência humana, compreende-se –, que lhes excitaram a curiosidade.

Os comandantes da espaçonave-mãe enviaram expedições exploratórias não-tripuladas aos dois planetas. As informações reunidas, extraordinárias, espetaculares, embasbacaram os incrédulos expedicionários, que acreditavam que nenhum outro fenômeno os surpreenderia. Enganaram-se. Os fenômenos que se manifestaram nos planetas gêmeos e as criaturas que neles encontraram os surpreenderam. Tomaram conhecimento de seres que viviam sob as condições mais desfavoráveis à vida, e reconsideraram todas as suas idéias a respeito da vida e todas as teorias da física, e as da astrofísica, e as da cosmologia.

Vieram a conhecer criaturas gigantes longílineas dotadas de duzentas asas constituídas de películas transparentes e de vinte filamentos na cabeça esférica, e criaturas rastejantes de cinquenta quilômetros de extensão e três cabeças, e criaturas de cinco mil olhos, e criaturas que disparavam, pela boca, líquido corrosivo, e criaturas que cuspiam fogo, e criaturas que se alimentavam de pedras, e criaturas de pele aderente, e criaturas metamórficas, e criaturas de duzentos metros de altura, duzentas pernas, duzentos braços e duzentas cabeças, e criaturas aquáticas que cuspiam substância corrosiva, e criaturas que saltavam mais de um quilômetro de altura e cinco quilômetros de distância, e criaturas que viviam nos pântanos de lava, e criaturas que cuspiam raios, e criaturas que se invisibilizavam na água, e criaturas que engoliam lava e cuspiam pequenas esferas aderentes por sobre as quais outras criaturas, minúsculas, passavam e assumiam dimensões corporais maiores.

Assistiram a embates fantásticos inenarráveis entre criaturas indescritíveis.

Não havia uma criatura que não os surpreendeu pelo que tinham de fantástico, extraordinariamente fantástico.

Transcorreram-se os dias. Enviaram-se dezenas de expedições exploratórias não-tripuladas aos planetas gêmeos. O presidente da espaçonave-mãe agendou uma reunião, à qual compareceram todos os comandantes e os diretores das espaçonaves expedicionárias. Da espaçonave exploratória A-1 compareceram Katsushiro, Jennifer e Ricardo. Katsushiro disse que Osvaldo não poderia empreender uma expedição exploratória pelas razões que ninguém ignorava. Jennifer contestou-o, disse que com Osvaldo conversara horas antes, e ele se mostrou pronto para empreender uma expedição exploratória, e não podiam impedi-lo de empreendê-la. Ricardo, antes de Jennifer encerrar a sua réplica, disse que eram escassas as informações sobre os planetas gêmeos, e considerou sensato realizar novas expedições exploratórias não-tripuladas, para recolhimento de informações, antes de empreenderem uma expedição exploratória tripulada por humanos. Katsushiro o secundou, mecanicamente, e teceu comentários desabonadores a Osvaldo. Jennifer defendeu Osvaldo, enfatizou a experiência dele, e disse que há coisas, em um planeta, que robôs não podem detectar, e apenas os humanos podem. Ricardo riu, sardônico, comparou a capacidade intelectual dos humanos com a dos robôs, apontou a superioridade destes – e Katsuhiro referendou a sua opinião -, que não se resumia na incontestável superioridade mnemônica. Jennifer estudou-lhe o comportamento, e o de Katsushiro, e evocou as acusações que Osvaldo proferiu, durante a discussão após a expedição exploratória a A***. As denúncias procediam?, perguntou-se. Contestou Ricardo, disse que os robôs, desprovidos de sensibilidade, sentimentos e pendores para a abstração – talentos que não podem ser catalogados -, não são detentores da capacidade, inerente aos humanos, e a eles exclusiva, de reunir informações, associá-las, organizá-las, e delas apresentar uma síntese. E disse, também, que os humanos talentosos e experientes são imprescindíveis na expedição exploratória que teriam, obrigatoriamente, de empreender, aos planetas gêmeos, e Osvaldo preenche todos os requisitos; e ele realizará trabalho que os robôs estão impossibilitados de executar, Jennifer salientou este ponto, e o enfatizou, e repetiu-o, com voz firme. Queria aguilhoar Ricardo e Katsushiro. Katsushiro contestou Jennifer, atribuiu a Osvaldo o fracasso da expedição exploratória a A***. Jennifer estranhou Katsushiro, cujos gestos, ela disse para si mesma, em pensamento, eram robóticos; e intrigaram-na o rosto inexpressivo de Ricardo e o seu o olhar fixo em Katsushiro.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou Jennifer, abismada.

– Eu sei, Jennifer – Osvaldo assomou à porta, apontando uma pistola para Ricardo.

Ricardo ergueu-se da cadeira, de imediato, inexpressivo, e ergueu o braço direito, e apontou o dedo indicador para Osvaldo.

*

Este é o encerramento de Os Pioneiros? – perguntar-me-ão os leitores. E eu responderei:

No dia seguinte àquele ao qual entregou-me a pasta com a novela, ao volante de um carro, Luis Amadeu envolveu-se em um acidente com um caminhão e outros dois carros; em decorrência dos ferimentos, veio a falecer no Hospital Municipal.

Li a novela Os Pioneiros, na minha casa, no dia em que Luis Amadeu ma entregou. Ao ler a última palavra, perguntei-me onde estava a sequência da novela. Na ocasião, pensei em procurar Luis Amadeu, no dia seguinte. Mas, o fim trágico… Duas semanas depois da morte de Luis Amadeu, falei da novela para a Susana, irmã dele, e entreguei-lha. Ela a leu, e disse-me que a sequência do relato, acreditava, achava-se no computador de seu irmão. Nos dias seguintes, acessou a pasta ‘Novelas’; encontrou, além de dezenas de outros arquivos, o que trazia o título Os pioneiros. O texto encerrava-se no ponto que reproduzi acima. Acreditando que Luis Amadeu pudesse, por engano, ter gravado a novela, com outro título, ou na pasta ‘Novelas’, ou na pasta ‘Contos’, ou na pasta ‘Romances’, abriu-as, e todos os arquivos que elas continham. Não encontrou a novela Os Pioneiros. Procurou-a nas pilhas de papéis. O seu trabalho, infrutífero. Conversamos, eu, Susana, familiares e amigos de Luis Amadeu, a respeito da novela e de Luis Amadeu, que, sabíamos, desejava que a novela Os Pioneiros fosse publicada em livro. Decidimos publicá-la, às nossas expensas. Não digo que Os pioneiros é uma novela inacabada. Inacabada ela não é. Sabemos que destino levou o trecho final de Os pioneiros: o túmulo em que jaz Luis Amadeu.

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O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

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