Cântico de Natal – de Charles Dickens

É este conto uma das mais famosas histórias de Natal da literatura universal. É seu autor Charles Dickens, escritor de obra volumosa, um dos grandes nomes da literatura universal, criador dos amados Oliver Twist e David Copperfield. Neste seu Cântico de Natal é o herói o sovina, ranzinza e taciturno Ebenezer Scrooge, proprietário da casa comercial Scrooge & Marley. Principia-se a história na antevéspera do Natal de um ano qualquer. O herói de Charles Dickens despede-se, rudemente, de seu sobrinho e dispensa, grosseiramente, as pessoas que lhe vão solicitar auxílio aos pobres. Em sua loja, numa noite fria, só, recebe a visita do espectro de Jacob Marley,  seu antigo sócio, falecido dois anos antes, com ele mantêm um curto diálogo e ele lhe diz que o visitariam três espíritos, um em cada noite. E desperta, sobressaltado. Pouco depois, apareceu-lhe aos olhos um espírito, o espírito do Natal passado, o primeiro dos três que o espírito do seu falecido sócio lhe anunciara. Tem ele aparência idosa e infantil; usa túnica branca e cinto luminoso; e adorna-lhe a cabeça um ponto de luz. Numa viagem através do tempo, para o passado, o espírito conduz Ebenezer Scrooge para os anos de infância dele, até uma localidade rural, o campo então coberto de neve. E passa diante dos olhos de ambos os viajantes imagens do tempo de menino de Ebenezer Scrooge, tempo de alegria – e ele chora; e em seguida, ele se vê moço, na cidade, numa véspera de Natal, no interior de um armazém, propriedade de Fezziwig, seu patrão, a desincumbir-se, juntamente com outro empregado, seu amigo, Dick Wilkins, de algumas tarefas. Encerrado o expediente, Ebenezer Scrooge, o seu amigo e o seu patrão, animados, convertem o armazém num salão de baile, preparando-o para a festa que nele se daria à noite. À festa comparecem, além da esposa e das filhas de Fezziwig, empregados dele e outros convidados. Divertem-se todos. É a alegria contagiante até o final do baile. E seguem através do tempo a dupla de viajantes mais alguns anos: agora está Ebenezer Scrooge mais velho, transparecendo no rosto sinais de avareza e preocupação; e Belle dele se separa porque ele, insensível e indiferente, estava apaixonado pelo vil metal. E dão outro salto no tempo o herói e seu guia espiritual até a véspera de um Natal. E aos olhos deles aparecem imagens do interior de uma casa. Nela está um casal, ele, feliz, ela, Belle, também feliz; e os filhos deles, buliçosos, abrem os pacotes de presentes. Atormentado pelas imagens que se desenrolam diante de seus olhos, e emocionado a ponto de debulhar-se em lágrimas, Ebenezer Scrooge pede para o espírito não mais lhe mostrar tais cenas.

E vai-se embora o espírito do Natal passado.

E para o herói apresenta-se o segundo espírito, o do Natal presente, um gigante bonachão, que, mesmo de elevada estatura, pode entrar nas casas pequenas, menores do que ele. Carrega o espírito consigo um archote aceso, à cintura um cinto antigo e, vazia, uma bainha enferrujada. No quarto, magicamente modificado, em que se encontra Ebenezer Scrooge, há, nas paredes e no teto, folhagens, e, no chão, alimentos de inúmeros gêneros. Ao tocar o manto do espírito, o herói é transportado, de imediato, às ruas da cidade, repletas de gente animada, feliz, encantadoramente alegre, sob a neve, na manhã de Natal. Ao toque dos sinos, o povo recolhe-se à igreja; e pobres, de becos e vielas, abrigam-se às padarias, para o jantar. E o espírito do Natal presente abençoa a todos. Em seguida, ele e o seu companheiro de viagens dirigem-se à casa do caixeiro deste, Bob Cratchit, que, fica-se sabendo, sendo por ele mal remunerado, mal consegue responder às obrigações de sua numerosa família. A cena sucedida no interior da casa de Bob Cratchit, Charles Dickens narra-a, em poucas páginas, com a maestria que lhe fez a fama, e cria um símbolo da iconografia ocidental, um ícone que representa, em toda a sua autenticidade, a família íntegra, cristã, indissolúvel; contempla a beleza de uma família, que, mesmo numa vida de necessidades, encontra razões para agradecer a Deus o bem que Ele lhe faz. É tocante a cena. E não se ouve da boca de nenhum dos membros da família de Bob Cratchit palavras de descontentamento, de rancor, de ressentimento, de raiva – o único momento em que o clima festivo se desfaz se dá quando o patriarca menciona Ebenezer Scrooge, que não é benquisto na casa.

E o espírito e Ebenezer Scrooge dão sequência à peregrinação: visitam um charco, onde há mineiros, uma cabana onde há um casal de velhos e seus filhos e netos, um farol a léguas da costa no qual há dois guardas, e um navio, no qual há marinheiros e oficiais da guarda. Em todos estes locais, as pessoas, entusiasmadas, cantam canções natalinas, rememoram histórias passadas, divertem-se.
E chegam na casa do sobrinho de Ebenezer Scrooge, onde os convivas participam de conversas animadas e brincadeiras divertidas. E enquanto assiste ao espetáculo encantador que eles proporcionam Ebenezer Scrooge anima-se.

E seguem viagem os nossos dois personagens. Eles passam por hospitais, terras longínquas, asilos. E o espírito envelhece. E de suas túnicas retiram-se duas crianças  esquálidas, um rapaz e uma garota: é ele a Ignorância, e ela a Miséria, ambos filhos da desgraça humana.

E vai-se embora o espírito do Natal presente.

E aparece a Ebenezer Scrooge o terceiro espírito, o espírito do Natal futuro, que é assustadoramente silencioso e se lhe revela envolto em manto preto. E seguem ambos para o centro da cidade, onde, aproximando-se de alguns homens, que conversam, ouvem-lhes as palavras – eles falam, indiferentes, de um homem que falecera dias antes; e em outro ponto da cidade, ouvem a conversa de dois negociantes, que gozavam de considerável poder e influência – eles também falam do homem então falecido, com indiferença, desinteressados. E rumam para um ponto miserável e imundo da cidade, de ruelas e becos fétidos, até uma loja cuja aparência não desperta nenhuma simpatia e cujo proprietário, Joe, um homem de uns setenta anos, recebe a visita de três pessoas – duas mulheres e um homem, elas, uma jornaleira e uma lavadeira, ele, um agente funerário – que a ele levam objetos que haviam surrupiado da casa abandonada, disseram, desdenhosos, de um morto, que, segundo eles, era um tipo odioso, desprezível. Ao assistir à cena que se lhe descortina diante dos olhos, Ebenezer Scrooge se convence de que aquelas quatro personagens falavam do falecido do qual outras pessoas falavam e concluiu que fôra ele em vida um homem desprezível.

E rumam os heróis de nossa história para uma casa, na mesma cidade – e Ebenezer Scrooge vê, num quarto, abandonado, um cadáver. E dirigem-se ao interior de outra casa, cuja esposa, rodeada de filhos, aguarda, ansiosa, pelo regresso do marido, que, chegando, fala de Ebenezer Scrooge, que por eles não é citado, cuja morte alegrava-os – eles eram devedores dele.

E vão ter à casa de Bob Cratchit, onde estão mãe e filhos, e para onde regressa Bob Cratchit de uma visita ao cemitério; e sabe-se, aqui, que Tim, o filho do casal, está morto.

Em seguida, passam à frente da casa de Ebenezer Scrooge, e este, ao olhar para o interior dela, vê que era outra a mobília que a adornava e que, no escritório, outro, e não ele, era o homem sentado à mesa.

E chegam, então, à última estação da viagem: o cemitério. Ao ler o seu nome numa pedra tumular, Ebenezer Scrooge compreende o significado da sua experiência, certo de que o morto, um homem odiado, de quem todos falavam com indiferença e desdém, era ele, Ebenezer Scrooge.

E vai-se embora o espírito do Natal futuro.

E no derradeiro capítulo deste maravilhoso conto, Ebenezer Scrooge, tocado pela experiência mística que tanto o impressionara, transmuda-se num homem generoso, bondoso, e envia um peru assado a Bob Cratchit, cujo ordenado ele aumenta; e entrega donativos para o homem que, em sua loja, lhe solicitara auxílio e ele o enxotara; e vai à igreja; e brinca com as crianças; e entretêm os mendigos; e vai à casa de seu sobrinho, para jantar; e estreita relações com o pequeno Tim, filho do casal Cratchit. Ele esbanja tanto dinheiro e sorrisos, causando tal espanto e admiração nas pessoas, que pensaram, até, em pô-lo numa camisa-de-força e arremessá-lo num hospício. Tocado pelo espírito do Natal, ele deixa de ser o avarento tristonho e mal-humorado e se converte num homem bondoso, generoso, de alegria contagiante.

É este conto de Charles Dickens, uma obra-prima da literatura, perfeita reprodução do espírito natalino; daí a sua boa fama, que se perpetuará até o fim dos tempos. Uma história natalina mais bela do que esta pode ser lida no Novo Testamento.

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