Duelo de Titãs – de John Sturges; com Kirk Douglas e Anthony Quinn

Assisti, e com muito gosto, ao filme Duelo de Titãs (no original: Last train from Gun Hill), de John Sturges, com roteiro de James Poe e argumento de Les Crutchfield, e estrelado por Kirk Douglas e Anthony Quinn.
Os protagonistas, Marechal Matt Morgan (Kirk Douglas), xerife da cidade de Pawley, e Craig Belden (Anthony Quinn), barão do gado na cidade de Gun Hill, amigos de longa data, vêem-se em lados opostos, na trama, devido ao estupro e morte da esposa de Matt Morgan por Rick Belden, filho de Craig Belden. Os dois amigos, vendo-se em posições antagônicas, assumem, cada qual, a responsabilidade que lhe compete: Matt Morgan, a justiça, prender um estuprador e assassino; Craig Belden, proteger seu filho. O antagonismo entre os dois personagens, atenuado pela amizade, respeito e admiração recíprocos que devotam um ao outro, cria um ambiente de tensão inexcedível, pois ambos desejam evitar o confronto: Craig Belden, em defesa de seu filho, esforça-se para dissuadir Matt Morgan de empreender-lhe caçada, e levá-lo a cidade de Pawley, onde o crime fôra cometido, para julgamento por estupro e assassinato;  e Matt Morgan pede a Craig Belden que não se lhe (a ele, Matt Morgan) imponha obstáculo à captura de Rick Belden.
Aqui, abro um parênteses, e chamo a atenção para um detalhe: Na capa do dvd do filme, há um quadro em que se informa o tema do filme: Vingança. Errado. Não é o tema do filme a vingança; o tema é a justiça – e este detalhe fica bem claro na cena em que Matt Morgan vai até o xerife de Gun Hill, Bartlett, e apresenta-lhe os mandatos. Matt Morgan, e desde o princípio, demonstra auto-controle invejável, pois, xerife, casado com uma índia cherokee (que foi estuprada e assassinada) – este detalhe é emblemático, e dele tratarei linhas abaixo -, pai de Petty, em nenhum momento transparece, nem na fisionomia, nem nas palavras, o desejo de se vingar do estuprador e assassino de sua esposa; tem  ele em mente a justiça, e não a vingança. Faz-se uma confusão ao dar-se como de vingança o tema do filme o fato de o agora viúvo xerife ir à caça do estuprador e assassino de sua esposa, e não aos sentimentos e valores que o inspiram à empresa.
Fecho o parênteses.
Como Matt Morgan e Craig Belden conservam-se, cada qual em sua posição, irredutíveis, nenhum deles revelando disposição para recuar sequer um passo, o confronto desenha-se, é inevitável. Mas até aonde eles irão? – perguntei-me, enquanto assistia ao filme. “Irão às últimas consequências?” Assisti ao filme; sei, portanto, qual foi o desenlace da trama, desenlace o qual eu não revelo, contendo-me em meu desejo de registrá-lo aqui. (Nota: no rascunho que fiz para este texto, eu contava o encerramento do filme).
Não mais fornecendo episódios da trama, resumindo, portanto, ao que já escrevi o que eu pretendia dar a conhecer, comento, agora, algumas cenas, que muito me prenderam a atenção: São duas: Uma, logo no começo do filme; uma, não muitos minutos depois. Na primeira, a do estupro e morte, por Rick Belden, da esposa de Matt Morgan, o estuprador e assassino, após arrancar à força, de sua vítima, as vestes, arremessa-as sobre um tronco caído de árvore, seco. Não se mostra a violência perpetrada por Rick Belden; mostra-se, unicamente, a roupa de sua vítima sobre o tronco seco de árvore, e tal discrição é o suficiente para se revelar a violência do ato. Nada é explícito. Nada é mostrado, e tudo é revelado. Na segunda cena, que se dá na fazenda de Craig Belden, conversam este e Matt Morgan. O diálogo entre eles exige atenção de quem assisti ao filme, pois eles dizem muito mais com as expressões fisionômicas, quase imperceptíveis (aos desatentos, imperceptíveis) do que com as palavras. Nesta cena, Craig Belden está em pé, e Matt Morgan, sentado: Quando Matt Morgan disse que o estuprador e assassino de sua esposa tem, no rosto, a marca de chicote, os olhos de Craig Belden movem-se, ligeiramente, para a direita, num movimento que quase não se vê de tão sútil, e altera-se, na sequência, quase não se vendo, as expressões de Matt Morgan – que está, agora, ciente de que é o filho de Craig Belden quem ele, Matt Morgan, fôra buscar -, e seu olhar, agora, está severo, e o canto de seus lábios descem, ampliando a severidade de sua expressão.
Anthony Queen e Kirk Douglas conseguem, com tal economia de expressões, e nenhuma palavra, dizer muito e revelar os sentimentos que animam o espírito de seus respectivos personagens. São extraordinários Anthony Queen e Kirk Douglas!
E concentro-me, agora, em dois aspectos que me chamaram a atenção: a posição social de Craig Belden; e a relação de Matt Morgan e uma índia cherokee. Craig Belden é um barão do gado, um homem poderosíssimo; ele, e não o xerife Bartlett, é a autoridade em Gun Hill; todos os da cidade de Gun Hill comem-lhe nas mãos. Como barão do gado, ele é, pode-se dizer, um empresário, um capitalista, um grande capitalista, o único de Gun Hill. Ele faz uso do seu poder sem que ninguém lhe levante objeção. Em Gun Hill ele manda e desmanda. O filme, ao retratá-lo como um empresário arrogante, inescrupuloso, poderia ser visto como um libelo anticapitalista, mas anticapitalista, assim eu entendo, o filme não é. Retrata a relação promíscua, criminosa mesmo, entre um grande capitalista e o governo de uma cidade. Ora, a relação promíscua entre grandes capitalistas e governos é muito mais comum, ontem e hoje, do que muita gente imagina.
O outro aspecto que me chamou a atenção, a relação de marido e mulher entre Matt Morgan e uma índia cherokee, é muito mais emblemática. Vê-se, no filme, que os moradores de Pawley não estranham a relação entre o xerife e a índia cherokee; e o filho deste relacionamento, Petey, tem um convívio amigável com as outras crianças. Além disso, quando Lee, amigo de Rick Belden, e este, referem-se, com desprezo, à esposa de Matt Morgan, Craig Belden repreende-os. Desconheço a história da formação dos Estados Unidos, tampouco sei como se deu as relações entre americanos descendentes de europeus e os nativos da América. O que sei a respeito resume-se ao que se diz: houve segregação nos Estados Unidos; os brancos dizimaram os nativos. Mas o filme deu-me o que pensar: A segregação tal como se diz que se deu nos Estados Unidos é fato histórico, ou é apenas uma invenção com a qual os que a conceberam e a disseminam têm o interesse de apresentar a sociedade americana como preconceituosa, repulsiva, desumana? No filme, retrata-se a realidade da sociedade dos Estados Unidos da época em que a história está ambientada? Ou o filme é uma peça de propaganda criada com vias a atenuar, no imaginário dos americanos (e no de outros povos) a realidade cruenta de então? No filme dá-se a saber que os nativos não eram mal-vistos pela sociedade americana, à qual estavam integrados, e tão integrados que uma índia cherokee era a esposa de um homem branco, um xerife – e as personagens que revelaram desprezo por ela foram retratados como vilões. O filme obriga-me a repensar a imagem que dos Estados Unidos, de seu povo, de sua história, de sua cultura, de sua sociedade nos apresentam os intelectuais, os livros didáticos, os livros de história, os meios de comunicação de massa e o cinema americano: segregacionista, preconceituosa, discriminadora, racista, injusta, machista, de supremacistas brancos.
Duelo de Titãs (Last train from Gun Hill) não é só mais um filme de faroeste; é um filme sobre amizade, lealdade e justiça.

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