Declaração de Amor – parte 1 de 5

Dálton era o segundo filho de Ulisses, engenheiro eletrônico, e Vilma Helena, médica veterinária, e irmão de Claudionor.

Claudionor, o primogênito, era tímido; com Dálton formava contraste, que de ninguém passava despercebido. Dálton era enérgico, agitado, agressivo. Ulisses e Vilma Helena diziam, sorrindo, que ele era uma fera selvagem, e que o domariam; se não o domassem, ele se converteria num ditador. Dálton foi um garoto espevitado. Os avós o alcunharam Espalha-brasa. Algumas pessoas diziam que ele era um diabinho; outras, que ele era um anjinho. Ele se intrometia nas conversas dos adultos, sendo, com freqüência constrangedora, inconveniente. Claudionor, pacato, susceptível às boas lições, embora contestasse a autoridade materna e a paterna, punha em prática as lições que seus pais lhe ministravam, nem sempre da maneira adequada. Aos dezoito anos, ingressou na faculdade de física. Alguns familiares e amigos íntimos da família anteviam o cientista que ele viria a ser. Dálton, em contrapartida, não possuía para os estudos paciência equivalente à de Claudionor; era, no entanto, dotado de raciocínio lógico incomum e agudeza intelectual penetrante. Antes dos dez anos, ele era enxadrista exemplar. Não era aplicado nos estudos, como o era seu irmão, mas, ao se dedicar a alguma atividade (um jogo de xadrez, uma questão de lógica, um jogo de vôlei), deixava-se por ela absorver, nenhuma resistência lhe fazendo, não procurava subterfúgios para dela se afastar. Enquanto não pronunciasse o xeque-mate; enquanto não deslindasse o problema de lógica; enquanto não encerrasse o jogo de vôlei, nenhum ruído atraía-lhe a atenção. Desconsiderando-se estes momentos, que não eram raros, ocupava o seu tempo livre – que não era muito, pois tinha de estudar com professores particulares orientados por Ulisses e Vilma Helena, que os cientificavam do gênio difícil de Dálton – com gibis de super-heróis, videogames e desenhos animados. Em seus anos de juventude envolveu-se em não poucas brigas. Um dos seus desafetos, Rodolfo, era o alvo predileto das suas chacotas. Brigaram os dois em inúmeras ocasiões. Travaram embates ferozes. Anos depois, os amigos de Dálton, ao evocarem uma das inúmeras brigas que os dois protagonizaram, referiam-se à ela como a Luta do Século, que rendera a suspensão deles da escola, por cinco dias. Tal briga, evento grandioso, testemunhado por uma multidão de jovens eufóricos, desenrolou-se no pátio da escola, durante o intervalo, sob olhares de professores, estarrecidos, e de alunos, admirados, estes ávidos por sangue, ossos fraturados e cabeças esmigalhadas. Dálton nocauteou Rodolfo, que prometeu vingar-se dele. Três dias depois, Rodolfo e Dálton, na quadra de esportes de um clube, sob olhares de jovens, que os atiçavam com frases bombásticas e punhos cerrados, travaram uma luta encarniçada. Dois seguranças do clube, vaiados pela multidão, os apartaram quando Rodolfo, escanchado sobre Dálton – que, caído no chão, protegia-se, como podia, e mal podia proteger-se, com os braços e os antebraços, aparando alguns golpes e esquivando-se de outros -, na cabeça dele encaixava uma saraivada de socos. Ao encerramento da luta, Dálton carregava o nariz quebrado e o olho esquerdo roxo, e Rodolfo, que estava em melhores condições do que ele, os olhos roxos e um ferimento na sobrancelha esquerda.

Dálton travava brigas homéricas com os seus desafetos e os seus rivais por motivos os mais banais. O olhar enviesado, o de indiferença, e um comentário sarcástico, sem ser depreciativo, produziam-lhe reação violenta inexplicável. As abruptas oscilações do seu humor alteravam-lhe, consideravelmente, o comportamento, e os amigos e os familiares, perplexos, preocupavam-se com o bem-estar físico e mental dele; alguns dentre eles preconizavam-lhe contratempos incontornáveis decorrentes dos seus repentinos acessos de cólera. A sua conduta, instável e violenta, exacerbava-se com o transcurso dos anos, revelando-se ele mais irritadiço e mais suscetível a qualquer ninharia, sempre que contrariado. E Ulisses e Vilma Helena afligiam-se; e Claudionor criou-lhe desafeição ao romper o estreito vínculo fraternal que havia, entre eles, durante a infância.

Dálton, enfim, chegou à maioridade.

Na festa de aniversário de Luciana, irmã de Cláudio, seu amigo, e na companhia deste, passou por Marta, e olhou por sobre o ombro direito; e seus olhos encontraram os dela. Encantou-o aquela figura miúda, sorridente, de cabelos compridos, pretos; e ela encantou-se com aquele homem de porte avantajado, másculo, de queixo quadrado e sobrancelhas espessas caídas sobre os olhos – olhos de homem misterioso, disse ela às amigas. Minutos depois, por insistência de Dálton, Cláudio apresentou-o para Marta e Marta para ele, e afastou-se deles, deixando-os à vontade. No início um pouco acanhados e um tanto atrevidos, Dálton e Marta sorriram, entreolharam-se, e entabularam conversa; no desejo de evitarem deslizes, calculavam as palavras. Dálton preocupava-se com o timbre de sua voz e com a sua postura; Marta perguntava-se se não se exibia com vulgaridade. No desejo de não trocar os pés pelas mãos, ele evitou perguntas indiscretas. Discreta, ela, para extrair-lhe as informações desejadas, lançou mão de alguns expedientes; depois, desembaraçada, tomou liberdade de lhe fazer perguntas ambíguas e contar-lhe anedotas. Certo de que não a desagradava, ele se livrou da corrente que o impedia de fazer a ela perguntas ousadas. Ao notarem que não encontraram um no outro rejeição e que os olhares e os sorrisos lhes eram um pelo outro retribuídos, desembaraçaram-se da timidez inicial, e assumiram, sem receios, postura atrevida, com direito a insinuações maliciosas. A conversa ia alegre, divertida. Tinham eles apenas olhos um para o outro, e o que ocorria ao redor eles ignoravam; viviam num mundo à parte, numa dimensão em que havia apenas duas pessoas: Dálton e Marta. Estavam mergulhados, em espírito, um no outro, sorriso imarcescível nos rostos, quando atraiu a atenção de Dálton a voz de Cláudio; este lhe acenou, e, um sorriso cúmplice no rosto, com mímica que apenas Dálton podia compreender, foi até o rádio, do qual, segundos depois, ouviu-se música romântica. E Dálton atraiu Marta, e enlaçou-a pela cintura. E dançaram, ela com as mãos suavemente pousadas nos ombros dele e a cabeça ao tórax dele. Atraíram a atenção dos convidados – não foram raros aqueles que preconizaram o enlace matrimonial, e tampouco os que, conhecedores do temperamento atrabiliário de Dálton, considerando as diferenças de temperamento dele e de Marta, declararam que eles nenhuma afinidade possuíam, e, conquanto alvissareiro o preâmbulo, o namoro deles estava fadado ao fracasso. Entre estes profetas, havia os que desejavam Marta. Alguns dentre eles a haviam abordado com propostas de namoro, outros para ela se insinuaram; mal-sucedidos, não apreciaram vê-la dançando com Dálton; despeitados, apresentaram, maledicentes, comentários maldosos a respeito de Dálton e de Marta, com a finalidade de impedi-los de principiarem o namoro. Foram mal-sucedidos. Marta e Dálton entenderam-se, e muito bem, durante a festa, como se nascidos um para o outro fossem; encerrada a festa, despediram-se da aniversariante, dos familiares e amigos dela, os remanescentes, que correspondiam a uma reduzida parcela dos convidados que haviam comparecido à casa de Luciana, e, juntos, foram-se embora. Dálton acompanhou-a até a casa dela, distante uns duzentos metros da casa de Luciana. E no trajeto eles conversaram, e sorriram. À frente da casa, Dálton atraiu Marta para si, estreitou-a em seus braços, cerrou as pálpebras, e uniu seus lábios aos dela. Ao despedirem-se, às duas horas da madrugada, segurando um as mãos do outro, fitaram-se, sorriram, aproximaram os lábios um dos do outro, e beijaram-se uma vez mais. Minutos depois, Marta abriu a porta, entrou à varanda, e fechou a porta atrás de si. Na varanda, a chave à fechadura, abriu a porta que dava acesso à casa ao mesmo tempo que assoprou um beijo para Dálton, e deu o primeiro passo para dentro da casa. Dálton, sorrindo, acenou-lhe com a mão esquerda. Marta, assim que passou pelo enquadramento da porta, curvou-se para trás, exibindo apenas a cabeça para Dálton, e, com a mão direita aberta, a palma para cima, os dedos unidos, enviou-lhe um beijo, sorriu, e deu-lhe tchau, dançando os dedos da mão direita, entrou na sala, e fechou a porta atrás de si. E Dálton, sorrindo de uma orelha à outra, seguiu para a sua casa. Não havia percorrido a metade do trajeto, encontrou-se com Eduardo e Joilson, que o convidaram para ir a uma discoteca. Recusou o convite; alegou cansaço. Eles insistiram; e ele, irredutível, renovou a recusa. E Joilson ofereceu-lhe carona; e ele a aceitou. Na sua casa, Dálton deitou-se, na cama, e não precisou nem de um minuto para conciliar o sono.

Na manhã seguinte, ao café-da-manhã, Lucrécia disse para Marta, sua filha, que, através da janela da sala, a vira beijando, apaixonadamente, um rapaz alto, espadaúdo e bonito.

– Mãe, tu me espionastes? Trabalhas para a CIA, ou para a KGB?

– Trabalho para a Duarte Investigações Secretas – respondeu-lhe Lucrécia, ao mesmo tempo que lhe apertou a bochecha -, a melhor agência de espionagem do mundo. A CIA é um desastre. Leste aquele livro, cujo título esqueci, sobre a CIA? Falha-me a memória.

– Tu precisas de fosfato.

– De ômega 3. Fosfato é personagem de história da carochinha. Ultimamente, a minha memória tem me deixado em apuros, com freqüência preocupante. Necessito, urgente, de ômega 3 e boas noites de sono. De dois meses para cá, mal dormi. Mas não mudemos de assunto. Qual é o nome do bonitão?

– Dálton.

– Tu estás lacônica. Não tens informações importantes para dar-me? Se não mas oferecer, eu as extrairei de ti. Aplicarei métodos inusuais e ortodoxos. Não te esqueças: sou espiã da Duarte Investigações Secretas. Saibas, queridinha, que tortura não está fora de cogitação. Imersão da cabeça numa bacia de água fria é um método que dá os resultados desejados, tu sabes.

– Mãe, tu és tão cruel. Denunciar-te-ei ao Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

– Este território não está sob jurisdição de tal tribunal.

A conversa prolongou-se por duas horas durante as quais Marta disse à sua mãe que conhecera Dálton na festa de aniversário de Luciana, e que fôra amor à primeira vista, e perdeu-se em elogios a ele, moço forte, inteligente, bonito, educado, elegante, charmoso, espirituoso, estudioso, trabalhador. Resumindo: um homem perfeito. Lucrécia reprovou-lhe o ânimo exaltado, pediu-lhe ponderação, e disse-lhe que não se deixasse levar pelas primeiras impressões e pelas aparências. Marta disse-lhe que as primeiras impressões são as que ficam, e ela completou:

– Até que as segundas impressões as apaguem.

Naquele mesmo dia, ao anoitecer, Dálton foi à casa de Marta. Marta apresentou-o para seu pai, Floriano, para sua mãe, para sua irmã, Nair, e para seu irmão, Lucas. Advogados, Floriano e Lucrécia, ele, civil, ela, trabalhista, falaram, durante a conversa, de alguns casos que se popularizaram no Brasil e no exterior, aludiram ao corporativismo dos advogados, e disseram que desejavam, um dia, vir as pessoas que exerceriam a advocacia – e apontaram para Marta, que prestaria o exame vestibular no final do ano – usufruir da liberdade, atualmente inexistente, de se associarem à corporação jurídica que desejassem. Ignorante da questão, intrigado, Dálton revelou-lhes o seu desconhecimento da ausência de liberdade de associação dos advogados, e pediu-lhes esclarecimentos a respeito. Eles o ciceronearam através da história do Brasil, desde o império, para ilustrar os exemplos que apresentavam e iluminar a questão, para que ele compreendesse as razões de haver, no Brasil, instituições burocráticas nefastas, malsãs. Dálton ouviu-os atentamente. A conversa prosseguiu, após o jantar, na sala-de-visitas, até às vinte e três horas. Trataram de política, da nacional e da municipal, de eventos, sucedidos em outros países, de repercussão e envergadura planetárias: a crise econômica mundial, catástrofes naturais, a guerra no Iraque e no Afeganistão, as escaramuças entre os Estados Unidos e a Rússia. E não negligenciaram trivialidades. E falaram de esportes, filmes e novelas.

Dálton e Marta despediram-se de Floriano e Lucrécia, e de Lucas e Nair, e foram à casa de Luciana. Minutos depois, à casa de Luciana chegaram Patrícia e Roberto. E não muito tempo depois, de carro, Roberto ao volante, foram os cinco à discoteca. Divertiram-se até às três horas da madrugada.

Sucederam-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entrecortado de rusgas passageiras, era alvissareiro. De Ulisses, Vilma Helena e Claudionor não passaram despercebidas – e tampouco de familiares e amigos da família e amigos de Dálton – as significativas mudanças do comportamento de Dálton. Diziam, jocosos, que Marta, com a sua candura, pusera na linha aquele moço buliçoso, briguento, de sangue quente e pavio curto. O relacionamento de Dálton e Claudionor melhorou; todavia, este receava com aquele manter amizade, a qual não nutria, pois suspeitava que ele lhe ocultava as verdadeiras intenções. Os sorrisos cativantes de Dálton e a voz macia dele no trato com Claudionor não eliminaram, deste, os resquícios de desconfiança, que lhe persistiam incrustados no íntimo; não podia Claudionor, conquanto o desejasse, suprimir da sua memória as injúrias que seu irmão lhe cuspira inúmeras vezes, e criar um vínculo de amor fraternal com ele.

– Não está longe o dia em que irão ao altar, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso – comentou Vilma Helena, referindo-se a Dálton e Marta, certa ocasião, fitando Ulisses com o canto dos olhos.

Em um domingo, durante conversa, no almoço, na casa de Ulisses e Vilma Helena, reuniram-se Ulisses, Vilma Helena, Dálton, Marta, Claudionor, Floriano, Lucrécia, Nair, Lucas, Roberto, irmão de Vilma Helena, e Neusa, esposa de Roberto.

À mesa, Roberto, segurando um copo com cerveja, disse, fitando Dálton:

– Olhe para mim, Dálton – e chamou a atenção dos comensais para si. – Atente para o que te direi: Um conselho de tio, de homem experiente, que, embora experiente, caiu na esparrela de uma mulher cheia de artimanhas: Casei-me. Ouça-me, atentamente, o que tenho para te dizer: não estragues a tua vida. Antes de casar-me com a tua tia – e apontou para Neusa -, eu era esbelto, tinha cabelos, não tinha rugas, nem olheiras, tampouco pés-de-galinha. Agora… olhe para mim, meu querido sobrinho, olhe atentamente. Responda-me: Como estou? Minha barriga parece a de mulher grávida de nove meses; minha cabeça está depenada. Restam-me, na cabeça, se muito, cinquenta fios de cabelos. Conte-os. Tu não precisarás nem de um minuto para contá-los. E os pés-de-galinha! São enormes. Não são de garnisé. São de… Não são de galinhas; são de avestruzes. Cruzes! E as rugas! Do tamanho do Kilimanjaro. Eu era bonitão, Dálton. Agora, tu me vês, estou um bagaço. Casei-me com a tua tia, e a minha vida desandou.

Durante o discurso, Neusa, de cenho franzido, fitava Roberto; assim que ele deu por encerrada a explanação, antecipou-se à Marta, que, ao afastar da boca o copo de vidro com refrigerante, preparava-se para falar, e disse, num misto de seriedade e humor, apontando o dedo para Roberto e a curtos intervalos olhando para todos os presentes:

– Roberto, tu não queres admitir que estás ficando velho. O tempo está passando, e a cada dia que passa maior fica a tua calvície, a tua barriga e os teus pés-de-galinha. E não falei das olheiras. Tu estás velho, Roberto, e gagá. Estás enrugado, calvo e barrigudo. Eu sempre te disse para parar de beber cerveja. Mas tu, cabeça-dura, nunca me deste ouvidos, e agora estás com essa barriga monstruosa. Dálton, não dês ouvidos para o teu tio. Ele está velho, sempre conta uma história absurda e distorce a realidade para atribuir ao casamento a decadência dele. O casamento, posso dizer, impediu que ele se reduzisse a um caco. Ele só não é uma múmia ambulante porque eu o impedi de fazer muitas besteiras. Sigas o conselho de tua tia, Dálton: não sigas o conselho do teu tio. Pergunte para tua mãe o que teu tio fazia na juventude. Ele era destrambelhado, desmiolado, vivia às turras com teus avós, envolvia-se nas confusões do Diabo. Teu avô sempre disse que teu tio não morreu por milagre. O santo da família é muito forte, saiba. Um herói. Um Hércules. Um Sansão. O anjo da guarda de teu tio, Dálton, tem a paciência de Jó, é onipresente, e nunca tirou férias. Se ele movesse um processo trabalhista contra teu tio, ganharia em primeira instância, e teu tio, além de ter pagar-lhe uma nota preta, seria trancafiado no xadrez, e veria o sol quadriculado durante um século.

Todos gargalharam e teceram comentários zombeteiros.

– Teu tio tem miolo mole – comentou Neusa, em certo momento da conversa, dirigindo-se a Dálton. – Tua namorada é linda, fofa, e, estou certa, será uma ótima esposa para ti. Casa-te com ela, e sejas-lhe um ótimo marido. Vós sois bonitos, jovens e saudáveis. Sigas o meu conselho: casa-te com essa moça linda – foi até Marta, segurou-lhe a cabeça, com ambas as mãos, e beijou-lhe o rosto esquerdo. – A pele dela é macia – e apertou-lhe a bochecha. – Veja! Que linda! Ficou ruborizada. Que fofa! O meu sexto sentido e a minha intuição feminina dizem que vós nascestes um para o outro. Sois almas gêmeas. Sereis um casal perfeito; e tereis lindos filhos. E comemoraremos as vossas bodas de ouro. Sois lindos. Esqueças o que teu tio te disse, Dálton. Ele põe minhoca na cabeça de todo mundo, o velho desmiolado de cérebro recheado de caraminholas. Ele é um velho cabeça dura que não quer reconhecer que está velho. Perdeu um parafuso da cabeça, o mentecapto. Está para aquele velho andaluz, espanhol, sei lá eu, que, acompanhado de um gordinho estúpido, percorre a Catalunha em suas aventuras sem pé nem cabeça – e todos gargalharam, mas Neusa não se deu conta da razão da graça, em especial do sorriso aberto de Ulisses, Vilma Helena, Dálton e Claudionor. – Conheceis a história dos dois aventureiros, um magricela escanifrado e um gordinho barrigudo, ambos montados em pangarés, que, Deus me livre, não agüentam nem com o peso dos próprios ossos. Dálton, teu tio, meu marido, homem que livrei do inferno, está… Vou… Vou vos revelar um segredo – e achegou-se a Dálton e Marta, atraindo-os para si, até aproximar as três cabeças, conservando-as uma distante da outra não mais do que vinte centímetros, e disse, como se sussurrasse, mas para todas as pessoas à mesa ouvi-la, em tom de confidência: – Teu tio já chegou à menopausa. – Todos dobraram-se de rir. E sucederam-se comentários jocosos e provocações.

Transcorreram-se os dias, as semanas, os meses.

Certo dia, em dezembro, Marta prestou exame vestibular para o curso de advocacia. Classificou-se. À festa de comemoração, num domingo, a partir do almoço, até às vinte e duas horas, na sua casa, compareceram familiares e amigos. Após o encerramento da festa, Dálton, Marta, amigos e primos foram à uma lanchonete; depois, à uma discoteca, da qual retiraram-se às quatro horas da madrugada.

No início do ano seguinte, Marta e Dálton foram à faculdade de Direito. Marta não cabia em si de contentamento, embora receasse a abordagem de alunos veteranos, que poderiam vir a submetê-la a brincadeiras grosseiras, constrangedoras. Para inibi-los, acolhera uma sugestão de Camila, sua prima, que lhe dissera que usasse trajes que lhe conferissem elegância, dignidade, e lhe emprestassem a figura de uma profissional respeitável. O porte de Marta era o de uma ministra do Supremo Tribunal Federal, brincou Lucrécia ao vê-la retirando-se de casa. O dia transcorreu sem contratempos. Alunos veteranos abordaram Marta e Dálton, e ameaçaram submetê-la a brincadeiras constrangedoras. Ríspida, interpretando, com desenvoltura, o papel de uma autoridade, ela lhes disse que retirara-se, uma hora antes, do escritório de advocacia no qual trabalhava, ao qual regressaria assim que se matriculasse na faculdade. Os alunos veteranos pouparam-na de constrangimentos, e abordaram outros calouros, outros “bixos”; alguns, no entanto, insistiam em abordá-la; Dálton, todavia, dissuadiu-os de a obrigarem a submeter-se às agressões, as quais eles viam como brincadeiras inofensivas. Veteranos alvoroçados davam ordens para calouros, que, no cruzamento de duas ruas, abordavam motoristas de carros e solicitavam-lhes dinheiro; alguns motoristas entregavam-lhes moedas, e eles as entregavam aos veteranos, que, nos bares próximos, com elas compravam cerveja e, ou bebiam da cerveja, ou emborcavam a latinha, despejando a cerveja na cabeça de um calouro, ou mandavam um calouro abrir a boca e beber da cerveja que lhe era despejada. Incomodou Marta tal espetáculo degradante. Livres dos veteranos, ela e Dálton entraram no prédio da faculdade. Marta não precisou de muito tempo para preencher todos os formulários de matrícula. Agora era oficial: Marta era uma aluna da faculdade de Direito. Dali um pouco mais de um mês entraria na sala-de-aulas para assistir às primeiras aulas. Antes de irem-se embora, Dálton comentou:

– Nas proximidades da faculdade há quatro bares e nenhuma livraria. Interessante.

Nas férias que antecederam o início do ano letivo, de Minas Gerais foram, em visita aos familiares, Luiza, irmã de Vilma Helena, seu marido, Marco Antonio, suas filhas solteiras, Jéssica, de dezessete anos, e Vanessa, de dezesseis anos – Renato, seu filho, e Marcela, sua nora, permaneceram em Belo Horizonte, e suas filhas casadas, Madalena, a primogênita, e Márcia, e seus genros, Vicente e Josias, permaneceram, Madalena e Vicente, no Rio de Janeiro, e Márcia e Josias, em Fortaleza. Assim que chegaram à cidade, visitaram José e Francisca, pai e mãe de Luiza, em cuja casa encontraram, além deles, sua irmã e seu cunhado, Teresinha e Mateus, e as filhas deles, Joyce e Nicole, meninas de doze e onze anos de idade, respectivamente.

Luiza, extrovertida, estreitou, com abraços calorosos, a todos ao seu corpo robusto de mulher às portas dos sessenta anos; saudou-os com felicitações natalinas e de fim-de-ano, atrasados, ela dizia. Marco Antonio agiu com o desembaraço que lhe era habitual; anunciou a sua chegada em altos brados, e enveredou pelos cômodos da casa com a sem-cerimônia de quem a conhecia como conhecia as palmas das próprias mãos. José e Francisca os recepcionaram sem reservas. As conversas, animadas. Marco Antonio não contou poucas anedotas.

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