O Início do Fim do Mundo. Ou: Em Tempo de Epidemia e Quarentena.

Eram oito horas da manhã.
– Hospital Municipal. Posso ajudar?
– É do hospital? – perguntou uma voz aterrorizada, feminina.
– Sim, senhora. É do Hospital Municipal – informa a telefonista, atenciosa, alertada pelo tom de voz da sua interlocutora. – Posso ajudar a senhora?
– O meu marido teve um treco, e caiu no chão – principiou a mulher o seu relato, confuso. – E está morre, não morre. Está com a mão no peito e com os olhos arregalados. Acho que o coração dele pifou. Foi um piripaque.
– Minha senhora, diga-me o seu nome e o seu endereço; e eu irei solicitar uma ambulância para a senhora.
– Eu não preciso de ambulância. Quem precisa de ambulância é o meu marido.
– Senhora, diga-me, por favor, o seu nome e o seu endereço.
– Eu sou a Maria Elizabeth, a Maria da Quitanda. O meu marido vai morrer. Ele está com os olhos arregalados, iguais os olhos de peixe morto…
– Minha senhora, qual é o seu endereço? Diga-me o seu endereço.
– Se ele morrer – referia-se ao seu marido -, o que será de mim!? O que, meu Deus!? Os pés dele estão dando pulos. Parece até que foram picados por saúvas. E ele está com os olhos arregalados. O que aconteceu com ele? Ele teve um treco.
– Minha senhora, o seu endereço…
– Rua Carlota Joaquina… Não, não é… Rua Carlota Joaquina é o endereço da minha irmã… Aqui é Rua Dona Leopoldina. O número?! Ai, meu Deus! Esqueci. Qual é o número?!
– Minha senhora…
– Cinco mil… Não… Seis… Não. Cinco mil e seiscentos e… Ai, meu Deus! Cinco mil e quatrocentos e oitocentos e… Cinco mil e quatrocentos e oitenta e… e seis. É. É cinco mil e quatrocentos e oitenta e seis. No bairro do Barão.
– Bairro do Barão?…
– Sim. Do Barão. É assim que a gente daqui diz. É o bairro Fazendeiro Antônio. O fazendeiro Antônio era, no tempo do onça, quando eu era, ainda, menina, o manda-chuva da cidade. Aqui ele mandava e desmandava. Dava ordens até para o prefeito e para o padre. Fazia e acontecia. Até chuva ele fazia. E a gente de antigamente chamava ele de Barão.
– Senhora, uma ambulância já está indo à casa da senhora.
– E que venha logo. O meu marido não aguenta muito tempo, não. Tá vai, não vai. Que Deus nos ajude. E que perdõe todos os pecados do meu marido. E são muitos os pecados dele.
– Acalme-se, minha senhora. Paramédicos…
– Não tem de parar os médicos, não. Eles têm de vir, e logo.
– Eu quero dizer que a ambulância já está a caminho da casa da senhora.
– Ah! Sim. Entendi. Eu fiz confusão. Desculpe. Estou muito nervosa. Esperarei pelos médicos. Vou desligar o telefone, para ajudar o meu marido. Ele não pode morrer sem se confessar. Não pode.
E desligaram o telefone Maria Elizabeth e a telefonista do Hospital Municipal.
A ambulância retirou-se do pátio do Hospital Municipal e principiou a jornada de quatro quilômetros rumo à casa de Maria Elizabeth. Não havia percorrido quinhentos metros, a ambulância sacolejou; e ouviu-se um estouro. E fumaça escapou de sua dianteira. E o motorista esforçou-se para conservar-lhe o governo, no que foi bem-sucedido.
Saíram da ambulância, incontinenti, o motorista e o paramédico. Ambos verificaram o que havia sucedido com o veículo. E concluíram que teriam de solicitar outra ambulância para socorrer Maria Elizabeth. O motorista telefonou para o Hospital Municipal, e inteirou a telefonista a respeito do ocorrido; e a telefonista lhe informou que a outra ambulância retirara-se do pátio do hospital, para socorrer uma vítima de acidente doméstico, no outro lado da cidade. O motorista, então, após desligar o telefone, discou para um mecânico.

– Mecânica Gonzalo – disse o homem que atendera ao telefonema.
– Preciso – declarou, de imediato, o motorista da ambulância -, com urgência, que o senhor faça um reparo na minha ambulância. Não sei o que aconteceu. Alguma pane no motor, provavelmente.
– Não poderei ajudar você, amigo. Desculpe-me. O meu carro está sem gasolina.
– Vá a um posto de combustível, por favor. É urgente. Temos de atender um homem, que teve um ataque cardíaco, é certo.
– Lamento, amigo. Não posso. Os postos de combustíveis estão fechados. Não têm combustíveis. Os tanques estão vazios. Lamento. Eu gostaria de ajudar você, mas não posso.
– Mas… Os seus vizinhos não podem tirar gasolina do tanque dos carros deles?
– Não. Todos eles estão com os carros com os tanques vazios. Não têm nem um pingo de gasolina, nem de álcool, de nada. Agorinha, mesmo, pedi um litro de gasolina para o seu Estevão, que mora numa casa do outro lado da rua, e ele me disse que o tanque do carro dele está mais seco do que o deserto do Saara. Eu peço desculpas, amigo. Não posso ajudar você. Só peço a Deus que você consiga consertar a ambulância e ajudar quem está precisando da sua ajuda.
– Obrigado, senhor – agradeceu o motorista da ambulância, desconsolado.
– Disponha.
E Gonzalo, o mecânico, e o motorista da ambulância desligaram o telefone quase que ao mesmo tempo.
O motorista da ambulância e o paramédico trataram, e logo, de contatar outros mecânicos, e todos eles lhes deram as mesmas notícias: Não tinham combustível no tanque do carro e os postos de combustíveis estavam fechados. Perderam ambos preciosos minutos telefonando para oficinas mecânicas. Enquanto eles desdobraram-se para encontrar uma solução para o problema que lhes ocupava os pensamentos, o Hospital Municipal recebeu um telefonema:
– Hospital Municipal. Posso ajudar?
– Não precisam me mandar uma ambulância. Não precisam – disse uma voz embargada, de uma mulher em prantos.
– Senhora, o que…
– O meu marido já bateu as botas. O finado Jerônimo…
– Minha senhora… Qual é o nome da senhora?
– Maria Elizabeth, a Maria da Quitanda. O meu marido partiu desta para a melhor. Deus já veio buscá-lo. Ou o Diabo, não sei. O finado Jerônimo não se confessou. Morreu pagão. Não preciso da ambulância.
– Minha senhora, eu…
– E… Eu preciso que venham tirar o corpo do finado.
– Minha senhora, não temos ambulâncias…
– E o que eu faço, moça?! Deixo o meu marido, aqui, apodrecendo, até os urubus sentirem-lhe o fedor e comerem-lhe da carne?!
– Minha senhora, acalme-se…
– Acalmar-me!? Logo, logo, o finado Jerônimo, que nunca foi um homem bem asseado, começa a feder, e eu terei de aturar-lhe o fedor. E por quanto tempo, moça?! Hein!? Quero uma ambulância aqui.
– Não temos…

– E o que eu faço, então, hein, moça?! O que eu faço?!
– Senhora…
– Eu já sei, querida, o que fazer. Não temos carro eu e o meu marido. Mas o Carlos Renato, da funerária, tem. Ele é amigo nosso. Pedirei para ele vir buscar o corpo do finado e levá-lo para… Não sei para onde.
– Tem de trazê-lo, para a autópsia.
– Eu sei. Vou telefonar para o Carlos Renato.
E desligou o telefone Maria Elizabeth. E a telefonista do Hospital Municipal seguiu-lhe o exemplo.
Ato contínuo, Maria Elizabeth telefonou para Carlos Renato, o agente funerário.
– Carlos Renato?! – perguntou Maria Elizabeth, antecipando-se a quem atendera à ligação, assim que ouvira ruídos advindos do outro lado da linha.
– Sim. Sou eu… Quem é que…
– Sou eu, Carlos Renato, a Maria da Quitanda.
– Oi, dona Maria. Bom dia. Como a senhora está? Tudo bem? E o seu Jerônimo, como vai ele?
– O Jerônimo morreu, Carlos Renato.
– Quê!? Como foi isso, dona Maria?!
– Não sei o que aconteceu. Ele estava aqui, coonversando comigo… E de repente, mais que de repente… Ele teve um treco… E foi-se…
– Meu Deus, dona Maria. Que tragédia! Eu não consigo acreditar. Ontem, o seu Jerônimo estava tão bem, tão feliz, esbanjando saúde, bebendo cervejinha, lá no bar do Costa Quente, e falando bastante abobrinhas, e jogando bilhar… Ele ganhou uma boa grana…
– Ele me contou. Mostrou-me o dinheiro.
– O seu Jerônimo é fera no bilhar. Ganhou de todo mundo. De mim, duas vezes, e tirou-me do bolso duzendos reais. Ele é o nosso Rui Chapéu.
– Você pode me ajudar, Carlos Renato?
– Diga-me, dona Maria. Estou às suas ordens.
– Telefonei para o Hospital Municipal, e solicitei uma ambulância, mas todas as ambulâncias estão quebradas. O hospital não pode me ajudar. E eu tenho de tirar, daqui da sala, o corpo do finado Jerônimo. O finado Jerônimo não pode ficar aqui. Você pode me fazer o favor de vir tirá-lo e levá-lo, não sei para onde, para que se faça, nele, os estudos de… de… Você me entendeu, né, Carlos Roberto?
– Entendi, dona Maria. Entendi. A senhora sabe que eu quero ajudar a senhora, dona Maria, mas… Eu quero muito bem a senhora e o seu Jerônimo… Mas… Estou constrangido em ter de dizer à senhora que não poderei ajudá-los. A senhora e o seu Jerônimo me ajudaram tantas vezes… Mas… Eu não posso. O meu carro está sem combustível. Há uns minutos, eu pedi ao Sergio, o meu vizinho da direita, o carro emprestado, para eu ir socorrer a minha irmã, e ele me disse que o carro dele está sem combustível, e todos os postos de combustíveis estão fechados. Está um inferno, dona Maria, a cidade, um inferno. E ontem eu não pude socorrer um amigo meu. E eu conversei, anteontem, ontem e hoje cedinho, com alguns amigos, e com o meu pai, e com dois primos, por telefone, e todos eles me disseram que não têm combustível. Peço desculpas, dona Maria…
– Eu entendo, Carlos Renato. Eu entendo. Infelizmente, é esta a triste realidade.
– Eu estou constrangido em não poder…
– Não se preocupe, Carlos Renato, não se preocupe. Eu entendo. Todos estamos passando por uma hora difícil.
– E perdoe-me, dona Maria. Que falta de educação a minha! Eu ainda não desejei à senhora condolências. Desculpe-me, dona Maria.
– Você não tem que me pedir desculpas, Carlos Renato.
– Mas… Dona Maria, e quanto ao arroz e feijão? Sei que não é hora… A senhora tem arroz e feijão?
– Tenho.
– E alface, chicória, tomate, pimentão?
– Pimentão, não tenho. Mas tenho alface, chicória e tomate, e rúcula, agrião, quiabo e couve-flor.
– Que bom. E frutas a senhora tem?
– Tenho laranjas, maçãs, pêras, bananas e uma goiaba e um abacaxi.
– Que bom. E carne a senhora tem?
– Não. Carne eu não tenho.
– Não!?

 

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