O Tartufo, ou O Impostor – de Molière

Molière é um escritor de imerecida má reputação. É criador de um panteão de tipos humanos universais facilmente identificados nos quatro cantos do universo. Neste “O Tartufo, ou o Impostor”, Tartufo, Dona Pernelle, Orgon, Dorina e Cleante são modelos humanos comuns. O Tartufo, hipócrita, picareta, oportunista, sujeito de má-fé, desleal, é desprovido dos ingredientes que fazem um Homem – assim, mesmo, com a inicial em maiúscula. Dona Pernelle e Orgon, seu filho, pessoas crédulas, inocentes, sem maldade no espírito, são facilmente ludibriados por tipos sórdidos; nesta obra, eles caem nas garras do Tartufo, tipo iníquo, capaz de perpetrar todo tipo de deslealdade e corrupção que só as mentes mais sórdidas são capazes de conceber e as quais nem sequer resvalam a mente de pessoas de espírito puro e coração nobre, caso de Dona Pernelle e de Orgon. Orgon, que herdou de sua mãe o coração ingênuo, desanca, irritado, indignado, Damis, seu filho, após este lhe dizer que é Tartufo um tipo reles e que ele resquestava Elmira, sua esposa (de Orgon), e vai em defesa de Tartufo. Dorina, dama de companhia de Mariana, cuja mão seu pai, Orgon, ofereceu ao Tartufo, tem a argúcia de identificar, de imediato, a dissimulação e a maldade dos tipos execráveis; chama a atenção de Orgon para a sordidez de Tartufo; Orgon dela desconfia; sendo Dorina apenas uma criada, suas palavras não ecoam nos ouvidos dele. Em Orgon, Dorina não encontra uma pessoa receptiva a voz da verdade, acessível à razão; aliás, dele ela recebe o desprezo, afinal é ela apenas uma dama de companhia. E Cleante, cunhado de Orgon, é o sábio, homem sensato e ponderoso; com as suas percucientes exortações, ele restaura a paciência das personagens que, destemperadas, trocam os pés pelas mãos, chamando-as à razão.

É interessante perceber a força na criação dos tipos das personagens de Molière, homem dotado de perspicácia que só os gênios possuem. Tão extraordinário escritor criou, nesta peça teatral, de menos de cem páginas, que se desenrola em cinco atos, uma trama ao mesmo tempo simples e complexa, com a desenvoltura e maestria que raros literatos alcançam. A trama, urdida com esmero, revela os atritos entre vários tipos molièreanos, todos universais. A força da descrição da personalidade do Tartufo, o hipócrita, o impostor, é impressionante; revela, dele, com traços exatos, de força extraordinária, toda a iniquidade; tão sórdido, tão maledicente, tão sedutor é o Tartufo que ele fez um pai, Orgon, voltar-se contra um de seus filhos, Damis, e a mãe dele (dele, Orgon), Dona Pernelle, voltar-se contra Orgon, seu filho.

Há três falas, na peça, todas interessantes, que me chamaram a atenção: uma de Elmira, na cena 3, do ato IV (página 93); uma do Tartufo, na cena 5, do ato IV (página 98); e uma de Dona Pernelle, na cena 3, do ato V (página 108). A de Elmira é “Somos facilmente enganados pelo que amamos, e o amor-próprio nos leva a nos enganarmos a nós mesmos.”; a de Tartufo “O mal está todo no barulho que se faz. O escândalo do mundo é que faz a ofensa, e pecar em silêncio não é pecar.”; e a de Dona Pernelle: “Nós devemos julgar pelo que vemos.” A de Elmira é uma síntese de idéias que nenhuma pessoa talvez há de objetar: a vaidade, o ego inflado, a auto-imagem é o mais ameaçador e perigoso inimigo de uma pessoa – na peça, explorando o amor-próprio de Tartufo, Elmira pretendia levá-lo a, desguarnecido, e envaidecido, perder-se e revelar-se em toda a sua inteireza de homem hipócrita, de impostor, a Orgon, então de Tartufo oculto sob uma mesa; a de Tartufo revela dele e de outros de seu tipo a hipocrisia (para tais pessoas, pecados podem ser cometidos, desde que não sejam revelados a público; assim, elas os justificam para si mesmas, e conservam limpa a consciência, e não têm motivos para se constrangerem, afinal eles não vieram a público); e a de Dona Pernelle revela a alienação de uma pessoa que, para defender uma tese, ou uma pessoa que admira, nega-se a se respeitar, e rejeita os seus sentidos, despreza a sua inteligência e adota uma postura insensata.

Nesta obra-prima da literatura universal, Molière, que merece mais respeito e admiração do que recebe, traça um drama humano que ilustra a história dos humanos desde a sua origem. E o herói da aventura, Orgon, só não fica em maus lençóis porque foi em seu socorro um príncipe consciencioso, nobre de caráter, inimigo dos homens maus, de boa índole e coragem férrea.
Usei, para escrever esta resenha, a edição O Tartufo, ou O Impostor, Molière, traduzido por Roberto Leal Ferreira, publicado pela Martin Claret (Coleção A Obra-prima de Cada Autor, número 128 – ano 2009, impressão).

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