Criminal Minds – episódio 12, “Profiler, profiled” da temporada 2

No episódio 12, “Profiler, profiled”, da temporada 2, de Criminal Minds, Derek Morgan (Shemar Moore), em visita à sua família, em Chicago, vai ao túmulo de um jovem desconhecido, indigente, morto muito tempo antes, e cujo cadáver ele havia, casualmente, encontrado; e assiste, no Upward Youth Center, um centro comunitário, a jogo de futebol de jovens. Encontra-se com um jovem seu conhecido, James, que lhe apresenta Damien, amigo dele. Na casa de sua família, comemorando o aniversário de sua mãe, recebe a visita do policial Gordinski (Skipp Sudduth), que lhe dá a notícia da morte de Damien, acusa-o do crime, e o conduz à delegacia. É chamada, então, a Chicago, a equipe da Unidade de Análise Comportamental, do FBI, sediada em Quantico, cujo um de seus membros é Derek Morgan.
Dirigem-se a Chicago Jason Gideon (Mandy Patinkin), Aaron ‘Hotch’ Hotchner (Thomas Gibson), Dr. Spencer Reid (Matthew Gray Gubler), Jennifer ‘J. J.’ Jareau (A. J. Cook) e Emily Prentiss (Paget Brewster), permanecendo, na sede, em Quantico, Penelope Garcia (Kirsten Vangsness), entre os computadores, com os quais tem uma ligação, dir-se-ia, telepática.
No transcurso da investigação, os detetives pesquisam o passado de Derek Morgan, a contragosto dele, que se recusa a narrar-lhes eventos sucedidos quase vinte anos antes, o que, suspeita-se, é indício de que em sua biografia, no capítulo que narra a sua juventude, ele havia incorrido em transgressões de cujas existências quer manter todos seus colegas na ignorância. Os detetives revelam-se incomodados com a postura que assumiram, a de, para benefício de Derek Morgan, escrutinar-lhe o passado, situação desconfortável revelada, em um curto diálogo, via telefone, entre Jennifer ‘J.J.’ Jareau e Penelope Garcia.
Os detetives do FBI não tinham escolha: viram-se obrigados, à intransigência de Derek Morgan em não lhes revelar o seu passado, a pôr em risco a confiança que ele neles depositava. Era o único meio, acreditavam, de livrá-lo da condenação por três assassinatos, e ser arremessado, por Gordinski, obcecado em prendê-lo, à prisão. Sempre que Aaron ‘Hotch’ Hotchner confrontava-o, solicitando-lhe o relato de episódios de sua juventude, Derek Morgan negava-se a atender-lhe à solicitação, que em alguns momentos soavam como súplicas, sublinhando a sua postura com a afirmação categórica de ser um direito seu conservar consigo certos capítulos de sua história. Pouco depois, Penelope Garcia, singrando o oceano de documentos digitais, descobre que Derek Morgan incorrera em transgressões, em sua juventude erradia, e que era ele personagem de uma ficha criminal, e que as acusasões contra ele haviam sido canceladas devido ao depoimento de Carl Buford (Julius Tennon), líder e herói da comunidade. A existência de tal documento surpreende Derek Morgan, que, incrédulo, persiste em sua atitude arredia, exibindo desconforto, constrangimento, visivelmente irritado, surpreso com a peça que o destino lhe pregava.
Na delegacia, Gordinski apresenta aos detetives do FBI os resultados que obteve em sua investigação de três casos de assassinato, cujo autor, estava convicto, era Derek Morgan. Na sua explanação, declarou que se persuadiu de que era Derek Morgan o assassino após consultar Jason Gideon, fornecendo-lhe informações de uma investigação a qual se dedicava e dele receber uma análise criteriosa do perfil da personalidade do criminoso, que, em abstrato, correspondia, acreditava, a Derek Morgan. Tal cena reforça a suspeita contra Derek Morgan, um homem de passado nebuloso, passado que ele escondia de seus colegas, seus amigos; e tal suspeita é contrabalançada por ponderações de Jason Gideon, Dr. Spencer Reid e Jennifer ‘J. J.’ Jareau, que declaram, em mais de uma ocasião, que Gordinski se embaralhava ao associar o personagem perfilado (no linguajar dos agentes do FBI, o personagem perfilado tem os seus traços de personalidade definidos, segundo estudos documentados de psicólogos criminais), por Jason Gideon, com Derek Morgan, pois a identidade entre o tipo definido, no perfil, e a personalidade de Derek Morgan era o produto da obceção de Gordinski em prender Derek Morgan, e não de uma postura racional.
Após uma entrevista, na sala de interrogatórios, entre Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Derek Morgan, e a visita de Emily Prentiss e do Dr. Spencer Reid à casa da família do acusado, e estes já regressados à delegacia, Dennison, um policial, braço direito de Gordinski, encontra, vazia, a sala de interrogatório, e Gordinski acusa Aaron ‘Hotch’ Hotchner de haver favorecido Derek Morgan ao facilitar-lhe a fuga. Neste ponto, está claro que há, de fato, na vida de Derek Morgan, algum fato nebuloso, e que não é Derek Morgan o vilão da história, e que não é ele um criminoso, um assassino, mas algum outro personagem, suspeita-se. E a trama, urdida, por alguma outra personagem, em desfavor de Derek Morgan, aproxima-se do seu desfecho.
E os policiais saem à caça de Derek Morgan. Este, chega na quadra da comunidade, onde James o aguarda. Nesta cena, o tom narrativo é distinto do do restante do episódio. É intimista. Derek Morgan e James conservam-se um do outro à distância considerável, e entabulam diálogo repleto de reticências, para não se machucarem com palavras inconvenientes – é possível prever que ambos os dois personagens irão revelar o segredo do qual Derek Morgan é tão cioso, o qual reserva religiosamente consigo. Enquanto desenrola-se o diálogo, Derek Morgan aproxima-se de James, lenta, e timidamente, os dois a lançarem-se um para o outro, alternadamente, uma bola de futebol americano. E Derek Morgan pergunta a James se Carl Buford levara-o à cabana. Aqui já está revelado o segredo de Derek Morgan: é Carl Buford, herói da comunidade, um abusador sexual de jovens, e ele, Derek Morgan, uma de suas vítimas. E assim que se põe bem diante de James, então ao alcance de suas mãos, Derek Morgan fala-lhe do abuso que sofreu na juventude, e de Carl Buford, o abusador.
Logo depois, na sala de Carl Buford, Derek Morgan confronta Carl Buford (diante de Gordinski, Dennison, e de Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Jason Gideon, estes quatro ocultos). É a cena pungente. Carl Buford desmascarado, Gordinski e Dennison, e Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Jason Gideon apresentam-se à cena. E Gordinski, enquanto dirige-se para a porta da sala, Carl Buford, algemado, sob seu domínio, olha, constrangido, para Derek Morgan, então em choro contido, ao passar por ele. E entrecruzam-se no meio do caminho o olhar de Derek Morgan com o de Jason Gideon e o de Aaron ‘Hotch’ Hotchner. E Derek Morgan, lágrimas nos olhos, abaixa, ligeiramente, a cabeça, e cerra as pálpebras.
No final, estão os personagens em um cemitério, diante de duas lápides, uma do túmulo de um jovem de identidade desconhecida, jovem que Derek Morgan homenageia, todo ano, com a sua visita, jovem cujo cádaver ele encontrara, acidentalmente, na idade de quinze anos, lápide que tem inscritos os seguintes dízeres: “Às crianças perdidas. Nós as amamos e sentimos saudades”, e a outra, do de Damien, que, sabe-se agora, fôra assassinado por Carl Buford.
É “Profiler, profiled” um episódio emblemático. Dá à discussão um tema sobre o qual pouco se fala com a seriedade merecida, o do abuso sexual de jovens imberbes por homens feitos. O sofrimento da vítima de abusos sexuais, e no episódio tal valor está explícito, persegue-a no transcurso de toda sua vida. É um monstro que a transtorna, a perturba, a atormenta durante toda a existência, e da qual ela não pode escapar. Derek Morgan não superou a dor de saber-se vítima de abuso, e por uma pessoa em quem depositava confiança irrestrita, pessoa em cuja integridade todos os moradores da comunidade acreditavam. Embora bem-sucedido em seu trabalho de agente do FBI, profissional respeitado, os fantasmas de seu passado o atormentam.

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