Em um futuro não muito distante – parte 1 de 8

I

Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira era filho de Rodolfo Neves Ferreira e Valquíria Amélia Siqueira Neves Ferreira, ambos geneticistas de excepcional talento e ampla envergadura intelectual, ambos autores de incontáveis trabalhos publicados nas mais conceituadas revistas especializadas de mais de duas dezenas de países. Nasceu vinte e oito anos antes do dia em que esta história teve inicio em uma movimentada rua da cidade brasileira de A…, uma das quarenta e oito cidades que compõem a megalópole de A… Era filho único, mas não o único filho que viera à luz do útero de sua mãe. Aos três anos, aprendeu a ler e a escrever, nas aulas concedidas por seu pai e sua mãe, que sabiam conciliar o trabalho e os estudos com a educação do filho. Matriculado na escola aos cinco anos, já lia e escrevia com facilidade, sinal de uma precocidade intelectual que logo chamou a atenção dos professores. Os seus primeiros estudos, na primeira escola em que foi matriculado, estenderam-se até aos seis anos. Destacou-se dentre as outras crianças. Era muito observador. Quieto, retraía-se quando alguém lhe dirigia a palavra; mas quando falava, os professores ficavam deslumbrados com as minúcias que ele notava nos objetos e nas pessoas. Não era expansivo como a maioria das crianças; era, diziam os professores, comportado. Aos sete anos, seus pais o matricularam em uma escola especial para pessoas dotadas de inteligência muito acima da média. Eles, pessoas que, como ele, também foram providas de rara inteligência, estimulavam-no aos estudos – na sua casa, ele respirava o ar de um ambiente que lhe fornecia todas as condições para aprimorar os seus talentos. Rodolfo e Valquíria excitavam-lhe a inteligência com brinquedos que o estimulavam a raciocinar, a exercitar a memória privilegiada, a criar, a inventar, a imaginar. E as conversas que mantinham atraíam-lhe a espontânea curiosidade. Antes de completar quinze anos, ele já frequentava academias científicas e literárias. Era muito bem acolhido pelos estudiosos, e sentia-se bem em qualquer ambiente em que se percebia fragrância de inteligência, e muita inteligência, humana. Interessava-se por tudo o que via, e queria “ver com as mãos”; tudo ele tocava, maravilhado, como se se encontrasse em um outro universo. Formulava, inquieto, perguntas a respeito de tudo, e sempre pedia emprestado um livro para levar para casa e lê-lo. Nunca lhe recusaram tal pedido. De bom grado, os estudiosos esclareciam-lhe as dúvidas e o convidavam a participar de conferências e palestras. Ao ir-se embora, Mário deixava atrás de si um forte perfume de inteligência e simpatia. Participou de palestras, reuniões, debates, controvérsias científicas sobre assuntos complexos, que fugiam ao comum das gentes. E foi nessa época, em uma conferência, presidida por seu pai, sobre os rumos da engenharia genética e a escalada das ações extremistas de facões políticas, científicas e religiosas, que ele conheceu uma jovem desajeitada, de cabelos castanhos, que lhe prendeu a atenção. Daniele, a sua futura esposa. Ela vestia-se com certo desleixo. O sorriso travesso, que se lhe notava no rosto de traços bem definidos, os olhos vivazes, que irradiavam entusiasmo e euforia, e a sua espontânea, ingênua desinibição conquistaram o coração de Mário. O destino quis que eles fossem apresentados um para o outro, naquele dia. Os olhares que trocaram indicavam que entre eles havia muito mais do que atração recíproca. Mário e Daniele eram duas pessoas de gênios incompatíveis, dotados, todavia, de muitas afinidades. Foi ela quem deu os primeiros passos para um relacionamento mais íntimo. Convidou Mário para assistir a um jogo de futebol em um estádio de futebol. Durante o jogo, de um modo arrebatador, ela deu o pontapé inicial do namoro, ao comemorar um gol do seu time predileto, o São Paulo Futebol Clube, quando tascou, em Mário, um beijo ardente, caloroso, lábios nos lábios. Mário enrubesceu. Conservou-se paralisado durante todo o restante do jogo. O namoro era promissor. Daniele ingressou, no ano que completou dezoito anos de idade, na faculdade de odontologia da cidade de E… daquela megalópole, e Mário, no mesmo ano, matriculou-se na faculdade de medicina da cidade de D…, naquela mesma megalópole – e ele se especializaria em neurologia. A distância que os separava e o pouco tempo que tinham à disposição para se encontrarem não os impediram de namorarem.

Mário e Daniele casaram-se aos vinte e um anos. Dois anos depois, Daniele deu à luz Marcos Antonio. Transcorridos outros dois anos, ela deu à luz Aloísio.

Daniele tornou-se uma excelente odontologista. Tinha um grande número de pacientes. Mário engajou-se nos estudos, sempre manifestando extraordinário talento, jamais contestado, sempre louvado, pelo mundo científico, que admirava, dele, a seriedade invulgar, e veio a se tornar um respeitado neurologista, que aos vinte e oito anos começou a ganhar renome internacional.

O ano era um ano qualquer. O dia, 19 de dezembro. A cidade de A…, enfeitada, refletia alegria contagiante. Agitava-a espetáculo feérico. Nos prédios colossais, nos edifícios pequenos, nas casas, nos jardins, brilhavam milhares de lâmpadas dispostas de modo a representarem, umas, um pinheiro, outras, um Papai Noel, outras, a Santa Ceia.

Absorto, andando pela rua movimentada, acotovelando-se em um e em outro pedestre, Mário vivia em um mundo à parte: raciocinava, o cérebro a transbordar fórmulas matemáticas, em questões que o incomodavam. Não sentia as cotoveladas que lhe davam – algumas propositalmente lhas infligiam personagens enraivecidos e angustiados, que gozavam do pequeno prazer de lhe desferir um golpe sutil com o cotovelo, não excluindo a força e nem a intenção de provocar, dele, uma reação enraivecida; todos eles frustraram-se ao depararem-se com a indiferença de Mário, que, absorvido pelos seus pensamentos, não reagia, verborrágico, com virulência.

De repente, um homem roçou-lhe com o braço esquerdo o braço direito, provocando-lhe corrente de estranha e nunca experimentada sensação, que lhe percorreu a espinha, com o poder de emergi-lo das profundas águas de suas cismas. Mário voltou-se, os olhos perdidos, a fisionomia intrigada, incomodado com as sensações que lhe assolaram o corpo, e olhou para o homem que lhe resvalara o braço. E qual foi a sua surpresa ao vê-lo. Percorreu-lhe o espírito terrível calafrio. Gelou-se-lhe a alma. Congelou-se-lhe o corpo. Estupefato, o coração a bater mais acelerado, o sangue a abandonar-lhe a face, que se tornou lívida, cadavérica, postou-se, petrificado, boquiaberto, os olhos desmesuradamente arregalados, a respiração suspensa. Não conseguiu tirar do chão os pés. Perdeu o domínio de si. Ouviu o silêncio opressivo sob o ambiente ruidoso. Perguntou-se se viu o que pensou ter visto, ou se uma ilusão se lhe oferecera aos olhos, ou se alguém divertia-se à sua custa. Que bizarria era aquela? Mário, estacado, arregalados os olhos, escancarada a boca, caído o queixo, acompanhou, com os olhos, o indivíduo que nele resvalara, e que dele se afastava, calmamente, em meio ao ruidoso enxame de gente. Quem ele era? perguntava-se Mário, confuso e estupefato. Tentou seguir-lhe os passos. Não conseguiu, porém. Viu-o de relance. Era aquele homem uma ilusão – Mário quis acreditar, mas não pôde. Sabia que estava de posse de todas as suas faculdades mentais. Não delirava, sabia. No entanto, custou a acreditar no que viu. O que viu não era uma alucinação. Ou era? Tudo se passou em um piscar de olhos.

O homem em quem Mário esbarrara desapareceu no meio da multidão.

Mário, enfim, mexeu-se, mas não saiu do lugar. Pôs-se nas pontas dos pés. Viu o topo da cabeça do homem em quem esbarrara movendo-se em meio a centenas de outras cabeças. O penteado daquele homem era idêntico ao de Mário. Mário quis andar. Não conseguiu. Sua mente não coordenava os seus pensamentos e, pareceu-lhe, perdera a capacidade de comandar suas pernas. Com muito esforço, Mário andou vagarosamente. Ao recuperar o comando de seu corpo, acelerou os passos, e, a passos rápidos, roçando nas pessoas, seguiu o homem que nele esbarrara. Não ouviu os insultos que lhe atiravam as pessoas em quem esbarrava. Sem que o desejasse, chocou-se com um homem de cabelos brancos, magro, e derrubou-o, sem tomar conhecimento do que fez. O homem levantou-se, desajeitadamente, praguejando em tom enrouquecido. Toda a atenção de Mário estava concentrada no homem que perseguia. Uma vez e outra, perdendo-o de vista, parava de correr, punha-se nas pontas dos pés, e vasculhava a região à frente, procurando, entre as cabeças, a cabeça do homem que se lhe esbarrara, e, ao identificá-la, retomava a perseguição, ziguezagueando pela multidão alvoroçada.

Ansioso, respirando com dificuldade, ora andava, ora corria, roçando em muita gente, atrás do homem, que seguia, calmamente, o seu caminho, sem tomar conhecimento de Mário, mas dele não conseguia aproximar-se; dele distanciava-se cada vez mais. Como ele, Mário, mais rápido do que o homem a quem seguia, não conseguia alcançá-lo? Ou ele, Mário, tinha noção distorcida da sua velocidade e da do homem a quem seguia?

Mário reconheceu a cabeça do outro homem, o penteado dele, que tão bem conhecia; afinal, era o seu penteado; aliás, era um penteado idêntico ao seu; e a cabeça do outro homem era a sua cabeça, aliás, uma cabeça idêntica à sua. Arquejante, o coração a pulsar acelerado, o sangue a queimar, corroendo-lhe as entranhas, o corpo quente, as têmporas a latejarem, e a visão a se lhe escurecer, corria, acelerava a sua velocidade a cada passo, e não se aproximava um centímetro sequer do homem a quem seguia. Arfava, o peito prestes a explodir. Deteve-se, para recuperar o fôlego e a força que quase se lhe esgotaram. Suava em bicas. Passou as mãos pela fronte. Enxugou a testa. E retomou a corrida. Metros depois, deteve-se, e viu o homem a quem seguia afastando-se de si. Recompôs-se. E correu, e percorreu mais de cem metros. E o homem a quem seguia andava, calmo, e de Mário afastava-se. Mário afrouxou os passos, exausto. Curvou-se, e pousou as mãos nos joelhos. Tomou fôlego. Refeito, retomou a perseguição. Após contornar três esquinas, seguiu por uma rua na qual havia poucas pessoas. Viu um pouco mais do que a cabeça do homem a quem perseguia. Divisou-lhe o corpo, há cem metros, e reconheceu a identidade entre o andar dele e o seu. O homem a quem Mário seguia e Mário contornaram outra esquina, e seguiram por rua pela qual poucos veículos trafegavam, e poucas pessoas andavam pelas calçadas esburacadas, e na qual algumas crianças empinavam pipas, outras jogavam bolinhas de gude, outras discutiam a respeito de qualquer coisa, e outras brigavam, desferindo umas contra as outras socos e pontapés. Mário não ouviu a algazarra que os garotos promoviam. Observava a misteriosa personagem. Tinha a impressão de que uma vez ou outra nuvens acinzentadas colocavam-se à sua frente, impedindo-o de vê-la. A exaustão consumia-lhe as forças. Sentia-se como um doente em busca do único remédio capaz de debelar o mal que o debilitava. Encerrou a perseguição, enfim. Sucumbiu ao cansaço. Deteve-se, abaixou a cabeça, inclinou-se, fitou o chão, e pousou as mãos nos joelhos. Suava em bicas. As pernas se lhe afrouxavam, trêmulas. Não tinha forças para dar sequer um passo, sem que fosse arremessado ao chão, inanimado.

Um homem de setenta anos, esbelto, saudável, de pele tisnada, espessa cabeleira branca cobrindo-lhe a cabeça, acenava para os meninos que se divertiam, na rua, e estes lhe correspondiam aos acenos. Mário, que mal se sustentava em pé, atraiu-lhe, sem o saber, a atenção. Curioso, o velho de Mário aproximou-se, prestativo, inclinou-se, pousou-lhe a mão direita no ombro esquerdo, e perguntou-lhe, com voz suave, quase inaudível, se ele se sentia bem, se se achava indisposto, e ofereceu-se para ampará-lo e conduzi-lo até um bar próximo, onde ele beberia água, para reanimar-se, e comeria alguma coisa que lhe fornecesse ao corpo exausto energia, pois, caso contrário, ele iria ao chão, e estirar-se-ia, desacordado, tamanha a sua fraqueza, que se lhe refletia no semblante deformado, contorcido pela dor e pelo cansaço. Mário agradeceu, indicando-lhe, com sussurros inaudíveis, numa voz entrecortada pela respiração, que não necessitava de auxílio. O velho afastou-se, relutante; voltava-se para Mário, a cada passo, e observava-o. Pressentia que algo de ruim estava para aconteceu. Mário cambaleou ao dar os primeiros passos. Conseguiu, esforçando-se, manter-se de pé. O velho, que dele se distanciava, mas dele não tirava os olhos, deteve-se, e com passos vagarosos foi até ele, e ofereceu-lhe auxílio, o qual Mário recusou, polidamente. O velho, preocupado, insistiu. E Mário renovou os agradecimentos e disse-lhe que se sentia bem. O semblante de Mário já havia assumido ar agradável, e a voz dele era nítida; o velho, convencido de que ele se recompusera, retomou, vagarosamente, o seu rumo; voltava-se, porém, de tempos em tempos, para observar Mário, que andava, lentamente, arrastando os pés, sentindo as pernas pesadas como chumbo. Ao chegar ao cruzamento das ruas W… e H…, Mário entreviu o homem a quem seguia palestrando com uma bela mulher, cuja aparência dava-lhe trinta anos de idade, bronzeada, esguia, de longos cabelos castanhos e pretos. O homem encontrava-se a menos de vinte metros de Mário, que se animou. Mário alcançá-lo-ia se se apressasse e se o homem e a mulher prolongassem a conversa. De imediato, recuperou toda a energia consumida até então, mas não desapareceram de seu rosto a ansiedade, e a estupefaciente emoção, que o assaltara quando aquele homem esbarra-lhe e o atraíra como um imã. Enquanto dele aproximava-se, atentava para os gestos dele, que eram como os de Mário. O homem, quando ria, inclinava-se para trás, como Mário inclinava-se quando ria; o homem inclinava-se para a frente e levava os dedos indicador e polegar esquerdos ao nariz, quando sorria, como Mário o fazia. O homem e Mário eram idênticos. Um deles era a imagem do outro refletida no espelho. Mas qual deles era a imagem do espelho? Mário dele aproximava-se. Notou que ele era canhoto. Mário também era canhoto. Os cabelos do homem e os de Mário eram idênticos. O porte físico do homem e o de Mário também. E idênticos eram o penteado do homem e o de Mário, e os gestos de um e os de outro. E eram idênticas as gargalhadas e as risadas de Mário e as do homem que ele fitava. Mário dele não se encontrava muito distante quando ele se despediu da mulher com gestos que lembraram a Mário os seus gestos. O homem deu um passo para trás, flexionou o braço esquerdo, sorriu, moveu a cabeça, e deu dois beijos na mulher, o primeiro, na face esquerda, o segundo, na face direita, e dela afastou-se, de costas para Mário. E a mulher abriu a bolsa que carregava a tiracolo, e remexeu em seu interior. Mário dela se aproximava, e o corpo dela se lhe definia aos olhos, e sentiu chegar-lhe às narinas o agradável aroma do perfume suave que dela recendia. Quando Mário se encontrava a dois metros dela, ela ergueu a cabeça, olhou para ele, e soltou um grito seco e curto, abafado, de susto e surpresa, e arregalou, instantânea e involuntariamente, os olhos, levou as mãos ao peito, e largou a bolsa, colada ao seu corpo, a alça por sobre seu ombro direito. Mário não queria que ela não o visse; não lhe passou pela cabeça que ela, se o visse, teria aquela reação. Ela deteve seus olhos em Mário, emudecida, encabulando-o. Mário, não sabendo o que fazer, sorriu-lhe, constrangido, incomodado com aqueles olhos radiantes a fitarem-lo. Nos olhos dela, ele viu confusão tão grande quanto à dele, ou maior.

Mário passou pela mulher, que, suspensa e estupidificada, postada na calçada, acompanhou-o, com o olhar, durante um longo tempo. Olhava para o homem a quem seguia, que, distante mais de vinte metros, afastava-se. Notou que ele andava como ele, Mário, quando calmo: a olhar para o chão, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente. Mário não entendia porque não se aproximava daquele homem. Dobraram outra esquina. O homem a quem Mário seguia em momento algum olhou para trás, tal como Mário, que nunca olhava para trás ao andar, onde quer que estivesse.

Metros à frente de Mário, um carro retirou-se de um estacionamento. Ao volante ia uma loira de cabelos curtos; no banco dianteiro, ao lado, uma garotinha loira e branca. O carro desacelerou, lentamente, e ia se encostando ao meio-fio do lado direito da rua pouco movimentada, próximo do homem a quem Mário seguia. O homem pressentiu o carro aproximando-se de si, e voltou-se para a esquerda. Sorriu ao ver a mulher, sua esposa, ao volante, e a garotinha, sua filha, no banco ao lado, e deteve-se, aproximou-se do carro, e levou a mão esquerda à tranca da porta, e abriu-a. A menina, que não chegava aos nove anos de idade, levantou-se do banco, saiu do carro, e abraçou seu pai, enlaçando-o, calorosamente, ao pescoço, e ele a abraçou, a enlaçou pela cintura, ergueu-a do chão, sustentou-a durante alguns instantes, beijou-a, no rosto, na testa e nos lábios, numa expansão de carinho e afeto, a menina a exibir um largo sorriso, e disse-lhe palavras afetuosas, e, reclinando-se, devolveu-a ao chão, passando-lhe, carinhosamente, a mão pela cabeça quando ela, de frente para ele, comunicou-lhe qualquer coisa, e, ao fazê-la virar de costas para si e entrar no carro, desceu a mão, sempre a esquerda, da cabeça dela ao ombro esquerdo, e do ombro à cintura como se a empurrasse para dentro do carro, fê-la passar ao banco de trás do carro, e sentou-se no banco que ela ocupava anteriormente, puxou a porta, fechou o carro, inclinou-se para a esquerda, e beijou os lábios de sua esposa.

Mário acompanhou o desenrolar de toda a cena. Não lhe escapou um pormenor sequer, microscópico que fosse. Os gestos do homem a quem Mário seguia, no trato com a menina, eram idênticos ao de Mário no trato com Marcos Antonio e Aloísio. Gestos idênticos. Movimentos idênticos. Atitudes idênticas. Sorrisos idênticos. Mário concluiu que o outro homem e ele, Mário, eram idênticos. O carro distanciou-se de Mário, que se postou, exausto, ofegante.

Cansado, Mário arriou. Seus músculos, até então tensos, afrouxaram-se. Precipitou-se para o chão, e sentou-se no paralelepípedo, os pés ao meio-fio. Enterrou os cotovelos nos joelhos e escondeu a cabeça nas palmas das mãos. Arfava. Perceptíveis a dilatação e a retração de seu tórax agitado. Suspirava, aspirava e expirava, violentamente. Aos poucos, acalmou-se; incomodava-o, no entanto, o que vira. Debilitado pelo cansaço, não se achava munido de defesas contra os monstros que o assediavam, que habitavam as profundezas dos seus pensamentos. Não sabia o que pensar. Teve vontade de estirar-se, de costas, na calçada, esperando a serenidade ir em seu socorro.

Vários garotos, em algazarra estrondosa, uns nus da cintura para cima, outros vestindo camisa suja pontilhada de furos, todos eles, descalços, falavam de futebol, animados. A discussão, acalorada. Um deles, um garoto que aparentava nove anos, sobraçando uma velha e gasta bola de futebol, falava sem parar, dava socos no ar, pulava sobre um outro garoto, e este, irritado, empurrava-o, e ele, ou afastava-se e pulava sobre outro garoto, ou pulava sobre o que o empurrara. Um outro garoto, um negrinho espevitado, aproximou-se do que sobraçava a bola, e arrebatou-lha das mãos. O garoto pediu-lhe que a devolvesse. O negrinho disse que não lha restituiria, e correu, e o garoto foi-lhe no encalço. Correram os dois pela rua. O garoto ameaçou o negrinho. Ao dele se aproximar, desferiu socos e pontapés, que acertaram o ar. Todos riram, zombaram dele. Irritado, ele cessou a perseguição ao negrinho que lhe arrebatara a bola das mãos, e, bufando de raiva, insultando a todos e berrando obscenidades, correu atrás de um dos garotos que dele zombavam. E elevavam-se as gargalhadas. O negrinho, a bola nas mãos, vendo-se livre do dono dela, jogou-a no chão, e chutou-a, e fez embaixadas, numa exibição de inegável habilitada futebolística. Um rapaz amulatado, aparentando treze anos, sem camisa, de bom porte físico, um pouco maior do que o negrinho, aproximou-se dele, e tirou-lhe dos pés a bola. E ficaram a chutá-la o rapaz e o negrinho um para o outro. E os garotos, com dezesseis tijolos, divididos em quatro pilhas de quatro, construíram as traves de dois gols de um campo-de-futebol-de-rua.

Numa balbúrdia sem limites, após discussão acalorada e empurrões, os garotos compuseram cinco times, cada um constituído de quatro jogadores, e escolheram, no dois-ou-um, os dois times que se enfrentariam no primeiro jogo; e os garotos dos outros três times, contrariados, sentaram-se, na calçada, uns sobre o paralelepípedo, outros encostados ao muro, e conservaram-se, outros, em pé, encostados ao muro.

Pouco tempo depois, deu o pontapé inicial do jogo um dos jogadores de um dos dois times que, no dois-ou-um, ganhara o direito de participar do jogo inaugural daquele campo-de-futebol-de-rua.

Mário, o cérebro a fervilhar, estava à parte do que ocorria ao seu redor. Um bêbado, cambaleando, arrastando-se pelas paredes, mal se aguentando em pé, aproximou-se dele, e lançou-lhe à face hálito de bebida alcoólica. Embaralhava tanto as palavras que era impossível sequer destacar uma delas. Enterrado em suas cismas, Mário ignorou-o, e não sentiu o perfume repulsivo que dele emanava. O bêbado, engrolando pragas e insultos, afastou-se de Mário, os braços agitados. Ao se aproximar dos garotos que jogavam futebol, eles o provocaram, insultaram-no, irritando-o, e ele avançou contra eles. O negrinho aproximou-se dele, pelas costas, e deu-lhe um pontapé nas nádegas. O bêbado voltou-se para ele, quase caiu, deu murros no ar e berrou palavras, mal as pronunciando, e ninguém as compreendeu, e, ao tentar dar um pontapé no negrinho, escorregou e quase foi ao chão. Espocaram as gargalhadas. O bêbado estacou, avermelhado o rosto, saltadas as veias da testa, das têmporas e do pescoço. Esbravejou, o rosto deformado. Cuspiu. Os garotos divertiam-se, provocando-o. Alguns dentre eles dele se aproximavam, pelas costas, e chutavam-no, e corriam – e ele intensificava os insultos. As palavras que ele, esgoelando-se, proferia, ninguém as entendia. Enfim, após dez minutos a incomodar os garotos e fazendo a diversão deles, afastou-se, praguejando, resmungando, arrastando-se pelas paredes, vinte metros, agachou-se, sentou-se, encostado à parede, deitou-se, cerrou as pálpebras, e dormiu.

O Sol estorricava. Os garotos, alanceados pelos raios do Sol, não os sentiam, parecia.

A algazarra que os garotos promoviam, de tão animada, atraiu a atenção de Mário, desviando-o dos seus pensamentos. Assaltou-lhe uma sensação estranha, que lhe percorreu a espinha. Para os garotos ele olhou, confuso, atrapalhado, sem saber o que lhe atraíra a atenção, intrigado não sabia com o quê. Pensou ter ouvido alguém falar dele ou dirigir-lhe a palavra. Dois garotos fitavam-no, insistentes, a ponto de encabulá-lo. Um deles, moreno, desembaraçado, tagarela, nu da cintura para cima, descalço, esfolados os joelhos, o antebraço esquerdo e os cotovelos, apontava-o e dizia qualquer coisa para outro garoto (bronzeado, de pele queimada de Sol, descascada nos ombros) que fitava Mário, intrigado e indiferente. Mário apurou os ouvidos, mas não pôde ouvir o que os garotos diziam. Incomodava-o a insistência com que eles o fitavam. Pensou em levantar-se, e retirar-se, mas faltaram-lhe forças. Foi então que percebeu o quão exausto estava. Os dois garotos, falando dele, produziam-lhe um efeito indefinível. E deles aproximou-se um outro garoto, de dez anos. E o moreno disse-lhe qualquer coisa. O garoto demonstrou interesse pela notícia, e, curioso, fitou Mário, cuja mente foi iluminada por um pensamento qualquer, que lhe foi inspirado por alguma palavra que ele pensou ter ouvido, proferida por um dos garotos que o fitavam, ao ler-lhe os lábios. Mário esbugalhou os olhos e apurou os ouvidos. Quando o garoto fitava-o, estudava-lhe os movimentos dos lábios. E perguntou-se se ficaria, lá, sentado, observando-o, ou se levantaria, iria até ele, e far-lhe-ia perguntas? Decidiu lá permanecer, calado, esperando que ele lhe fosse dizer alguma coisa.

E chegou a noite.

E os garotos jogavam futebol, brigavam, berravam palavrões e discutiam.

Os caminhões, os carros, os ônibus e as motos que trafegavam por aquela rua invadiam o campo, e os garotos interrompiam o jogo e insultavam os motoristas com as mais desbocadas obscenidades, e gargalhavam sempre que um deles respondia aos insultos com obscenidades e acenos despudorados.

Várias vezes, a bola, chutada, com muita força, por um dos garotos, ou espirrada numa dividida, foi parar aos pés de Mário, que, uma vez ou outra, tocava-a ou com os pés, ou com as mãos, lançando-a ao garoto que a ia buscar. O garoto que apontara para Mário e o indicara para os outros garotos e para eles dele falara, em nenhum momento aproximou-se de Mário, que esperava, ansiosamente, que ele lhe fosse falar qualquer coisa.

Noite alta, a bola, um pouco murcha, maltratada durante o dia por mais de vinte pares de pés, correu até os pés de Mário, que a pegou para entregá-la a quem a fosse buscar. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com o garoto moreno bem diante de si! O coração de Mário vibrou, acelerado, a ponto de explodir e fragmentar-se em milhões de pedaços microscópicos. Mário emudeceu. Secou-se-lhe a garganta. Seu sangue fervilhava. Cauterizaram-lhe o cérebro as sensações que o assaltavam. Mário esperou, ansiosamente, que o garoto lhe dissesse qualquer coisa. Aproximando-se de Mário, aos olhos dele o garoto converteu-se em um espectro colossal. Aquele garoto de corpo fino e desengonçado, que falava sem parar, desencadeando gargalhadas em todos que o ouviam, e promovia balbúrdia sem paralelo na história da humanidade; aquele garoto, descalço, com machucados nos joelhos, nos cotovelos e no antebraço direito e cicatrizes em inúmeros pontos do corpo; aquele garoto cuja fisionomia transparecia peraltice e irradiava malandragem embrionária e serenidade escalafobética; aquele garoto, um contraste em si, aos olhos de Mário converteu-se em uma criatura letal, que poderia vir a inocular-lhe veneno para o qual não se conhecia antídoto. O garoto agachou-se, os braços estendidos na direção de Mário – que o fitava – para pegar a bola que ele lhe oferecia. Incomodou-o a atitude de Mário. O garoto relutou em tirar-lhe das mãos a bola. Um grito seco e imperioso de um dos garotos que esperavam que ele regressasse, com a bola, ao campo, para que retomassem o jogo, fê-lo agir; e abandonadas as suas reservas, na bola o garoto pousou suas mãos, e atraiu-a para si, puxando-a para junto da barriga, como se a houvesse resgatado das mãos de um demônio oriundo das profundezas do inferno. Mário desejou dirigir-lhe a palavra, mas, sem o domínio de si, esforçando-se para recuperá-lo, não conseguiu articular uma sílaba sequer; e era-lhe impossível elaborar uma frase. Encarou o garoto com olhar que lhe emprestava aparência mórbida e estúpida. O garoto fitou Mário, o olhar estupidificado, ensimesmando-o; olhou para um lado e para o outro. Assim que Mário fez um movimento em sua direção, ele se afastou, correndo, e regressou ao campo, e reuniu-se aos outros garotos, que, impacientes, aguardavam-no, para darem sequência ao jogo.

Mário não sabia o que pensar, não tinha consciência das reais dimensões do que ocorria em seu espírito. A sua aparência não inspirava a incredulidade e a estupefaciência que ele leu no olhar e no semblante do garoto. Algo extraordinário fê-lo transmiti-las. O quê? perguntava-se. O garoto, antes de ver Mário, havia visto o homem idêntico a ele? Mário era unigênito. Mas havia um homem idêntico a ele, e o garoto o vira, daí ele ter fitado Mário com ar de espanto, Mário presumiu, tais pensamentos a lhe marretarem o cérebro.

Sabia que vira um homem idêntico a si, e o olhar do garoto provara-lhe que ele, Mário, não vivia sob um acesso alucinógeno. O garoto não tinha outra razão para o fitar como o fitou, Mário estava convicto; só uma coisa extraordinária inspirar-lhe-ia tal comportamento.

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Leituras do Ano

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Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

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