Em um futuro não muito distante – parte 2 de 8

Serenados seus coração e espírito, levantou-se, com certa dificuldade, as mãos apoiadas nos joelhos. Conservou-se cabisbaixo e pensativo durante a caminhada. Seus olhos fundos, encovados, refletiam a amargura em que lhe atirou uma tempestade de interrogações a respeito de si mesmo. Quem era aquele homem idêntico a ele, Mário? Das outras questões que se fazia, desconhecia Mário as respostas. Se havia uma resposta para cada uma delas, persegui-las-ia até encontrá-las, até o último dia da sua passageira existência na Terra. Se não havia, quando saberia da inexistência delas? Se as encontrasse, a sua busca se encerraria; se não as encontrasse, não morreria feliz, pois, desconhecendo-as, não se convenceria de que elas não existem.

Pensava em quais justificativas para sua ausência apresentaria, no dia seguinte, na Academia, aos cientistas da sua equipe. Se dissesse a verdade, eles o desacreditariam. Tratá-lo-iam, na melhor das hipóteses, como uma pessoa sob passageiro surto de excentricidade, comum aos cientistas, motivado por um forte choque emocional, e rezariam aos céus, suplicando a reversão do estado lastimável dele antes que se lho enraizasse no recanto mais profundo do cérebro. Ou contaria uma inverdade para eles. Pensava em uma história verossímil, isenta de contradições; e se esforçaria para evitar desmentir-se. Ou alegaria contratempos no âmbito familiar, que lhe exigiram a presença, e não entraria em detalhes.

Andou por ruas desertas e mal iluminadas; algumas pelas quais nenhuma pessoa sensata, que preza a própria vida, passa, muito menos à noite e só. Todavia, nada o assombrava, pois ele ignorava o estado delas, e nenhuma ameaça pressentia, fosse qual fosse, tão mergulhado estava em suas reflexões, abstraído da realidade. Os seus pensamentos convergiam para um objetivo difuso.

Pensava no que vivenciara, naquele dia, durante o qual se lhe apresentaram enigmas que lhe acarretaram aflições espirituais que jamais havia experimentado. Ele se achava, até então, convicto da sua origem e das peculiaridades do seu ser e considerava-se conhecedor de tudo o que lhe dizia respeito. A partir do seu encontro com o homem idêntico a si, pôs-se a se fazer indagações, as quais jamais conceberia, a respeito da sua vida, se não houvesse passado pelas experiências daquele dia. Sobrevieram-lhe dúvidas angustiantes para as quais ele não estava preparado. Os seus pensamentos, até então ordenados, galopavam, irrefreáveis, e não o abandonavam, e ele não os abandonava. Era-lhe impossível não pensar em todas as idéias derivadas do momento que vivia.

Em uma das ruas mal iluminadas de um bairro, que é um campo de batalha de facções rivais de delinqüentes juvenis, um bando de rapazes e homens entre quinze e vinte e cinco anos, de calças largas rasgadas nos joelhos uns, de bermudas que desciam abaixo dos joelhos outros, nus da cintura para cima uns, de camisa outros, todos de aparência ameaçadora, ia na direção de Mário e dele aproximava-se. Mário, indo na direção do bando, ignorava-o. Alguns dos componentes do bando fumavam um cigarro, passando-o de mão em mão. Um garoto tragava-o, e, ao tempo que lançava a fumaça para o ar, passava-o àquele que se lhe avizinhava, e este, cigarro entre os dedos polegar e indicador, sugava-o, e baforava uma espessa fumaça. As roupas que usavam os integrantes daquele bando refletiam-lhes as almas infernais. A fisionomia deles refletiam, deles, o caráter facinoroso. Andavam como que narcotizados; o vocabulário deles, constituído de gírias e obscenidades – um lingüista reputado não lhes decifraria o singular idioma. Por onde passava, abandonava o bando um rastro de medo. Pessoas que, debruçadas no peitoral das janelas dos prédios, olhavam, negligentemente, a rua, ao notar a aproximação daquela súcia, recolhiam-se, instantânea e imediatamente, ao interior do prédio, pois o instinto de sobrevivência sobrevinha-lhes repentinamente. Nada queriam ver, nada queriam ouvir, pois não queriam, depois, se ocorresse alguma tragédia, falar. Cobriam os ouvidos e os olhos para, depois, se interrogados, não terem de abrir a boca – o que poderia vir a acarretar-lhes dissabores. Assinariam os atestados de óbito, cada um o seu, se testemunhassem as ações daqueles delinqüentes.

O bando de malfeitores reinava absoluto na rua deserta e mal iluminada cujos postes tinham, três de cada cinco, a lâmpada quebrada. A pouca iluminação emprestava à rua ar de filme de suspense e às fisionomias dos integrantes daquela súcia de malfeitores ar fantasmagórico, espectral, que assustaria o mais corajoso e arrojado dos heróis gregos. O bando gozava de pleno domínio da rua, e ninguém se atrevia a fazer-lhe frente; os poucos que o fizeram haviam batido em retirada após embates encarniçados, dos quais, invariavelmente, retiraram-se feridos, e alguns deles eram, no dia seguinte, encontrados estirados, mutilados, afogados em uma poça de sangue. Aquele bairro, no imaginário popular uma arena em que ocorriam batalhas sanguinolentas, era notícia, nos jornais locais, quase que diariamente.

Os delinquentes divisaram Mário, que andava como se estivesse no quintal da sua casa. Embasbacados, apatetados, boquiabertos, esboçaram uma expressão misto de surpresa e despeito, e entreolharam-se, exprimindo confusão. No princípio, ao verem o vulto de Mário, não sabiam se se tratava ele de um homem, ou de uma mulher. A má iluminação permitiu-lhes definir o sexo do profanador daquele covil apenas quando ele distava deles um pouco mais de dez metros, e deles aproximava-se, ignorando-lhes a existência. A presença dele, naquela rua, era-lhes de uma afronta imperdoável, e o ar dele, de quem nenhum medo sentia, de uma irreverência ilimitada. Ele lhes espicaçou, involuntariamente, o ego. Eles, os donos do pedaço, desdenhados, desrespeitados, revidariam àquela afronta. Mário ignorava a ameaça que o espreitava. Os marginais foram tomados de grande surpresa e estupefação, num misto imbricado de ódio e despeito. Quem era aquele imbecil, perguntavam-se, que invadia o território deles?

Mário aproximava-se da matilha, ignorando-a. Os lobos, sedentos de sangue, não admitiriam, em hipótese alguma, tal afronta; se a admitissem, fariam deles alvos de chacotas; ridicularizá-los-iam. Era uma questão de honra: para conservarem a moral que conquistaram sacrificando a felicidade e a paz de muita gente, teriam de resolver, imediatamente, o caso, e dar uma boa lição no invasor; se permitissem que o maluco, como a Mário se referiam, de lá se retirasse ileso, os bandos rivais os desrespeitariam. Seriam alvos de piadas depreciativas; os outros bandos desafiá-los-iam, sem temor; arrostá-los-iam. Tinham de evitar que isso se desse, sem delongas.

Todos os integrantes do bando, boquiabertos, deram passagem a Mário; pouco tempo depois, ao recuperarem o domínio de si, entreolharam-se, indignados, e, sem que nenhum deles articulasse sequer uma palavra, decidiram, de comum acordo, dar fim ao invasor. Um deles tirou do bolso traseiro esquerdo da calça um canivete, que reluziu à luz bruxuleante da lâmpada de um poste. O vento assobiava, prenunciando uma tragédia. A atmosfera era propícia à realização de um crime horrendo. O rapaz que empunhava o canivete, imberbe, franzino, ossudo nos joelhos, cotovelos e ombros, de clavículas e omoplatas destacadas, aparentando quinze anos, seguiu Mário, sem fazer ruídos; atrás dele, os outros marginais observavam, olhares atentos. O rapaz, o canivete afiado aninhado em sua mão, passos firmes e decididos, aproximava-se, silenciosamente, de Mário, alisava o canivete, cujo fio ele acarinhava, lascivamente, numa volúpia sanguinária. A arma era a sua amante, fiel amante. Os olhos do rapaz, sanguissedentos, refletiam a frieza da sua natureza sanguinária. Deformava-lhe a boca um sorriso maligno, sombrio. Aproximou-se de sua presa, que, enterrada dentro de si, ignorava-o. Olhos fixos nela, a dois passos dela, exibiu sorriso ignóbil, como que possuído pelo demônio. Resoluto, tendo olhos apenas para a sua vítima, arreganhou a afiada garra, rilhou os caninos, e, com olhar sinistro, preparou-se para saltar sobre ela e desferir-lhe um golpe fatal.

Um facho de luz surgiu à frente deles. Mário e o garoto com o canivete achavam-se, no meio da rua, na metade entre um entroncamento e outro. Do cruzamento à frente deles, o facho de luz cortava a soturna escuridão da noite. Uma viatura policial seguiu-se, vagarosamente, à luz. O facínora recolheu as garras; contrariado, deu meia-volta, e retornou, passos acelerados, ao bando, que, protegido pela escuridão, retirara-se e contornara a esquina antes que a viatura policial chegasse até Mário.

Da viatura, um dos dois policiais acenou para Mário, que o ignorou. O policial, homem de voz áspera, gritou uma saudação. Não obteve resposta. A viatura passou por Mário, e deteve-se. Em marcha à ré, foi até ele e com ele emparelhou-se; e o policial berrou-lhe duas vezes, e ele não o ouviu. O terceiro grito ele o deu num tom mais elevado, tirando-o do seu torpor. E Mário voltou-se para os policiais, mansamente, os olhos perdidos, sem entender o que se passava. Os policiais o interrogaram. Pediram-lhe o nome, os documentos pessoais. Perguntaram-lhe o que ele fazia, sozinho, naquela rua deserta. Abobalhado, Mário exibia confusão, e nada lhes disse. E eles o alertaram para os riscos que ele corria. Disseram-lhe que, se até aquele momento nada lhe ocorrera de mal, ele poderia se considerar um felizardo, e o aconselharam a ir-se embora imediatamente. E abanando a cabeça, afastaram-se.

Mário deu-se conta, então, de onde se encontrava. E veio-lhe à memória histórias que lera, em jornais municipais, de bêbados que brigavam e esfaqueavam-se, e, feridos, à beira da morte, aos hospitais afluíam, retalhado o rosto, decepadas as mãos, despedaçado o crânio, e de incontáveis casos de estupros e assassinatos.

Preocupava-se, agora de volta ao mundo dos vivos – e pânico dele quase se apossou – em sair de lá o mais rapidamente possível. Não desejava morrer. Mal sabia ele a sorte que tivera. Ouviu, de detrás de si, garrafas a estilhaçarem-se, gritos, uns assustados, outros suplicantes, e outros ameaçadores, e a detonação de um revólver. E o silêncio tumular que se seguiu. Trêmulo, acelerou os passos, o peito a arfar, o coração a pular, dando tratos à bola. Premia abandonar aquela região lúgubre, da qual se retirou, enfim.

Mário não sabia como reagir aos estímulos daquela dia. Pensava em regressar à sua casa, abraçar seus filhos, brincar com eles, e, mais do que tudo, desejava abraçar Daniele, beijar-lhe os lábios, conversar com ela, e contar-lhe o que se passara naquele dia. Contar-lhe-ia a verdade? Talvez. Por enquanto, indagava-se, refeito, e de posse, assim pensava, de sua consciência, se era correta a visão-de-mundo na qual até aquele dia acreditava piamente. Bastou um evento, que ele jamais concebera, e todas as suas convicções começaram a se desfazer; daí ele se perguntar se acreditava no que, conscientemente ou não, pensava que acreditava. Ele, que já havia intentado levar a cabo a elaboração de um sistema de pensamento, perguntava-se, agora, como encerraria as suas elucubrações, se, para confirmar as suas convicções, encadearia as suas idéias numa sequência lógica, ou se, para emprestar solidez aparente aos seus pensamentos, empregaria artifícios, tais como vocabulário injustificadamente técnico, indecifrável, para ocultar de todos, o que lhe agradaria o ego, a substância das suas idéias inconsistentes repletas de lacunas e contradições.

No desejo de chegar, e logo, à sua casa, estendeu o braço esquerdo para chamar um táxi. Um táxi passou por ele, ignorando-o. Segundos depois, passou por ele outro táxi. E um táxi, enfim, dele aproximou-se, e parou. Mário abriu a porta do carro, nele entrou, e, enquanto ajeitava-se no banco e passava o cinto de segurança, disse ao taxista o nome da rua em que se localizava sua casa e o número desta. O taxista, criatura soturna, pediu-lhe uma referência. Mário mencionou uma loja de antiguidades. O taxista, que dava mostras de que não apreciava o seu ofício, como se a vida, tragicômica, pregasse-lhe uma peça de muito mal gosto, enfezado, sequer lançou um olhar para o seu passageiro. De dar calafrios, a viagem de quase uma hora.

O taxista parou ao meio-fio. Mário ouviu-lhe a voz ríspida ditar o preço da viagem. Fitou-o, dando-lhe a entender que não compreendera o que ele lhe dissera, e dele ouviu o valor da viagem, dita num tom ainda mais seco, mais grave, mais áspero, mais hostil. Pagou-lhe em cédulas e moedas, e, em silêncio, esperou-o, observando-o, atentamente, conferir o valor, o que ele fez resmungando. Conferido o dinheiro, o taxista, enfezado, confirmou o valor recebido, e Mário abriu a porta, do carro retirou-se, e mal fechou-a o motorista pisou no acelerador.

Postado diante da porta da sua casa, localizada em um bairro tranquilo, no qual moravam médicos, engenheiros, dentistas, advogados, atletas, cantores, empresários, políticos, cientistas, Mário tirou do bolso anterior esquerdo da calça o molho de chaves, destacou a do portão, meteu-a na fechadura, abriu a porta, entrou nos domínios da sua casa, e fechou a porta. Suspirou. Inflou o tórax, de regozijo. Contemplou a beleza harmoniosa que irradiava do seu lar. Ouviu vozes. Eram quatro as vozes – identificou-as. Pouco tempo depois, identificou cinco vozes distintas. Uma, grave, a que se sobressaía, era a de seu pai; outra, doce e meiga, de sua esposa; outra, a de sua mãe; e as outras duas, animadas, alegres, infantis, a de Marcos Antonio e a de Aloísio.

O seu espírito encheu-se de intensa alegria. A sua fisionomia refletia o jacto de entusiasmo que lhe enchia todos os poros. Em sua mente, no entanto, persistia pensamentos que lhe anteviam, para os dias seguintes, experiências desgastantes. Em sua cabeça havia um turbilhão de pensamentos tumultuados, os quais ele não os controlava, e para controlá-los esforçou-se, em vão, enquanto conservou-se, no jardim, a ouvir as vozes, as risadas e as gargalhadas que da sua casa chegavam-lhe aos ouvidos, sorriso de alivio a enfeitar-lhe o rosto, o corpo leve como se tivesse se livrado de um grande peso.

A despeito da alegria que lhe inflava o espírito, recuava ante a idéia de saudar seus pais. Não estava preparado para olhá-los nos olhos. Incomodava-o a experiência daquele dia. Teria coragem, sangue frio, estado de espírito, para abraçá-los, beijá-los, com o carinho costumeiro, nas faces, olhá-los nos olhos, sem transparecer os sentimentos incômodos que não o abandonavam? Se seu pai, ou sua mãe, indagasse-lhe a respeito da sua aparência, diferente, irreconhecível, perderia Mário o domínio de si? Qual seria a sua atitude se sua mãe lhe fizesse uma pergunta singela, aludindo à sua fisionomia? Cairia, ajoelhado, diante dela; suplicar-lhe-ia o perdão, num misto de humilhação e coragem, e inteirá-la-ia de seus pensamentos, os quais tinha-a, e ao seu pai, como vilões? Qual seria a reação dela? Sobrevir-lhe-ia o desmaio? Preocupava-se Mário. Tinha ele de enfrentar a situação. Seus pais eram geneticistas. Seu pai, homem honesto, franco, sincero, jamais lhe havia escondido algo; já lhe havia falado, inclusive, de alguns pecados da juventude e de pensamentos reprováveis que lhe havia aflorado ao espírito. Sua mãe, se não chegou a ter-lhe a mesma intimidade, confiando-lhe os seus mais íntimos pensamentos, também nunca lhe havia faltado com a franqueza e a sinceridade. Deveria Mário perguntar, no momento oportuno, ao seu pai ou à sua mãe, ou aos dois, se eles tiveram, além dele, Mário, outro filho, um gêmeo de Mário, ou se os genes dele, Mário, foram copiados, e deles se criou um homem idêntico a ele, Mário? Um? Apenas um? Até então Mário se sentia um homem íntegro, e sabia que ele era ele, e seu corpo era seu; agora, sabedor da existência de outro homem idêntico a si, sentia-se se desintegrando, não se sentia o Mário que todos conheciam e que ele conhecia. Ele era ele, ou era outro homem? Ele ainda se conhecia? Ele se conheceu algum dia? E aquelas pessoas que lhe eram mais caras notariam que ele não mais era o Mário que conheciam, mas outro Mário, deles desconhecido?

Aqueles que acreditavam na separação e independência entre corpo e alma, diante do corpo de Mário, sentiriam a alma dele desintegrada? Mário, que nunca havia se ocupado a pensar acerca da alma, afundava-se, agora, em conjecturas a respeito, e angustiava-se. Seus pais, que o conheciam melhor do que toda e qualquer outra pessoa, notariam as mudanças que ele sofrera naquele dia? E sua esposa perceber-lhe-ia alguma coisa diferente, a sua alma dividida? E dividida em quantas partes? E seus filhos, na pureza de seus espíritos, perceberiam, nele, alguma mudança? Como reagiria Mário se uma das pessoas que mais estimava aludisse ao seu estado de espírito? Mário preparou-se para enfrentar a situação; e de sua família e de si mesmo ocultar os seus sentimentos. Respirou fundo. Deu um passo. Deteve-se. Seu cérebro corcoveou; seu coração agitou-se. Cerrou as pálpebras. Empinou o corpo. Sentia-se meditando durante um ritual religioso, não sabia se demoníaco, se divino, fundindo o seu espírito com o cosmos, em busca de equilíbrio. O coração retomando o seu ritmo normal, Mário descerrou as pálpebras, respirou fundo, deu um passo, e outro passo, e outro, e mais um, e entrou na varanda, cuja extensão cruzou em poucos passos, e deteve-se diante da porta, em cuja maçaneta pousou a mão esquerda. E abriu a porta, e transpôs a soleira. Atingiu-o a luminosidade reinante na sala-de-estar. Marcos Antonio, o primeiro a vê-lo, abriu um largo sorriso, e, eufórico, correu em sua direção, e saltou-lhe ao pescoço, ao mesmo tempo em que ele se agachava e inclinava-se para a frente, para recolhê-lo aos braços. Daniele disse para Mário que estava preocupada e que pretendia telefonar à Academia. Alegraram-se todos. Aloísio não esperou Marcos Antonio abandonar os braços de seu pai, e pulou sobre ele, Mário. Mário, abraçado aos seus filhos, ergueu-se. O afeto e o carinho que nutria por eles reduziam-lhe o peso da consciência. Seus filhos não desejavam largar-lhe do pescoço. Mário nunca havia se sentido tão leve. Estampava um largo sorriso, a irradiar felicidade ilimitada. Seus olhos brilhavam de alegria. Viu o rosto de sua esposa transfigurada num sorriso deslumbrante. Os dentes dela brilhavam de tão brancos. Maravilharam-no os regulares traços da fisionomia dela. Parecia a ele que ela sentia a emoção que ele sentia, como se ela lhe houvesse penetrado no cérebro, e um espírito lhe houvesse explicado o que se passara com Mário, naquele dia, e a exortasse a acolhê-lo com o mais amável e deslumbrante sorriso.

Daniele aproximou-se de Mário, que sentiu o bafejo perfumado que dela recendia, e retirou-lhe dos braços Aloísio, e beijou Mário nos lábios. Um lampejo de felicidade invadiu a alma de Mário. A acolhida não poderia ter sido mais amável. Aloísio debateu-se nos braços de sua mãe, pedindo-lhe, a esgoelar-se, que o restituísse aos braços de seu pai; este, por sua vez, inclinou-se para a frente e prontificou-se a pôr Marcos Antonio no chão, e este relutou, e apertou-se-lhe, como se temesse perdê-lo se o largasse. Mário explicou-lhe que iria abraçar os avós dele, mas ele, não querendo ouvi-lo, não o largou. As palavras de Mário unidas às de Daniele o convenceram, enfim, a afrouxar o abraço e, relutantemente, largar-se. Mário, parecia, havia esquecido as questões que o incomodavam até poucos instantes antes; com a mente livre de incômodos, olhou para sua mãe, e abraçou-a, carinhoso e respeitoso; em seguida, olhou para seu pai, e abraçou-o, com fervor e carinho. Abandonara a reserva que o atormentava, despreocupado das questões que até minutos antes o perturbavam. Nem seu pai, nem sua mãe, nem sua esposa, nem seus filhos nele identificaram sequer uma mudança no estado de espírito.

No transcurso da noite, percorreram muitos assuntos, sérios, uns, divertidos e despreocupados, outros. Brincaram. Rodolfo, avô acolhedor, festivo e desembaraçado, promoveu inúmeras brincadeiras, esquecido de que era um homem de cabelos brancos, de um pouco mais de cinquenta anos de idade, geneticista de renome, professor emérito de dezenas de universidades. Na companhia de seus netos, era ele um homem como outro homem qualquer. Aquele que o desconhecesse, e naquele momento o visse brincando tão animadamente com Marcos Antonio e Aloísio, informado de que ele era um dos melhores geneticistas do mundo, desacreditaria, incrédulo, o emissor da notícia e o reputaria um mentiroso descarado, afinal, um gênio da ciência não saborearia de momentos tão divertidos, pois, diria, os cientistas são criaturas frias e calculistas.

Tarde da noite, Rodolfo e Valquíria despediram-se de Mário e de Daniele – Marcos Antonio e Aloísio dormiam há muito tempo, profundamente, após a animada agitação do dia, e roncavam ruidosamente. Antes de se retirarem da casa, foram ao quarto dos netos, e deram, cada um deles, em cada neto, na testa, um afetuoso beijo de despedida.

À porta, Mário e seu pai conversavam, e sua esposa e sua mãe palestravam à parte. Valquíria dava à nora algumas recomendações que diziam respeito à saúde de Marcos Antonio e Aloísio e aos cuidados que ela teria de dedicar ao pai adoentado, acamado, que lhe requeria atenção, e a Paulo, Catarina e Pâmela, irmãos de Daniele. Rodolfo e Mário falavam de coisas associadas às ciências (e nem mesmo quando falaram de clonagem humana Mário evocou os eventos sucedidos naquele dia). Rodolfo convidou seu filho para um congresso dali duas semanas. Mencionou os filósofos, os religiosos, os políticos, os esportistas e os cientistas que foram convidados para o evento. E disse-lhe que, caso ao congresso ele não pudesse comparecer, mas desejasse acompanhar os debates, que acessasse o site ***.com.

Enfim, Rodolfo e Valquíria entraram no carro. Rodolfo deu a partida. Vinte e cinco minutos depois, chegaram na casa deles.

À despedida de seus pais, Mário enlaçou, pela cintura, sua esposa, atraiu-a para si, e deu-lhe, surpreendendo-a, nos lábios, um beijo ardente e cobiçoso. Reinava o silêncio na rua deserta. Luzes das lâmpadas dos postes e de algumas residências pontilhavam a escuridão da noite. Imperava a tranquilidade. Mário e Daniele trocaram carícias afetuosas. Ela pisou-lhe nos pés, enlaçou-o pelo pescoço, e deu-lhe um beijo; e ele carregou-a para dentro da casa. Riam à toa. Andando, calmamente, um tanto desajeitado, Mário conseguiu chegar à porta que dava à sala. Transposta a porta, fechou-a, à chave, e rumou ao quarto, Daniele a pisar-lhe os pés e a abraçá-lo pelo pescoço.

Mário despertou, na manhã seguinte, após noite de sono reconfortante, renovadas as suas energias. Daniele levantara-se, minutos antes, e preparara a refeição da manhã, a qual ela levou, em uma bandeja, ao quarto. Assim que seu marido se sentou, pôs-lhe sobre as pernas a bandeja. Encostado à cabeceira da cama, ele recebeu de Daniele, que lhe parecia mais bela, e cuja voz parecia-lhe mais musical, mais afetuosa, um beijo de saudação. E ela se lhe aconchegou à esquerda.

Marcos Antonio e Aloísio dormiam.

Daniele levava à boca do seu marido uvas, pedaços de maçã, gomos de laranja, pedaços de pão, de pudim, o copo com leite. Quando, ao levar o copo com leite à boca de Mário, derrubou, nele, um pouco de leite, que escorregou, contornando-lhe o queixo, riu tolamente, contagiando-o. E ambos riram, tolamente. Mário gargalhou, e cobriu com as mãos a boca, para conter-se. Concluída a refeição, Daniele retirou-se do quarto com a bandeja, os copos, os pires e o que restava do pequeno sortimento de frutas, e dirigiu-se à cozinha. De regresso ao quarto, minutos depois, subiu na cama, deitou-se sobre seu marido, voltada para ele, e deu-lhe beijos calorosos, ardentes, e ele recebeu-os, apaixonado.

Levantaram-se ambos minutos depois.

Marcos Antonio e Aloísio dormiam.

Daniele foi ao seu escritório residencial, e, via computador, conversou com outros odontologistas.

Um pouco antes das dez horas da manhã, Paula, a empregada doméstica, chegou na casa de Mário e Daniele. Era ela uma mulher de quarenta anos, forte, mãe de três filhos, dois deles, adolescentes, Matheus e Thiago, filhos dela e de Gabriel, o seu primeiro marido, de quem enviuvou oito anos antes, e um, menino de seis anos, Mathias, filho dela e de Rodolfo, o seu segundo marido.

Após o banho, no quarto, uma toalha cobrindo-a da metade superior das coxas até um pouco acima do busto, Daniele mirou-se ao espelho da penteadeira, e penteou os cabelos, e passou batom vermelho nos lábios e cosméticos para realçar os belos traços naturais, enquanto Mário vestia-se, sentado, na cama.

Falaram Mário e Daniele das tarefas e dos compromissos do dia.

A manhã ia às mil maravilhas até o momento em que Daniele, entre um assunto e outro, enquanto agitava o vestido florido de fundo branco, inseriu, na conversa, uma interrogação, que fulminou Mário. Perguntou-lhe se alguma coisa incomodava-o. Disse-lhe que ele estava diferente; confessou que nada dissera, até aquele instante, para não amolá-lo com perguntas incômodas e porque não desejava estragar a noite. E ele enterrou-se, de imediato, nas suas cismas. Empalideceu. Adquiriu a figura de um vulto fantasmagórico. Abandonou-o a felicidade, que o extasiava até aquele instante. Estranha a sensação que o invadira. Bastou Daniele dizer-lhe que o notara diferente, que ruiu-lhe a felicidade. O espírito combalido, não conseguiu Mário ajeitar a gravata. Daniele, aproximando-se dele, e notando-o pálido, perguntou-lhe se ele passava mal, pôs-lhe a mão na testa, e acariciou-lha e ao rosto. Mário desconversou. Acometera-o um mal passageiro, disse, enquanto Daniele ajeitava-lhe a gravata.

Após arrumar a gravata de seu marido, Daniele desceu para a cozinha. Sentado na beirada da cama, Mário pensava. Minutos depois, na cozinha, Daniele conversando com Paula, Mário anunciou a sua retirada, o cérebro repleto de pensamentos desagradáveis, e deu um beijo no rosto de Daniele, e abriu a porta; quando ele a fechava atrás de si, Daniele disse para Paula que notara alguma coisa de estranho nele. Paula, discreta e sensatamente elogiou-o, e declarou que, era provável, incomodava-o algo associado ao trabalho.

Mário ligou o carro. Ao premir o botão de um controle abriu o portão da casa; ao premir o mesmo botão ao sair da casa, fechou o portão. Iria à Academia. Em nenhum momento da sua casa à Academia tirou da cabeça os acontecimentos do dia anterior. Quem era aquele homem idêntico a ele, Mário? Irmão gêmeo de Mário ele não era. Era aquele homem um clone de Mário? Mário foi clonado por seus pais? Havia, armazenados em alguma instituição científica, dados completos da estrutura genética de Mário, e algum instituto os roubou, ou o instituto que os possuía – com o conhecimento dos pais de Mário? – os vendeu para pesquisadores? Havia um mercado internacional paralelo de identificação genética de indivíduos humanos? E quem os roubou clonou Mário, sem a concordância de Rodolfo e Valquíria? Havia apenas um clone de Mário? Quantos clones de Mário havia? Se os pais de Mário o clonaram, e nisso Mário não acreditava, mas era uma hipótese que ele não podia descartar, quantos clones dele fizeram? Ele, Mário, pensava Mário, angustiado, era o clone do homem que ele vira no dia anterior? Ou ambos eram clones de outro homem? Seria Mário um clone? Assustava-o tal hipótese. Ou era ele o homem de quem fizeram um clone, o clone o homem que ele vira no dia anterior? Seria Mário, se dele fizeram um clone, ou se ele fosse um clone, um ser de espécie que não a humana? Não era ele um clone, ele quis se convencer. Ele nunca se sentiu um clone. O que era sentir-se um clone? Um clone de um ser humano não é um ser humano? Um clone humano perderia alguns dos aspectos humanos que possuía no momento da sua concepção? Quais aspectos humanos ele perderia no decurso dos anos, caso herdasse alguns? Se dele fizeram um clone, um pedaço dele, de seu ser, isto é, de Mário, estaria no corpo de outro homem, e, portanto, a alma de Mário não seria íntegra, e ele não seria humano? Teria Mário uma alma, se fosse ele um clone? A sua alma estaria intacta? Se ele, Mário, fosse um clone de um outro homem, receberia ele, Mário, uma parcela da alma dele? A alma dele estaria dividida? Em quantas partes? Se ele, Mário, fosse o homem original do qual foi feito um clone, a sua alma estaria dividida? Em quantas partes? Um clone humano é dotado de alma? O que é a alma? É provido de espírito? O que é o espírito? É dotado de personalidade? O que é a personalidade? Existem alma, espírito, personalidade? Alma e corpo são dois entes distintos? Ou são uma coisa só? Se são uma coisa só, a alma nasce com o corpo? Se nasce com o corpo, nasce, também, com a criação do corpo de um clone humano? A alma, imortal, espera pelo nascimento de um corpo, para nele penetrar, e habitá-lo, e, com a morte dele, abandona-o, e regressa à eternidade? O corpo de um clone humano está considerado nos desígnios de Deus? Se está, a alma penetra-o, e anima-o? Como é a alma de um clone humano, que não nasce segundo as leis da natureza? As leis da natureza são irrevogáveis? As leis de Deus são irrevogáveis? Um clone humano nasce à ação da ciência humana, que contraria a lei da natureza e a de Deus; então, pode ter alma um clone humano? São como os humanos os clones humanos? Se os clones humanos não são previstos por Deus, Deus é onisciente? Deus permite a existência de clones humanos? Se sim, poderíamos considerar humanos os clones humanos? Os clones humanos são desprovidos de alma? Sendo desprovidos de alma, são humanos? O que é a alma, afinal? A alma anima todos os corpos, independentemente da origem deles? Ou a alma é um ser etéreo, eterno, que habita um corpo, durante a vida deste corpo, e abandona-o quando da sua morte? Clones humanos têm alma? Em que labirinto Mário se enveredava? Ele do labirinto encontraria a saída? Encontraria? Quando?

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Polifonia Literária

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