Em um futuro não muito distante – parte 4 de 8

Daniele adormeceu. Acordou doze horas depois, nua, na cama, sob um fino lençol, sob o qual não se lembrava de ter-se enfiado. Recordava-se de que de si removera o sangue aderido ao corpo e se medicara. Ouviu rumores na casa. Eram as vozes de Marcos Antonio e Aloísio, irrequietos, e a de Paula, que os animava entoando canções infantis. Passeou as mãos pelas faces, esfregou os olhos, respirou fundo, e suspirou. A porta do quarto estava fechada. Quem ajeitara a ela, Daniele, na cama? Paula? Paula a encontrara em que estado? Latejava-lhe a cabeça, não tão intensamente como na véspera. Reconstituiu toda a cena da noite anterior. Não queria acreditar no que se passara. Era tudo irreal, inverossímil. Mário não quisera agredi-la, nenhum golpe lhe dera, não a insultara, não a encarara doentiamente. Foi um pesadelo. Sim! Um pesadelo! Daniele disso quis se convencer; se convencer de que nada de ruim lhe acontecera na véspera. Era-lhe angustiante lembrar-se do que lhe sucedera, mas não podia negar a realidade.

Ao ouvir as risadas dos filhos, evocou os tempos felizes que gozava antes daquele drama principiar. A recordação das coisas divertidas da vida em comum com Mário e os filhos fê-la rir, nostálgica. A convivência familiar, repleta de motivos para rir, era harmoniosa, e a casa irradiava tranquilidade e paz – muitas pessoas dariam toda a fortuna que tinham para ter a paz que nela reinava. Daniele lembrou-se do rosto singelo de Mário. Lembrou-se que ouvia-lhe a voz suave, e, nos colóquios que mantinham diariamente, os substanciosos argumentos filosóficos e científicos que ele apresentava. Mário fornecia-lhe relatos animados das experiências que conduzia, as quais eram frias e tediosas, mas delas ele falava num tom tão agradável, que lhe excitava a curiosidade, e delas ela desejava ouvir mais, mesmo que não compreendesse o que Mário lhe contava, pois desejava ouvir-lhe a voz, ora serena, ora eufórica. Os abraços de Mário eram ardentes; os beijos, inflamados; as carícias, calorosas. E ela sentia-se uma mulher plenamente realizada. Saboreavam Mário e Daniele, e Marcos Antonio e Aloísio, de uma paradisíaca convivência em comum. Mário convertia-se, em muitos dias, em criança, e brincava com os filhos, a diverti-los, e a divertir-se, e a divertir Daniele, que, ela dizia, presenciava três crianças a brincar, a fazer estripulias, a pintar o sete, a espalhar a brasa, a pôr a casa de pernas para o ar. Mário esquecia-se que era um homem adulto, neurologista renomado, filho de geneticistas famosos. Marcos Antonio e Aloísio montavam-lhe cavalinho, e ele empinava o corpo, e os filhos, dele apeados, caíam, e riam, e gargalhavam, e montavam-lhe cavalinho, e caíam… Passeavam, durante longas caminhadas, nos finais de semana, ao amanhecer, e ao entardecer, durante horas, e conversavam. Passeavam de bicicletas. Nadavam em piscinas. Havia dias que Mário e Daniele, sós, iam a restaurantes, e reviviam os dias de namoro. Reavivavam a memória dos dias que lhes escapavam, os quais eles não desejavam esquecer. Recordavam os dias de infância, de juventude. Reconstituíam incidentes que, na época em que se deram, deixaram muita gente preocupada, principalmente os pais e os parentes mais próximos; ao revivê-los, todavia, riam como se tratassem das coisas mais engraçadas que lhes ocorreram. Amavam-se Mário e Daniele. Daniele desejava a felicidade de outrora, para si, para o marido, para os filhos. Recuperá-la-ia um dia? Se não a recuperasse, suportaria aquela vida desafortunada, que, se perpetuasse, previa, redundaria numa tragédia?

Subjugada pelos seus pensamentos, ouviu a voz de Marcos Antonio, que gritou a palavra pai, num tom alegre, entusiasmado, intrigando-a. Descerrou as pálpebras, o rosto a transparecer surpresa. Ouviu Marcos Antonio mais uma vez, num grito, a proferir a palavra pai. Na expectativa, acelerado o coração, a dominarem-la medo e confusão, trêmulos mãos e lábios, perguntava-se de Mário. Supôs que ele, considerando-se as expressões de Marcos Antonio, brincava com o filho. Ouviu passos aproximando-se do quarto. O medo apossou-se de si. Os passos progrediam, e cessaram. Fizeram-se ouvir ruídos de copos e talheres. Moveu-se a maçaneta. Abriu-se a porta, vagarosamente. Daniele, apreensiva, viu a cabeça de Mário, cujo semblante irradiava ternura. Era o rosto que Daniele desejava ver, o de seu marido, o do homem que amava. O receio e a desconfiança mantiveram-na em suspenso. Ela não acreditou, de imediato, que Mário, de rosto terno, amável e sorridente, deixara de ser o homem que a agredira na véspera. Seu coração palpitava forte, rápido; seu corpo fervia; queimava-lhe as entranhas o sangue que lhe corria pelas veias e artérias. Olhos arregalados, fitava o seu marido, atentando para todos os movimentos dele, a sondar-lhe as intenções. Ele exibia rosto radiante porque tornara a ser o Mário por quem ela se havia apaixonado? Exibindo aquele sorriso encantador, Mário convenceria qualquer pessoa de que era ele um homem boníssimo, terno, afetuoso, e ninguém suspeitaria que por trás daquela candura havia um homem capaz de, num instante de insanidade, agredir e desprezar uma pessoa, tampouco uma criança, seu filho, e uma mulher, a sua esposa.

Mário carregava uma bandeja com a refeição matinal de Daniele, um banquete. Daniele viu em seu marido o desejo de reconciliação. Espicaçavam-na, no entanto, dúvidas e desconfianças. Desejava confiar em Mário, mas pressentia ameaças a rondá-la. Ela queria eliminar de si todas as dúvidas que lhe atassalhavam o espírito; a despeito dos seus desejos, todavia, não podia ocultar de si as suas desconfianças. Mário havia solapado a sua reputação de homem bom; e as suas atitudes, nos meses anteriores, não o favoreciam; talvez ele nunca reconquistasse a confiança irrestrita e incondicional de sua esposa.

Ao entrar no quarto, ele fechou a porta. Neste simples gesto, Daniele viu, em Mário, a intenção de impedi-la de escapar-lhe das garras. Mário não suprimiu da face o sorriso; e nos olhos dele Daniele leu súplica. Pareceu a Daniele que brilhava sobre a cabeça de seu marido uma auréola. Ele tornara a ser o marido que prezava a esposa como uma pessoa inestimável e o pai amoroso, solícito, afetuoso e dedicado, de Marcos Antonio e Aloísio? Qual Mário era aquele que Daniele tinha diante de si? O Mário que ela desejava, com o qual sonhava todas as noites, nos dois angustiantes anos precedentes, pelo qual havia se apaixonado aos dezesseis anos, ou o Mário, aquele monstro, aquela quimera teratológica, que convertia em pesadelos sinistros e tenebrosos os seus mais alegres sonhos? Ou o Mário que estava diante de si não era nenhum destes dois, mas um Mário novo, renascido das cinzas? Qual Mário, perguntou-se Daniele, tinha ela diante de si? Daniele queria tranqüilizar seu coração, que se revoluteava. Engoliu um soluço. Fitava Mário, olhos arregalados, abobalhada. Assim que ele se lhe achegou, ela se convenceu de que tinha diante de si o seu marido, o Mário que amava, conquanto se dissesse que era impossível em uma pessoa se dar tão grande mudança em tão pouco tempo. Daniele não se reconheceu, ao conscientizar-se dos seus pensamentos. Ela, que desejava que Mário tornasse a ser quem era quando o conheceu, agora, tendo-o diante de si, relutava aceitá-lo.

Mário pôs a bandeja cheia de guloseimas sobre o criado-mudo, e fitou Daniele, que ainda não estava completamente recomposta das dores que a afligiam. Tremiam os lábios de Daniele. Mário, com doçura e suavidade incomparáveis, passeou, suavemente, os dedos da mão esquerda pela testa de sua esposa, tirando-lhe os fios de cabelos que lhe caíam aos olhos e ajeitando-os atrás das orelhas, e pela face direita, depois, pela face esquerda. Entreolharam-se Mário e Daniele. Nos olhos dela Mário leu confusão, apreensão e disposição para perdoá-lo. Nos olhos dele Daniele leu arrependimento. Os olhos deles, desacompanhados de palavras, diziam o que as palavras jamais diriam. Expressavam o que ambos sentiam e pensavam a respeito do que vivenciaram até aquele dia. Todas as palavras que se disseram antes e depois do olhar daquele instante não lhes criaram tanta intimidade. Sobrevieram-lhe sensações agradáveis indefiníveis, indescritíveis. Daniele acalmou-se ao contemplar Mário, então recomposto, restituído a ele o temperamento amável e carinhoso, assim ela pensava. Tinha diante de si o Mário por quem se apaixonou, ela se convenceu ao fitar-lhe os olhos suplicantes. Ele lhe segurou as mãos, carinhosamente, amoroso e tímido. Uma corrente de felicidade percorreu o corpo de Daniele, que cerrou as pálpebras. Mário, dócil e afetuoso, tornou a afagar, amorosamente, as faces sofridas de sua esposa, que inclinava a cabeça para o lado que ele acariciava; com as duas mãos, ela segurou a mão esquerda de Mário, e lágrimas vieram-lhe aos olhos, e levou-a aos lábios, que se inflamaram, e beijou-a. E Mário segurou-lhe as mãos, trouxe-as para seus lábios, beijou-as, carinhosamente, sentou-se mais perto dela, e inclinou-se, para beijá-la. Ela cerrou as pálpebras, e recebeu-o de braços abertos, segurando-lhe as mãos ao peito. Sentia-se renascer, renovarem-se-lhe as forças, reanimar-se-lhe a pele. Uniram-se os lábios num beijo ardoroso. O aspecto sinistro e doentio de Mário abandonara-o, sem deixar vestígios. A palidez de Daniele se lhe apagara da face, sem deixar indícios. Daniele enlaçou Mário pelo pescoço, e atraiu-o para si, apertou-se a ele, como se desejasse impedi-lo de escapar.

Marcos Antonio e Aloísio, em algazarra estrondosa, correram para o quarto de seus pais. Marcos Antonio abriu a porta, empurrou-a, e precipitou-se quarto adentro, pulou na cama, e saltou sobre sua mãe. Aloísio entrou logo em seguida, seguido por Paula, que, esbaforida, desculpava-se por haver sido mal-sucedida em conter os meninos e impedi-los de entrar no quarto de modo tão abrupto e barulhento. Mário aceitou as desculpas, e declarou que ela descansasse. Sorrindo, um pouco vexada, ela se retraiu, e do quarto se retirou. Encontraram-se os olhares de Mário e os de Daniele. E Daniele abraçou seus filhos, que a cercaram de carinhos.

As duas crianças, de tanto pular sobre a cama quase a destruíram. Daniele e Mário sorriam, divertidos. Ele se lhe ajeitou ao lado, passou-lhe o braço por trás do pescoço, repousando-lhe a mão no ombro. Derretidos em alegria, brincavam com os filhos, saboreando de prazer inextinguível. Desfizeram-se da mente deles as cenas do dia anterior. Mário perguntou para Daniele, sussurrando-lhe ao ouvido, se ela estava com fome. Ela, o rosto radiante, respondeu-lhe afirmativamente, e ele levou-lhe à boca um pedaço de bolo, do qual desprenderam-se minúsculas partículas, que caíram assim que Daniele deu-lhe uma dentada arrancando-lhe um bom naco. Ela riu como se tivesse ocorrido a cena mais cômica do mundo, e ofereceu os lábios ao marido, solicitando-lhe um beijo. E ele lho deu.

Mário pediu aos filhos, que demoraram a atendê-lo, que cessassem os pulos, para que a mãe deles pudesse comer do bolo; e retirou-se do quarto; e eles o seguiram. Assim que passou pelo enquadramento da porta, acocorou-se, ofereceu as costas a Marcos Antonio, e disse-lhe que pulasse, que o carregaria de cavalinho. Num salto prodigioso, Marcos Antonio agarrou-se-lhe ao pescoço. Aloísio também desejava agarrar-se ao pescoço de seu pai. Os dois meninos dispuseram-se a principiar uma escaramuça. Mário impediu-os de se baterem. Ele ergueu-se – Marcos Antonio pendurado às suas costas, enlaçado ao seu pescoço – e, com o braço esquerdo, agarrou, pela cintura, Aloísio. Daniele divertia-se. Nada roubar-lhe-ia a alegria que lhe invadira o espírito. Mário, com Marcos Antonio agarrado ao seu pescoço e Aloísio a tiracolo, fechou a porta do quarto. E Daniele pôde, enfim, saborear, tranqüilamente, a sua refeição matinal.

Daniele ria. O seu sonho realizou-se tão depressa! Logo não se desfaria. A docilidade e a ternura de Mário, ela reconheceu, regozijada, eram as de Mário, o homem que ela amava e de quem teve dois filhos. Daniele recuperou muito de si mesma, naqueles poucos minutos, durante a refeição. A despeito da sua felicidade e da sua alegria, incomodou-a a lembrança do comportamento de Mário de há dois anos até o dia anterior, e pensou em, no momento oportuno, indagar-lhe o que se havia passado com ele nesse período. Exigir-lhe-ia, e com firmeza, as explicações, e não admitiria desconversa. Arrependeu-se de não tê-lo feito assim que percebeu um corpo estranho habitando-lhe o corpo.

Bebeu leite com mamão, comeu pão, pudim, banana e melão; ora tranquila, ora voraz, comia o pedaço do que pegava, e sorvia o conteúdo do copo que levava à boca.

De outros compartimentos da casa, chegavam-lhe aos ouvidos sons da divertida algazarra de seus filhos e de seu marido. Perguntava-se o que se havia passado desde o instante em que desmaiara.

Consumiu todo o sortimento de bolos e frutas e sucos que Mário lhe oferecera. Em seguida, satisfeita, lambeu os dedos, limpando-os, e recostou-se à cabeceira da cama, suspirando, deliciada com a sortida refeição. Cerrou as pálpebras, cruzou os dedos das mãos ao ventre, encheu de ar os pulmões, e esvaziou-os. Pouco tempo depois, conciliou o sono, e dormiu profundamente.

No quarto, Daniele dormia. Na sala, brincavam Mário, Marcos Antonio e Aloísio. A harmonia, a paz e a tranquilidade reinavam absolutas. Ninguém diria que naquela casa quase se havia consumado uma tragédia.

Mário entreteve seus filhos com adivinhações, anedotas, jogos de damas, e de memória, e, no holograma, com jogos de automobilismo, motociclismo e futebol. E participaram das brincadeiras Paula, e o cão-robô, que se exprimia, em linguagem humana, com vastíssimo repertório lingüístico, fluência em quatorze idiomas, e tocava piano, pulava corda, andava de bicicleta, fazia mágicas, malabarismos e truques de prestidigitação que embasbacavam o seu público de quatro pessoas.

Pouco tempo antes do princípio do anoitecer, antes de dispensar Paula, Mário ditou-lhe as tarefas do dia seguinte.

Pai e filhos divertiram-se com o cão-robô até tarde da noite. Os meninos adormeceram, e Mário levou-os ao quarto, e aninhou-os cada um em uma cama.

Mário foi ao seu quarto, onde Daniele dormia. Pegou a bandeja com os talheres, copos, pratos, jarras, e levou-a à cozinha. Depois, foi à biblioteca, pegou uma caneta e um caderno de anotações, e escreveu um longo artigo com observações associadas à neurologia e outras – considerando as mais recentes descobertas científicas propiciadas pelos mais modernos equipamentos – que envolviam questões relacionadas com a vida na Terra e no universo, e algumas palavras acerca da sua situação, recheadas de dúvidas e mistérios.

No artigo científico, tratou, com argumentos prolixos – sem uma palavra supérflua, porém -, de questões científicas baseadas em experiências. Publicado, em periódicos científicos, o artigo promoveria controvérsias, nos quatro cantos do mundo, entre os mais conceituados cientistas, e Mário ganharia renome e uma legião de admiradores e uma legião de detratores e caluniadores. Ao primeiro artigo se seguiriam outros quarenta e sete, todos recheados com explicações e informações que ele extrairia de novas descobertas. E todos os artigos reunidos resultariam num livro de seiscentas páginas. Tratou, em poucas linhas, no primeiro parágrafo do primeiro artigo, em tom confessional, numa atitude que para ele atrairia a atenção de pessoas que até então dele nunca tinham ouvido falar e que se tornariam suas admiradoras, das suas escassas experiência e formação científica, e do trabalho dos cientistas, trabalho que se estende por toda a vida, ilustrando os seus argumentos com breves biografias de cientistas que, já falecidos, ocuparam-se, durante toda a extensão da sua existência, com trabalhos que deixaram inconclusos, legando às gerações seguintes a árdua tarefa de dar-lhes sequência. Os humanos, escreveu Mário neste artigo, guardamos uma vontade indestrutível de tudo conhecer, compreender e transformar; o homem, livre, desprende-se de todo interesse material e alça vôo em especulações metafísicas; era contraproducente, segundo Mário, aferrar-se ao mundo material, certo de que na matéria a vida se encerra; para ele os cientistas que não vêem nada além da matéria e negligenciam o que a transcende reduzem a sua condição humana à de um animal irracional. O ato de pensar é um exercício que transcende a matéria, portanto, concluiu, pensar que a vida humana limita-se à matéria é um contra-senso.

Sem falar de si, trataria, em um artigo acerca de clonagem, de questões que o atormentaram nos dois anos anteriores. Neste, usando técnica literária narrativa, distinto dos outros quarenta e oito artigos que reuniria num único volume de seiscentas páginas, todos de caráter científico, explicitou suas idéias acerca das sensações, sentimentos, emoções, das pessoas que ou se sabiam clones, ou duvidavam de que o eram. Reescrevê-lo-ia, até emprestar-lhe linguagem acessível aos leigos, durante três anos, e o ampliaria até ele assumir as dimensões de um livro de duzentas páginas. E os dois livros ele os ofereceria à uma editora, para publicação. E a editora os publicaria. Transcorrido um ano da publicação dos livros, Mário, tornando-se um cientista popular, amealharia fortuna considerável. Traduzidos os livros para dezenas de idiomas, publicados em quase todas as nações, Mário se converteria numa celebridade mundial. Seria laureado em inúmeros países, reputado cientista arguto, psicólogo profundo, estilista primoroso, requintado, simples e criativo. Famoso e rico, viajaria para vários países. E palestraria nas mais conceituadas faculdades do mundo.

Daniele, Marcos Antonio e Aloísio dormiam, mergulhados, profundamente, num longo sono. Na casa imperava o silêncio. O dia amanheceria dentro de pouco tempo. Mário encaminhou-se, bocejando, espreguiçando-se, ao quarto, onde o abajur, à cabeceira da cama, estava aceso. Antes de se deitar, admirou, maravilhado, o rosto encantador de sua esposa, adormecida tal qual uma princesa de um conto de fadas, e acariciou-lhe as faces. Deu-lhe um beijo nos lábios, suave, levantou-se, e foi ao banheiro. E despiu-se. Abriu a torneira, e pôs-se sob as águas que caíam dos furos do chuveiro. Pensou, enquanto se refrescava, se deveria, ou não, contar à Daniele tudo o que se havia passado com ele desde o dia em que um homem idêntico a ele se lhe esbarrou em uma rua movimentada. Ao ouvi-lo, ela o consideraria um tolo? Rir-se-ia dele? Convenceu-se que ela dele não iria rir, pois ela não era uma mulher vulgar, que ri de uma questão daquela gravidade. Ela o ouviria, e compreenderia, ou esforçar-se-ia para compreender, o que se passava com ele. Mário pedir-lhe-ia desculpas, desculpas que ela merecia ouvir, e ela merecia ouvir dele tudo o que ele tinha para lhe contar, mas ele, confuso, atormentado, não sabia se lhe contaria. Há dois anos, decidiu não lhe contar o que se deu consigo e consigo guardou a história, que, para ele, envolvia muitas questões e não apenas a existência de um suposto irmão (se se pode considerar irmão um clone). Qual teria sido a reação dela se ele lhe tivesse contado a história? Quantas, e quais, perguntas ela não se faria e quantas faria a ele? Perguntas que talvez encerrassem a vida em comum deles? Se concluísse que ele fosse um clone, ela deduziria que ele era desprovido de alma, de espírito, de consciência, enfim, que ele não era humano, e dele se divorciaria? Mário decidiu: Confiaria a sua história à Daniele – devia tê-lo feito há muito tempo.

Desligou o chuveiro, pegou uma toalha, enxugou-se, vestiu o pijama, deitou-se, na cama, e beijou, dócil e ternamente, a testa de sua esposa, apagou a lâmpada do abajur, pousou a cabeça no travesseiro, e dormiu.

Daniele acordou pouco tempo depois de o Sol raiar. Voltou-se para o seu marido, que dormia profundamente. Acarinhou-o, e colou seus lábios aos dele, e os manteve unidos durante alguns segundos. Passeou-lhe as mãos pelas faces, saiu de sob o fino lençol, sentou-se à beira da cama, espreguiçou-se, vestiu uma camisola, que estava estendida ao espaldar de uma cadeira ao lado da cama, calçou os chinelos, saiu do quarto, e desceu a escadaria, lentamente, bocejando e esfregando os olhos, e andou até a sala. Marcos Antonio e Aloísio divertiam-se com um jogo de futebol holográfico. Marcos Antonio ditou uma ordem ao computador central, e estacaram-se os homens holográficos sobre a mesa-de-centro, retangular. Ele e Aloísio correram até a mãe deles, e saltaram-lhe ao pescoço. Beijaram-na. E ela os beijou e perguntou-lhes se eles já haviam tomado o café-da-manhã. Eles responderam afirmativamente. E ela demonstrou interesse pelo jogo holográfico com o qual eles brincavam.

Paula entrou na sala, e saudou, acanhada, Daniele, desejando-lhe bom dia, e perguntou-lhe se ela desejava fazer a refeição da manhã, na sala, com os filhos, que já haviam comido uma sortida provisão de frutas, biscoitos e bolachas, ou na cozinha. Daniele notou-lhe o tom baixo da voz, a lentidão na pronúncia das palavras, o esforço que ela exercia para controlar-se, a cabeça inclinada para baixo, o olhar apontado para o chão, o tremular, quase imperceptível, dos lábios, e das mãos, que traziam os dedos, entrelaçados, à barriga. Não lhe fez perguntas. Supôs, e corretamente, que ela desejava contar-lhe algo, mas não o faria diante de Marcos Antonio e Aloísio. Paula retirou-se da sala, e tornou à cozinha. Daniele disse aos filhos que iria à cozinha e que eles prosseguissem com o jogo, e, assim que bebesse o leite e comesse algumas frutas, retornaria à sala para vê-los jogar futebol holográfico.

Na cozinha, Daniele encontrou Paula mergulhada em lágrimas, choro convulsivo a deformar-lhe a fisionomia, os lábios retorcidos numa conformação extravagante, soluçando, espasmodicamente, sentada à mesa, na mesa fincados os cotovelos, o rosto enterrado nas palmas das mãos. Aproximou-se dela, puxou uma cadeira, nela sentou-se, achegou-se à Paula, e falou-lhe com voz modulada, para reconfortá-la.

Paula balbuciava. Era impossível entendê-la. Daniele ouviu sílabas de algumas palavras que ela proferiu. Dilapidando as palavras, Paula, numa narração confusa, contou-lhe a sua história. Daniele ouviu-a, atentamente, sem interrompê-la, conquanto não compreendesse boa parte do que ela lhe dizia, e com voz terna, certa de que algo muito grave ocorrera-lhe, pediu-lhe que se acalmasse, e ofereceu-lhe água de um copo.

Paula bebeu da água. Em nenhum momento cessou o choro, os soluços e as palavras balbuciadas. Daniele, sem a compreender, paciente, falou-lhe palavras confortadoras, a voz modulada num timbre suave, acalmando-a. E calma, num tom audível, Paula narrou-lhe os eventos dramáticos da véspera, eventos durante cujo transcurso um bandido alvejou o seu marido e feriu os seus três filhos.

Daniele ouviu o relato, e sentiu, na sua carne, a violência que praticaram contra Paula e sua família. A despeito das amarguras que a afligiam, consolou a sua desafortunada empregada doméstica. Minutos depois, telefonou ao hospital em que o marido dela estava internado. E informaram-na que era estável o estado clínico dele.

Desligado o telefone, conversou com Paula, e aconselhou-a a ir para casa descansar e ocupar-se com os filhos. Paula chorou, abraçou-a, agradecida, enxugou os olhos, e despediu-se. Daniele pediu-lhe que a comunicasse de qualquer notícia importante, e, se precisasse, que recorresse a ela, ou a Mário. Paula agradeceu, sem articular uma palavra, e retirou-se.

Tirou-a das suas meditações a balbúrdia que seus filhos promoviam. Ouviu, da cozinha, as gargalhadas e os gritos de Marcos Antonio e Aloísio, gargalhadas e gritos que prenunciavam a irrupção de uma briga, que, contrariando todos os prognósticos, não sobreveio. Pôs talheres, copos e pratos na lavadora. A campainha soou. Pelo monitor da porta da geladeira, conversou com um vendedor ambulante, que lhe ofereceu redes, tapetes e almofadas. Despedindo-se, ele lhe agradeceu, e foi oferecer o rico sortimento de produtos ao vizinho da esquerda. E Daniele concentrou-se em suas tarefas. Concluídas as tarefas, ela enxugou as mãos numa toalha pendurada num suporte ao lado do filtro, saiu da cozinha, e foi à sala, onde Marcos Antonio e Aloísio divertiam-se com jogo de futebol holográfico, que se encerrou com o placar favorável a Aloísio, que, eufórico, comemorou a vitória. Essa foi uma das raras vezes que ele derrotou seu irmão no futebol holográfico. Marcos Antonio, acostumado a vencer, emburrou. E os dois meninos selecionaram um jogo de corrida de carros.

Durante as duas horas da corrida, Daniele atendeu à campainha quatro vezes, ao telefone sete vezes, comandou as máquinas a executarem as tarefas programadas e preparou o almoço. E dirigiu-se ao quarto, onde Mário dormia, ressonando, ruidosamente, num sono profundo.

Marcos Antonio e Aloísio anunciaram à mãe a fome que os atassalhava. Ela lhes disse que lavassem as mãos e fossem à cozinha, para almoçarem.

Poucos minutos depois, Mário, estremunhado, os olhos encovados, o rosto marcado de sulcos, os cabelos despenteados, esfregando os olhos e coçando a cabeça, foi à cozinha. Os ruídos dos seus passos e os seus gemidos atraíram a atenção de sua esposa e de seus filhos. Marcos Antonio abriu um largo sorriso, apontou, com o dedo indicador da mão direita, seu pai, gargalhou, e disse que ele vira um fantasma. As suas gargalhadas, tão espontâneas, contagiaram seu irmão e sua mãe. Mário abraçou-o, e abraçou Aloísio, e contornou a mesa, e saudou Daniele, que lhe deu um carinhoso puxão de orelhas e censurou-o por causa dos cabelos despenteados, do pijama, impróprio para uso na cozinha, e puxou-lhe as orelhas segunda vez. Marcos Antonio e Aloísio gargalharam. Mário representou o seu personagem naquela peça teatral improvisada: a de um marido que, com a sua falta de modos, dava mal exemplo aos filhos. Estes pronunciaram-se a favor da mãe deles, e apoiaram-na nas recriminações ao pai, que se viu no dever de acatar as ordens que lhe foram dadas: banhar-se e vestir uma roupa adequada. Mário retirou-se da cozinha, foi ao banheiro, banhou-se, substituiu o pijama por camisa e bermuda, regressou à cozinha, e sentou-se à mesa, sobre a qual Daniele arrumara-lhe um prato com um sortimento de comida de dar água na boca.

Durante o almoço conversaram, riram, gargalharam, contaram histórias e anedotas, e fizeram inúmeras adivinhações. Os temas da conversa não eram para hipocondríacos, para velhos caturras, para pessoas que não participavam da vida daquela família.

Após o almoço, Mário sugeriu aos filhos entreterem-se com jogos no holograma. No paroxismo da alegria, eles acolheram a sugestão, expandiram-se em algazarra, e principiaram balbúrdia, que Daniele cessou ao dizer, para Mário, que eles, durante mais de duas horas, na manhã, brincaram, no holograma, com jogos de futebol e corridas de carro. Os meninos, então, certos de que não mais poderiam brincar com jogos holográficos, olharam para Mário, que propôs irem à quadra do parque jogar basquete. Marcos Antonio e Aloísio expandiram-se, excitados, numa euforia ruidosa. Pularam, cabriolaram e correram ao quarto buscar a bola de basquete. E com os olhos Mário procurou pelos olhos de Daniele, e declarou-lhe que desejava falar-lhe, longamente; deixariam os filhos com os pais dela, ou com Catarina, e ele confidenciar-lhe-ia tudo o que sucedeu a ele, Mário, nos dois anos precedentes, e ela, então, entenderia, dele, o desvario, a taciturnidade, a conduta, que se degradou a ponto de ele vir a agredi-la e aos filhos e fazer da vida deles um inferno. Embargou-se-lhe a voz, tremeram-se-lhe os lábios, brotaram-se-lhe lágrimas dos olhos, contraiu-se-lhe o rosto quando proferiu as últimas palavras, a voz reduzida a sussurros quase inaudíveis. Enfim, chegaram-lhes aos ouvidos os ruídos eufóricos dos filhos, que deles se aproximavam. Com as mãos, Mário enxugou seus olhos, e sorriu. Fitaram-se Mário e Daniele, em silêncio. Marcos Antonio e Aloísio, entusiasmados, regressaram à cozinha, nas mãos de Aloísio a bola de basquete. Mário disse-lhes que se divertiriam muito, levantou-se, e foi neste momento que notou a ausência de Paula e dela perguntou à Daniele, que lhe disse que, depois, inteirá-lo-ia do que se sucedera a ela.

Daniele e Mário, de mãos dadas, ele segurando, com a mão direita, dela, a mão esquerda, andaram, da casa até o parque, alguns metros atrás dos filhos. Conversaram. Ele, a balbuciar, sem encontrar as palavras apropriadas para expressar os seus pensamentos, de cabeça baixa, a coçá-la a curtos intervalos, disse à sua esposa que, ao acordar, na biblioteca, entontecido, sentindo-se como se houvesse saído de um pesadelo, fôra ao quarto, e a vira, dormindo, na cama, de atravessado, os braços bem abertos, e dela aproximara-se, limpara-lhe as feridas, arrumara a cama, e deixara-a, deitada, sob o lençol, e do quarto retirara-se. Encerrou o relato sem entrar em pormenores. Era-lhe difícil falar. Gaguejou o tempo todo, soluços entrecortando-lhe as palavras. E Daniele contou-lhe a história que Paula narrara.

Chegando ao parque, Marcos Antonio foi até um menino acompanhado de sua mãe – uma jovem de um pouco mais de vinte anos, branca, de cabelos pretos e lisos, gestos suaves, voz macia, a embalar ao colo uma menina de um ano, profundamente adormecida e com uma chupeta azul na boca -, e com ele entabulou conversa. O menino disse-lhe que estava indo embora e que brincara durante um bom tempo. Um robô carregava os brinquedos dele e uma bicicleta preta com o pneu dianteiro murcho. Daniele aproximou-se da mãe dele, e perguntou-lhe da menina que ela embalava. A mulher chamava-se Márcia; seu filho, Luís; sua filha, Margareth. Márcia disse que estava indo embora porque o robô recebera, minutos antes, um telefonema do pai dela pedindo-lhe que regressasse à casa. Ligeiramente apressada, pediu licença a Daniele, despediu-se dela, de Mário, de Marcos Antonio e de Aloísio, e Luis despediu-se de Marcos Antonio, acenou para Aloísio, Mário e Daniele, e segurou, com a mão direita, a mão esquerda de sua mãe. E afastaram-se deles, e o robô seguiu-os.

Não havia ninguém na quadra de basquete. E na praça poucas pessoas. Na quadra poliesportiva ao lado, seis jovens jogavam futebol.

Buliçosos, chegaram à quadra; e Marcos Antonio logo tratou de arremessar ao cesto a bola de basquete.

Mário executou algumas jogadas, gingando o corpo para lá e para cá, fez os filhos correrem atrás dele, para tirarem-lhe das mãos a bola, e sempre que eles a encestavam, aplaudia-os, animado. Ensinou-lhes as regras do basquete. Marcos Antonio e Aloísio pediram à Daniele, então sentada na pequena arquibancada, que ela participasse da brincadeira. Ela fez-se de rogada; eles insistiram tanto, que ela cedeu-lhes aos rogos e na quadra entrou, puxada, empurrada e arrastada por eles. Desajeitada, ela jogou a bola ao cesto oito vezes, provocando risos e gargalhadas em Mário, que chorou de tanto rir, e nos filhos, que gargalharam, incontroladamente.

Divertiram-se até esgotarem-se. Sentaram-se na arquibancada. Aproximou-se deles um homem, que empurrava um carrinho de sorvetes. Ao vê-lo, Marcos Antonio pediu ao pai um sorvete. Decorridos alguns minutos, Marcos Antonio e Aloísio chuparam, cada um deles, dois sorvetes, aquele, um de morango e um de doce-de-leite, este, um de laranja e um de chocolate. E Mário e Daniele chuparam, cada um deles, um sorvete, ele, de pêssego, ela, de framboesa. Decorridos alguns minutos, rumaram os quatro até uma lanchonete, distante da quadra duzentos metros, no quarteirão ao lado da praça, e comeram pastéis e coxinhas e beberam refrigerantes. E ao crepúsculo regressaram à casa.

Banharam-se. Decorridos um pouco mais de vinte minutos, dormiram Marcos Antonio e Aloísio, na sala, enquanto assistiam a um desenho animado. E Mário carregou Marcos Antonio ao quarto; e Daniele ao quarto carregou Aloísio.

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