Em um futuro não muito distante – parte 5 de 8

Durante o restante da noite, Mário e Daniele conversaram. Ela pediu a ele que ele lhe contasse o que ele, à tarde, dissera que lhe contaria. Ele, porém, disse que aguardaria uma hora apropriada para dizer-lhe o que tinha para lhe dizer, pois o que tinha para lhe dizer não podia ser dito com poucas palavras; não era uma história qualquer a que tinha para lhe contar; tinha para contar-lhe uma história que envolvia questões fundamentais aos humanos. Não se tratava de uma trivialidade, mas de questões que diziam respeito a sua, de Mário, origem; e teria ele de alongar-se, por horas, talvez dias, para delas tratar. O fato em si, ocorrido há dois anos, era irrelevante, disse; poderia resumi-lo em poucas palavras; mas as ressonâncias dele, não; estas corroeram-lhe o espírito a ponto de fazer dele um homem que ele não era, como ela pôde ver, ao acompanhar, dele, a degeneração, que culminou nos eventos do dia anterior; e só agora ele principiava a se reconciliar consigo mesmo, receando, temeroso, precipitar-se no abismo do qual talvez não emergisse outra vez. Ele pretendia, disse, expor, com clareza, se possível, tudo o que pensou e sentiu, para que ela compreendesse a complexidade da questão. E Daniele compreendeu o sentido das palavras que ele proferiu com muita dificuldade.

No sofá da sala, Mário atraiu Daniele para si. E recostaram-se ambos ao encosto do móvel. Mário enlaçou-a, seu braço esquerdo por trás dela, à altura dos ombros, e pousou-lhe, no ombro esquerdo, a mão, e ela repousou, no ombro esquerdo dele, a cabeça. Iriam assistir a um filme, no monitor da parede. Mário ditou os comandos ao computador central; e ligou-se a tela, na qual apareceu uma lista com milhares de filmes. Perguntou à Daniele qual filme ela desejava assistir. Ela disse o título de um filme. E completou: o filme, produzido vinte anos antes, estrelado por atores iranianos, marcou-lhe, indelevelmente, a juventude. Ela o havia assistido aos treze anos de idade, no cinema, com seus pais, seu irmão e suas irmãs. Narrava-se, no filme, a história de uma órfã, que passou por muitas provações.

Daniele chorou durante o filme, cuja transmissão ela interrompeu duas vezes para remover lágrimas dos olhos e das faces. A exímia interpretação dos atores, principalmente a das atrizes que interpretam a protagonista – a criança, a jovem e a adulta (três atrizes talentosas) – era louvável. O filme, dirigido com destreza impar por um cineasta corajoso, reputado um dos melhores do mundo, e produzido com esmero, retratava, sem retoques, a crua realidade, e clamava a sua crença nos humanos.

Encerrado o filme, Daniele foi ao quarto, para dormir, e Mário sintonizou um canal de notícias internacionais. Intelectuais renomados, ao vivo, em um debate, trataram de atritos entre as nações. Para explicar os conflitos atuais, os debatedores avaliaram fatos e evocaram o passado remoto. Tal programa, uma raridade, cujo conteúdo todas as pessoas podiam entender, gozava de uma audiência considerável e de reputação favorável. De conflitos étnicos e religiosos, do recrudescimento de perseguição política e do cerceamento da liberdade de expressão trataram os debatedores. Concluído o debate, que se prolongou por uma hora, Mário sintonizou outro canal, e pediu notícias dos acontecimentos sucedidos naquele dia. Assistiu à avalanche na Suíça, à enchente na Índia, Bangladesh e sul da Ásia, e no sul do Brasil, à erupção de vulcões na Itália e no Chile, aos terremotos na América Central, nos Estados Unidos e no Japão. As intempéries naturais vitimaram milhares de pessoas. Irremediáveis os danos ocorridos em áreas urbanas. Trinta minutos depois, enquanto assistia a um documentário de ciências que tratava de neurologia, Mário concebeu uma idéia complexa e um tanto imprecisa acerca da qual entendeu por bem falar com uma certa cientista da Academia. Não hesitou: pediu à tela que a contatasse. Não decorreu um minuto, no monitor apareceu o rosto de uma cientista de cinquenta anos de idade, que aparentava a idade de vinte e cinco, pestanuda, de rosto de traços regulares. Seguiram-se as explicações de Mário. A cientista ouviu-o atentamente, durante um bom tempo, e fez-lhe perguntas, que o obrigaram a reelaborar muitas de suas idéias. A partir de certo momento, ela pôs-se a bocejar, seguidamente, visivelmente exausta, e a esfregar, com os nós dos dedos, os olhos, e a cerrar e descerrar as pálpebras. Os cotovelos fincados na mesa, ela afundou o queixo nas palmas das mãos. De início, Mário não lhe notou a sonolência; e riu consigo ao vê-la despertar, estremunhada, os olhos arregalados, desculpando-se por não ouvir o que ele lhe dizia, e a ruborizar-se, encabulada. Aconselhou-a descanso; e deu por encerrada a conversa. Não muito tempo depois, assistiu à gravação, reconsiderou algumas idéias, e adicionou-lhes argumentos, para comentá-los com outros neurologistas. No dia seguinte, imprimiu uma cópia da transcrição da sua conversa com a cientista, suprimiu as incoerências, preencheu as lacunas e deu consistência aos seus argumentos. Tratou, durante meses, na Academia e em outros institutos de pesquisas, das questões pertinentes às suas idéias.

Mário foi ao quarto. Daniele dormia tranquilamente. Ele contemplou-lhe o semblante. Acariciou-a, terna, e apaixonadamente, passeando-lhe as mãos pelos cabelos lisos e brilhantes, apreciando, deles, a textura macia e o aroma perfumado, que deles recendia, e os dedos pelos lábios, e a mão esquerda pela cabeça, tocando-a, com os dedos, na testa, no nariz, nas orelhas, no queixo, nas sobrancelhas e nos cílios. Não se cansou de admirá-la, embevecido. Enfim, passando-lhe o braço esquerdo sobre a cintura, abandonou-se nos braços aconchegantes do sono.

A manhã do dia seguinte estava radiosa. Na casa de Mário e Daniele imperava a balbúrdia dos endiabrados Marcos Antonio e Aloísio. Paula deu notícias alvissareiras concernentes ao estado clínico de seu marido para Daniele e Mário. Mário disse-lhe que estava convicto de que Rodolfo se reanimaria, e estaria, dentro de poucos dias, entre eles; Daniele renovou-lhe as ofertas de ajuda, declarou-lhe que a ajudariam sempre que ela deles precisasse. A ponto de chorar, Paula agradeceu-lhes a generosidade; com a voz embargada, entrecortada por soluços, manifestou-lhes, desajeitada, encabulada, gaguejando, a cabeça abaixada, os olhos encobertos com as mãos, a sua gratidão.

Partilharam da primeira refeição do dia. Paula declarara que ainda não tomara o café-da-manhã. Antes de o Sol despontar, saíra da sua casa, e fôra ao hospital. Contou que a polícia havia identificado os assaltantes mortos e descoberto a identidade dos dois remanescentes da quadrilha. Os investigadores sabiam que se tratavam os dois fugitivos de um homem e de uma mulher. Restava-lhes o trabalho, exaustivo e perigoso, de descobrir-lhes o paradeiro.

Paula ouviu de Mário e Daniele palavras reconfortantes; e provocaram-lhe risos as peraltices de Marcos Antonio e Aloísio. E Daniele disse-lhe que nas últimas duas semanas do ano até o oitavo dia de janeiro, Mário, Daniele, Marcos Antonio e Aloísio viajariam ao litoral. Se nenhum imprevisto ocorresse, empreenderiam a viagem dali duas semanas.

Mário acionou, à parede da copa uma tela transmissora de imagens. Na cadeira, um copo de café fumegante na mão esquerda, a mão direita empunhando uma colher pequena que ele mexia no interior do copo, provocando um rodamoinho no café, assistia a um desenho animado da sua predileção e da de seus filhos; estes alegraram-se assim que viram as personagens do desenho, e vibraram, eufóricos, durante os trinta minutos do episódio, que contava as proezas de um aventureiro espacial, que jornadeava pelo universo em busca de planetas habitáveis e criaturas inteligentes. O enredo, uma sequência de acontecimentos que punham em suspense os espectadores. Debruçado sobre a mesa, surpreendido pelo aparecimento repentino, num ambiente mal iluminado, de uma personagem, Marcos Antonio ergueu a cabeça, e lançou-se para trás. No desenho, não se respeitava as leis elementares da física. Num tom irreverente, no final de cada capítulo, aparecia o principal criador do desenho; ele, zombeteiro, mordaz, justificava os desrespeitos às leis da física, não as desprezando, todavia; declarava que elas, todas concebidas pela inteligência humana, eram hipóteses, que explicavam a realidade sem as explicar, pois, salientava, estavam fundamentadas, ao contrário do que dizem os cientistas, todos vaidosos e presunçosos, na inteligência, imaginação e consciência humanas. Em outros mundos, em outras galáxias, em outros universos, em outras dimensões, as leis da física – concepções humanas – não se aplicam. Invadiu Marcos Antonio uma onda de fascínio. Aloísio não compreendeu a história, mas excitou-lhe a imaginação o desenho, no qual Mário viu mais do que uma aventura espacial como tantas outras. Perspicaz, leu, nas entrelinhas, um questionamento sutil de algumas convenções sociais e das teorias científicas.

Via videofone, Daniele conversou com Catarina. Inteirou-a dos acontecimentos recentes, pediu-lhe o favor de, um dia, cuidar de Marcos Antonio e Aloísio, para que ela, Daniele, pudesse conversar com Mário, sossegada, e demoradamente. Não lhe escondeu os dissabores conjugais e as escaramuças de dias antes, e tampouco a reconciliação; disse-lhe, também, respeitando, sensata e prudentemente, a sua vida em comum com Mário, que tinha pendências a resolver com ele. A conversa estendeu-se durante um bom tempo. Enquanto conversavam, Catarina ajeitava o penteado, retocava os cosméticos que lhe coloriam as faces, e, mirando-se ao espelho, ajeitava o vestido, inspecionando-o. Interromperam, não raras vezes, o assunto que dera origem à conversa, Catarina solicitando à sua irmã comentários a respeito dos trajes, e ela apresentando-lhe suas opiniões, nem sempre favoráveis.

Catarina disse para Daniele que cuidaria, durante um dia, e de bom grado, dos sobrinhos. Daniele antecipou os agradecimentos. Combinaram de, no domingo, Catarina ir à casa dela libertar os sobrinhos daquela prisão, e levá-los a um parque de diversões, e com eles se divertir, na casa dos espelhos, nos balanços, na casa maluca, na casa do terror, nos castelos, nos palácios, nas pirâmides.

Despediram-se as irmãs.

Daniele, na copa, deu a notícia aos filhos, que pularam de alegria, e procurou pelos olhos de Mário. Mário, desviando das páginas de um livro de ficção científica de um célebre escritor inglês do século vinte os olhos, fitou Daniele, e sorriu.

No decorrer da semana, Mário ia à Academia, ou a pé, ou de carro, ou por outros meios de transporte, e atentava às pessoas na calçada, na rua, dentro de veículos, à procura de “ele”.

Em um dia, ao amanhecer – as ruas fervilhando de gente -, ao volante do carro, enquanto ia à Academia, olhava de um lado para o outro à procura de “ele”. Multidão de penteados indefiníveis, compacta, enxameava, numa agitação frenética, as calçadas estreitas. Mário deslocava-se, vagarosamente, atento à multidão, que extravasava, ruidosa, das calçadas. Motoristas, nos carros atrás dele, buzinavam, protestavam, e o insultavam.

Num relance, vislumbrou, dentro de um carro, um penteado parecido com o que lhe revestia a cabeça. Desatento ao trânsito, quase colidiu o seu carro com o veículo à sua frente, uma caminhonete, e seu coração pulsou acelerado. Atentou para a cor e o modelo do carro em que pensara ter visto “ele”. Com algumas manobras imprudentes, foi até o carro dentro do qual ia, acreditava, “ele”, e seguiu-o durante seis minutos, até o carro ser estacionado à frente de uma padaria, e dele retirar-se uma mulher. A surpresa de Mário ao vê-la! Ele sorriu, considerando-se um tolo impenitente. Como muitas vezes antes e muitas vezes depois, um penteado parecido com o seu, e, portanto, com o de “ele”, atraiu-lhe a atenção, e ele seguiu a pessoa que o exibia, pensando que encontraria “ele”, e, para seu desgosto, deparou-se com outra pessoa.

Enfrentou o trânsito caótico, em muitas ruas, até chegar à rua em que se situava a Academia. No decorrer do dia, conversou com vários cientistas. Eram quase vinte e duas horas quando chegou na sua casa. Excetuando a ansiedade e os fortes sentimentos que se lhe afloraram à mente, naquele dia nada desgastante lhe sucedera. Com nenhum cientista estúpido discutira, renhidamente, e nenhuma notícia desagradável, que lhe alvoroçasse as emoções, recebera.

No domingo, ao amanhecer, Catarina foi à casa de Mário e Daniele buscar seus sobrinhos. Eles e os pais deles conversavam, na copa, faziam a refeição da manhã, quando ela tocou a campainha. Mário interrompeu a refeição e foi atender à porta. Daniele pediu aos filhos que eles, encerrada a refeição, escovassem os dentes e buscassem as lancheiras preparadas na véspera. Os dois meninos correram, animados, ao banheiro, para escovar os dentes; pouco tempo depois, regressaram à copa, lancheiras nas mãos, dentes a luzir de tão escovados, onde encontraram Mário e Catarina, que lá haviam entrado segundos antes. Ela acocorou-se, abriu os braços, sorridente, acolhedora, e seus sobrinhos, animados, saltaram-lhe ao pescoço, quase a derrubando, e ela os acolheu, e beijou-os nas faces.

Catarina anteviu, animada, muita diversão, e disse aos seus sobrinhos que se deliciariam de tanto chupar sorvetes saborosos e comer chocolates deliciosos. Marcos Antonio narrou os capítulos das aventuras que viveria naquele domingo, de quais brincadeiras participaria; bravateou, conduzido pela irreprimível onda de alegria que o invadira. Foram todos à varanda, e da varanda à calçada. E Marcos Antonio e Aloísio despediram-se de seus pais; ela abraçou-os e beijou-os, carinhosa e amavelmente; ele, comedido, abraçou-os. Minuto depois, Marcos Antonio, Aloísio e Catarina entraram no carro. E ela deu a partida; e de dentro do carro, os dois meninos acenavam para seus pais, até o momento em que o carro dobrou a esquina. E Mário e Daniele regressaram ao interior da casa.

A sós com a esposa, Mário sentiu o coração descompassado. Não sabia como lhe contaria a história da qual desejava inteirá-la. Principiaria a apresentar uma síntese dos eventos daquele longínquo dia, muito bem conservado na sua memória, desde o instante em que “ele” se lhe havia esbarrado? Falar-lhe-ia de seus pensamentos? Como abrir-se-ia para ela? Temia-lhe as reações. Ela o compreenderia? Entenderia o que ele sentia, a angústia que lhe atassalhava o espírito? Ele se perderia em explicações inúteis, e não diria o que o atormentava. Incorreria em tautologias; e a sua prolixidade, ao invés de esclarecer a questão, a cobriria com nuvens pretas. Desejava ele abrir-se para com sua esposa. Teve de reconhecer, contrafeito, que não estava preparado para contar-lhe tudo o que desejava contar-lhe. Não seria fácil apresentar-lhe o que pensava e sentia. Perguntava-se se não exagerava nos escrúpulos, se não tratava a questão com zelo desmedido. Daniele desejava compreender o que se passava com ele. Quais histórias dele ela ouviria? Ele iria ao ponto nevrálgico da questão, ou contorná-lo-ia para preparar Daniele para ouvi-lo? Quantas conjecturas assaltaram-na! Ambos estavam apreensivos, cada um deles por uma razão. Mário preocupava-se porque não sabia como contar para Daniele o que tinha para lhe contar e porque não podia antecipar-se à reação dela; Daniele perguntava-se o que de Mário ouviria, e como o ouviria, e como reagiria ao que ele lhe contaria.

Imerso nos seus pensamentos, Mário compreendeu que era necessário inteirar sua esposa de toda a história, pois, só assim, além de provar-lhe o respeito e a consideração que nutria por ela, tranqüilizaria seu espírito. Não poderia guardar consigo os seus pensamentos; tinha de contá-los para alguém; e não havia ninguém melhor para ouvi-lo do que Daniele. Ou se abriria com ela e partilharia com ela de suas preocupações, ou se calaria, acovardado, e se atormentaria com as dúvidas flageladoras que o golpeavam, roubando-lhe a lucidez. Não queria recair na bestialidade em que havia descido e da qual se recompusera dias antes. Evitaria que nova queda lhe sobreviesse.

Daniele, para acalmar-se e tranquilizar Mário, ofereceu-lhe água. Ele aceitou a oferta, e sentou-se no sofá. Ela foi à cozinha buscar água, e à sala regressou pouco tempo depois, carregando, com a mão direita, uma jarra de vidro, e, com a esquerda, dois copos de água. Recostado ao sofá, ao vê-la aproximar-se com os copos e a jarra, Mário levantou-se, e tirou-lhos das mãos, e depositou a jarra e os copos na mesa-de-centro, e sentou-se no sofá. Daniele sentou-se-lhe à direita, e ele segurou, com a mão esquerda, a jarra, pela alça, entornou-a, e encheu de água os dois copos, primeiro, o que entregaria para Daniele, depois, o com o qual se serviria, e pôs a jarra na mesa-de-centro. E bebeu de um pouco de água. E fitou Daniele, suplicando-lhe, em silêncio, compreensão e paciência, e leu, nos olhos dela, vontade de atender-lhe à súplica.

Daniele sondou-o assim que ele, desajeitado, pôs-se a falar, no princípio com voz embargada. Ele falou como se a voz se lhe enroscasse em algo na garganta. Pronta para ouvi-lo, Daniele fitava-o com olhar acolhedor. Mário deitou-se no sofá, a cabeça sobre as pernas de Daniele, com o braço esquerdo abraçando-as. Daniele afagou-lhe a cabeça, passeando-lhe as mãos pelos cabelos. Ao acalmar-se, ele balbuciou algumas palavras; e adquirindo confiança em si, falou, no tom de voz que lhe era comum, organizados os seus pensamentos. Sempre que ele se engasgava e fazia uma pausa um pouco prolongada, Daniele esperava-o recompôr-se, sem emendar uma pergunta sequer, para que ele retomasse a narrativa. Ele falou da dilaceração de seu coração ao presenciar “ele”, quando andava, meditativo, pelas ruas, voltado para si, ignorando os arredores. Daniele ouviu-o, e nada compreendeu. Quando ele descreveu o seu encontro acidental com “ele”, e declarou que “ele” era-lhe idêntico, ela, mesmo assim, não compreendeu a substância do relato. Além de descrever “ele”, e compará-lo a si mesmo, e declarar que ambos eram idênticos, disse que seus pais eram geneticistas. Daniele entendeu, então, o que ele queria dizer. Notando-lhe o brilho nos olhos, Mário soube que ela entendeu o que ele lhe dizia, e deu sequência ao relato e às elucubrações filosóficas acerca, não apenas do episódio em destaque, mas dos sentimentos que o caso envolvia. Confiante, falou dos gestos que reparou em “ele”: eram idênticos aos dele, Mário. “Ele”, como Mário, era canhoto, “ele” andava como ele, Mário, andava; “ele” falava, no mesmo timbre e inflexão de voz e movimentos dos lábios que os de Mário; o modo que “ele” beijou a esposa e abraçou e beijou a filha era como Mário beijava Daniele e abraçava e beijava Marcos Antonio e Aloísio. De tempos em tempos, Mário interrompia a narração e dizia que não delirava, há dois anos, enquanto se sucedia aquele inusitado capítulo de sua biografia; que o calor daquele dia tórrido não lhe havia queimado o cérebro. Amarga a história que se seguiu. Mário padeceu muitos males, teve atitudes disparatadas e chegou à demência dos dias anteriores à sua recuperação. Temia que a existência de “ele” alcançasse os ouvidos de seus pais, que não mereceriam ouvi-lo duvidar deles. Se Mário lhes aludisse às dúvidas que o atassalhavam, como eles reagiriam? Mário pensava consigo como eles reagiriam se ele lhes fizesse perguntas a respeito de uma clonagem dele, Mário, com a autorização deles, e porque eles a autorizaram. Não queria magoá-los. Não deixava que o que lhe ocorria alcançasse-lhes os ouvidos. Os eventos, porém, não se sucederam como ele desejava. Fugiram-lhe ao controle. As suas meditações a respeito de um suposto clone seu envolviam questões fundamentais da sua vida. Não podia desconsiderar algo que se relacionava com a sua origem. Conhecia a sua vida. Mas, o que aconteceu antes de sua mãe trazer-lhe à luz sob as condições da natureza? Rodolfo e Valquíria clonaram Mário? Se sim, por que eles nunca lhe falaram a respeito? Tais dúvidas, amargas, estilhaçaram-lhe o coração. Pensou, no início, que seus pais eram seres crudelíssimos. Em pensamento, lançou muitas dúvidas a respeito deles. E pediu desculpas à Daniele por nunca haver lhe contado a história. E pesaroso, quase a chorar, relembrou a agressão à Daniele e a Marcos Antonio.

Mário tentava organizar os seus pensamentos. Apresentou para Daniele tudo o que a ele sucedeu nos dois anos anteriores. Havia caído em uma região profunda de sua mente, e não tornou à superfície quando quis. E os eventos sucederam-se de modo ilógico, brutal, absurdo. Depois, já refeito, tornou à superfície. Se ele, dizia ele para si mesmo, não estimasse seus pais, abordá-los-ia e arremessar-lhes-ia a pergunta a respeito da sua origem e da de um suposto clone seu. Desejava conhecer a verdade, mas não queria pagar o preço de, enquanto a buscava, magoá-los. Tratou, de modo disparatado, a questão, quase vindo a destruir-se e a arruinar a família. Havia alternativas? Quais? Ele havia concluído que não havia alternativas, e fez tudo o que fez tendo em mente preservar a família de sofrimentos.

Daniele acompanhou, atentamente, o relato, e reuniu, dele, os elementos essenciais; as explicações que Mário lhe deu não abarcava todas as dimensões da história e não compreendia todas as questões que ela envolvia.

A fome revolveu-lhes o estômago. Durante a conferência, Daniele foi a ouvinte, e Mário o palestrante. Dirigiram-se ambos à cozinha; e prepararam as refeições; e serviram-se à mesa. Mário falava de seus pensamentos, explicando-os, esclarecendo-os. Desejava, não um assentimento incondicional de Daniele, mas que ela o compreendesse. Tendo o controle de si, apresentou argumentos que elucidavam as dúvidas pendentes. Daniele apresentou-lhe interrogações acerca de certos pontos, que se lhe afiguravam confusos, contraditórios, e esforçou-se para compreender as explicações que Mário lhe fornecia.

Interromperam-lhes a refeição, quatro vezes, insistentes toques da campainha e o soar do telefone.

No princípio da conversa, Mário gaguejava e não expressava-se com as palavras adequadas. Agora, desembaraçado, contava o “fato” em si e as mudanças que tal “fato” provocou-lhe e quais influências elas tiveram na concepção que ele fazia da vida. Conhecedor de muitas polêmicas que envolviam clones humanos, delas falou para a sua esposa. Interrompia a curtos intervalos a palestra, fazia digressões políticas e humanitárias, e retomava, com fôlego renovado, ao tema que dera origem à conversa. Foi prolixo, sem ser redundante e tedioso. Os seus argumentos, instigantes, envolveram Daniele. A aliança daqueles dois corações, a despeito de tudo o que poderia vir a impedi-los de se reconciliarem, fortaleceu-se. Improvável que, depois daquela recíproca demonstração de respeito, carinho, ternura e afeto, eles viessem a se desentender. Nenhum motivo provocaria o rompimento do vínculo que os unia. Encerrado o tema principal, Mário discorreu, livremente, sobre os seus projetos e as suas idéias mais recentes, falou dos livros que escrevia e que pretendia oferecer à uma editora, e da teoria que elaborava, mas que só daria por concluída após numerosas correções.

Mário e Daniele retomavam, esgotado um assunto, ao tema que dera origem à conversa, e Mário falava de algo do qual não tratara até então.

À noite, Mário já havia removido quase todo o peso de sua consciência. A respeito da sua origem, ele e Daniele iriam extrair de Rodolfo e Valquíria a verdade. Bem-humorado, disse Mário tratar-se a abordagem que fariam ele e Daniele aos pais dele de uma conspiração investigativa, uma ação detetivesca, uma espionagem familiar, a qual dele recebeu um título: Projeto Reconstituição do Passado. Iriam, durante uma conversa com Rodolfo e Valquíria, tratar de clonagem humana, velando os seus propósitos; para atingi-lo, tratariam de generalidades, evocariam fatos relacionados à genética, e das generalidades iriam às particularidades. Daniele teria sangue-frio para arremessar aos seus sogros uma pergunta despretensiosa. Ela disse, e Mário reconheceu-lhe a engenhosidade, que diriam a eles que ela havia pensado, certa vez, em clonar ou Marcos Antonio, ou Aloísio.

O encerramento da palestra coincidiu com a chegada de Catarina, e Marcos Antonio e Aloísio, que, numa irrupção tempestuosa de alegria e entusiasmo, precipitaram-se para dentro da casa. Daniele e Mário quase dispararam, em debandada, para escaparem da impetuosa investida de seus filhos. À calmaria reinante sucedeu o tumulto. Catarina entrou, esbaforida, mal se aguentando em pé, os ombros caídos. Antes de saudar sua irmã e o seu cunhado, pediu-lhes água, sussurrando. Daniele verificou a jarra, então vazia, sobre a mesa-de-centro. Pegou-a e aos copos, e foi à cozinha. Seguiu-a Catarina. Na sala, Marcos Antonio e Aloísio narraram para o pai deles as aventuras do dia. Marcos Antonio falava de qualquer coisa e, antes que chegasse à metade do seu relato, Aloísio tomava-lhe a vez, e antecipava a conclusão, e Marcos Antonio praguejava e ameaçava dar-lhe um tapa. E Aloísio encarava-o, mostrava-lhe a língua, e replicava. E Mário sentou-se entre os dois; mesmo tomando tal providência, não os impediu de provocarem-se um ao outro.

Na cozinha, Catarina, recomposta, à mesa, sentada e recostada numa cadeira de grande espaldar, narrou, para sua irmã, as aventuras de Marcos Antonio e Aloísio. Daniele jactava-se enquanto a ouvia falar com tanto enlevo de seus filhos.

Daniele teve vontade de comer pipoca e beber refrigerante. Saiu da cozinha, foi à sala, achegou-se aos seus filhos, e perguntou-lhes se eles queriam pipoca e refrigerante. Eles disseram-lhe que sim; e ela disse-lhes que fossem se banhar. Mário acompanhou-os ao quarto e ao banheiro, e ela regressou à cozinha.

O milho pipocava na panela. Da geladeira, Daniele tirou garrafas de refrigerantes, uma lata de goiabada, e queijo. Das prateleiras, Catarina pegou copos, pratos, bandejas, garfos, facas. E ambas levaram à sala o sortimento de pipocas, goiabada e queijo, e refrigerante que prepararam, e os talheres e outros artigos de cozinha. Perguntou Catarina à Daniele qual filme assistiriam. Com um comando de voz, Daniele acionou a tela, e solicitou ao computador central um filme infantil – e na tela apareceu uma lista com milhares de títulos, de diversas épocas e nacionalidades. Catarina disse que os filmes de um estúdio cinematográfico indiano eram os melhores que haviam para o público infantil. Daniele solicitou, então, ao computador central, uma lista com os filmes do estúdio cinematográfico que Catarina mencionara – e a lista reduziu-se para quarenta e nove títulos. Em seguida, solicitou uma lista com os títulos dos dez filmes de produção mais recentes – e a tela apresentou-os em ordem cronológica. E optou por um acerca do qual já havia lido críticas favoráveis.

Após o banho, Marcos Antonio e Aloísio regressaram à sala, onde Mário chegou logo depois, com outra roupa. Curiosa e intrigada, Daniele perguntou-lhe porque ele trocara de roupa, e ele, entre sorrisos, disse que o banheiro se convertera num oceano agitado por forças sobrenaturais, e apontou para os filhos, e, convulsionado, eriçara-se e provocara estragos em uma embarcação, e apontou para si mesmo. Todos riram. Marcos Antonio e Aloísio viram a tela ligada e perguntaram qual filme assistiriam. Catarina e Daniele disseram-lhe que era um que eles iriam gostar de assistir, no qual havia duas crianças, que viviam aventuras perigosas, em países arrasados por terremotos, enchentes e erupções vulcânicas. E animaram-se os meninos.

As lâmpadas apagadas, todos, quietos, assistiram ao filme e comeram pipoca, goiabada com queijo e beberam refrigerantes.  Encerrado o filme, Marcos Antonio e Aloísio bombardearam o pai, a mãe e a tia com perguntas e comentários, e contaram e recontaram as cenas mais instigantes, instigantes segundo eles.

Vazia a tigela de pipocas, Daniele e Catarina prepararam mais pipocas, e a encheram, e Marcos Antonio e Aloísio esvaziaram-na com voracidade ímpar. Tarde da noite, Catarina anunciou a sua ida para a sua casa. Daniele pediu-lhe pernoitasse, ali, naquela noite; seria perigoso, disse-lhe, àquela hora, uma mulher, sozinha, dirigir um carro. Catarina declarou que iria embora e que Daniele não se preocupasse. Esta, no entanto, insistiu-lhe para que ela ficasse, e Marcos Antonio e Aloísio agarraram-na pelos braços e pediram-lhe que dormisse lá, brincasse com eles e contasse-lhes histórias. Ela hesitou. Disse que não levara camisola, nem pijama. E Daniele disse-lhe que lhe emprestaria os seus. Para dar fim à discussão, Mário virou-se para a cunhada, estendeu-lhe a mão esquerda, e pediu-lhe a chave do carro; ela lho entregou, e ele se retirou da casa, e guardou o carro de Catarina na garagem.

Transcorridos alguns minutos, Mário curvou-se ao cansaço, foi ao quarto, e dormiu. A energia de Marcos Antonio e Aloísio parecia inesgotável. Daniele, que não via a hora de ir para a cama, e dormir, recostou-se ao sofá e assistiu às brincadeiras que sua irmã promovia e ouviu-a contar estórias, que tiveram um efeito soporífero em Marcos Antonio e Aloísio. Em um certo momento, os meninos dormindo a sono solto e Daniele cochilando, Catarina desta aproximou-se, tocou-a, no ombro, com os dedos, e assim que ela descerrou as pálpebras, apontou-lhe os filhos. Elas os carregaram, Catarina, Marcos Antonio, e Daniele, Aloísio, ao quarto, e os aninharam cada um deles em uma cama. Em seguida, Daniele entrou no seu quarto, e dele retirou-se logo depois, tendo, nas mãos, uma camisola, uma toalha e chinelos, e entregou-os à sua irmã, que lhos tirou das mãos e foi banhar-se, enquanto Daniele, na cozinha, preparou para si e para sua irmã uma refeição frugal. E esperou por sua irmã. Sentaram-se ambas à mesa e encetaram conversa. Catarina falou de seus pais, que lhe perguntaram de Daniele, que havia três meses não os visitava. Daniele penitenciou-se, disse que os visitaria, naquela semana. Sonolentas e exaustas, não prolongaram a conversa. Catarina bocejava, a curtos intervalos; uma vez ou outra, cobria com as mãos a boca, em outras, escancarando-a indiscretamente, contraía os músculos da face e espreguiçava-se. Encerrada a refeição, saudaram-se as irmãs, desejaram-se boa noite, beijaram-se, na face, e entraram, Catarina, no quarto de hóspede, Daniele, no quarto de casal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Por Yla Meu Blog

Escritora ○ Poetisa ○ Romancista ○ Lírica

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

%d blogueiros gostam disto: