Em um futuro não muito distante – parte 6 de 8

Na manhã seguinte, Catarina, a cobri-la roupas que Daniele emprestara-lhe, fez, na companhia de sua irmã, do seu cunhado e dos seus sobrinhos, a refeição matinal após cujo encerramento despediu-se deles, e prometeu, à insistência de seus sobrinhos e aos convites reiterados de sua irmã e do seu cunhado, que um dia tornaria àquela casa, e retirou-se, e foi-se embora.

Minutos depois, Mário beijou, em despedida, sua esposa e seus filhos, e rumou para a Academia. E logo em seguida, na casa Paula chegou e para Daniele deu notícias do marido, dos filhos, e das investigações policiais acerca do crime do qual sua (de Paula) família havia sido vítima. No hospital, Rodolfo restabelecia-se. Mathias, Matheus e Thiago já haviam retornado à casa. E o delegado previa que os dois bandidos fugidos os policiais os capturariam dentro de três dias. Depois de ouvi-la, Daniele encarregou-a de algumas tarefas, despediu-se dela e dos filhos, e retirou-se da casa. Paula entreteve Marcos Antonio e Aloísio. Encerradas as brincadeiras, ligou o robô, e encarregou-o de algumas tarefas. No transcurso do dia, sufocou soluços; abatida, em alguns momentos desincumbiu-se dos seus encargos arranjando-se com lentidão e embaraço.

Sucederam-se os dias.

Mário e Daniele cancelaram, antes do Natal, a viagem que fariam naquele final de ano, e visitaram Alceu e Samantha. Durante as prolongadas conversas que mantiveram com eles, evocaram a infância, a juventude, os primeiros anos de vida conjugal e as peraltices dos filhos. Daniele, Pâmela, Catarina e Paulo, disse Samantha, convertiam a casa num circo ao qual, certa vez, quase atearam fogo.

Não visitaram Rodolfo e Valquíria, que estavam em passeio ao Japão, à Índia, à Tailândia, ao Vietnã, à China e à Mongólia.

III

Decorreram-se três anos durante os quais alancearam o ânimo de Mário dúvidas que diziam respeito à sua origem. Não suprimiu ele de sua mente o dia em que tomou conhecimento de “ele”. Não sucumbiu à angústia porque tinha, agora, amparando-o, Daniele. Nas conversas com ela, à noite, durante as quais nenhuma reserva observava, e tampouco postura afetada de impermeabilidade aos sentimentos, caía, não raras vezes, em prantos. Durante esses anos, avistou, dezenas de vezes, pessoas parecidas consigo e com “ele”. Daniele defendia-o das idéias pessimistas que o atassalhavam. Os fatos sucedidos três anos antes estavam bem armazenados na memória deles; para eles, eram insuportáveis tais lembranças. Mário entreviu “ele” em duas ocasiões, no centro da cidade, e concluiu que “ele” trabalhava em alguma empresa nas proximidades. Mas em qual? O centro da cidade era composto de centenas de arranha-céus. Havia prédios de oitocentos metros de altura, nos quais viviam mais de cem mil pessoas e havia escolas, hospitais, delegacias de polícia, delegacias de ensino, fórum, igrejas, templos, órgãos das forças militares, escritórios bancários, instituições financeiras, lojas, padarias, quadras esportivas.

Mário, um dia, após conversa com Daniele, conservou-se nas redondezas do prédio no qual, desconfiava, “ele” residia ou trabalhava, e andou pelo seu interior como um visitante qualquer. Não conseguiu encontrar ”ele”. Amaldiçoava-se, e ao destino, que para ele era um comediante sarcástico e cruel, que não lhe dava o privilégio de contatar “ele” e com ele entabular conversa.

Mário admirava sua esposa. Ela era uma entidade celestial, que ralhava com ele e governava a casa. Ele vivia para a ciência, e as suas ações traduziam-se na vontade de se refugiar em uma atividade que lhe amenizasse o sofrimento. Daniele dispensava-lhe ternura; se se abstivesse de ouvi-lo, de falar-lhe, de se ocupar dele; se o ignorasse, ou não lhe concedesse a atenção que ele requeria, ele se desligaria do mundo, e se tornaria um tormento para si mesmo, para a esposa e para os filhos.

Marcos Antonio manifestava inteligência vigorosa e era bem-sucedido nos estudos. Estudava, com regularidade metódica, a ciência matemática, não se limitando à do seu tempo; assimilava-lhe os fundamentos ao recuar à sua origem filosófica, e remexia, na biblioteca da sua casa, nos livros que seus pais compravam, livros que tratavam das teorias filosóficas dos primórdios da civilização. O seu apreço pela solidão das bibliotecas, pela sua frieza, fê-lo alvo de chacotas, e de elogios, que o enchiam de júbilo. Apreciava os exercícios intelectuais, e não negligenciava os exercícios físicos – apreciava natação e vôlei.

Aloísio era um aluno mediano. Não se destacava na escola e em nada do que fazia; nenhuma aptidão especial manifestou; o seu amadurecimento foi lento; era indeciso, medroso, subserviente, desprovido de vontade própria, e objeto de mofa de meninos e meninas.

Mário vivia sob o jugo das dúvidas que o acossavam desde o dia em que “ele” se lhe esbarrou ao braço. Durante os anos transcorridos não teve ocasião de conversar com seus pais. Ficava à expectativa da primeira oportunidade de conversar com eles, mas ela nunca se lhe ofereceu. Sobrecarregados de estudos, pesquisas e projetos, requisitados para presidirem palestras e conferências e ministrarem aulas em academias, eles viajavam pelos sete mares, pelos quatro continentes.

Dedicou-se à sua nova paixão: a astronomia. Nutria, desde a infância, paixão latente por ela; todavia, jamais havia se aprofundado nos estudos de tal ciência. Apreciava, diletante, a leitura de artigos sobre astronomia publicados em jornais e revistas. Sempre que, ao folhear uma revista, deparava-se com uma reportagem que tratava de astronomia, lia-a atentamente. Decidiu, um dia, ao ler a respeito da descoberta, por astrônomos norte-americanos e australianos, de planetas na galáxia de A…, nos quais eles identificaram ambiente propício para a existência de vida, dedicar-se ao estudo da ciência que tanto o atraía. Uma semana depois, comprou um telescópio. Admirava, durante horas a fio, o espaço sideral; os seus sonhos povoavam-se de espécies de vida extraterrenas e civilizações de outros planetas, detentoras, umas, de tecnologia superior à humana; e a devanear imaginava o contato (e os distúrbios que tais contatos provocariam) da espécie humana com outra espécie de seres inteligentes dotada de outro gênero de inteligência que não a humana. Para ele, as investigações astronômicas engendravam sonhos gloriosos para a humanidade, um futuro próspero, e promoveriam a revisão de todos os valores humanos.

Durante as horas em que contemplavam, com o telescópio, à noite, o céu condecorado de estrelas, repleto de mistérios e enigmas. Mário, Marcos Antonio e Aloísio compartilhavam do prazer de criar, em imaginação, um mundo como o desejavam. Os humanos, um dia, habitariam outro planeta? Contatariam seres de uma espécie inteligente? E mais antiga do que a humana? E com ela teria algum parentesco? Seria tal espécie belicosa? Marcos Antonio, mais do que seu pai e seu irmão, influenciado pelos filmes aos quais assistia, pelos livros e revistas em quadrinhos que lia e pelos jogos holográficos com os quais se divertia, concebeu enredos mirabolantes protagonizados por criaturas alienígenas grotescas, aberrantes, e o contato dos humanos com elas. Mário tomou conhecimento das mais recentes descobertas; desejava, sequioso, entender as leis elementares da ciência astronômica; ele, que explorava o cérebro humano e o de outras espécies ao microscópio, e via-os como um universo misterioso repleto de enigmas, desejava conhecer o universo e os seus planetas, as suas estrelas, os seus quasares, os seus buracos negros, as suas galáxias, os seus meteoros, os seus cometas, todos os astros que o compunham, todos os fenômenos que o conservavam ativo. Um dia, sonhava, ele descobriria um astro ou uma espécie de astro jamais visto por olhos humanos. Um dia o universo segredar-lhe-ia a resposta de algum enigma que a humanidade há milhares de anos esforça-se por decifrar, sonhava.

Alguns dias após a entrega dos originais dos seus dois livros à editora, Mário recebeu de seu pai uma correspondência eletrônica, informando-o que ele, Rodolfo, e Valquíria regressariam ao Brasil dentro de quatro dias, e pedia-lhe que o esperasse no aeroporto V…, na cidade de D…, da megalópole de A… E o informava, também: eles pernoitariam na casa dele, Mário, quatro dias, após os quais embarcariam para a Argentina; e da Argentina iriam ao Chile; e do Chile à Bolívia; e ao Peru; e ao Equador; e à Venezuela.

Encerrada a correspondência, Mário declarou para si, o coração a pulsar, que se aproximava o momento de uma conversa com seus pais, e invadiram-lhe a cabeça as preocupações que o acossavam após tomar conhecimento da existência de “ele”. Como abordaria, numa conversa com eles, o assunto? Quais perguntas far-lhes-ia? Falou para Daniele da correspondência. Ambos folhearam jornais e revistas, rebuscaram publicações eletrônicas em busca de histórias que envolviam a clonagem humana, e encontraram notícias acerca de processos jurídicos contra um geneticista acusado de praticá-la, e outras acerca de surtos de violência contra geneticistas, algumas sobre depredações de instituições científicas no estado de Minas Gerais, na cidade de B…, na megalópole C…, e no estado do Rio de Janeiro, na cidade de T…, na megalópole de A…, e no estado do Rio Grande do Sul, na cidade de K… e na cidade de O…, ambas na megalópole de Z… E leram notícias acerca de atentados à morte de dois geneticistas, na cidade de C… no oeste do estado de São Paulo; e reportagens sobre um crime, que se deu, na megalópole de V…, em Santa Catarina: o do seqüestro, por um grupo de terroristas, de geneticistas, que foram mantidos trancafiados, durante um mês, em cárcere imundo, até a polícia descobrir o paradeiro dos seqüestradores e o cativeiro, na cidade de S…, na megalópole de Y…, na Argentina, e libertar os desventurosos cientistas, então famintos, macérrimos, ossudos; e notícias acerca da ameaça à bomba à uma academia de geneticistas, na cidade de B…, na megalópole de B…, no estado do Amazonas. E assistiram à reportagem acerca do assassinato de uma geneticista, na cidade de J…, na megalópole de M…, no estado do Pará. Não eram raras as notícias recentes de episódios envolvendo cientistas, geneticistas principalmente, imolados em praça pública por fanáticos e terroristas. E encontraram, em uma revista impressa, uma reportagem a respeito de uma conspiração internacional que visava, destruindo todos os laboratórios de biologia existentes, destroçar os alicerces da genética. Tais notícias Mário as comentaria na conversa com seus pais. Debatê-las-ia, mostrando preocupação pelos rumos que tais fatos tomariam. Os observadores alertavam os governos de todas as nações sobre o aumento significativo de atos violentos contra cientistas, principalmente os geneticistas, especialmente aqueles que defendiam clonagem de seres humanos. Rodolfo e Valquíria, geneticistas célebres e respeitados em todo o mundo, ainda não haviam sido alvos de fanáticos, mas logo o seriam, deduzia Mário, preocupado. Os agentes hostis à genética, para atrair a atenção da imprensa e da população mundial, preferiam capturar, seqüestrar e assassinar geneticistas notórios do que qualquer pessoa. E Rodolfo e Valquíria estavam entre os mais notórios geneticistas do tempo deles.

Transcorridos quatro dias, Rodolfo e Valquíria desembarcaram, no aeroporto de V…, na cidade de D…, e Mário, Daniele, Marcos Antonio e Aloísio os recepcionaram. Os garotos abraçaram, calorosamente, seus avós. Do aeroporto, foram até um restaurante onde saborearam a refeição e sobremesas. Durante as mais de duas horas de convivência à mesa, falaram das novidades e comentaram inúmeros fatos, uns, intrigantes, outros, engraçados. Rodolfo, animado e desenvolto, em animação sobrepujando, até mesmo, seus netos, narrou histórias que havia presenciado em um país que eles não imaginavam existir.

Narrava-as com tanto entusiasmo, colorindo singularidades culturais de alguns povos com tal exagero, que seus netos persuadiram-se de que ele estava de posse de todas as suas faculdades mentais.

Marcos Antonio inteirou os avós de suas mais recentes aquisições de jogos holográficos, e falou do telescópio, e dos planetas, das estrelas, das galáxias e de outros astros siderais que observou. Animado, expôs os seus conhecimentos em astronomia. Falava com tanta avidez, sequioso por revelar aos seus progenitores as novidades, que, ora seu pai, ora seu avô, continha-o, e pedia-lhe se acalmasse, respirasse fundo, e só então lhes contasse o que desejava lhes contar. E impedia, erguendo o tom de voz, seu irmão de falar sempre que ele principiava um relato. Rodolfo e Mário tiveram, e não raras vezes, de se desdobrarem para evitar atritos entre os dois garotos.

Encerrada a refeição, retiraram-se do restaurante, foram ao carro, e seguiram rumo à casa de Mário e Daniele. Estavam no centro da megalópole, onde o tráfego era intenso, deslocando-se à velocidade reduzida, a passos de tartaruga, quando Rodolfo pediu a Mário que ele não fosse diretamente para casa. Desejava rever as ruas das cidades pelas quais, anos antes, passeava. Evocou a sua infância, a sua juventude e os anos durante os quais ministrou aulas em universidades. Ao evocar tais épocas, sua voz aveludou-se. Rodolfo apontou para um prédio construído onde situava-se a casa de um seu amigo. Valquíria disse que se lembrava dela. Descreveu, dela, os cômodos, os móveis e os ornamentos. Falou da morte dos seus proprietários e dos filhos deles em uma tragédia aérea. A casa foi tombada pelo poder público; no entanto, e a despeito da admiração que suscitava em todos aqueles que a viam, demoliram-na. Rodolfo apontou, metros depois, para um prédio de seiscentos metros de altura, localizado em um local onde havia um estádio de futebol, e disse que, em tal estádio, havia assistido a muitos jogos de futebol de campeonatos regionais, estaduais, nacionais e internacionais, e reconstituiu, com pormenores, um amistoso entre a seleção brasileira e a seleção ganense, então uma das melhores seleções de futebol do mundo. Descreveu, minucioso, os dribles dos jogadores, usando da mímica para ilustrar a narrativa, excitado pelas recordações; e a todos contagiou com a sua animação, principalmente seus netos, que, mesmerizados pelas suas palavras, vibravam de alegria. Depois, falou de um jogo, amistoso também, entre a seleção brasileira e a seleção chinesa, jogo que ele, sempre saudoso, recordava, jogo que assistiu, aos oito anos de idade, na companhia de seus pais e seus irmãos.

Rodolfo e Valquíria reconstituíram, trazendo ao presente o passado, um outro mundo, e os netos o imaginaram.

Chegaram, enfim, à casa, para cujo interior precipitaram-se Marcos Antonio e Aloísio, puxando, pelas mãos, os avós, até o quarto, onde mostraram-lhes os brinquedos que ganharam, no Natal, no aniversário e no dia das crianças: jogos holográficos, brinquedos movidos a comandos cerebrais, robôs miniaturas de animais. Os robôs-leão rugiam como os leões que habitavam a África; os robôs-peixe nadavam como os peixes; os robôs-gavião voavam como os gaviões; os robôs-cavalo escoiceavam e relinchavam como os cavalos; os robôs-macaco trepavam nas árvores como o faziam os macacos. Tiraram os garotos das caixas de brinquedos réplicas, em miniaturas, de carros, aviões, navios, foguetes, espaçonaves, submarinos, motos, tanques de guerra, porta-aviões, transatlânticos, trens e caminhões, e os manobraram, e provocaram alguns acidentes. Marcos Antonio, enquanto pilotava uma miniatura, de vinte e oito centímetros de comprimento, de jato supersônico, estilhaçou uma das janelas do quarto. E Mário cravou-lhe olhos severos, e pediu-lhe que fosse mais cuidadoso. À saída de seu pai, Marcos Antonio olhou para seu avô, e sorriu.

O dia ia animado. O robô-empregada-doméstica preparou as refeições. Rodolfo ironizava a modernidade. Comparava-a com o seu tempo de criança, repleto de incertezas, que causavam profundas mudanças no estilo de vida, na convivência entre povos, nações e indivíduos. Comparou os seus brinquedos de criança com os dos netos, a tecnologia das casas do tempo em que era menino com a atual, os conflitos aos quais levava-o a se desentender com seus pais com os atuais conflitos entre pais e filhos.

Falaram dos novos ramos da ciência, dos seus precursores, dos seus sistemas científicos e filosóficos, da aplicação das novas técnicas de cirúrgias médicas, do aprimoramento das ciências, em particular da genética. Mário falou do decreto que inviabilizava alguns projetos no campo da genética. Rodolfo falou, em um tom em que se identificava um laivo de desgosto e frustração, que havia, no Congresso Nacional, políticos lacaios de grupos radicais, e, em tom de desabafo, de projetos abandonados devido ao desvio de recursos financeiros indispensáveis à realização deles para programas inúteis, construções de estabelecimentos escolares desnecessários e a manutenção de sinecuras.

Mário, o coração acelerado, no desejo de tratar das questões que tanto o incomodavam, olhou para Daniele, suplicando-lhe auxílio. Ela notou-lhe a ansiedade, e tocou-o no braço. Após ouvir o seu sogro falar das conseqüências das mais recentes leis promulgadas pelo Congresso Nacional, ela citou eventos que vitimaram cientistas, principalmente geneticistas, e pediu a opinião dele e a de Valquíria a respeito, e perguntou-lhes como eles, cientes do ambiente conturbado, hostil aos geneticistas, que eram agredidos, na rua, ameaçados de morte, se sentiam, e fez referências aos geneticistas que viviam, trancafiados, nas suas casas, e aos que, paranóicos, eram acossados por terrível mania de perseguição, e aos assassinados por terroristas. O mundo exigia coragem dos geneticistas, comentou Rodolfo. Valquíria disse que, se eles se curvassem às ameaças, o mundo, para os cientistas, e para os geneticistas em particular, tornar-se-ia um inferno. Preocupavam-se todos eles com as ameaças, que um dia poderiam vitimá-los. Mas o que tinham de fazer? Esconderem-se? Fugirem do mundo? Abandonarem a ciência porque um bando de lunáticos a rejeitavam? O que teriam de fazer Rodolfo e Valquíria?

Calmo agora, Mário formulou comentários a respeito da clonagem humana. Na expectativa, esperou seus pais pronunciarem-se a respeito. Eles, pensou, eludiam a questão. Ora concluía que eles faltavam-lhe com a verdade, ora acredita que eles lhe eram francos; a despeito, porém, da confiança que neles depositava, deles desconfiava, recriminando-se e julgando-se um filho vil e ingrato. Seus lábios ficaram descorados; a mente, embaciada. Quis eliminar de si todos os pensamentos de desconfiança para com seus pais. Ao tratarem de genética, Rodolfo e Valquíria entraram em explicações técnicas. Falaram da vida da Terra, do seu surgimento, considerando numerosas hipóteses científicas e os mitos da criação do mundo segundo as antigas religiões. Apresentaram um mundo rico de idéias, complexo e vasto. Trataram de questões restritas aos especialistas, traduzindo o vernáculo de uma ciência não inteiramente inacessível a Mário e Daniele para um que eles compreendiam. Com a neutralidade habitual, falaram das técnicas mais recentes de reprodução humana artificial, das cirurgias e de clonagem, particularmente da clonagem humana. Mário nenhuma alteração percebeu-lhes no timbre, no tom e na inflexão de voz. Eles portaram-se como sempre o fizeram. Os gestos deles, os movimentos dos músculos, a modulação da voz, as ligeiras mudanças de ritmo, de tom, Mário percebia-os. O sorriso deles, o olhar, nada lhe escapava. Valquíria, ao expor as suas idéias, expressava-se sempre no mesmo tom, e nela Mário via uma nódoa de orgulho. Pensava Mário consigo se seus pais o clonaram, ou se clonaram outro indivíduo, de quem ele era uma cópia. Seria Mário uma cópia de outro homem? Mário pensou em lançar-lhes tal pergunta. Conteve-se, todavia. A pergunta coçava-lhe a língua. E ele pensava em arremessá-la ao rosto de seus pais. Tal pergunta eles a receberiam como uma afronta, e se levantariam, magoados, se despediriam, contrafeitos, de Mário e de Daniele, iriam embora, e nunca mais retornariam àquela casa.

Marcos Antonio e Aloísio interrompiam a conversa, a curtos intervalos, com perguntas que denotavam curiosidade e inocência. Foi Marcos Antonio quem provocou a rápida aceleração dos batimentos cardíacos de Mário. Rodolfo, Mário, Valquíria e Daniele falavam, na ocasião, de clonagem humana; Marcos Antonio e Aloísio entretinham-se com um jogo holográfico de corrida de aeronaves. Conquanto atento ao jogo, Marcos Antonio ouvia a conversa de seus pais e seus avós; e em um certo momento, arremessou à face de seu avô uma pergunta que a todos surpreendeu: “Vovô, o senhor já clonou uma pessoa?”. Mário empalideceu, e fixou o olhar em seu pai. Daniele fitou Mário, estudou-lhe a fisionomia, para sondar-lhe os pensamentos. Rodolfo abriu-se em uma gargalhada, para Mário monstruosa. Daniele, fitando Mário, notou, nele, a agitação controlada das mãos e as têmporas orvalhadas de suor. Considerou natural e espontânea a reação de Rodolfo. Acertou ao pensar que o sangue de Mário fervilhava e queimava-lhe as entranhas. Rodolfo, encerrada a gargalhada – nela Mário viu um artifício para refazer-se da investida do neto -, negou que clonara alguém. Mário viu na resposta precaução desmesurada. Queria acreditar no que via, e não no que pensava que via. Depois, pensava enquanto desenrolava-se a conversa, trataria das suas suspeitas com Daniele. Não sabia o que pensar. Sobrepunham-se umas às outras as suas idéias. Não estava certo se ouvia o que ouvia, se via o que via, se pensava o que pensava. Marcos Antonio insistiu na questão, chamando a atenção para outros aspectos do que sabia de clonagem; disse que, na escola, dois meses antes, a professora de ciências disse que, se a lei permitisse e não houvesse tanta violência contra os defensores da clonagem humana, ela, se grávida, do embrião em seu útero faria uma cópia, e, talvez, se assim o desejasse, faria dele duas cópias. Perguntou, na sequência, para sua avó, se ela desejou, um dia, fazer um clone. Ela disse – arrependida, Mário assim interpretou-lhe a conduta ao estudar-lhe o tom de voz e a fisionomia -, sem descer às minúcias, que, inteirada de que perderia o primeiro filho, pensou em cloná-lo. Não era uma questão fácil de se tratar, nem de explicar, nem de justificar, disse, voz embargada. Pensou, sim, em clonar o fruto da sua primeira gestação; Rodolfo, no entanto, dissuadiu-a de fazê-lo. Ouviram-na atentamente. Mário perscrutou-lhe a alma insondável. Vieram lágrimas aos olhos de Daniele. Marcos Antonio e Aloísio admiravam, com os olhos arregalados, a avó. Rodolfo, arqueado para a frente, os cotovelos fincados nas pernas, os antebraços na vertical, os dedos entrelaçados sob o queixo, cerradas as pálpebras, ouviu a reconstituição de episódio tão angustiante sucedido havia trinta e quatro anos. Mário, que não conhecia todo o passado de seus pais, perguntava-se o que eles pensavam. Rodolfo e Valquíria fingiam sentir uma intensa corrente de sentimentos percorrer-lhes o corpo, ou sentiam remorsos por alguma decisão equivocada, sofrendo ao recordarem uma época angustiante, que transpuseram com dificuldades? Quanto mais pensava a respeito, a fisionomia inexpressiva, estudando o comportamento de seus pais, Mário mais se enredava em pensamentos conflitantes.

Assim que seus avós negaram ter clonado um filho, ou qualquer outra pessoa, Marcos Antonio disse que, na escola, um aluno que com ele estudava, Fabrício, dissera-lhe que conhecia uma pessoa idêntica a si, tanto na aparência quanto na maneira de agir, e perguntou se Fabrício tinha um clone. Rodolfo, antecipando-se a Valquíria, disse que ele tinha um sósia, e não um clone, e que não existem clones de seres humanos; há clones apenas de alguns animais de algumas espécies. Marcos Antonio disse que nenhum mal via em clonar pessoas e que acreditava que havia um clone de seu pai, pois vira, semanas antes, no parque, um homem igual a ele. Ao ouvir tais palavras, Mário empalideceu e fitou Marcos Antonio; e Rodolfo e Valquíria disseram a Marcos Antonio que o homem que ele vira era sósia do pai dele e que conheciam sósias de si mesmos. Sósias são comuns, disseram. E Rodolfo falou de algumas ocasiões hilárias e constrangedoras em que pensou reconhecer em uma pessoa, que lhe era desconhecida, um amigo ou um familiar. E Marcos Antonio e Daniele contaram histórias parecidas que haviam se sucedido com eles. Mário nada disse, não esboçou um sorriso sequer, e, ao se recompor da surpresa inspirada pela notícia transmitida por seu filho, conservou-se quieto, imóvel, olhos a irem de um para outro de seus interlocutores, estudando-os, principalmente seus pais.

Providente a intromissão de Marcos Antonio na conversa. Ele fez aos seus avós a pergunta que Mário desejava lhes fazer. Ele, que nenhum dilema enfrentava, fê-la movido pela curiosidade, que lhe excitava o espírito, e apresentou comentários que, pensou Mário, acuaram Rodolfo e Valquíria, que souberam eludir a questão.

Invadiam Mário ansiedade e apreensão; caiu ele em prostração de ânimo, e tentou ocultá-la de seus pais. Enganou-se ao pensar que a sua palidez, a sua mudez e o seu semblante carregado deles passariam despercebidos. Valquíria perguntou-lhe se ele sentia-se bem. Mário riu, e desconversou. Daniele achegou-se a ele, passou-lhe as mãos pela testa, e perguntou-lhe se ele se sentia bem. Ele fitou-a. Ela levantou-se, e disse-lhe que lhe traria um copo de água com açúcar. Rodolfo fitou Mário, e disse-lhe que ele precisava descansar. Mário disse que se lhe acometera mal-estar passageiro, conseqüência da exaustão física e mental que o afligia, e, em um tom de voz sussurrante, que nos dois dias precedentes exigira demais de si mesmo. Seu pai disse-lhe que a fadiga emprestava-lhe aparência horrível, e pediu-lhe desculpas por não ter-lha notado até então, de tão entusiasmado sentia-se de regresso, após longa ausência, ao Brasil e ao seio da família, e Valquíria secundou-o. Daniele, que retornara com o copo com água e açúcar, e entregara-o a Mário, disse-lhes que não se preocupassem. Mário bebeu da água. Rodolfo e Valquíria disseram que se recolheriam ao quarto, e assistiriam, ou à televisão, ou ao holograma, um programa científico, ou ligariam o computador e conversariam com amigos. Mário tinha de descansar, disseram, renovaram as desculpas, e levantaram-se. Daniele pediu-lhes que se sentassem, que Mário logo se recuperaria. Mário, apoiando-se à esposa, disse que logo iria se recompor, mas não o disse com a mesma convicção dela. Rodolfo e Valquíria impuseram-se ao filho e à nora, e disseram-lhes que não pretendiam prolongar a conversa.

Marcos Antonio e Aloísio agarraram-se aos avós. Estes, carinhosos, recomendaram-lhes que fossem dormir. E eles lhes disseram que não estavam com sono. No dia seguinte, disse Rodolfo, se eles desejassem, e com o consentimento dos pais deles, passeariam no parque. Os garotos, animados, fizeram planos para o dia seguinte.

Poucos minutos depois, recolheram-se todos aos quartos.

Banhados, Valquíria e Rodolfo conversaram durante alguns minutos, e assistiram a um filme, à televisão antiga, que Mário conservava na casa em meio aos aparelhos modernos. Além da televisão, havia, no quarto, aparelhos que Rodolfo, rindo, chamou de geringonças pré-históricas, parafernálias eletrônicas do tempo das cavernas, tecnologias da idade da pedra. O filme, produzido dois anos antes, protagonizado por atores portugueses, chineses, norte-americanos e angolanos, e filmado em Portugal, na China, nos Estados Unidos e em Angola, apresentava cenários deslumbrantes, que lhes prenderam a atenção. Encerrado o filme, Rodolfo e Valquíria dormiram.

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