Em um futuro não muito distante – parte 7 de 8

Enquanto Rodolfo e Valquíria assistiam ao filme, no quarto contíguo Mário e Daniele conversavam; ele, cabisbaixo, dizia que não sabia o que pensar do que ouvira nas horas anteriores, se desconfiava de seus pais, se acreditava neles. Daniele expôs as suas opiniões. Para ela, Rodolfo e Valquíria não clonaram Mário; dele, portanto, não escondiam um segredo; conhecia-os muito bem. Mário, ríspido, disse que os conhecia melhor do que ela os conhecia, e não acreditava neles. Ouvindo-o, querendo compreendê-lo, ela atribuía as desconfianças dele à angústia que dele se apoderara; sem expressar os seus pensamentos, limitando-se a ouvi-lo desabafar, previu que ele, ao recuperar o domínio de si, não mais desconfiaria de Rodolfo e de Valquíria. Mário, confuso, abanava a cabeça, o cérebro tumultuado, dúvidas a atassalharem-lhe a alma. Não conseguiria viver com elas, disse; desejava purificar seu coração, acreditar em seus pais.

Mário não conseguiu conciliar o sono. Daniele, livre das elucubrações que perturbavam o seu marido, deitou-se, e dormiu, enquanto ele virava-se de um lado para o outro, pensava e repensava as mesmas questões e reconstituía as palavras e os gestos de seus pais. Mário ouvira o que eles haviam dito ou o que ele pensara ter-lhes ouvido? Ele não sabia no que acreditava. Temeu que alucinações se lhe apossassem da mente, mergulhando-o na demência; não divisava a perspectiva contrária aos seus temores. Sobrevindo-lhe, enfim, o sono, cerrou as pálpebras, e dormiu. Acordou, de manhã, virou-se, estendeu os braços, tateou a cama, à procura de Daniele – o lugar em que ela se deitara estava desocupado -, espreguiçou-se, bocejou, e acendeu as lâmpadas. Vestiu-se com roupas adequadas. E abriu a janela; e apagaram-se as lâmpadas. Calçou chinelos macios, e saiu do quarto, esfregando os olhos com os nós dos dedos. Chamou-lhe a atenção o silêncio reinante na casa. Olhou para o relógio, que marcava doze horas e dezessete minutos, à parede da sala. Dormira mais de oito horas. O seu estado de espírito não foi inteiramente renovado pelo sono. Desceu a escadaria, intrigado com o silêncio reinante, e na cozinha encontrou Daniele dando ordens para o robô-cozinheiro. Ao vê-lo, ela abriu um largo sorriso. E o robô saudou Mário, que retribuiu à saudação.

Mário beijou Daniele nos lábios. Exprimiu a sua surpresa com o silêncio reinante, e perguntou-lhe dos pais e dos filhos. Ela disse-lhe que eles haviam saído, para um passeio, antes das nove horas; iriam ao parque, ao museu e ao zoológico.

Mário e Daniele almoçaram e conversaram. A conversa foi regida pela prudência dela, que, antes de formular uma pergunta ou apresentar um comentário, pensava qual seria a reação dele. Cuidadosa, selecionou as perguntas que lhe faria e as palavras que empregaria. Ele deu respostas sucintas a várias perguntas, recusou-se a responder-lhe algumas, não comentou alguns comentários dela, e replicou-lhe, duas vezes, com rispidez. Ao reconhecer a sua atitude desrespeitosa e a indiferença e frieza com que lhe respondia à alguma pergunta e reagia a algum comentário, pedia-lhe desculpas, olhava para ela, penetrando-lhe nos olhos seus olhos, e, num tom de voz quase ausente, suplicava-lhe que não o julgasse mal, pois atormentavam-lo dúvidas excruciantes.

Após o almoço, Daniele foi ao consultório. E Mário, na biblioteca, escreveu as primeiras palavras do livro que só traria à luz dezenove anos depois, e, na seqüência, um artigo científico que apresentava o resultado das suas observações e das pesquisas que havia realizado semanas antes, e para uma revista popular de grande circulação, um artigo tratando das mais recentes descobertas da neurologia e do aprimoramento de robôs que carregam, alojados no cérebro artificial, uma parcela da inteligência humana, e, para uma publicação juvenil de periodicidade quinzenal, um artigo no qual expôs os princípios básicos da neurologia. Para que os leitores deste artigo assimilassem as idéias nele trabalhadas, traduziu o vocabulário científico, com o qual estava habituado, para uma linguagem acessível aos leigos. Foi este o primeiro artigo que escreveu para uma revista juvenil; inexperiente, deparou-se com obstáculos quase intransponíveis. A pensar nos verbos, advérbios, adjetivos e substantivos que empregaria na redação do artigo, manejou, com dificuldade, a caneta esferográfica, fincado o cotovelo na mesa, e a mão a cofiar uma barba imaginária e a alisar o queixo. Escrevia uma palavra, riscava-a, escrevia outra palavra, e riscava-a. Após incontáveis tentativas frustradas, obteve o resultado desejado. Sentia-se exausto, encerrada a redação do artigo. Espreguiçou-se. Levantou-se. Ligou a tela, e acessou o endereço da Academia. Conversou, durante três horas, com dois cientistas – um chinês, cuja barba, venerável como as dos antigos sábios, estendia-se por longos quarenta centímetros e terminava em ponta, amarrada com um barbante, e um brasileiro -, a respeito de um projeto em que se empenhava. E o chinês tratou da necessidade de aquisição de novos equipamentos, alguns importados, outros nacionais, para evitar o adiamento da conclusão do projeto, o que oneraria as pesquisas, podendo vir a inviabilizá-las, e o brasileiro falou dos mais recentes decretos governamentais, que restringiam as pesquisas científicas, e dos desdobramentos da robótica, da informática, da medicina, da astronáutica. Eram imprevisíveis, concordaram os três cientistas, as ressonâncias, nas ciências, dos desmandos políticos de governos retrógrados e de ministros chauvinistas, que, no Brasil e em muitos outros países, patrocinavam, nas políticas do Estado, mudanças bruscas, imprevisíveis e drásticas.

Encerrada a conversa, Mário disse-lhes que lhes enviaria os artigos que redigira, despediu-se deles, e retomou a redação do livro que só daria à luz dali dezenove anos. O robô levou-lhe uma bandeja contendo pão de milho, pão italiano, biscoito, uma laranja, quatro morangos, duas nactarinas, um pêssego, suco de laranja e suco de acerola, e retirou-se ao deixá-la, na mesa, à esquerda dele.

Tirou Mário das prateleiras duas dezenas de livros, folheou-os, febrilmente, e pô-los, abertos, uns por sobre os outros, em cima da escrivaninha. Ora tirava o livro que colocara embaixo de todos os outros, para consultá-lo, ora fechava um livro, para abri-lo, depois, noutra página, ou na mesma página. Em alguns momentos, agitava-se; noutros, recostava-se ao espaldar da cadeira, cruzava as pernas, a esquerda por sobre a direita, desleixadamente, e lia o texto rascunhado no papel, e corrigia-o, ou suprimindo, ou adicionando, palavras, frases, parágrafos, substituindo um verbo por outro verbo, um substantivo por outro substantivo, um advérbio por outro advérbio, um adjetivo por outro adjetivo, até chegar ao texto definitivo, acessível ao público leitor ao qual o destinava.

Principiava a noite. Daniele chegou, trazendo sacolas, e caixas, que continham lembranças para os sogros. Ao estacionar, na varanda, o carro, perguntou de Mário para si mesma. Não o encontrando na sala, deduziu que ele estava na biblioteca. A montanha de livros que viu, na mesa, na biblioteca, não a surpreendeu. Saudou Mário, beijou-lhe os lábios, e arrebatou-lhe das mãos as folhas de sulfite e a caneta esferográfica, sentou-se-lhe sobre as pernas, passou-lhe o braço direito pelo pescoço, cruzou os dedos da mão direita com os da mão esquerda ao ombro direito dele, beijou-lhe os lábios, e perguntou-lhe o que ele fez durante o dia. Ele enlaçou-a pela cintura, pediu-lhe outro beijo, e ela atendeu-lhe ao pedido. Disse-lhe que conversara com cientistas da Academia, pela tela, sobre os projetos aos quais dedicava-se, redigira artigos para dois periódicos populares, um, juvenil, o outro, de divulgação científica, e escrevera o rascunho de um livro. Repreendendo-o ternamente, ela lhe disse que ele precisava descansar, e parafraseou um poeta popular. Riram. Mário acolheu a exortação. Daniele beijou-o, levantou-se, segurou-lhe as mãos, e puxou-o, para tirá-lo da biblioteca, que, disse, estava cheia de velharias e repleta de traças, que se banqueteavam com as velharias que lá se amontoavam: milhares de cartapácios, opúsculos e alfarrábios do tempo dos bisavós e palimpsestos de eras antediluvianas. Foram à cozinha. Enquanto Daniele preparava a refeição, Mário falava do que pensara a respeito dos acontecimentos recentes e da conversa, na véspera, com seus pais.

Marcos Antonio e Aloísio, ambos animados, retornaram, com seus avós, do passeio, abraçaram seus pais, e, sem tomar fôlego, puseram-se a falar-lhes, esbaforidos. Mário pediu-lhes calma e disse-lhes que eles se banhassem enquanto a mãe deles preparar-lhes-ia o jantar. E eles saíram, correndo, da cozinha, rumo ao banheiro. Enquanto eles se banhavam, Rodolfo e Valquíria, ambos transparecendo fadiga, saudaram o filho e a nora, e narraram-lhes alguns dos incidentes, que lhes puseram os cabelos em pé e arrepiaram-lhes os pêlos do corpo. Marcos Antonio e Aloísio driblaram a vigilância dos avós, contou Rodolfo, divertido com a reconstituição das estripulias dos netos. Valquíria pediu licença, retirou-se da cozinha, e foi ao carro em cujo banco traseiro esquecera os doces, e regressou, pouco tempo depois, com um pacote nas mãos, do qual tirou três potes e os pôs na geladeira: eram, um, de marmelada, que Mário apreciava desde a mais tenra infância; um, de pé-de-moleque, para os netos e Daniele; um, de quebra-queixo, guloseima que Mário há muito tempo não saboreava. Mário avançou, de imediato, ao quebra-queixo, e pediu a lata de marmelada. Daniele entregou-lhe uma faca; ele tirou-lha das mãos, abriu o pote de marmelada, e cortou da marmelada um pedaço, levou-o à boca, e saboreou-o. Em seguida, quebrou o queixo. Satisfeito, guardou os doces restantes na geladeira, e agradeceu à mãe e ao pai por lembrarem-se de lhe comprarem aquelas delícias, néctar dos deuses.

Não muito tempo depois, Marcos Antonio e Aloísio regressaram à cozinha. E Daniele pediu-lhes que fossem à copa. Eles a obedeceram. Mário e Rodolfo os acompanharam. E Daniele e Valquíria, na cozinha, prepararam a refeição. Rodolfo pediu para seus netos mostrarem ao pai deles os bonecos que ele, Rodolfo, comprara-lhes – deixara-os, numa caixa, na sala, disse-lhes. Os meninos correram até a sala, retiraram das caixas os bonecos, e regressaram à copa. Eram bonecos eletrônicos comandados pela voz humana; tinham vinte centímetros de altura; humanóides, eram constituídos de dezenas de poliedros dúcteis revestidos com borracha sintética, que se assemelhava à pele humana, corpo de musculatura bem definida, tórax amplo, ombros largos, pescoço grosso, cabelos curtos e lisos, nariz empinado. O de Marcos Antonio trajava tênis esportivo, short e camisa azuis; o de Aloísio, amarelos. Mário pegou o de Marcos Antonio, e apalpou-o. Os cabelos do boneco, notou, eram verdadeiros. Marcos Antonio pediu para seu pai colocar o boneco sobre a mesa. Assim que ele atendeu-lhe ao pedido, falou ao controle remoto, e o boneco descerrou as pálpebras, e proferiu uma frase, expressando a sua incondicional obediência às ordens do amo, como o gênio da lâmpada de uma antiga história. Mário aproximou-se do boneco, para olhar-lhe nos olhos; e Marcos Antonio aplicou em seu pai uma peça: deu uma ordem ao boneco: que ele desse uma pirueta. Mário recuou a cabeça, surpreso – o boneco quase acertou-lhe o nariz. Riram todos. Aloísio acionou o seu boneco, deu-lhe algumas ordens, e ele executou piruetas e malabarismos. Os dois garotos exigiam a atenção do pai e do avô para os malabarismos que executavam com os bonecos, que pulavam sobre a mesa, corriam por sobre ela, pulavam no chão, escalavam a prateleira, a cadeira, a mesa, e, intensificada a rivalidade entre Marcos Antonio e Aloísio, batiam-se, ferozmente, engalfinhados. Mário, uma vez, repreendeu seus filhos; pediu-lhes que cessassem a luta entre os bonecos antes que alguém se machucasse. Tal comentário produziu uma onda de gargalhadas. Valquíria, chegando à copa, fitou-os, intrigada, e perguntou o que ocorria de tão engraçado. Marcos Antonio disse-lhe o que se passara, e ela abanou a cabeça, rindo, numa alternância de olhares, dirigindo-os ora ao marido, ora ao filho, ora aos netos, e regressou à cozinha, rindo. Marcos Antonio desafiou Aloísio para uma corrida de bonecos, e ele aceitou o desafio. Sugeriu que os dois fizessem os bonecos escalarem a prateleira, correrem até o final do corredor, regressarem, escalarem a cadeira, e subirem na mesa. Mário pediu-lhes que fossem cuidadosos. Os dois garotos emparelharam os dois bonecos. Marcos Antonio fez a contagem regressiva a partir de três, e, ao gritar “Já!” os bonecos puseram-se a correr. E o seu assumiu a dianteira; e Aloísio esperneou. Mário interveio na discussão entre seus filhos, declarou que faria ele, Mário, a contagem regressiva e diria o “Já!” da partida, e não Marcos Antonio. E emparelharam os garotos os bonecos. O de Aloísio, segundo Marcos Antonio, estava um pouco à frente do seu. Mário verificou a disposição dos bonecos, e viu o de Aloísio um milímetro, talvez um pouco mais de um décimo de milímetro, à frente do de Marcos Antonio. Rodolfo sorria.

Daniele arrumou a mesa e, vendo os filhos discutindo, o marido esforçando-se para acalmá-los, e o sogro rindo, riu também.

Arrefecidos os ânimos de seus filhos, Mário fez a contagem regressiva a partir de cinco; ao gritar “Já!”, os bonecos, respondendo, cada um deles, ao comando de uma voz, um, à de Aloísio, o outro, à de Marcos Antonio, deram início à corrida, saltaram à prateleira, percorreram-na ao largo, desceram pelo outro lado, com um salto, e, ao caírem no chão, encolheram-se, dobrados os joelhos, e mãos no chão, e puseram-se de pé. O boneco de Aloísio ia uma cabeça à frente do de Marcos Antonio. Marcos Antonio mordia ora o lábio inferior, ora o superior, ora punha a língua para fora e a mordia. Os bonecos chegaram ao final do corredor, o de Aloísio à frente do de Marcos Antonio. Executaram, rapidamente, o giro sobre o próprio corpo, dando meia volta, e correram, em sentido contrário, pelo corredor, atravessaram-no, e chegaram à copa, emparelhados, saltaram à cadeira vazia, e da cadeira à mesa, lado a lado. Encerrada a corrida, principiaram os dois garotos uma discussão para decidir qual boneco a ganhara. Marcos Antonio afirmava que fôra o seu. Aloísio refutava-o. Nenhum dos garotos admitiu a derrota. Desta vez, Mário e Rodolfo uniram forças para apaziguar os ânimos dos garotos. Disseram que os bonecos empataram. Os garotos não admitiram o empate. Marcos Antonio ameaçou quebrar o nariz do boneco de seu irmão. Rodolfo continha o riso. Caricatural, a escaramuça de seus netos. E Mário, enfim, conseguiu acalmar os ânimos de seus filhos.

Servida a refeição, confraternizando-se, os comensais encetaram conversas, ora sobre assuntos que todos, inclusive Marcos Antonio e Aloísio, podiam opinar, e ora dividiam-se em conversas paralelas: Daniele falando com Valquíria, Rodolfo com Mário, e Aloísio com Marcos Antonio. Uma variedade de assuntos foram postos na mesa. Marcos Antonio falou de desenhos animados; Aloísio, de carrinhos de rolimã; Mário, dos critérios definidos, pelo governo federal, para investimentos em ciência e tecnologia, que, no seu entendimento e no de outros cientistas da Academia, seriam prejudicados; e Rodolfo, a par da questão, expôs as suas opiniões a respeito; e Valquíria declarou que uma academia nigeriana e uma academia queniana contrataram ela e Rodolfo, e registrou, sublinhando a notícia, para regozijo de seu filho e de sua nora, que fariam, ela, Valquíria, e Rodolfo, parte do conselho deliberativo das duas instituições. Na sequência, trataram da miséria e das doenças que assolavam os países africanos, os países asiáticos e os mais pobres países americanos, arrasados por intempéries naturais e catástrofes políticas.

E Rodolfo contou anedotas, que fizeram a alegria de Marcos Antonio e Aloísio.

Tarde da noite, encerrado o jantar, todos dormiram.

Nos dias seguintes, Rodolfo e Valquíria passearam com os netos e visitaram Alceu e Samantha. Reviveram a infância, a juventude. Reconstituíram o casamento de seus filhos. Falaram de inúmeras coisas da vida, pequenas e agradáveis.

Rodolfo e Valquíria encontraram-se, durante aqueles dias, com Paulo, Catarina e Pâmela. Visitaram amigos, um deles, o professor Gustavo Augusto da Silva, e outro, Mário, em cuja casa evocaram, durante um dia, as reviravoltas com as quais a vida surpreendeu-os, lembranças tristes e lembranças agradáveis. Ao despedirem-se, renovaram os votos de amizade.

Enfim, chegou o dia da despedida de Rodolfo e Valquíria.

No aeroporto, ocorreu um incidente constrangedor: um homem de vinte e poucos anos aproximou-se de Rodolfo, ofendeu-o, contra ele arremessou um ovo, atingindo-o, entre os olhos, na base do nariz; as pessoas próximas deles, estupefatas, olhavam, assustadas, umas, intrigadas, outras, para o agressor e para Rodolfo; os seguranças do aeroporto agiram imediatamente; o agressor cuspiu ofensas, agressivo, desvairado e doentio; Daniele atraiu para si Marcos Antonio e Aloísio, que acompanhavam, confusos e assustados, o que se passava; dois policiais, um deles de dois metros de altura, o outro de estatura mediana, imobilizaram o agressor de Rodolfo, e deste o afastaram. Muitas pessoas assistiram ao incidente, abanaram a cabeça, repudiaram a atitude despudorada, obscena e irracional do homem ensandecido. Policiais dispersaram a multidão que se ajuntara nos arredores. Um deles pediu aos outros, em tom baixo, atenção redobrada, e disse-lhes que conhecia o homem agredido e que a investida fôra, acreditava, premeditada, e envolvia, desconfiava, outras pessoas, todas preparadas para arremeterem-se contra Rodolfo.

Rodolfo limpou o rosto com o lenço que lhe entregara uma policial. Outros policiais aproximaram-se, e perguntaram acerca do incidente.

Aloísio e Marcos Antonio foram até o avô, e o abraçaram.

Despediram-se Rodolfo e Valquíria de seu filho, de sua nora e de seus netos.

Lágrimas escorreram aos olhos de todos eles.

Rodolfo e Valquíria, o coração confrangido, davam alguns passos, voltavam-se, e acenavam para os que deles despediam-se. Voltaram-se quando começavam a subir os degraus da escadaria que levava ao avião, e agitaram os braços. Acenaram para eles o filho, a nora, os netos, e familiares e amigos.

No carro, rumando para casa, Mário soltou um longo suspiro, pensando na felicidade de seus pais e no dilema que enfrentou nos dias anteriores. Decidiu que iria compartilhar, dias depois, com Daniele, os seus pensamentos a respeito das dúvidas que tanto o atormentavam.

Silenciosa, a viagem de regresso para casa. Mário e Daniele não se surpreenderam com o silêncio dos filhos. Na casa, os garotos expressaram, com franqueza, a saudade que já sentiam de seus avós.

IV

Onze anos após o nascimento de Aloísio, Daniele presenteou o mundo com uma menina, Glória.

Mário, Daniele, Marcos Antonio, Aloísio e Glória viajaram pelo Brasil e por outros países.

Conquanto a felicidade habitasse-lhe o coração, Mário mergulhava, de tempos em tempos, em suas cismas; e incomodavam-lo sobremaneira as dúvidas acerca da sua origem. Amparava-o Daniele.

Dois anos após o nascimento de Glória, Daniele deu à luz Edson, um dia antes do trigésimo oitavo aniversário de Mário.

Transcorreram-se os anos.

Marcos Antonio ingressou na marinha.

Aloísio enfrentava, aos dezoito anos, contratempos incontornáveis.

Glória, aos sete anos, pianista talentosa, apresentava-se para platéias fascinadas com o seu virtuosismo. Desde os quatro anos de idade a dedicar-se à música, acompanhava, de ouvidos, algumas das composições mais famosas da história. Seus pais, notando-lhe a facilidade com que ela as executava, compraram-lhe um piano e contrataram-lhe um professor de música. Glória assimilou as lições com facilidade espantosa. Falecido o seu professor em um acidente aéreo, seus pais contrataram-lhe uma professora de música, que a ela dedicou-se; foi esta professora a instrutora de Glória nos primeiros concertos; e ela acompanhou-lhe a carreira até o dia em que morreu de um fulminante ataque de coração. Glória tinha, então, trinta e quatro anos de idade.

Edson, aos cinco anos, irrequieto, com as suas estripulias punha a casa de pernas para o ar.

V

Aos vinte e sete anos, Marcos Antonio já havia conquistado reputação de homem de incomparável bravura. Casara-se, dois anos antes, com Fabiana. Seu primogênito e dela, Lucas, tem um ano. E ela está grávida de uma menina, que receberá o nome de Suzana.

Aloísio, aos vinte e cinco anos, solteiro, concluiu a faculdade de informática. Inconsequente, espojou-se na vadiagem. Participou de orgias regadas a narcóticos e soporíferos; envolveu-se com tráfico de entorpecentes e cometeu pequenos delitos.

Glória, aos quatorze anos, era uma pianista célebre.

Edson, aos doze, jogava basquete; era temperamental e caprichoso.

À festa de qüinquagésimo aniversário de Mário compareceram muitos amigos dele, de Daniele, da família. Marcos Antonio, acompanhado de sua esposa e de seu filho, compareceu à casa de seus pais. Aloísio foi impedido, pelos seus pais, de praticar atos escandalosos durante a festa.

Na companhia de sua esposa, e carregando seu filho, Marcos Antonio foi, em certo momento da festa, ao seu quarto, que seus pais conservavam como um santuário, e mexeu nos seus brinquedos. As duas camas estavam conservadas com lençol e colcha do tempo da juventude de Marcos Antonio e Aloísio. Os objetos trouxeram-lhe à mente lembranças da sua infância e da sua juventude. Lucas engatinhava; com o auxílio de sua mãe, andava, desajeitadamente, e mexia em todos os objetos; como um ancinho, agarrava tudo o que se achava ao alcance de suas mãos. Os brinquedos eram, uns, de tecnologia obsoleta, outros, de tecnologia rudimentar. Os bonecos-robôs, com os quais Rodolfo havia presenteado, havia mais de quinze anos, os seus netos, eram, no ano em que ele os comprou, os brinquedos de tecnologia mais avançada que havia; agora, dizia Marcos Antonio para Fabiana, eles eram geringonças dos primórdios da civilização. Fabiana, curiosa, pediu para Marcos Antonio que ele lhe mostrasse como os bonecos-robôs funcionavam. Ele não se fez de rogado; pegou o seu boneco, e pôs-se a comandá-lo. Não executava os comandos com a precisão de antes. O boneco dava piruetas, ora caía de cabeça no piso, ora de costas, ora de joelhos, ora de peito; raras as vezes em que caiu em pé, e quando isso ocorria Marcos Antonio comemorava o bem-sucedido movimento como o fazia, na sua infância e na sua juventude. Ria estrondosamente. E Lucas ria e batia palmas. Marcos Antonio mexia em outros brinquedos quando a porta do quarto foi aberta. Fabiana ouviu os leves ruídos, e para a porta voltou-se. Encontraram-se seus olhos e os de Mário, que sorriu e à porta, a mão esquerda na maçaneta, encostado ao umbral, ficou a contemplar o filho a se divertir. Marcos Antonio pressentiu alguém a observá-lo, e voltou-se para a porta; sem pensar no que fazia, intensa corrente de emoção a correr-lhe pela espinha, foi até seu pai, e abraçou-o calorosamente. Nem sequer uma palavra eles proferiram. O abraço, mais do que as palavras poderiam vir a fazê-lo, traduziu todas as emoções que se apoderaram deles. Mário, voz embargada, disse, enfim, que os procurava, a ele, Marcos Antonio, e a Fabiana, pela casa. Conservaram-se alguns minutos no quarto. Evocaram alguns episódios da infância e da juventude de Marcos Antonio e Aloísio. Mário pegou, da cama, o boneco-robô que Marcos Antonio lá deixara, exibiu-o ao filho, e perguntou-lhe se ele se lembrava do dia em que o havia ganhado dos avós, e para Fabiana disse que Marcos Antonio e Aloísio, quando não se batiam corpo-a-corpo, faziam os bonecos brigarem um com o outro.

Mário restituiu o boneco à prateleira, e pegou Lucas ao colo. Disse que aquele quarto era o santuário dos filhos. Todos os brinquedos deles estavam lá, os que eles mais apreciavam, nas prateleiras, outros, dentro dos baús. Enfim, pediu ao filho e à nora que o acompanhassem ao salão, para entoarem o Parabéns a Você.

Sobraçando o neto com o braço esquerdo, pousou a mão direita no ombro direito de sua nora. E desceram todos a escadaria. E rumaram à sala-de-estar onde estavam reunidos familiares e amigos de Mário, todos a aguardá-lo, para saudá-lo, parabenizá-lo pelo qüinquagésimo aniversário natalício. Contagiante, a alegria do aniversariante. Em meio àquela gente desejando-lhe felicidade e saúde, bem-estar, e elogiando-o pelos sucessos já obtidos, pelas conquistas já alcançadas, Mário encabulou-se, envaidecido.

Distribuíram os doces, os salgadinhos, os refrigerantes, todos os convidados a fartarem-se com a variedade de sabores de encher de água a boca.

Mário pousou para a primeira de uma série de fotos, o neto consigo, a esposa à sua direita – o braço esquerdo dela entrelaçado ao braço direito dele -, Marcos Antonio e Aloísio à esquerda, e à direita de Daniele, Glória e Edson. Na sequência, fotografaram-no, ele sorrindo, e abraçando, pelo ombro, seu pai e sua mãe, ele à sua direita, ela à sua esquerda; ele com a sua sogra; com Daniele; com os filhos; com parentes; com amigos. Fotografaram-no centenas de vezes. Todos os convidados quiseram ser fotografados ao lado dele. Foi uma tarefa exaustiva, a de posar para as fotos, e ele a executou com disposição e alegria contagiantes.

Apagaram, enfim, as lâmpadas, para que Mário cortasse o bolo. E toda a casa imergiu na escuridão.

E acendeu-se, sobre o bolo, uma vela, que bruxuleava. E entoaram o Parabéns a Você. Cessada a cantoria, Mário, em silêncio, fez o seu pedido, e assoprou a vela, apagando-a. Ovacionaram-lo, e aplaudiram-no, estrondosamente, a ponto de fazer a casa ruir sobre os próprios alicerces. Coroaram-lo os convidados de vivas e hurras.

E acenderam-se as lâmpadas.

E choveram sobre Mário catadupas de abraços, felicitações, elogios.

Mário, enfim, pôde cortar o bolo; o primeiro pedaço do bolo ele o entregou para Daniele, e dela recebeu um tímido, acanhado, beijo nos lábios. E seguiram com a festa, Mário e Daniele, e Marcos Antonio e Aloísio, e Glória e Edson a cortarem o bolo, e a distribuírem os pedaços de bolo aos convidados.

E encerrou-se a festa pouco antes do amanhecer.

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