Ingleses na Costa – de França Júnior

Em quinze cenas, nesta peça de um ato, França Júnior desenha a desfaçatez e o cinismo de um grupo de moços desocupados, desajustados, velhacos e caloteiros. São eles Félix, Silveira e Feliciano, estudantes, já homens feitos. Ao retratá-los, em caricaturas reveladoras, o autor dá uma pequena amostra da sociedade brasileira do século XIX, sem pretensões a psicólogo profundo; é ele, aliás, analista superficial; na criação de tipos emblemáticos, no entanto, é correto, considerando-se, é claro, os limites de uma despretensiosa comédia de costumes criada para entreter um público não muito exigente. Além de, com o seu dom de comediógrafo, revelar traços deselegantes dos estudantes, o autor reproduz um aspecto do pensamento corrente, então, o da aversão que os brasileiros (pelo menos de uma parcela deles), naquele período da história nacional, nutriam pelos ingleses, os credores do Brasil.
Toda a comédia está ambientada em um quarto de hotel – e personagens relatam cenas sucedidas em outros locais, sendo uma delas a do almoço, na casa do Barão de Inhangabaú, para o qual foi convidado Félix, um dos estudantes, sobrinho de Luís de Castro.
Os três estudantes que protagonizam esta peça, todos levianos, sem um tostão no bolso, estão diante de duas situações difíceis: não têm dinheiro para o almoço; e têm dívidas a saldar. Salva Félix da fome o convite para o almoço na casa do Barão de Inhangabaú; e Silveira e Feliciano, Lulu, amiga deles, que, na companhia de Ritinha, os visita no quarto deles. Aqui se mostra a sem-cerimônia de Félix ao ir à casa do Barão de Inhangabaú (com quem possuía divergência política), não porque se simpatizava com ele, mas para filar um almoço, e, assim, matar a fome que o atormentava, e a de Lulu e Ritinha, que se movem com desembaraço num quarto de homens.
Encaminhando-se a peça para o seu encerramento, anuncia-se Luís de Castro, tio de Félix, que, do Rio de Janeiro, rumara para São Paulo com o propósito de ditar um sermão ao seu sobrinho, mas que, surpreendido por Lulu e Ritinha, que o abordam, atenciosas e mal-intencionadas, e Silveira e Feliciano, o primeiro apanhando-o numa armadilha e chantageando-o, acaba por não empreender o seu propósito original. Outro personagem que dá o ar de sua graça nesta comédia do talentoso França Júnior é Teixeira (credor de Silveira), caolho, alvo das anedotas dos três estudantes.
Assim como em Meia Hora de Cinismo, os personagens desta peça são estudantes desocupados, caloteiros, velhacos, às voltas com dívidas. O microcosmo estudantil brasileiro da época de França Júnior era, se se dar crédito ao autor de Ingleses na Costa e Meia Hora de Cinismo, constituído de criaturas desobrigadas das responsabilidades individuais elementares. O Brasil não mudou muito nestes quase dois séculos.

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