Uma história com final feliz

Às dez da manhã, depois de um lauto banquete matinal na companhia de Carmem, sua esposa, jovem acobreada, fornida e fogosa, de vinte e dois anos, e dela despedir-se com um beijo, casto, nos lábios carnudos, João saiu da sua casa e rumou à agência bancária situada à margem direita, no sentido bairro-centro, da Praça Fernando Pessoa, e para o interior dela seguiu, a passos lentos, calculados, subindo os degraus de um em um, olhando de um lado para o outro, como que à procura de alguém conhecido. Não foi do seu agrado a cena que presenciou. Aos seus olhos, revelou-se um aglomerado barulhento de gente de todos os tipos, de todas as raças, de todos os credos, a enxamear a agência, um vozerio ensurdecedor a preencher-lhe todos os cantos. Deteve-se, ligeiramente desanimado, ao enquadramento da larga entrada, e, contrariado, circunvagando o olhar, passando-o, rapidamente, de uma pessoa à outra, certo de que encontraria um rosto conhecido, e não o encontrando, deu, hesitante, o primeiro passo para o interior da agência bancária, e, a passos lentos, mas não muito seguros – pensamentos instando-o a dar meia-volta e regressar à sua casa – orientando-se, e quase se perdendo, em tal labirinto humano, conseguiu, enfim, solicitando orientação dos que ocupavam espaços no interior do estabelecimento e recebendo orientações, que ele não solicitou, e que o desorientavam, de pessoas que, vendo-o desorientado, o auxiliavam a se encontrar, a se encaminhar, até o fim da fila de pessoas, que se organizavam, como o podiam, para pegarem uma senha, cada pessoa uma, e de posse da senha, passarem pela porta giratória, e, sentados e em pé, esperarem um caixa, um dos três presentes, as atenderem. E posicionou-se atrás de uma velha de uns oitenta anos, cãs espessas a cobrirem-lhe a cabeça, emoldurando-lhe o rosto encovado de olhos minúsculos, azuis-claro, ocultos sob grossas sobrancelhas brancas, e de nariz fino e pontudo e lábios esmaecidos, e que trazia a tiracolo uma bolsa florida e cujos trajes lhe indicavam a sua origem humilde. E suspirou, certo de que desperdiçaria um bom tempo da sua curta existência esperando ouvir o número de sua senha proferido numa voz eletrônica e o visse exibido num monitor exposto logo à frente da parede que separava os caixas dos clientes.

José, homem na altura dos seus sessenta anos, rechonchudo, de rosto rosado, de baixa estatura, calvo, dono de orelhas de abano razoavelmente pronunciadas, que se ocultavam, em parte, atrás das bochechas salientes, uma hora antes retirara-se do consultório odontológico, onde permanecera, na sala de espera, quarenta minutos, e, sentado na cadeira odontológica, a dentista a examinar-lhe os dentes, cinco minutos, o que o inspirara a contar à dentista, Larissa, mulher de trinta anos, simpática, espirituosa, cuja presença o animava e inspirava-lhe bons sentimentos, uma anedota: a de que ele, José, era um homem de muita sorte, pois ela, Larissa, não cobrava honorários pelo tempo que ele, na sala-de-espera, sentado no confortável sofá, aguardava ser atendido. Expandindo-se num contagiante sorriso, Larissa exibira seus branquíssimos dentes, que pareciam de leite, embora fossem permanentes, concedendo a José o privilégio de admirar-lhe as covinhas que se lhe formavam, nas bochechas, durante a exibição do majestoso sorriso, que José, no desejo de presenciá-lo, ia ao consultório, carregando consigo, na massa cinzenta, nas palavras dele, um bom sortimento de anedotas, todas de elevado teor cômico. Neste dia, pôde ele contar à sua dentista apenas uma anedota, a acima apresentada numa síntese que lhe guarda o conteúdo, pois Larissa teria de, às pressas, retirar-se do consultório, para ir ao hospital, para um atendimento de emergência, que lhe solicitavam. José, a contragosto, desejando dilatar a sua presença na companhia de tão graciosa dentista, cujas virtudes muito o encantavam, acolhera a justificativa, e não prolongara a conversa, como fazia de hábito, e despedira-se de Larissa, e retirara-se do consultório. E agendara outra consulta, com a secretária, Mariana, jovem de dezoito anos, dona de sedosos cabelos pretos, lisos, brilhantes, que se lhe encachoeiravam pelos estreitos ombros e esbelto colo, para dali dezesseis dias. Descera, pelo elevador, os sete andares, que o separavam do térreo, andara, a passos apressados, até o estacionamento, entrara no seu carro, dera a partida, e chegara, após vinte e cinco minutos gastos num trânsito caótico, percorrendo um percurso que, em dias normais, cobria em dez minutos, à agência bancária situada à margem direita, no sentido bairro-centro, da Praça Fernando Pessoa, e subira a escadaria de dois em dois degraus. E logo enveredara pela agência bancária, e desembestara a comentar a situação em que se encontrava, antevendo o transtorno que enfrentaria no interior daquela agência bancária, que era, segundo ele, o purgatório. Encontrando, após procurá-lo durante um tempo razoável, o fim da fila, pusera-se atrás da última pessoa que a ocupava, que era o já nosso conhecido João.

Não demoraram os nossos dois personagens a entabularem conversa recheada de comentários jocosos, ambíguos, com trocadilhos criativos, que deles revelavam o espírito brincalhão, espirituoso, engenhoso. Principiaram a conversa a tratar, desembaraçados, desinibidos, despreocupados, de atos políticos de autoria do prefeito municipal e dos vereadores, mencionando, e revelando-se ambos críticos ferozes, contumazes, dos políticos, chamando, ambos, a atenção para obras inacabadas e mal feitas; logo em seguida, entraram a falar, no mesmo tom desinibido, livre, de futebol, para, logo que passaram pela porta giratória, após pegarem, cada um deles, uma senha, já esquecidos do assunto que lhes animara a conversação, tratarem de casos sucedidos com alguns membros da família, parentes e familiares, e amigos de longa data, e familiares e parentes destes, e de casos de tráfico de drogas, e do mal que a omissão do poder público, a conivência de agentes do governo, a indiferença e negligência de muitos pais na educação de seus filhos têm produzido no mundo. Ambos revelaram-se preocupados com a situação, calamitosa, preocupante, concordaram entre si, que envolvia os jovens e o consumo e tráfico de drogas. Foi ao fim deste assunto que José, após pigarrear, a mão direita fechada à frente da boca, disse, como se revelasse uma história inusitada, inédita, extraordinária, misteriosa, usando de um tom de voz distinto do que usara até então:

– Vou contar para você, João, uma história com final feliz. Hoje, às quatro da madrugada, despertou-me um amigo, amigo antigo, do tempo da infância, do tempo do onça, o Roberto, Carlos Roberto, Betinho para os amigos íntimos, os amigos do peito. Imagine: às quatro horas da madrugada, dormindo a sono solto, num sono de pedra, sonhando com os anjos… Para dizer a verdade, eu não sonhava com os anjos; eu sonhava com um peixão, com uma sereia de dar água na boca, de deixar todo homem de queixo caído, embasbacado, perdido, vendo estrelas. Eu dormia a sono solto, sono pesado… Imagine-se no meu lugar: dormindo tal qual uma pedra, sonhando com uma sereia cor de jambo, e de repente, às quatro da madrugada, tocam a campainha uma, duas, três, quatro, cinco, trezentos milhões de vezes, numa sucessão de enlouquecer todo e qualquer filho de Deus; e você acorda, assustado. E o que você pensa assim que acorda, abre os olhos, e ouve a campainha soar como se um louco, um maluco, um sandeu, um mentecapto, a apertasse sem cessar? O seu desejo é o de pegar um revólver e meter uma bala na cabeça do filho-da-mãe que aperta a campainha. E foi esse o desejo que me fez me retirar de sob o lençol, e da cama, trajado à caráter, um pijama azul a cobrir-me as  vergonhas. Liguei o monitor da câmera de segurança, e o que vi? Aliás, quem eu vi, à frente do portão da minha casa, a apertar, possuído pelo demônio, a campanha da minha casa? O Betinho. Ele, em carne e osso. Praguejei. Amaldiçoei-o. Ofendi-lhe a mãe. Que me perdoe a dona Elizabeth, mulher santa, generosa, que merece todo o carinho do mundo. Que amaldiçoado seja o Betinho! Acordar-me às quatro horas da madrugada. Para que a minha patroa não acordasse, ela, que dormia como um anjo, a amaldiçoar o Betinho, e certo de que tinha ele noticia importante a me dar, do contrário ele não iria ter à minha casa às quatro horas da madrugada, andei, descalço, a passos acelerados, até o portão, e abri-lhe a porta. E ele, antes mesmo de adentrar os domínios da minha humilde casa, disse-me: “Zé, há duas horas, na via Marechal Floriano Peixoto, em um acidente envolvendo um ônibus, dois caminhões e quatro carros, morreram vinte e uma pessoas.”

– História com final feliz?! – perguntou João, surpreso, estupefato, confuso, a fitar, com olhos arregalados e sobranceiras arqueadas, José, assim que este se silenciou indicando que encerrara a sua narração. – Final feliz!? Essa história tem final feliz?!

– É claro que ela tem final feliz – respondeu-lhe José, um sorriso maroto a adornar-lhe o rosto rechonchudo. – Eu sou o dono da agência funerária.

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