Em tempos de epidemia, uma aventura assustadoramente emocionante

Saí, hoje, antes de o relógio dar doze badaladas às onze horas – o relógio está desregulado -, de casa, sem máscara a cobrir-me a bela estampa, como de hábito, e principiei a minha caminhada matinal, sem pressa, a passos lentos, e nem bem eu havia percorrido cem metros, vislumbrei, ao horizonte, aproximando-se, e rapidamente, de mim, para a minha contrariedade, duas motos, a governá-las cada uma delas um policial, ambos devidamente encapacetados, e tenso, nervoso, pensei em girar sobre os calcanhares, receando a abordagem e, era certo, a minha condução, pelos dois agentes da lei, à delegacia, e regressar à origem da minha caminhada, isto é, à minha casa. E dos policiais desviei o olhar. E eles distavam de mim vinte metros, quando apontei-lhes, segunda vez, meus olhos, num misto de temor e tremor, e vi… e vi… e vi, limpas, as caras deles, limpas e livres de máscaras. E divisei-lhes olhos, nariz, boca, sobrancelhas. Respirei, aliviado, e segui o curso da minha caminhada matinal. E os policiais passaram por mim, indiferentes à minha humilde e obscura existência. E cobri trezentos metros, calmo, tranquilo. Ao passar ao largo da praça, vi, poucos metros à minha frente, assim que dobrei a esquina, parados, conversando, dois policiais, ambos com o rosto coberto com máscara preta, na mesma calçada pela qual eu andava. Pensei comigo: “Agora me ferrei!”, em alto e bom som, meus pensamentos a me ricochetearem nos tímpanos vezes sem conta. E segui o trajeto, afugentando de minha já um pouco dilapidada cabeça de homem de quarenta e seis anos o pensamento que queria me impelir a atravessar a rua para que eu evitasse os policiais. Que fosse o que Deus quisesse. E pelos policiais passei. Eles, sem interromperem a conversa que lhes ocupava a atenção, se dignaram a me fitar com um olhar em que não se lia nada além do que nos olhares dos homens comuns está escrito. E segui, a passos lentos, a minha caminhada, sem interrompê-la. Minutos depois, regressei à minha casa, e tão logo adentrei em seus domínios, fui à sala de estudos, que serve, também, de quarto (e vice-versa), sentei-me à escrivaninha, peguei de uma caneta, e puxei de uma pilha de folhas de sulfite uma folha, e pus-me a escrever este relato da minha emocionante aventura matinal.

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