O homem que evitou o divórcio

– Você não me acreditará, Nelson. Você, após ouvir-me a história, me dirá que sou um mentiroso, um mentiroso inescrupuloso, malvado, um mau-caráter, um mentiroso compulsivo, um rematado mentiroso, um mentiroso incorrigível, um caso perdido, o pai da mentira, o mentiroso dos mentirosos, o gênio da mentira. Não me interrompa, Nelson; não me interrompa. Deixe-me contar para você o que me aconteceu há uns trinta minutos; ou há uma hora, ou há duas horas, não sei. Estou desnorteado. Ainda não me recuperei do desgaste físico e mental da minha mais recente aventura conjugal, um drama, que só não descambou numa tragédia porque fiz bom uso da minha lábia de vendedor tarimbado, de um homem de quarenta anos de experiência no comércio. Minhas mãs, trêmulas; meu peito, incha e desincha, afobado; minhas têmporas, porejadas. Se eu não tivesse feito bom uso da minha oratória de vendedor eu já estaria no olho da rua; a minha patroa teria me demitido; e sem pensar duas vezes teria me dado um belo de um pontapé, e me chutado para fora da casa, arremessando-me na sarjeta. É, Nelson! O coronavírus veio para destruir a vida de todos. O coronavírus é um bicho danado de ruim, criatura nefasta, cruel, muito cruel, uma praga destruidora de lares, promotora de brigas e desentendimentos. O bicho desgraçado obriga todo filho de Deus que deseja sair de casa da casa sair de máscara. E eu cumpro a minha obrigação ao pé da letra, e não saio de casa sem uma das quatro máscaras que minha patroa me comprou há uns dois meses. Temos de nos resguardar ela e eu, mais ela do que eu, afinal ela tem umas complicações no coração, que nunca foi lá grande coisa, e é diabética; e tenho, mesmo sendo forte, de contribuir para a segurança dela, e para a minha também, e para a de meus filhos, e a de meus pais, e a de meus sogros, pessoas bondosas e generosas. E de máscara a cobrir-me a cara, saí de casa, logo após o café-da-manhã, e fui à lotérica; e, trinta minutos depois, saído, já, da lotérica, fui ao banco. Tive de enfrentar duas filas de dar voltas no quarteirão. A para o banco tinha o dobro da para a lotérica. Perdi, calculo, duas horas do dia nas filas. Fazer o que, Nelson!? Eu tinha de pagar contas e depositar dinheiro na conta de meus pais e na do Carlinho, o Carlinho do açougue do Campo Alegre. Assim que saí do banco, irritado, fui à lanchonete… à lanchonete… Esqueci-lhe o nome. Comprei uma coxinha e um refrigerante. Não podendo sentar-me à mesa, fui à Praça Monsenhor Marcondes, e sentei-me em um dos bancos. Abaixei a máscara, ajeitei-me no banco, olhei ao redor, e dei uma boa mordida na coxinha, que estava uma delícia, diga-se de passagem. E destampei a garrafa de refri, e quase a esvaziei em um gole, de tão gelada estava. Refrescou-me o refri. E acertei mais uma dentada na coxinha, arrancando-lhe um bom naco, quase a reduzindo à nada. E degustava eu do refrigerante e da coxinha quando vi, aproximando-se de mim, uma mulher que, pensei assim que a vi, não era de se jogar fora, não; não era uma sereia, e tambêm não era uma baranga. E sentou-se ao meu lado, a atrevida. Eu sou casado. “Ela não me viu a aliança!?”, perguntei-me. Há, na praça, uns vinte bancos; e uns oito deles estavam desocupados; e aquela mulher sentou-se ao meu lado, a um palmo de mim, se muito. “Que atrevimento!”, pensei. E a mulher me olhou, e deteve em mim o olhar. Os olhos dela, castanhos. Disfarcei, olhei para ela, e tão logo meus olhos viram os olhos dela, virei-me para o outro lado, cocei o nariz, e pensei comigo: “O que esta mulher quer comigo? Deve ser uma encalhada à caça de um bom partido. E me escolheu para marido, a maldita. Não me parece feia; e também não é bonita. Havendo tanto homem no mundo, por que ela veio até mim? Está desesperada, com medo de ficar pra titia; só pode ser isso.” Eu não sou um bonitão de novela, Nelson, e nunca atrai mulher nenhuma. Só a Cátia, e com muita dificuldade. Você sabe. Você foi um dos cupidos que me ajudou a conquistá-la. Não sou o Robinho, aquele felizardo, que nasceu mais bonito do que o Tom Cruise. Mulher sempre choveu na horta dele. Mas eu!? Coitado de mim! Só a Cátia, e olhe lá! Mas hoje, aquela mulher, na Praça Monsenhor Marcondes… “Quem é a bandida!?”, pensei, e me perguntei. “O que a dona viu em mim?”, perguntei-me ao sentir o olhar dela pousado em mim. E com insistência ela me fitava. Constrangido, e discretamente, fui um pouco para o lado, afastando-me da moça, que, não muito discretamente, aproximou-se de mim. E eu, com a mesma discrição anterior, mexi-me até a beirada do banco; e a moça, sem esperar-me ajeitar a garrafa de refri ao lado, no chão, achegou-se, e colou-se, em mim, e, sem que eu dela esperasse qualquer outro movimento, levou a mão à minha boca, para dela me remover um pequeno pedaço, que me ficara um pouco acima da comissura direita, da coxinha que eu comia. E tão logo senti os dedos da mulher em mim, movi a cabeça, e exclamei: “Ei!”, e fitei a mulher, e ela me fitou, ambos supresos, eu com o gesto dela, atrevido, e ela, com a minha reação, inesperada e, penso, segundo ela, exagerada. E pensei: “Já passou da hora de dar um basta nesta história.” Dei tratos à bola, e disse, carrancudo, à moça, um tanto quanto mal-educado, rude, grosseiro, em desrespeito às lições que eu trouxe do berço, lições que meus pais me ensinaram acerca do tratamento que um homem deve conceder, sempre, independentemente das circunstâncias, às mulheres: “Não me leve à mal, não, minha senhora, mas você não faz o meu tipo.” E foi só eu concluir a fala, que senti, na cara, um tapa, um tapa daqueles, bem dado, que me sacudiu o cérebro, um tapa de arrancar os dentes e revirar os olhos. Surpreso, e muito surpreso, movi a cabeça, e conservei-me sentado, no banco, de modo a manter-me distante das garras daquela mulher que, desprezada por mim, despeitada, ferida em seu orgulho mulheril, estava, eu sabia, enraivecida, muito enraivecida. E a mulher esbravejou: “Imbecil! Idiota! Estúpido! Vagabundo! Bandido! Salafrário! Canalha! Patife!” Fitei-a, espantado. “Que tempestade em copo d’água.”, pensei. E bufando de raiva a mulher removeu de si a máscara. E o céu desabou-me sobre a cabeça! Era a Cátia. Puxa vida! Nelson, você consegue imaginar a cara dela!? Chispava ódio. Levantou-se do banco a Cátia; e afastou-se de mim, a passos apressados. E eu, lá, na praça, no banco, sentado, apalermado, tentando, em vão, concatenar as idéias, rearranjar os pensamentos, esperando os neurônios reocuparem cada um deles o seu lugar original. Macacos me mordam, Nelson! Era a patroa! E assim que me recuperei da surpresa, levantei-me do banco, e corri atrás da Cátia, e cheguei até ela; e ela não desacelerava os passos; e pedi-lhe desculpas; e ela não quis prosa comigo. As minha palavras caíram em ouvidos moucos. A Cátia nem sequer se dignou a me olhar. Pensando, agora, em retrospectiva, surpreende-me ela não haver descarregado em mim uma catadupa ainda maior de impropérios. Ela soube, bem, ou mal, não sei, controlar os nervos. E foi a muito custo que, já em casa, usando da minha lábia de vendedor tarimbado, eu consegui amansar a fera, que, ferida em sua vaidade, me disparava olhares ferinos e me alvejava com rosnados e grunhidos que assustariam um homem mais pacato. Enfim, arranquei-lhe do rosto um sorriso. E nos divertimos com a confusão. Que o coronavírus regresse à China, e logo. Já me causou muitos dissabores, e quase me arranjou um divórcio indesejado.

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