Bosquejo biográfico do senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Apresentamos, hoje, em primeira e segunda mãos – o autor deste artigo usou as duas mão para digitá-lo -, neste nosso Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, breve nota biográfica do senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito pelo P.O.D.R.E. (Partido Organizado da Democracia Revolucionária Estudantil).
O senhor Zero à Esquerda, nascido há quarenta anos e mais alguns dias antes da publicação deste minucioso bosquejo biográfico, que ora damos a público, de sua biografia, é herdeiro de uma família de gente nobre, o primeiro da sua terceira geração (que sucedeu à segunda, que, por sua vez, foi subsequente à primeira).
Na escola, cabulava, sensato que era, todas as aulas, e os professores sempre lhe anotavam a presença. Passou, e com louvor, todos os anos letivos, até à graduação, na faculdade. Nos seus boletins escolares, nenhuma nódoa. Ao final da sua carreira estudantil, a sua ignorância era maior do que a que ele exibia no dia da sua matrícula no pré-primário, o que muito o regozijava, e o envaidecia, e orgulhava os seus familiares, em especial seus genitores – e, cá entre nós, o engrandece, pois, sabe toda pessoa que conhece a filosofia de um famoso jogador de futebol da antiga Grécia, o homem sábio é ignorante, e quanto mais ignorante mais sábio, e mais culto, e não há, no orbe terrestre, ninguém mais ignorante, e, portanto, mais sábio e mais culto, do que o senhor Zero à Esquerda. O diretor da escola de primeiro e segundo graus em que ele estudou, amigo íntimo de um deputado federal e do governador do estado, reconhecendo-lhe a inigualável inteligência, singular, incomum, dispensou-o de todas as provas, pois, estava ciente, ele nascera sabendo tudo de todas as matérias escolares, afinal ele era o primeiro da terceira geração de uma família nobiliárquica que só não possui títulos de nobreza imperial porque, na sua gênese, o Brasil já era uma república. “Maldito seja, Dom Pedro II.”, amaldiçoava Zero à Esquerda Sênior I o imemorial imperador. Na faculdade, com nenhuma dificuldade se deparou para conquistar, e com louvor, o seu diploma.
Aos dezoitos anos, conseguiu uma sinecura numa autarquia municipal, o de diretor da Sub-secretaria de Planejamento Desnecessário (subordinada à Secretaria de Turismo), inexistente até então, criada especialmente para acolhê-lo porque ele, desempregado, precisava, urgentemente, de um emprego, pois ele havia engravidado a filha de um vereador, homem muito próximo do então prefeito. A filha do aludido vereador, jovem amorosa, discreta, amiga de todos os homens, donzela acanhadíssima, carregando no ventre seu herdeiro, exigira, batendo os pés e fazendo beiço com a graça e a simpatia que lhe eram comuns, de seus pais, um belo e exuberante enxoval e recursos que lhe permitissem oferecer ao filho comodidades e conforto – e seu amável pai não se fizera de rogado, e tratara do caso com o prefeito, amigo leal e fiel.

O nome do senhor Zero à Esquerda, nome de jovem dedicado à vadiagem, é proverbial, legado de sua nobre família; o seu talento para o exercício de tão louvável profissão, admirável.
Aplicado no, e dedicado ao, exercício de seus afazeres na ditetoria da Sub-secretaria de Planejamento Desnecessário da Secretaria de Turismo, jamais faltou ao recebimento de seus estipêndios, salário modesto, de subsistência, que corresponde a dez salários míninos, merecida remuneração pelo indispensável e valioso trabalho ao qual, abnegadamente, concentra sua força intelectual.
Tem Zero à Esquerda, sob o seu comando, vinte funcionários (subordinados seus, todos familiares, parentes e amigos de políticos da cidade), que, de tão atentos são cada um deles aos seus vencimentos, jamais lhe viram a figura.
Hoje, aos quarenta anos, ele se apresenta ao proscênio da política municipal ao lançar a sua candidatura a prefeito.

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