Entrevista com o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – parte 1 de 5 – publicado no Zeca Quinha Nius

Apresentamos um trecho da entrevista que o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), concedeu-nos:

ENTREVISTADOR: Nesta época de crise econômica, a maior que o Brasil já enfrentou, milhões de brasileiros vivem, desempregados, na rua da amargura. Muitos, demitidos após décadas de carreira, deparam-se, hoje, na idade de sessenta anos, com as incertezas previstas devido ao futuro próximo, que não oferece razões para esperanças. Tudo indica que a crise econômica estender-se-á por mais alguns anos. Qual é, pergunto, então, senhor candidato, a sua proposta para acabar com o desemprego, nesta cidade?

NULO DA SILVA: Antes de responder à pergunta, duas observações: 1) Você é o entrevistador, e eu o entrevistado; então, cabe a você fazer-me perguntas, e eu dar às perguntas respostas; e, 2) Se você é o entrevistador, e é seu trabalho fazer-me perguntas, não precisa, antes de fazê-las a mim, dizer-me que irá a mim fazê-las.

ENTREVISTADOR: É apenas um hábito, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Perca este hábito. É constrangedor. Não vejo razão alguma ter de avisar-me que me fará uma pergunta sendo que numa entrevista é seu dever, sendo você o entrevistador e eu o entrevistado, fazer-me perguntas.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, vamos voltar à pergunta que fiz ao senhor. Qual é a sua proposta para acabar com o desemprego, nesta cidade?

NULO DA SILVA: Responderei à pergunta por civilidade, pois tal pergunta é despropositada. Ouça bem: Fui eu que produzi a crise econômica, e, consequentemente, o desemprego? Não. Foram os norte-americanos, aqueles malditos capitalistas, que produziram uma crise econômica, em 2008, para quebrar a economia de todos os países; então, que digam aos norte-americanos que cabe a eles resolverem os problemas que eles mesmos criaram.

ENTREVISTADOR: Mas, senhor candidato, o senhor, se eleito prefeito desta cidade, terá de implementar políticas que, se não acabem, reduzam, nesta cidade, o desemprego. O senhor tem uma proposta para atrair investimentos de grandes empresários? Qual política o senhor implementará para acabar com o desemprego?

NULO DA SILVA: Você quer transferir ao prefeito um problema, que é resultado da política dos malditos capitalistas americanos?

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, por favor, responda à pergunta.

NULO DA SILVA:  Responderei. Responderei. Os candidatos a prefeito, os outros, não eu, prometem atrair investimentos de super-mega-hiper empresários paulistas, americanos, japoneses, alemães e sul-coreanos como se eles pudessem gerar empregos, e acabar com o desemprego. Conversa para boi dormir. Para acabar com o desemprego não se faz necessário produzir empregos. Ouça bem. A minha política é simples, e de rápida implementação. Apresentarei, por meio de meus aliados, na Câmara Municipal, um projeto de lei, no qual fica salvaguardado o direito, irrevogável, ao prefeito, no caso eu, se eleito, de identificar, e registrar num banco de dados todos os desempregados que vivem, nesta cidade, vadiando, os desocupados, e obrigá-los a venderem, cada qual a sua casa, e transferirem-se para outra cidade dentro de 72 horas, sob pena de morte por enforcamento se não atenderem à exigência legal.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, tal política é desumana. Os desempregados continuarão desempregados.

NULO DA SILVA: Eu sei. Não precisa me dizer o que eu sei. Eu, se eleito prefeito desta cidade, trabalharei para esta cidade, e não para outras cidades. Os desempregados de outras cidades não são problemas meus, pois governarei esta cidade, e não as outras.

ENTREVISTADOR: Mas os desempregados desta cidade, obrigados a irem para outra cidade, desempregados em outras cidades… Senhor candidato, o senhor irá transferir o problema desta cidade para outras cidades.

NULO DA SILVA: Querem que eu resolva os problemas desta cidade, e não os das outras. Querem que eu acabe com o desemprego, nesta cidade. Sancionada a lei, o desemprego deixará, nesta cidade, de existir em 72 horas. Problema resolvido.

ENTREVISTADOR: É antidemocrático.

NULO DA SILVA: Por que é antidemocrático? Os desempregados terão o direito de decidirem por uma de duas opções: Ou arrumam as malas, e mudam-se para outra cidade, ou permaneçam nesta cidade, e sejam condenados à morte por enforcamento. Quem decidir ficar nesta cidade o fará de livre e espontânea vontade. Como diz o ditado: Cada cabeça, uma sentença.

ENTREVISTADOR: É desumano.

NULO DA SILVA: Você, querido entrevistador, do mesmo modo que muitas outras pessoas, querem uma solução para um determinado problema, e quando a solução é dada reclamam, esbravejam, cospem perdigotos, revoltados com injustiças inexistentes, supostas desumanidades, e coisa e tal. Vá para o inferno, diabos! Vá torrar a paciência do capeta, seu… seu…

Nota: É impublicável o teor da discussão que se seguiu entre o entrevistador e o senhor Nulo da Silva.

*

Chamados à razão, após as trocas de ofensas, como demos notícias, no encerramento da primeira parte da entrevista, já publicada, o entrevistador pôde, enfim, perguntar ao entrevistado:

ENTREVISTADOR: Os cidadãos desta cidade, como é público e notório, pagam muitos impostos, empatam, como se diz na linguagem popular, uma parcela considerável da renda com impostos, tendo, assim, reduzido o seu poder aquisitivo. Pergunto, então: O senhor reduzirá a carga tributária?

NULO DA SILVA: A resposta está na ponta da língua: Não. Irei aumentar a carga tributária. Criarei novas alíquotas de impostos, alguns impostos ocultos; enfim, farei com o que o povo pague mais impostos.

ENTREVISTADOR: O povo, senhor candidato, já paga muitos impostos, que incidem sobre 40% da renda…

NULO DA SILVA:  Exatamente. 40%, e só. A renda total de cada cidadão corresponde à 100%, portanto, 60% da renda não é taxada. Taxarei estes 60% também.

ENTREVISTADOR: O povo não suportará mais impostos…

NULO DA SILVA: Suportará, sim. Menos da metade da renda é taxada, e não toda a renda. O povo reclama de barriga cheia. Você já viu, nesta cidade, um cidadão magricela, ossudo, de fome, igual aos famintos da Etiópia? Não. O povo desta cidade não está morrendo de fome. Saia às ruas, e olhe para as pessoas. Elas são robustas, e bem nutridas, e bem vestidas. As magricelas o são porque submeteram-se à dietas, a regimes alimentares absurdos, e as magrelas, e me refiro às mulheres magrelas, e não às bicicletas, porque frequentam academias e praticam pilates, e não são magras, esqueléticas de fome. E as pessoas mal vestidas têm dinheiro para comprar roupas melhores, de bom gosto; vestem-se mal, todavia, porque têm mal gosto.

ENTREVISTADOR: O povo não quer, senhor candidato, pagar mais impostos, e rejeita as propostas de elevação da carga tributária. O senhor, ao declarar, assim, tão descarado…

NULO DA SILVA: Descarado é a sua vó!

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Não me falte com o respeito, ou mandarei os meus capangas… quero dizer, os meus advogados pôr você na linha.

ENTREVISTADOR: Peço desculpas, senhor candidato. Retomando a entrevista, o senhor, ao declarar, em alto e bom som, com firmeza, que irá aumentar os impostos, dá um tiro no próprio pé, então, por que o senhor diz que aumentará os impostos, certo de que está a pôr a sua candidatura a perder?

NULO DA SILVA: E quem disse a você que, ao fazer tal declaração, ponho a minha candidatura a perder?

ENTREVISTADOR: E não a põe a perder, não, senhor candidato?

NULO DA SILVA: Não. Não a ponho a perder, não, senhor entrevistador. Sou um político tarimbado. Sei ludibriar, como ninguém, o povo. O político bom, saiba, é aquele que declarar que prejudicará o povo, e o faz de modo que o povo não percebe, e é eleito, e cai nas graças do povo.

ENTREVISTADOR: Como isso é possível, senhor candidato?

NULO DA SILVA: A artimanha está além da sua compreensão, e da de muitos jornalistas. Explico, contando uma história, que eu inventei para ilustrar a minha atividade política. Ouça atentamente: Durante décadas dissemina-se a “verdade”: leões não existem, gatinhos inofensivos existem. Em um dia o prefeito diz: “Vou soltar, na cidade, um leão feroz.” E solta o leão. As pessoas olham para o leão, mas vêem um gatinho inofensivo. E o prefeito, tranquilo, na sua sala, despacha ordenas, enquanto o leão devora algumas pessoas, e o povo olha para o leão, e vê um gatinho inofensivo, e não vê que o leão está a devorar alguns cidadãos. Um dia, um cidadão lúcido, corajoso, diz, a plenos pulmões: “O prefeito não soltou um gatinho inofensivo. Ele soltou um leão. Vejam, o leão está devorando um homem”. E todos correm, apavorados, e reivindicam ao prefeito o imediato recolhimento do leão à jaula. E o prefeito atende à reivindicação, e o povo o aplaude, e o ovaciona. E o prefeito solta, nas ruas, outro leão, assim que a poeira abaixa, e diz: “É só um gatinho inofensivo”. E o povo olha para o leão, e vê um gatinho inofensivo. E nesse meio tempo, o prefeito, apoiado por jornalistas, blogueiros, intelectuais, artistas e professores desanca o cidadão lúcido, que alertara o povo, que, por sua vez, trata aquele que lhe dera o alerta como um doido varrido. E a história repete-se vezes sem conta.

ENTREVISTADOR: É absurdo.

NULO DA SILVA: O que é absurdo?

ENTREVISTADOR: O retrato que o senhor apresenta do povo.

NULO DA SILVA: Absurdo, é, imbecil? A minha história é uma analogia do comportamento humano. Você conhece o conto A Roupa Nova do Imperador? Preste atenção, entrevistadorzinho de araque: O povo, anestesiado, durante décadas, por discursos socialistas, comunistas, sem pé nem cabeça, que lhe destruíram a capacidade de pensar, não sabe distinguir a fantasia da realidade. E nega-se a ver a realidade quando ela lhe é mostrada. De vez em quando, sofre um surto de lucidez, que é anulado com discursos persuasivos, principalmente se proferidos por uma autoridade. Qualquer autoridade? Não. Tem de ser uma que esteja revestida de poder estatal, ou que ostenta muitos títulos, uma que a mídia vendeu ao público como pessoa independente. Geralmente, são imbecis, ignorantes e curtos de inteligência tais autoridades, mas elas têm uma aura de credibilidade, que lhe foi artificialmente posta sobre a cabeça pela mídia e pelos intelectuais. Portanto, digo que implementarei uma política que irá prejudicar o povo, que nem perceberá o mal que lhe farei, pois já perdeu a capacidade de pensar por si mesmo, e os seus cinco sentidos não apreendem a realidade. Ele sente o que lhe dizem que ele sente, e não o que sente efetivamente.

ENTREVISTADOR: A sua concepção do povo é cínica.

NULO DA SILVA: Cínica é a sua avó. Além do mais, eu não concebi o povo.

ENTREVISTADOR: O senhor é ignorante, senhor candidato. Eu não disse que o senhor concebeu o povo…

NULO DA SILVA: Ignorante é a sua avó, diabos! Dou um murro nas suas fuças, vagabundo!

Nota: O entrevistador e o senhor Nulo da Silva engalfinharam-se numa luta de gladiadores, distribuíram sopapos e pontapés como jamais se viu na história da humanidade. Para não ferir suscetibilidades, não descreverei tão lastimável cena.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Por Yla Meu Blog

Escritora ○ Poetisa ○ Romancista ○ Lírica

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

%d blogueiros gostam disto: