Entrevista com o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – parte 2 de 3 – publicada no Zeca Quinha Nius

ENTREVISTADOR: E quais são?

INÚTIL DE SOUZA: Quais são, não sei; eu apenas sei que as executo diariamente, dia sim, outro também, durante os dias, as semanas, os meses e os anos. As minhas atividades diárias ocupam-me o tempo durante o tempo que me ocupo com elas, executando-as. Durmo, almoço, acordo, assisto à televisão, bebo água, banho-me, janto, não necessariamente nesta desordem; e converso com minha esposa, meus filhos, e com amigos e parentes, não necessariamente nesta ordem. São inúmeras as minhas atividades diárias. Há dias que me ocupo com algumas delas, e não com outras. Em um dia ocupo-me com as atividades A, B, C e D, nesta sequência, e em outro com as atividades C, A, B, D, nesta ordem, e mais as atividades E, F, G, H, nesta sequência, ou noutra, e em outro dia ocupo-me, se me dá na telha, com as atividades A, B, C, D, E, F, G e H. Usei as letras A, B, C, D, E, F, G e H para me referir às minhas atividades diárias, mas não a todas elas, pois usei apenas oito letras do alfabeto, que tem mais de vinte letras, vinte e seis, para ser exato, e não todas elas; além disso, o número de atividades que me ocupam o dia supera as vinte e seis; sendo assim, faltando-me letras para indicá-las, tenho de recorrer à combinação de duas ou mais letras para indicar as atividades além das vinte e seis. Por exemplo, AB, CD e EF, ou, então, usar uma dupla, ou um trio, com a mesma letra, AA, ou AAA, BB, ou BBB, CC, ou CCC, e assim por diante. Se você entende ser muito complexo este meu sistema de listagem de atividades diárias, fique à vontade para usar outro, para você, além de mais simples, mais compreensível e de mais fácil visualização. Há quem prefira enumerar as atividades, indicando-as com algarismos numa lista que pode ir de 1 a 1.000, ou a 1.000.000, a depender da quantidades de atividades diárias disponíveis com as quais se ocupa durante as vinte e quatro horas de um dia.

ENTREVISTADOR: Se eleito prefeito, senhor candidato, qual sistema de lista de atividades diárias dos funcionários públicos o senhor irá implementar?

INÚTIL DE SOUZA: Ainda não me decidi por nenhum deles. Há inúmeras opções, umas simples, outras complexas, outras misto de simplicidade e complexidade, todas exequíveis desde que quem pretenda executá-las as execute. Para tratar do assunto, consultarei especialistas em adminitração pública. Terei de resolver tal imbróglio, e terminantemente. Pretendo criar um grupo de estudos para estudar tal questão, que, de tão extraordinariamente complexa, exigirá, no mínimo, vinte pessoas a ela dedicadas em tempo integral, light e diet, todas muito bem remuneradas, de minha inteira confiança, e inteligentes.

ENTREVISTADOR: E a quem o senhor, senhor candidato, entregará tal função?

INÚTIL DE SOUZA: Não poderei, você há de concordar comigo, delegar tal tarefa para qualquer pessoa, pessoa que, se desconhecida, isto é, pessoa que eu não conheço, irá sabotar o meu projeto de governo. Terei de entregar a responsabilidade de execução de tal tarefa para pessoas que eu conheço, e há muito tempo, pessoas em quem eu confio, por elas ponho a mão no fogo. E não nos esqueçamos: O grupo de estudos exigirá, para o bom andamento dos estudos, vinte pessoas, no mínimo; e todas estas pessoas têm de ser de minha inteira confiança; não poderei nomear qualquer pessoa para tal grupo de estudos.

ENTREVISTADOR: E quais nomes vêm, senhor candidato, à sua mente?

INÚTIL DE SOUZA: O da minha mulher, o do meu irmão, o do meu primo, e o de meu outro primo, e o de meu outro primo, e o da minha prima, e o da minha outra prima, e o do meu tio, e o da minha tia, e o da minha outra tia, e o de minha outra prima, e o do meu outro tio, e o de um amigo que estudou comigo no jardim-de-infância, e o de um pedreiro, que construiu a casa de um amigo meu, e o deste meu amigo, e o de outro amigo meu, amigo do peito, de longa data, com quem eu jogava futebol num campinho-de-várzea do bairro do Cantagalo, e o da irmã de um amigo meu, e o deste meu amigo.

ENTREVISTADOR: O senhor, senhor candidato, disse que vêm à sua mente o nome de um amigo com quem o senhor estudou no jardim-de-infância. Quero, senhor candidato, chamar a atenção do senhor para um detalhe: num jardim-de-infância não se estuda; brinca-se. Posso concluir, portanto, que no jardim-de-infância o senhor não estudou com o seu amigo cujo nome o senhor lembrou ao pensar em nomes que irão ocupar cargos relevantes no grupo de estudos que estudará a metodologia apropriada para a listagem das atividades diárias dos funcionários públicos.

INÚTIL DE SOUZA: É verdade. É verdade. Você fez bem, para mim e para os leitores do Zeca Quinha Nius, em chamar-me a atenção para este ponto.

ENTREVISTADOR: Não é um ponto, senhor candidato; é um detalhe.

INÚTIL DE SOUZA: É verdade. É verdade. É um detalhe, e não um ponto.

ENTREVISTADOR: E não podemos, senhor candidato, deixar de dizer que o Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, é o primeiro e único hebdomadário digital criado pelo senhor Zeca Quinha, seu primeiro e único fundador e seu editor-chefe e chefe do editor.

INÚTIL DE SOUZA: Não nos esqueçamos deste ponto.

ENTREVISTADOR: Agora, sim, trata-se de um ponto.

INÚTIL DE SOUZA: E é um ponto bem pontual, que aponta para a importância do senhor Zeca Quinha para o jornalismo digital nacional, e também para a do mundial.

ENTREVISTADOR: E do extra-galáctico.

INÚTIL DE SOUZA: Sim. E do extra-galáctico. E aproveito o anzol, um dispositivo rudimentar apropriado à captura de assuntos relevantes cuja abordagem tem de vir acompanhada de uma premissa desacompanhada de uma conclusão, embora a preceda, para tratar de uma questão, que não diz respeito ao anzol: Para evitar confusões e mal-entendidos, e desentendimentos, e não perder tempo com questões que, de tão inúteis, ocupem-nos demasiado tempo e promovam confrontos que, ao redundarem em conflitos, terminem em guerra interminável, tenho de esclarecer um ponto: Para a lista de nomes do grupo de estudos ao qual já nos referimos e do qual falamos e tratamos há pouco, lembrei-me de nomes de pessoas de minha inteira confiança, o que não quer dizer que tais nomes irão exercer as tarefas diárias; exercerão as tarefas diárias as pessoas cujos nomes me veio à mente. Quero deixar bem claro este ponto.

ENTREVISTADOR: Não é um ponto, senhor candidato; é um detalhe.

INÚTIL DE SOUZA: Serei sincero: Não estou certo se é um ponto, se um detalhe; seja um ponto, seja um detalhe, o certo é esclarecê-lo para evitar atritos desnecessários.

ENTREVISTADOR: Neste ponto, senhor candidato, com o senhor estou de pleno acordo.

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