Entrevista com o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – parte 3 de 3 – publicada no Zeca Quinha Nius

INÚTIL DE SOUZA: Estamos acordados.

ENTREVISTADOR: Sim, estamos acordados. Agora, senhor candidato, diga o que o senhor pensa dos seus concorrentes à cadeira de prefeito da nossa cidade, os senhores Nulo da Silva e Zero à Esquerda.

INÚTIL DE SOUZA: O senhor Nulo da Silva é um zero à esquerda e o senhor Zero à Esquerda é uma nulidade. São dois inúteis, tipos desclassificados; dois vermes, tipinhos ridículos, patéticos. Sob a direção de qualquer um deles, os cidadãos desta cidade irão comer o pão que o diabo amassou, e amassou duas vezes, e o moeu, e o remoeu. Contenho-me para não dizer, com o vocabulário que me vem à mente, o que penso destes dois paspalhos, vagabundos, patifes, que nada mais pretendem, se eleitos prefeitos, do que se locupletarem, encherem as burras de ouro, e arrumarem sinecuras rendosas à esposa, aos filhos, aos parentes e aos amigos e aliados.

ENTREVISTADOR: Mas o senhor, senhor candidato, não irá ceder cargos municipais a familiares, parentes, amigos e aliados?

INÚTIL DE SOUZA: Sim, mas há uma diferença fundamental entre as pessoas que eu nomearei funcionários públicos e as que os senhores Nulo da Silva e Zero à Esquerda nomearão.

ENTREVISTADOR: E qual é?

INÚTIL DE SOUZA: A honestidade daquelas que eu nomearei e a desonestidade daquelas que eles nomearão. As que eu nomearei são honestas, trabalhadoras, cultas e competentes; as que eles nomearão, não. Eles nomearão a ralé, bichos nocivos, peçonhentos, saídos do esgoto, do esgoto mais fétido que há: a cloaca das genitoras delas.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, não perca a compostura.

INÚTIL DE SOUZA: Não a perderei. Não a perderei. E nem as estribeiras. Sou obrigado a declarar, todavia, que ao evocar as figuras repugnantes, asquerosas, repulsivas, de me dar engulhos, daqueles dois energúmenos diabólicos e luciferinos e satânicos ferve-me o sangue nos vasos sanguíneos e ficam-me à flor da pele os nervos. Eu e aqueles dois escorpiões somos como água e óleo; não nos misturamos. Somos seres distintos; eles não merecem viver  entre os justos; são duas abantesmas, duas quimeras oníricas cujo único propósito de vida é perturbar o coração dos justos.

ENTREVISTADOR: E qual política o senhor pretende, senhor candidato, implementar, para gerar empregos e melhorar o padrão de vida dos cidadãos desta cidade?

INÚTIL DE SOUZA: Políticas que os beneficiam e gerem empregos. Criarei mecanismos regulatórios de fiscalização que impedirão a malversação do dinheiro público e o mau uso do dinheiro privado. Regulamentos, necessários porque imprescindíveis ao bom e correto andamento das políticas municipais de combate ao desemprego, à doença, à insegurança e à violência.

ENTREVISTADOR: De concreto, o que o senhor irá fazer?

INÚTIL DE SOUZA: Pontes, viadutos, prédios, praças, parques, campos de futebol. Irei, tal qual Juscelino, construir prédios imensos, todos de concreto, e entrar para a História como um administrador público construtor de grandes obras, obras faraônicas. Infelizmente, o Niemeyer não está mais entre nós; ele, se ainda vivesse entre nós, poderia desenhar imensos e fabulosos prédios de concreto com linhas retas e linhas curvas, prédios que fariam desta cidade uma das maiores maravilhas arquitetônicas do mundo. Talvez um dia eu concretize tal sonho. E estou passando tal informação, e em primeira mão, ao Zeca Quinha Nius.

ENTREVISTADOR: E não nos esqueçamos, senhor candidato: O Zeca Quinha Nius é o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre e o senhor Zeca Quinha o seu primeiro e único fundador e editor-chefe e chefe do editor.

INÚTIL DE SOUZA: Não me esqueci. Não me esqueci.

ENTREVISTADOR: E o que o senhor, senhor candidato, pensa da atual política municipal, e da estadual, e da nacional e da internacional?

INÚTIL DE SOUZA: Penso muitas coisas, muitas, e com a minha cabeça, e não com a de outra pessoa. E penso bem, às vezes; em outras vezes, mal. Independentemente se bem, se mal, penso. E de tanto pensar a respeito da política, seja da municipal, seja da estadual, seja da nacional, seja da internacional, entendo que os meus pensamentos restringem-se ao que penso, e o que penso não raras vezes coincide, em tipo e grau, com o que outras pessoas pensam. É interessante pensar a respeito. E não raro os meus pensamentos, únicos, não coincidem com o pensamento de ninguém, o que prova que se pode pensar muitas coisas a respeito do que se está a pensar, ou do que já pensou, ou do que irá pensar. Chama-me a atenção um ponto: a política municipal, a estadual, a nacional e a internacional estão intrinsecamente conectadas, fundidas num todo que, embora heterogêneo, é homogêneo, e um dos seus postulados é a multiplicidade na unidade, e vice-versa. E o que posso dizer de mais sensato é: as políticas municipal, estadual, nacional e internacional correspondem a quatro círculos concêntricos, englobados por um círculo globalizante, cada uma delas um círculo, sendo o menor o da política municipal, e o maior o da internacional, e os outros dois, o da política estadual e o da nacional, intermediários, o da nacional maior do que o da estadual. E tais políticas entrechocam-se constantemente, embora os círculos que as representam não tenham contato uns com os outros; tais como linhas paralelas, não se tocam, mas, neste caso, as linhas são curvas, e não retas, e tão bem curvadas que formam, cada uma delas, um círculo.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, estamos nos aproximando do fim da entrevista cujo fim foi o de extrair do senhor os seus pensamentos, as suas idéias, as suas propostas políticas, o que obtivemos, e com agrado, o senhor a revelar boa-vontade desde o início, melhor, desde as consultas que ao senhor fizemos há duas semanas, quando ao senhor solicitamos uma entrevista, e o senhor, tão animado, aceitou a solicitação, sem se fazer de rogado. Agora, senhor candidato, iremos propor ao senhor um jogo de perguntas e respostas que consiste em dois ingredientes: as perguntas, que serão feitas pelo entrevistador, no caso, eu; e as respostas, que serão dadas pelo entrevistado, no caso, o senhor.

INÚTIL DE SOUZA: Mas isso já estamos fazendo desde o início da entrevista.

ENTREVISTADOR: Sim, senhor candidato, sim. Bem observado. Mas agora, senhor candidato, melhor, a partir do momento que iniciarmos o jogo que irei propor ao senhor, a entrevista assumirá outro aspecto, outra configuração, que não consistirá em perguntas com interrogações e em respostas; as perguntas se reduzirão à uma palavra, e as respostas em uma palavra.

INÚTIL DE SOUZA: Todas as perguntas se reduzirão a uma palavra e todas as respostas a uma palavra!? Neste caso, que se faça uma pergunta apenas, que eu darei uma resposta. Se as perguntas consistem em uma palavra, não há razão para se repetir a mesma palavra, portanto, a mesma pergunta, então…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, eu não me fiz compreender.

INÚTIL DE SOUZA: Faça-se compreender.

ENTREVISTADOR: Eu direi uma palavra qualquer, e o senhor, ao ouvi-la, dirá, com apenas uma palavra, o que vêm à sua mente.

INÚTIL DE SOUZA: Pingue-pongue.

ENTREVISTADOR: Sim, senhor candidato. Conhece?

INÚTIL DE SOUZA: Sim, conheço. E quem não conhece!?

ENTREVISTADOR: Posso começar?

INÚTIL DE SOUZA: À vontade.

ENTREVISTADOR: Fruta.

INÚTIL DE SOUZA: Batata.

ENTREVISTADOR: Carro.

INÚTIL DE SOUZA: Morcego.

ENTREVISTADOR: Cidade.

INÚTIL DE SOUZA: Unha encravada.

ENTREVISTADOR: Filme.

INÚTIL DE SOUZA: Tuberculose.

ENTREVISTADOR: Futebol.

INÚTIL DE SOUZA: Marmita.

ENTREVISTADOR: Revista.

INÚTIL DE SOUZA: Furúnculo.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, obrigado por nos conceder a entrevista, esclarecedora, inestimável contribuição ao debate político público. Tenha um bom dia.

INÚTIL DE SOUZA: O prazer é todo meu. E para encerrar, digo: Sonho administrar esta cidade e pô-la nos trilhos. E não quero sonhar com um pesadelo: ver um dos meus concorrentes sentado na cadeira de prefeito. E que todos tenham um bom dia.

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