O Assalto Ao Banco – escrito por Denilson Pontadefaca – publicado no Zeca Quinha Nius

Às onze horas da noite de ontem, em Pindamonhangaba do Norte, cidade situada no sul do Brasil, após um telefonema anônimo à delegacia de polícia, dois policiais, Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim, numa viatura policial, rumaram rumo ao local do crime em que se envolveu os bandidos e as vítimas – vítimas dos bandidos, obviamente -, crime que se sucedeu na interseção da rua Do Bode Velho com a Do Cabramacho. Lá chegando, os policiais depararam-se com uma turbamulta de arrepiar os cabelos e os pelos do corpo de todas as pessoas que a testemunhassem. Os policiais, Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim foram atacados pelos moradores que não admitiam policiais no bairro mal afamado Ponto do Pontal e conhecido de todos os pindanortistas. Protegendo-se como podiam, os policiais apontaram os revólveres aos moradores e ameaçaram atirar em quem os atrapalhasse. Nem todos se acalmaram. Um rapaz pegou uma faca, e alçou vôo para cima de Alexandre Chinfrim, que reagiu e, para a sua sorte, aparou os golpes, e desarmou o elemento meliante, aquele menor de idade, que, os policiais tem de entender, é uma vítima da sociedade, e não um criminoso. Pouco depois, um homem das redondezas exclamou:
– O Pedrinho é louco pracarai!
– Vam’bora – gritou alguém, e Roberto Trincaosso correu no encalço dele, mas não o pegou.
Acalmados dos nervos, Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim, certos de que os moradores do bairro não interviriam no trabalho deles, andaram até os dois cadáveres, ambos mortos e esparramados no meio da rua, um deles com a cabeça rachada no meio por um machado, o outro com dois furos de bala nos peitos. Nenhum deles respirava, verificaram os policiais.
– Eles estão mortos, policiais – disse um homem, que aparentava trinta anos. – Tão mortinhos da silva os dois.
Enquanto Roberto Trincaosso colhia o depoimento de todos os moradores, Alexandre Chinfrim avaliava os cadáveres dos mortos e os arredores à procura de sinais dos assassinos, de pista deles. Alexandre Chinfrim encontrou marca de sapato nas poças de sangue, catarro e duas bitucas de cigarro – dos bandidos, provavelmente, ou de outra pessoa, não restava dúvida a ele.
– Aí, ele deu um soco no Dóiqueédoce – disse um morador, no depoimento a Roberto Trincaosso, apontando para o cadáver com a cabeça rachada. – Aí, Dóiqueédoce empurrou ele; aí, ele gritou; aí, Dóiqueédoce gritou de volta; aí, ele deu um tapa na cara do Dóiqueédoce; aí, ele deu um pontapé na barriga do Dóiqueédoce; aí, ele disse que queria a parte do dinheiro do assalto ao banco; aí, Dóiqueédoce correu; aí, ele correu atrás do Dóiqueédoce; aí, ele, Mortadela, chegou – e apontou para o cadáver com dois buracos de tiro nos peitos -; aí, Dóiqueédoce e Mortadela correram; aí, eles gritaram; aí, ouvi dois tiros; aí, ele pegou o machado; aí, ele rachou a cabeça do Dóiqueédoce; aí, Dóiqueédoce e o Mortadela morreram; aí, eles ficaram aí onde estão até agora.
– E por que eles foram mortos? – perguntou Roberto Trincaosso.
E o homem disse, numa sentença, não necessariamente respondendo à pergunta que Roberto Trincaosso lhe fez:
– Eles estavam vivos; tinham de morrer qualquer dia, né, doutor!? Morreram hoje. E quero acrescentar, doutor: Não fui com a cara dele.
– Com a cara de quem? – perguntou, curioso, intrigado, Roberto Trincaosso.- Do homem que matou o Dóiqueédoce e o Mortadela. É muita maldade para um homem só. Ele saiu do inferno, de um inferno bem infernal.
Recolhidos os cadáveres dos mortos, que tinham nome quando estavam vivos, ao necrotério, os policiais Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim procuraram o assassino pelo mal afamado bairro do Ponto do Pontal, auxiliado por outros cinco policiais. Não o encontraram. Está ele escondido num esconderijo que os policiais não conhecem.
O delegado, o senhor Celso Xerlóquerrómes, inveterado fumador de cachimbo, disse, indagado pelos jornalistas, que em breve o caso estará resolvido. 

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