A luta de boxe sem lutadores – escrito por Alessandro Cassarrato – publicado no Zeca Quinha Nius

O município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, localidade situada num aprazível recanto do nosso imenso Brasil, terra em que se plantando tudo dá, banana, côco e fubá, foi palco de um evento esportivo inédito, cujos ingredientes foram, em doses cavalares, emoção, suspense e aventura, e que hipnotizou milhões de indivíduos da espécie bípede alcunhada, pelos romanos, num latim crônico e anacrônico (crônico, porque está nas crônicas romanas; anacrônico, porque é extemporâneo, superado, obsoleto), de homo sapiens: A luta de boxe sem lutadores; a primeira do gênero; sucesso de público e de popularidade; e cujas ressonâncias políticas e sociais são de valor incalculável. Foram os lutadores deste inusitado e extraordinário evento esportivo Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, duas personagens imaginárias, concebidas, em imaginação, pelos seus criadores, homens criativos, imaginosos, engenhosos, de invejável espírito esportivo, e cujos nomes, não revelados, não são conhecidos pelo grande público, tampouco pelo pequeno público. Tião Soconopeito tem um metro e noventa de altura e cento e dez quilos; e Ditinho Murronacara, um metro e oitenta de altura e cento e um quilos. Dos dois boxeadores estas foram as únicas informações passadas ao público pelos organizadores do evento, informações indispensáveis para que cada pessoa que se dignou a dedicar uma hora de sua vida para assistir ao espetáculo marcial, que foi de doer e que entrou para a história para dela jamais sair, pudesse imaginá-los.

Realizou-se a luta no ringue do estádio municipal de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, edifício grandioso, majestoso, palco de eventos esportivos que atraem numeroso público todo fim de semana. Ao estádio convergiram cento e cinquenta mil pessoas – cada uma delas ocupou uma cadeira à ela reservada no momento da compra, por míseros R$ 150,00, do ingresso; e à televisão, para testemunharem o esmurramento mútuo e recíproco entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, segundo cálculos de confiáveis fontes de informações, mais de três bilhões de pares de olhos de pessoas da espécie humana de todo o orbe terrestre, o planeta azul que habitamos e que chamamos, incorretamente, de Terra. O sucesso, estrondo. Aconchegados às cadeiras da arquibancada do estádio, todas as cadeiras ocupadas, cada uma delas por um ocupante, o narrador esportivo principiou o início da sua narrativa com estas palavras: “Meu adorável público, apresento os dois maiores lutadores do século, bravos e destemidos gladiadores modernos. À direita, Tião Soconopeito. À esquerda, Ditinho Murronacara.” Neste momento, dois focos de luz surgiram, no teto, e ambos criaram, cada um deles um, um cone de luz, cada um projetado num ponto do estádio, num corredor entre as cadeiras. E todos os espectadores puderam imaginar, no cone de luz à direita do narrador, Tião Soconopeito, e no à esquerda, Ditinho Murronacara. E o público foi ao delírio. Aplaudiu e ovacionou, estrondosamente, os dois gladiadores modernos. Tremeram os alicerces do estádio. Enquanto os boxeadores rumavam ao ringue no ritmo do deslocamento dos dois cones de luz, do ponto em que estes surgiram originalmente, até o ringue, o público imaginava-os andando, altivos, sobranceiros, confiantes. E um juiz-de-luta desceu, por uma corda, ao centro do ringue. Enfim, detiveram-se os dois cones de luz próximos do juiz-de-luta, que, gesticulando, listou as regras da luta, para que todos pudessem ouvi-las. E apagaram-se os cones de luz. E o juiz-de-luta apitou o início da luta. E ia de um canto ao outro do ringue. E apartava os dois boxeadores, que se agarravam. E iniciava a contagem regressiva, e logo a encerrava antes de completar os dez segundos. Executava todos os seus movimentos com a desenvoltura de um mímico experimentado; e tão bem os executava que o público, acompanhando-o em sua evolução felina, um espetáculo à parte, sem perder, dele, sequer um ínfimo detalhe, concebia, em imaginação, os movimentos de Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, os dois boxeadores selecionados à mão para empreenderem o confronto inaugural da mais criativa e original modalidade esportiva criada, pelos seres humanos, nos últimos cem anos. E encerrou-se o primeiro assalto. E encerrou-se o segundo assalto. E encerrou-se o terceiro. E o quarto. E o quinto. E a luta prosseguia, indefinida. E o público acompanhava todos os movimentos do juiz-de-luta, podendo, assim, criar, em imaginação, os movimentos dos dois boxeadores, que se socavam e se esmurravam. E encerrou-se o sexto assalto. E o sétimo assalto. E o oitavo. E o nono. E o décimo, encerrando-se a luta sem que nenhum dos dois boxeadores, nocauteado pelo oponente, beijasse a lona. Ambos resistiram aos golpes um os do outro, e bravamente, e heroicamente, até o encerramento da luta. E o narrador, animado desde o princípio do embate entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, anunciou o vencedor, que superou o seu oponente em dois pontos: Ditinho Murronacara.

E, aqui, o silêncio sepulcral de alguns torcedores, abismados, supresos, boquiabertos, de olhos arregalados; e a euforia contagiante de outros, que se expandiram em ínfrene e incontinente alegria despudorada. Os eufóricos haviam imaginado vitorioso o boxeador anunciado, pelo narrador, como vitorioso, Ditinho Murronacara; os boquiabertos de indignação, contrariados, Tião Soconopeito. E nem bem haviam se recomposto da surpresa, desagradável surpresa, estes avançaram, aos berros altissonantes, indignados, contra o juiz-da-luta, que tratou, e logo, de escalar a corda, que haviam descido para que nela ele se agarrasse e lhe escalasse os vinte metros, até uma cabine, que o protegeria dos golpes que lhe pretendiam encaixar os ensandecidos torcedores que traziam os nervos à flor da pele. E principiou o confronto, bárbaro e selvagem confronto, entre os que deram, em imaginação, a vitória a Tião Soconopeito e os que a deram a Ditinho Murronacara. E intensificou-se o confronto. Cadeiras voaram, iguais mísseis teleguiados, pelo estádio. E as cento e cinquenta mil pessoas retiraram-se, iguais vagalhões que arrasam o litoral do Império do Sol Nascente, que é, também, o do Sol Morrente, e o do Sol Sobente (porque o Sol sobe) e o do Sol Descente (porque o Sol desce), do estádio por cujos arredores adjacentes à vizinhança espalharam-se, prosseguindo, em seu exterior, a guerra que dentro dele haviam principiado.

Espalhou-se a arruaça, nas ruas e nas avenidas e nas calçadas, a quebradeira, o quebra-quebra, o quebra-pau. O prefeito do município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste recorreu ao governador do Estado estadual, solicitando-lhe forças, que se revelariam fracas, da política militar; e o governador enviou mil policiais ao município arrasado pelos brutos e asselvajados seres bípedes que haviam se retirado, aos trambolhões, do estádio. Fraca, de fato, a força policial. E o governador recorreu ao governo federal, solicitando-lhe, urgentemente, o envio de tropas federais à cidade, que também é um município, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, que se via convertida num sangrento campo de batalha, sangrento e sanguinolento. O tempo urgia. E o presidente não se fez de rogado. Invocou a Constituição Federal. Decretou Estado de Sítio, de Fazenda e de Chácara no município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, e para lá enviou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, e a torcida do Flamengo e a do Corinthians. E muita gente se perguntou, encasquetada, porque o presidente enviou a Marinha, se Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, não sendo uma cidade litorânea, não tem mar. E as Forças Armadas, secundadas pelas torcidas do Flamengo e do Corinthians, contiveram, em quatro dias consecutivos, os arruaceiros. Foi um espetáculo de doer, e que entrará para a história – e dela jamais irá sair. Ao fim deste capítulo da história terráquea, Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara estavam ilesos. O espetáculo, de doer, promovido pelas pessoas, que, perdendo as estribeiras e a compostura, sanguinolentas e temperamentais, atracaram-se e socaram-se e esmurraram-se, tal qual a luta entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, entrou para a história, e dela jamais irá sair.

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