Dom Quixote e os Pernilongos

Vinícius é um leitor voraz. Dedica-se à leitura de obras clássicas da literatura universal, todos os dias, nos seus momentos de lazer e em todos os momentos livres do dia – e quando não tem um momento livre, ele dá um jeito de encontrar um. Não é incomum surpreendê-lo, à mesa, durante o café-da-manhã, com um livro à mão, esquecido do que se passa ao seu redor, sua atenção presa mas peripécias de Odisseu, o herói mítico da guerra de Tróia, nas ações misteriosas de Sherlock Holmes pelas ruelas de Londres, nas aventuras disparatadas de Dom Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, pelas terras espanholas, nas aventuras um tanto rocambolescas de D’Artagnan, Athos, Portos e Aramis, nas viagens marítimas do Capitão Nemo, à bordo do Nautilus, nas fantásticas aventuras de Aladin e do gênio da lâmpada, na caçada que Acab empreende à baleia branca. E assim que conclui o almoço, e também a janta, recolhe-se à biblioteca de sua casa, deita-se no sofá, em cujo um de seus braços apoia um travesseiro sobre o qual pousa a cabeça, e dedica-se à leitura dos mais fantásticas relatos jamais concebidos pela imaginação, fértil imaginação, humana, enquanto seus três filhos assistem, à televisão, a um desenho animado, ou a um filme, ou entretêm-se com um jogo de videogame, e Verônica, sua esposa dedica-se, atarefada, à limpeza da casa , ou desdobra-se para impedir que seus filhos se engalfinhem em lutas fratricidas.

A dedicação de Vinícius à leitura lhe era natural, atendia ao seu temperamento pacato, retraído, introspectivo, avesso, dir-se-ia hostil, à agitação do dia-a-dia, à multidão. Recolhe-se ao seu mundo, e deste mundo parte em viagens para outros mundos, mundos, estes, imaginados por outros seres de sua espécie, e nele permanece por horas a fio.

Nos primeiros anos após unir laços matrimoniais com Verônica, ela enervava-se sempre que o via à margem do que ocorria na casa, e o descompunha, atrabiliária, sobranceira, sob uma torrente de censuras; e ele, contrariado, era obrigado a abandonar a leitura e a executar as tarefas caseiras, para ele monótonas e entediantes, que dele sua consorte exigia. Transcorridos alguns anos, convencida de que seu marido era um leitor incorrigível, que, durante violentas tempestades, que destelhavam a casa – e não é força de expressão: tal se deu duas vezes – infalivelmente conservava-se, tranquilo, a ler livros, e habituando-se a vê-lo com a leitura entretido, e compreendendo-o, com ele nunca mais se irritou, e nunca mais o descompôs. Deixava-o ocupar-se com a leitura, para evitar desgastes que poderiam vir a culminar num rompimento que nenhum deles desejava. Podia o mundo desabar à sua volta e o inferno subir à terra, que Vinícius não interrompia a leitura, principalmente quando estava a ler Dom Qiixote de la Mancha, de todos os livros do universo o que ele mais gostava de ler. Não havia cristão capaz de tirar-lhe o livro de diante dos olhos. Não custa repetir: De todos os livros que Vinícius leu, a obra-prima de Miguel de Cervantes Saavedra é o de sua predileção. Nenhum outro livro o emulava aos olhos de Vinicíus. Nenhum. Nem os de William Shakespeare; nem os de Homero; nem os de Melville. Nem as Mil e Uma Noites. Era Dom Quixote de la Mancha seu herói.

No decurso de seus trinta e dois anos de vida, Vinícius seguiu o herói da Mancha e seu fiel escudeiro quatorze vezes, nas peripécias trágicas, cômicas, dramáticas, heróicas, épicas, pelas terras da Espanha. Sabia de cor e salteado todos os capítulos das aventuras picarescas do herói espanhol. E sempre que se dedicava à leitura da obra-prima de Cervantes surpreendia-se, fascinado, alumbrado com os hilários episódios saídos da mente do mais genial de todos os escritores espanhóis, como se a lesse pela primeira vez.

Ao crepúsculo de um domingo ensolarado de Outubro, após regressar de um passeio, com sua esposa e seus filhos, ao parque, e banhar-se, e, enquanto sua esposa preparava o jantar e os filhos entretinham-se com um quebra-cabeças de quinhentas peças, Vinícius, na biblioteca, tirou da estante o Dom Quixote de la Mancha, e deitou-se no sofá. Iniciaria a décima quinta leitura das peripécias de Dom Quixote e Sancho Pança. Sorriu, ao evocar algumas das cenas para ele as mais engraçadas, prelibando prazer indescritível. E tão logo ajeitou-se no sofá, a cabeça confortavelmente aninhada no travesseiro, iniciou a leitura – e que o mundo ruísse.

Transcorreram-se os minutos. A curtos intervalos de tempo, estampava-se no rosto de Vinícius um sorriso, que contagiaria quem o surpreendesse e lhe excitaria a curiosidade. Uma hora depois, entrou na biblioteca Verônica, que não se admirou ao ver seu marido, deitado no sofá, a ler Dom Quixote.

– Vinícius, há muitos pernilongos, aqui. Meu Deus! Os pernilongos não estão mordendo você, não? – perguntou-lhe Verônica, um sorriso divertido a enfeitar-lhe o belo, simpático rosto.

– Não – respondeu-lhe Vinícius, mecanicamente, os olhos a seguirem as andanças de Dom Quixote e Sancho Pança.

– Vinícius, olhe para seus pés.

– Por quê?

– Olhe.

– Está bem – e Vinícius abaixou, tranquilamente, os braços, o livro, aberto, à mão direita, mal moveu a cabeça, e fitou seus pés. – O que têm meus pés, Verônica?

– O que têm seus pés?! – perguntou Verônica, surpresa, incrédula. – O que têm?! Vinícius, você… Pelo amor de Deus! O que têm?! Você não está vendo os pernilongos em seus pés? Meu Deus! Vinícius! Não acredito! Em cada pé seu há uns vinte pernilongos; alguns deles, de tão gulosos, têm a barriga cheia de sangue. Vinte?! Mais. Uns trinta em cada pé.

– Não se preocupe – respondeu Vinícius, com a tranquilidade habitual, ao mesmo tempo que restituía sua cabeça à posição original, trazia o livro para diante de seus olhos e retomava a leitura.

– Não me preocupar!? E os pernilongos?

– Deixe-os em paz. Não os amole. Daqui a pouco, eles, enjoados de tanto engolir sangue, arrebentam-se, e vão-se embora.

– Quê!? Deixá-los em paz! Não os… Quando eles irão embora, Vinícius? Quando eles drenarem todo o seu sangue?

– Não sei. Entenda-se com eles.

Incrédula com a resposta que ouviu, Verônica meneou a cabeça, apalermada.

– Multidão de pernilongos a morderem-lhe os pés, e o príncipe encantado não ‘tá nem aí – ciciou Verônica para si mesma, um tanto atarantada com a indiferença de seu marido, cujos pés pernilongos devoravam.

Conquanto acostumada com os hábitos de leitor de Vinícius e com os atos, inusitados, que ele prodigalizava durante a leitura de livros, ele ainda a surpreendia, boquiabrindo-a.

Verônica pegou, de sobre a mesa, uma flanela, e com ela afugentou todos os pernilongos – muitos deles de barriga cheia, estufada, vermelhuda – que se banqueteavam com o farto sortimento de sangue que Vinícius lhes oferecia.

– O jantar já ‘tá na mesa – anunciou, recomposta, fleumática, Verônica, que restituiu a flanela à mesa e retirou-se da biblioteca.

E montado no Rocinante, Vinícius errava por terras da Espanha…

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