Caminhos da Floresta (Into the Wood) – Direção de Rob Marshall. Com Meryl Streep

Caminhos da Floresta (Into the Wood) é um filme exemplarmente bem produzido que a ambição, inspirada na mentalidade revolucionária do politicamente correto, de recriar contos populares destruiu.

Liguei, vício inescapável, a televisão, sintonizei um canal qualquer, e, vendo que o filme que se exibia não era do meu agrado, sintonizei outro canal, e outro, e outro, até que em um deles, não me lembro qual, vi, à tela, cantando, sorridente e alegre e feliz, uma garotinha: a Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford), que logo reconheci – sua figura é inconfundível, independentemente de qual atriz a interprete. Graciosa, ela se fazia presente num cenário deslumbrante, encantador, que me transportou, sem em mim encontrar resistência, para seu mundo de fantasia. Atraído pela figura da cativante garotinha, amada personagem de um dos contos populares mais conhecidos em todo o mundo, extasiado pela bem realizada produção cinematográfica, ouvindo as canções, que se sucediam a curtos intervalos – e é Caminhos da Floresta um musical, gênero cinematográfico que jamais me atraiu -, acompanhei o desenrolar da trama, interessado em seu desenlace, que, antecipo a informação, não me agradou. E apresentam-se populares personagens de contos universais: João (Daniel Huttlestone), o menino dos feijões mágicos; Cinderela (Anna Kendrick), e seus sapatinhos de cristal; Rapunzel (Mackenzie Mauzy), e suas tranças quilométricas. E os coadjuvantes destas estórias, o antagonista da Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau (Johnny Depp); o Príncipe Encantado (Chris Paine) da estória da Cinderela e o príncipe (Billy Magnussen) da estória da Rapunzel; e a bruxa (Meryl Streep); e a madrasta da Cinderela (Christine Baranski) e suas filhas, Lucinda (Lucy Punch) e Florinda (Tammy Blanchard). E o padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt).

Na aventura, fundem-se quatro contos populares animados pelos personagens já mencionados. Sucedem-se os eventos num bosque fantástico, de mistérios e encantos fabulosos. Um reino encantado. Dá mote ao entrecho a infertilidade da esposa do padeiro. O padeiro e sua esposa ignoravam que eram vítimas de uma bruxa que, tendo de seu jardim o pai do padeiro lhe surrupiado feijões mágicos, concretizou a maldição: o padeiro não teria descendentes. Assim que informou o padeiro e sua esposa da maldição que lhes arremessara, a bruxa, envelhecida porque seus feijões mágicos haviam lhe sido retirados do jardim, disse-lhes que desejava remoçar-se, resgatar sua beleza anterior, e que poderia desfazer a maldição que lançara contra eles, mas para tanto precisava, dentro de três luas, realizar um feitiço, para cuja execução eram indispensáveis um capaz vermelho, um sapatinho de cristal, leite de uma vaca branca e mecha de cabelos loiros. E saem à caça de tais objetos o padeiro e sua consorte.

E sucedem-se as adversidades, as personagens dos quatro contos populares cruzando-se, na floresta encantada, os caminhos uns os dos outros, encontrando-se e desencontrando-se, estranhando-se. A desconfiança entre eles era mútua. Enfim, após o Lobo Mau engolir a Chapeuzinho Vermelho e sua avó e elas lhe serem do ventre arrancadas; e João escalar, até o céu, o pé de feijão, e matar o gigante; e o príncipe libertar da torre Rapunzel; e o Príncipe Encantado conhecer a identidade da dona do perdido sapatinho de cristal, o padeiro e sua esposa obtêm os quatro objetos que a bruxa usaria no feitiço, e a ela os entregam, e assim que ela realiza o feitiço, o herdeiro do padeiro se faz crescer no ventre de sua esposa.

E encaminha-se para o seu encerramento a história… Foi o que eu pensei ao ver a cena que se seguiu, o da confraternização, num castelo, de todos os personagens, o que, entendi, indicava o fim da história, que se daria com o proverbial “E viveram felizes para sempre.” Mas não era o fim da história, que estava na sua metade. A partir deste ponto, o filme desanda. Entendi que foi o objetivo dos realizadores do filme vender uma idéia muito cara aos politicamente corretos: novas formas de família em substituição à família tradicional. Está na pauta dos progressistas politicamente corretos, sabem as pessoas razoavelmente bem informadas, a destruição da família tradicional – que tem no pai e na mãe as autoridades, família que, entendem os progressistas, opressora, é nociva às pessoas, à civilização, porque patriarcal, sustentada por preconceitos, dizem, de obscurantistas pré-diluvianos – e sua consequente substituição por outros modelos de família, estes, dizem, libertários.

Decepcionou-me Caminhos da Floresta, que, se se encerrasse, em sua metade, com um “… e viveram felizes para sempre.”, seria um primoroso conto de fadas.

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