Um herói

Hoje, 12 de Março de 2.021, de manhã, um pouco depois das onze horas, fui ao centro daqui de Pindamonhangaba, às proximidades da Praça Monsenhor Marcondes.
Dia quente. Temperatura acima de vinte e cinco graus. Sol de rachar a cabeça.
Abordou-me um homem de idade avançada, miúdo – tem ele, se muito, um metro e sessenta -, magriço, de cabelos, poucos, totalmente brancos. Sua compleição, de cansaço. Andava lenta e cuidadosamente. Máscara não lhe cobria o rosto, de traços suaves, repleto de vincos. Falou-me num tom de voz que, de tão baixo, quase inaudível, obrigou-me a me aproximar dele, e curvar-me para ouvi-lo. Nossas cabeças quase se tocaram; não distavam uma da outra dez centímetros. E eu o ouvi dizer-me: “Moço, você viu um homem magrinho, de cabelo curto, e de olhos um pouco arregalados, e de camisa e calças sujas, pretas. Calças pretas; e camisa meio marrom e meio cinza?” “Não. Não vi”, respondi-lhe. E observei-o, sem saber o que lhe dizer. “Na segunda-feira – prosseguiu o velhinho -, ele pediu-me… Foi ali, naquela esquina – e apontou-me o outro lado da rua. – Ele me pediu que eu lhe comprasse comida; estava com fome. Eu não trazia comigo nem sequer um tostão, eu lhe disse. E ele me olhou, sabe? triste, e disse-me que estava tudo bem e que eu fosse com Deus. Estava encostado na parede. Eu fui embora. E desde então estou pensando nele. Ele estava com fome. E eu não pude ajudá-lo. E terça, e quarta, e ontem, e hoje, vim encontrá-lo. Mas não o encontrei. Não sei quem ele é. E eu não o encontro.” E calou-se, voz embargada, lábios trêmulos. Engoli em seco; fitei-o em silêncio, e o esperei retomar a palavra, o que ele não tardou a fazer: “Eu venho, desde aquele dia, pensando naquele homem, que precisou da minha ajuda; e eu não pude ajudá-lo. Que Deus me perdoe. Deus queira que ele tenha conseguido comida; que alguma alma cristã tenha-o ajudado.” E calou-se, visivelmente constrangido, entristecido. Fitou-me, orvalhados seus olhos. E despediu-se de mim: “Que Deus te acompanhe, moço.” E afastou-se de mim, lenta e cuidadosamente, detendo-se a curtos intervalos, sempre a olhar ao redor, à procura do homem que dias antes lhe pedira ajuda.

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