Parafraseando o Barão de Itararé

Todos sabemos: o Barão de Itararé é, dentre todos os vultos da nossa história – refiro-me, ao dizer ‘nossa história’, à história do Brasil -, o maior – se não o maior, um dos maiores -; e o Visconde de Sabugosa e o Marquês de Rabicó são os dois únicos vultos da nossa história que com ele se rivalizam.

Certo dia, disse-me o insigne Barão, mestre dos anexins sapienciais, representante máximo da aristocracia brasileira, erudito invejável, e aventureiro audaz, ainda em vida:

– Amigo meu, contar-te-ei uma aventura, que merece ser inserida, nos anais da história pátria. Contou-ma um amigo meu, cuja esposa, um dragão, daqueles de cuspir fogo, cuspia fogo, além de atormentá-lo dia e noite, e noite e dia. Se eu fosse o Rui Barbosa, codnominado Águia de Haia, genial macrocéfalo esquálido, eu diria que a esposa do amigo meu era um dragão flamívomo, isto é, um dragão que cospe fogo. Mas vá lá. A mulher do amigo meu era um dragão. Morreu; portanto, ela não é um dragão. Foi ontem, na casa do meu amigo. Ele, ligeiramente embriagado, compungido – e em seu semblante distingui um sorrisinho de satisfação à comissura dos lábios, não estou certo se à da direita, se à da esquerda, pois sou canhoto, e, na ocasião, eu me barbeava, e mirava-me ao espelho do banheiro da minha casa – contou-me o que lhe sucedeu; e tal história, simultaneamente trágica e cômica, portanto, tragicômica, eu a contarei a ti. Ei-la: “Barão, tu não me acreditarás ao ouvir-me contar-te o que me aconteceu, ontem, não sei a que horas; sei que foi ontem. Como tu sabes, gosto de uísque, e quando eu digo que gosto de uísque eu quero dizer que gosto de uísque. A minha mulher, Barão, ontem, disse-me o que me disse ontem, a rosnar, como de costume: “Rubens, jogue o uísque na pia, ou pedirei o divórcio, e farei questão de ficar com o carro. Debilóide! Mongolóide! Asteróide! Inútil! Fútil! Inconsútil! Preguiçoso! Rancoroso! Tinhoso! Maldoso! Gotoso! Teimoso! Majestoso! Mexa-te, asno!, ou expulso-te desta casa!”. E o que fiz? Joguei as garrafas de uísque na pia. “Idiota – reprovou-me a minha mulher, aquela jararaca -, eu não te disse para jogares as garrafas na pia. Eu te disse, anta, para despejares o uísque na pia. Dê fim ao uísque”. Calei-me, e obedeci-lhe, prontamente. A jararaca retirou-se do banheiro, e eu, então, tratei de despejar, e logo, na pia, o uísque. Peguei a primeira garrafa de uísque, aliás, a garrafa era de vidro, e uísque era o seu conteúdo, e desarrolhei-a, e despejei o uísque na pia, mas não todo o uísque, pois separei, em um copo, quatro dedos de uísque, e emborquei o copo, e bebi o uísque. Bebido os quatro dedos de uísque, desarrolhei a segunda garrafa, despejei, em um copo, cinco dedos de uísque, bebi o uísque, e despejei, da garrafa, na pia, o restante de uísque. Ato contínuo, bebi, de um copo, a terceira rolha, e despejei a pia na garrafa. Assim feito, logo a seguir, abri a quarta pia, olhei pelo buraco da fechadura, para espiar se a minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma jibóia, não estava nas proximidades, bebi a rolha, e joguei o copo, com o uísque, através da janela. E não perdi tempo. Desatarraxei o quinto frasco de perfume, nele enfiei a rolha, tampei-o, atarraxei o copo, esvaziei a garrafa de uísque, e bebi água da torneira misturada com desodorante. Olhei de um lado para o outro. Vi que a minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma cascavel, não estava por perto, peguei o sexto frasco de loção pós-barba, barbeei-me com a rolha, enchi o copo com pasta de dente, bebi a pia, e joguei a garrafa de uísque através da janela, que estava aberta, evitando, assim, de quebrá-la. Como eu estava com sorte, pois não quebrei a garrafa, enfiei as mãos na sétima privada, bebi um litro de água-que-passarinho-não-bebe, peguei a vassoura, e com ela tampei a casa, e com a rolha fechei a fechadura da porta. Como era delicioso o uísque, comi a oitava rolha, quebrei a janela com o rodo, joguei o frasco de desodorante na privada, e acendi a lâmpada, que estourou assim que eu a acertei com o meu sapato do pé esquerdo. Assustado com o barulho, olhei de um lado para o outro, e para cima e para baixo, à procura da minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma caninana, e, ao ver que ela não me via, bebi, para me acalmar, da nona garrafa, tirei a rolha da pia, e desentupi, com um desentupidor de pias, minhas orelhas, e, com a outra extremidade do desentupidor de pias, minhas narinas, e acertei, com a testa, a parede, com força, muita força. E logo, sem pensar duas vezes, aliás, nem sequer uma vez pensei, peguei da décima lâmina de barbear, cortei a porta, desatarraxei o teto, abri um buraco no chão, cavando, joguei no buraco meus cabelos, enfiei minha cabeça na pia, abri a torneira, e molhei meus pés. Devido ao frio, peguei a décima primeira unha que cortei das minhas mãos, joguei-a na privada, apertei a descarga, que ficou entupida, transbordou, e pedi, com o telefone celular, que me enviassem uma faca para eu fatiar a gelatina de morango que eu havia preparado dois dias antes, e pretendia levar ao forno, para assá-la. E logo em seguida, ou um pouco depois, sem mais tardar e sem delongas, entontecido e desnorteado, voltei-me para trás, e olhei para a frente, e voltei-me para a frente, e olhei para trás, e voltei-me para cima, e olhei para baixo, e voltei-me para baixo, e olhei para cima, à procura da minha mulher, aquela caninana, que, além de caninana, era uma jararaca, e, ao não a encontrar, olhei para a pia, vi que ela ainda estava inteira, mandei um e-mail para o décimo segundo apóstolo, perguntei-lhe da minha mulher, aquela cascavel, que, além de cascavel, era uma jararaca, e dela ele não me deu notícias, e quebrei a pia, e, para a minha surpresa, nesse mesmo instante, entrou no banheiro a minha mulher, aquela jibóia, que, além de jibóia, era uma jararaca, e eu quebrei-lhe, com um pedaço da pia, a cabeça, cortei-lhe, com a lâmina de barbear, o pescoço, e tampei-lhe, com a rolha da garrafa de uísque, o fiofó. Desejo, do fundo de meu coração de marido amável, que ela não telefone para a delegacia de polícia, e não me denunciei por homicídio”.

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