Uma sombra na janela (L’ombre chinoise) – de Georges Simenon

Uma sombra na janela atende às exigências de todo apreciador da literatura policial.

Nas suas primeiras linhas, o leitor se vê na cena do crime, que se sucedeu, em um escritório de um laboratório, onde se fabrica soros do Dr. Revière (e onde fôra encontrado o cadáver do Sr. Raymond Couchet), do Place des Vosges, nº 61, à noite fria de um dia 30, e tem diante de si o comissário Maigret, que, momentos antes, recebera, da Sra. Bourcier, porteira do Place des Vosges, telefonema misterioso.

E insere-se, na cena do crime, o Sr. Martin, funcionário de um cartório, servil à Sra. Martin, sua esposa; e Nine Moinard, que, deduziu o comissário Maigret ao estudar-lhe a maquiagem, o vestido, o olhar e o modo de segurar a bolsa, era mulher de teatro de Revista e amante do Sr. Raymond Couchet; o Sr. Philippe, diretor do laboratório, homem na altura dos quarenta anos, bem arrumado, barba castanha, mãos metidas em luvas de camurça pérola; e o Sr. de Saint-Marc.

Os suspeitos estão apresentados.

Quem matou o Sr. Raymond Couchet?

Algumas descrições e informações instigam o leitor, que, à leitura das primeiras páginas, não decide apontar o dedo acusador para nenhum dos suspeitos: a Sra. Bourcier, a última pessoa a ver o Sr. Raymond Couchet vivo; Nine Moinard, que, indagada pelo comissário Maigret se o Sr. Raymond Couchet tinha um testamento, diz que não sabia; o Sr. e a Sra. Martin, ambas de comportamento inusitado; o Sr. Philippe, a única pessoa que, além do Sr. Raymond Couchet, possuía a chave e a senha do cofre; e o Sr. de Saint-Marc.

O médico-legista aponta, em um relatório verbal: O Dr. Raymond Couchet morreu com uma bala no tórax e teve seccionada a aorta; e foi fulminante a morte; distava dele o assassino três metros, no momento do disparo; e a bala era de calibre 6,35 mm. E outras informações o autor fornece ao leitor: o Sr. Raymond Couchet tinha o costume de permanecer, sozinho, no escritório, após o expediente; há vinte e oito locatários no edifício; o Sr. Martin retira-se do seu apartamento, tarde da noite, e tem atitude suspeita; o Sr. Raymond Couchet lançou as pesquisas do Dr. Revière, que morrera cinco anos antes; trezentos e sessenta mil francos foram roubados do cofre do laboratório; Nine Moinard insinua que o Sr. Raymond Couchet frequentava, em Meulan, uma certa villa.

Aqui, o leitor pode suspeitar de que o criminoso é um personagem que o autor ainda não apresentou, e da esposa do Sr. Raymond Couchet, que talvez tenha descoberto que seu marido era amante de Nine Moinard. As suspeitas maiores recaem sobre Nine Moinard, Sr. Philippe e a esposa, agora viúva, do Sr. Couchet. E eram dois os criminosos, um ladrão e um assassino, presumiu o comissário Maigret.

O relato que se segue na manhã seguinte agarra o leitor, pelo pescoço, surpreendendo-o, e inserindo-o em uma trama intrincada. Em visita à Nine Moinard, o comissário Maigret vem a saber que um dos vizinhos dela, Roger Couchet, é filho do Sr. Raymond Couchet e da Sra Martin, e enteado do Sr. Martin. E no Quai dês Orfèvres, o comissário Maigret conversa com a Sra. Martin. Durante a entrevista, ela lhe diz que ela sofreu durante os três anos que viveu com o Sr. Couchet e que ele abandonou o filho e jamais lhe pagou pensão alimentícia. E apresentadas as fichas policiais dos envolvidos no caso, sabe-se que Nine Moinard fôra, certa vez, detida por prostituição (suposta); que Roger Couchet estava sob observação da Brigada de Jogo e da Brigada de Tóxicos; e que Céline, que vivia com Roger Couchet, era prostituta.

Quem matou o Sr. Raymond Couchet? E quem roubou os trezentos e sessenta mil francos?

E outras personagens são inseridas na trama. E sucedem-se eventos envolventes que enredam o leitor, forçando-o a desconfiar de todas as personagens. Enfim, aproxima-se o encerramento da aventura do comissário Maigret, que, em um ônibus, ouve de um passageiro notícias de cédulas de mil francos boiando na barragem de Bougival e descendo o rio Sena… E Maigret acha um revólver…

Encerrada a leitura do livro, reconheci que de muitos dentre os detalhes que anotei eram irrelevantes e infundadas as minhas suspeitas.

George Simenon sabe envolver o leitor, mesmerizando-o. Não lhe sonega informações.

Encerro, aqui, a resenha. Se eu lhe adicionar mais uma palavra, roubarei ao leitor o prazer de ler a trama protagonizada pelo comissário Maigret.

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