Quo Vadis? – de Henryk Sienkiewicz

As primeiras páginas deste livro não me prenderam a atenção; persisti, no entanto, na leitura da aventura de amor entre Marco Vinício, cônsul romano, sobrinho de Petrônio, autor de Satiricon, e Lígia, cristã, filha do rei dos lígios, capturada pelos romanos, e serviçal de Pompônia Grecina cujo filho, Aulo, estava sob seus cuidados.

O autor inicia o relato dos desencontros entre o cônsul romano e a filha do rei dos lígios, com a descrição de um panorama da sociedade romana, de sua cúpula de poder, do imperador Nero e de quem lhe é próximo, de seu círculo político circunvizinho. Ao ter diante de seus olhos a bela Lígia, Marco Vinício apaixona-se por ela de imediato, e, recorrendo ao seu tio, Petrônio, obtêm, de Pompônia Grecina, o direito de fazer da filha do rei dos lígios sua mulher. Lígia, no entanto, foge, protegida por Ursus, um lígio de força descomunal, inigualável, um Hércules lígio.

Estamos nos tempos do imperador Nero, tempo em que ainda caminham pela Terra os apóstolos Pedro e Paulo de Tarso, não muitos anos, portanto, após a crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Para raptar Lígia, Marco Vinício recorre a Chilon Chilonides, um grego perspicaz e interesseiro, que, no decorrer do relato, revela sua personalidade traiçoeira e covarde. Após inúmeros contratempos, consegue para si Lígia, perturbado ao compreender as diferenças, que não podem ser extintas, entre as duas crenças, a dele, pagã, romana, herdeira do politeismo grego, e a de sua amada, Lígia, cristã, que convive com os apóstolos Pedro e Paulo de Tarso. Para o sucesso de seu empreendimento, tem de pisar em ovos, pois é sua querida e adorada Lígia cristã. Viviam ambos numa época em que os cristãos não gozavam de nenhum direito civil em Roma; eram párias; a condição humana deles não era respeitado pelos romanos, principalmente por aqueles que detinham o poder em Roma; eram malvistos. Eram, enfim, inimigos do império romano.

Durante o decurso de sua ação para tirar Lígia de sob os cuidados dos cristãos e da proteção de Ursus, Marco Vinício, sob influência da personalidade amável dela, do ambiente, vivendo em meio aos cristãos, que recendia à bondade, o amor pelas pessoas, vêm a reconsiderar suas idéias. Queria Lígia consigo, mas sem forçá-la a ir com ele; que ela o amasse, e só assim se decidisse viver com ele sob o mesmo teto. A conduta de Lígia, e, também, a de Ursus, seu fiel e leal protetor, e a dos apóstolos movem o senador romano a acolher Jesus Cristo em seu seio.Nas primeiras linhas desta resenha, declarei que a obra Quo Vadis? não me prendeu a atenção. E não ma prendeu, de fato; o que me levou a fazer do livro uma leitura descuidada – mas não até a última de suas linhas -, espaçada; deixei o livro, fechado, durante vários dias, sem tirá-lo de sobre a escrivaninha, sem a ele dedicar nenhum interesse; assim, acabei por perder o fio da meada, conquanto algumas cenas estivessem bem gravadas em minha memória; e quando retomei a leitura após a interromper vários dias antes – duas semanas, talvez – o fiz disposto a ir até o final, mas, neste tempo, de mim já se me havia escapado da cabeça alguns detalhes, que, no entanto, não prejudicaram a leitura, que se arrastou até o capítulo que narra o imperador Nero a atear fogo em Roma. Aqui, a leitura esquentou – e que me perdõem o trocadilho infame. O relato, até então insosso, assumiu outro tom, não se prendeu, em seu primeiro plano, nos desencontros e encontros de Marco Vinício e Lígia, caso, este, que, agora, se reduz a um dado irrelevante, desimportante. A narrativa assume ares épicos, trágicos, heróicos. Lê-se Nero a atear fogo em Roma e a iniciar uma caçada aos cristãos, indicados, por ele, como os culpados pela destruição de Roma. E seguem-se cenas grandiosas dos eventos que se dão na arena, os cristãos martirizados, encontrando a morte nas garras e dentes de feras selvagens, que lhes rasgam o ventre, lhes fazem em tiras, para a diversão do populacho, que se entretêm com espetáculos sangrentos indescritíveis, animalescos – e animalescos, aqui, não foram apenas as ações selvagens das feras, mas, também, a selvageria dos romanos, tanto a do povatéu, quanto a dos das classes dominantes. Prendeu-me a atenção as páginas que trazem o relato da tragédia dos romanos, e, mais do que a destes, a dos cristãos. São as trezentas, aproximadamente, páginas que compõem a segunda parte do livro, que tem – na edição que li, um pouco menos de setecentas páginas de leitura cativante. Da leitura do livro de Henryk Sienkiewicz tiramos uma idéia do tipo humano que foi Nero, homem cruel, insano, sanguinário, e da mentalidade dos romanos, e de sua cultura – civilizada? ou bárbara?E nas páginas finais do livro, revela-se que Pedro, o apóstolo, é a pedra inaugural, angular, da Igreja. Ele ouve, do próprio Cristo, palavras, poucas, que o obrigam a cumprir o destino que Deus lhe reservara: o de Pai da Santa Igreja.

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